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Ludo Martens

[A publicar em 2 partes; hoje, publica-se a segunda e última]

 

As mentiras do holocausto ucraniano foram inventadas pelos hitlerianos no âmbito da preparação para a conquista dos territórios ucranianos. Mas desde que puseram o pé em solo ucraniano, os «libertadores» nazis encontraram uma das mais encarniçadas resistências.

 

 

 Harvest of Sorrow: Conquest e a reconversão dos nazis ucranianos

 

 

Em Janeiro de 1978, Davie Leigh publicou um artigo no Guardian, de Londres, revelando que Robert Conquest tinha trabalhado para o serviço de desinformação, oficialmente designado Information Research Department (IRD), pertencente aos serviços secretos ingleses. Nas embaixadas inglesas, era tarefa do responsável do IRD colocar material «falsificado» nas mãos dos jornalistas e personalidades públicas. Leigh afirmou: «Robert Conquest pertenceu ao serviço IRD (Information Research Department). Trabalhou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros até 1956.»[19].

Por proposta do IRD, Conquest escreveu um livro sobre a União Soviética; um terço da edição foi comprada pela Praeger, que publica e distribui frequentemente livros por encomenda da CIA. Em 1986, Conquest contribuiu para a campanha de Reagan, que procurava convencer o povo americano do perigo de uma eventual ocupação dos Estados Unidos pelo Exército Vermelho! O livro de Conquest intitulou-se Que Fazer Quando os Russos Chegarem: um manual de sobrevivência.

No seu livro O Grande Terror, publicado em 1973, Conquest calculou o número de mortos da colectivização de 1932-1933 entre cinco e seis milhões, metade dos quais na Ucrânia. Exactamente dez anos mais tarde, com a ajuda da histeria anticomunista do período de Reagan, Conquest julgou oportuno alargar as condições da fome até 1937 e aumentar as suas «estimativas» para 14 milhões de mortos.

O seu livro Harvest of Sorrow, publicado em 1986, é uma versão pseudo-académica da história que é contada desde os anos 30 pela extrema-direita ucraniana. Conquest afirma que a extrema-direita ucraniana travou um combate «anti-alemão e anti-soviético», repetindo assim a mentira que os bandos criminosos inventaram após a sua derrota, quando procuravam emigrar para os Estados Unidos.

Na sua abordagem da história ucraniana, Conquest refere a ocupação nazi uma única vez, como um período entre duas vagas de terror vermelho![20] No seu relato omitiu completamente o terror bestial que os fascistas ucranianos promoveram durante a ocupação alemã porque encontrou neles os seus melhores informadores sobre a «fome-genocídio».

Románe Chukhévitch comandou o batalhão Rossignol, constituído por ucranianos de direita que vestiam o uniforme alemão. O seu batalhão ocupou Lvov a 30 de Junho de 1941. Em três dias massacrou sete mil judeus. Em 1943, Chukhévitch foi nomeado comandante do Exército Insurreccional Ucraniano (EIU), de Stepan Bandera, cujos membros alegaram após a guerra ter combatido os alemães e os vermelhos[21].

Todos os «relatos» dos combates alegadamente travados contra os alemães revelaram-se falsos. Afirmaram ter executado o chefe do Estado-Maior das SA, Victor Lutze, quando este faleceu num acidente de viação perto de Berlim. Disseram ter enfrentado dez mil soldados alemães perto de Volnia, no Verão de 1943. No entanto, o historiador Reuben Ainsztein provou que, durante esta batalha, cinco mil ucranianos de direita participaram ao lado de dez mil soldados alemães numa grande operação de cerco e aniquilamento do exército de resistentes dirigido pelo célebre bolchevique Aleksei Fiódorov![22] [23].

Ainsztein assinala: «Os bandos do Exército Insurreccional Ucraniano, conhecidos como “banderistas”, revelaram-se os inimigos mais perigosos e mais cruéis dos judeus sobreviventes, dos camponeses e dos colonos polacos e de todos os resistentes antialemães.»[24].

A 14.ª divisão Waffen-SS da Galícia, ou divisão Galitchina, foi criada em Maio de 1943. No apelo à incorporação dos ucranianos, Kubióvitch[25], chefe da Organização dos Nacionalistas de Direita ucranianos, tendência Mélnik[26], declarou: «Chegou o momento há tanto tempo esperado, agora que o povo ucraniano tem de novo a possibilidade de combater de armas na mão o seu inimigo mais atroz, o bolchevismo moscovita-judeu. O führer do Grande Reich alemão aceitou a formação de uma unidade separada de voluntários ucranianos.»[27].

Inicialmente, os nazis tinham imposto a sua autoridade directa na Ucrânia sem concederam qualquer tipo de autonomia aos seus aliados ucranianos. Foi na base desta rivalidade entre fascistas alemães e ucranianos que os nacionalistas de direita construíram mais tarde o mito da sua «oposição aos alemães». Repelidos pelo Exército Vermelho, os nazis mudaram de táctica em 1943, atribuindo um maior papel aos assassinos ucranianos. A criação de uma divisão «ucraniana» da Waffen-SS foi considerada como uma vitória do «nacionalismo ucraniano»! Em 16 de Maio de 1944, Himmler, o chefe das SS, felicitou a divisão Galitchina por ter desembaraçado a Ucrânia de todos os seus judeus.

Wasyl Veryha, um veterano da 14.ª divisão Waffen-SS, tendência Mélnik, escreveu em 1968:

«O pessoal integrado na divisão tornou-se a coluna vertebral do Exército Insurreccional Ucraniano (...). O comando do EIU enviou também homens para receberem treino militar adequado na divisão. Isto reforçou o EIU que permaneceu sobre o solo da pátria (após a retirada alemã), sobretudo ao nível das chefias, comandantes e instrutores.»[28].

Embora a Organização dos Nacionalistas Ucranianos («ONU»), da tendência Mélnik, e a «ONU», da tendência Bandera, fossem concorrentes que, por vezes, chegavam ao confronto armado, constatamos que ambas colaboraram contra os comunistas sob a direcção dos nazis alemães.

O oficial nazi Schtolze revelou diante do Tribunal de Nuremberga que Canaris, o chefe da espionagem alemã, havia «dado instruções para formar redes clandestinas para continuar a luta contra o poder soviético na Ucrânia. (...) Agentes competentes eram deixados no terreno especialmente para dirigirem o movimento nacionalista.»[29]. Assinale-se que o grupo trotskista de Mandel continuou a apoiar a luta armada «antistalinista», conduzida pelos bandos de nazis ucranianos entre 1944 e 1952.

Durante a guerra, John Loftus foi responsável pelo serviço de investigações especiais do Departamento de Justiça de Washington, encarregado de detectar nazis que tentavam infiltrar-se nos Estados Unidos. No seu livro, The Belarus Secret, afirma que o seu serviço se opôs à entrada no país de nazis ucranianos. Todavia, Frank Wisner, que dirigia o Office de coordenação política, um serviço de informações, permitiu a entrada sistemática nos EUA de antigos nazis ucranianos, croatas e húngaros.

Wisner, que teria mais tarde um importante papel na CIA, declarou: «A Organização dos Nacionalistas Ucranianos e o Exército Insurreccional Ucraniano, exército de resistentes por ela criado em 1942 (sic), lutaram duramente tanto contra os alemães como contra os russos soviéticos.» Aqui se vê como os serviços de informações americanos, imediatamente após a guerra, recuperaram a versão da história apresentada pelos nazis ucranianos, com o objectivo de utilizar estes anticomunistas na luta clandestina contra a União Soviética.

Loftus responde a Wisner: «É completamente falso. Um agente do Corpo de Contra-Informação dos Estados Unidos fotografou 11 volumes de fichas secretas internas da “ONU” relativas a Bandera. Essas fichas mostram claramente que a maior parte dos seus membros trabalhava para a Gestapo ou para as SS como polícias, executores, caçadores de resistentes e de funcionários municipais.»[30].

Nos Estados Unidos, antigos nazis ucranianos criaram «institutos de investigação» para difundir a sua história «revista» da II Guerra Mundial. Loftus assinala: «O financiamento desses “institutos de investigação”, que não eram outra coisa senão grupos de cobertura para antigos oficiais das informações nazis, era assegurado pelo Comité Americano para a Libertação do Bolchevismo.»[31].

«Contra Hitler e contra Stáline», tal foi a consigna sob a qual antigos hitlerianos e a CIA uniram os seus esforços. Os mais desprevenidos poderão pensar que a fórmula «contra o fascismo e contra o comunismo» é uma espécie de «terceira via», mas não é nada disso. Na verdade, após a derrota nazi, esta fórmula juntou os antigos partidários da Grande Alemanha e os seus sucessores americanos, que visavam a hegemonia mundial. Como Hitler foi relegado ao passado, a extrema-direita alemã, ucraniana, croata, etc., uniu-se à extrema-direita americana. Uniram esforços contra o socialismo e contra a União Soviética, que tinha carregado o peso essencial da guerra antifascista. Para reunirem todas as forças burguesas, cobriram o socialismo com um dilúvio de mentiras, afirmando que era pior que o nazismo. A fórmula «contra Hitler e contra Stáline» serviu para a fabulação dos «crimes» e «holocaustos» de Stáline, para melhor camuflar e, em seguida, negar terminantemente os crimes monstruosos e os holocaustos de Hitler.

Em 1986, os veteranos do Exército Insurreccional Ucraniano, os mesmos que afirmaram ter lutado «contra Hitler e contra Stáline», publicaram um livro intitulado Por Que Valerá Mais Um Holocausto Que Outro?, escrito por um antigo membro do EIU, Iúri Chumátski. Lamentando que «historiadores revisionistas neguem a existência de câmaras de gás e afirmem que menos de um milhão de judeus foram mortos ou foram perseguidos», Chumátski acrescenta: «Segundo as declarações dos sionistas, Hitler matou seis milhões de judeus, mas Stáline, apoiado pelo aparelho de Estado judeu, conseguiu matar dez vezes mais cristãos.»[32].

 

As fontes fascistas de Conquest

 

Se, em Harvest of Sorrow, Conquest recupera a versão da história dos nazis ucranianos é porque os antigos efectivos da divisão Waffen-SS Galitchina e do Exército Insurreccional Ucraniano lhe forneceram o essencial das suas «fontes» sobre a «fome-genocídio» de 1932-1933!

Eis as provas. O segundo capítulo, a parte crucial de Harvest of Sorrow, intitula-se «A fome dá raiva». Contém uma lista impressionante de 237 referências. Mas um olhar um pouco mais atento mostra-nos que mais da metade conduzem a emigrados de direita ucranianos. A obra dos fascistas ucranianos Black Deeds of the Kremlin está citada 55 vezes!

No mesmo capítulo, Conquest cita 18 vezes o livro The Ninth Circle, de Olexa Woropay, publicado em 1953 pelo movimento juvenil da organização fascista de Stepan Bandera. O autor apresenta a sua biografia detalhada nos anos 30, mas nada diz sobre as suas actividades durante a ocupação! Uma confissão mal disfarçada do seu passado nazi. Recomeça a sua biografia em 1948, na cidade Munique, onde muitos fascistas ucranianos encontraram refúgio. Foi lá que entrevistou ucranianos sobre a «fome-genocídio» de 1932-1933. Nenhuma das «testemunhas» está identificada, o que torna o trabalho desprovido de qualquer carácter científico. Nada nos diz sobre a actividade das testemunhas durante a guerra, o que levanta a hipótese provável de se tratar de nazis ucranianos em fuga que «revelam a verdade sobre o stalinismo.»[33].

Beal, que colaborou com a polícia americana e escreveu na imprensa pró-nazi de Hearst, é citado cinco vezes por Conquest. Krávtchenko, emigrado anticomunista, serviu duas vezes de fonte, Lev Kópelev, outro emigrado russo, cinco vezes. Entre as referências científicas, figura em lugar destacado um romance de Grossman, ao qual Conquest se refere 15 vezes.

Conquest cita as entrevistas do Projet Refugies de Harvard, financiado pela CIA. Cita o Comité do Congresso sobre a Agressão Comunista do tempo de MacCarthy, o livro nazi de Ewald Ammende, publicado em 1936. Conquest refere-se cinco vezes a Eugène Lyons e a William Chamberlain, dois homens que exerceram funções no comité de direcção da Radio Liberty, a estação da CIA.

Na página 244, Conquest cita «um americano» que viu pessoas famintas «numa aldeia a 30 quilómetros a Sul de Kíev»: «Numa cabana, ferviam uma porcaria que era impossível de descrever». Referência: New York Evening Journal, 18 de Fevereiro de 1933. Na realidade, trata-se do artigo de Thomas Walker na imprensa de Hearst, publicado em 1935! Conquest alterou deliberadamente a data do jornal para que coincidisse com a fome de 1933. Conquest não identifica o americano: receou que alguém se recordasse que Thomas Walker era um falsificador que nunca pôs os pés na Ucrânia. Conquest é um falsificador.

Para justificar a utilização de livros de emigrados relatando boatos e rumores, Conquest declarou: «Desta forma, a verdade não pode ser filtrada senão sob a forma de boatos» e «sobre questões políticas, a melhor fonte – apesar de não ser infalível – é o rumor»[34]. Isto é elevar a intoxicação, a desinformação, as mentiras fascistas ao nível da respeitabilidade académica.

 

As causas da fome na Ucrânia

 

Em 1932-1933 houve fome na Ucrânia. Mas foi provocada principalmente pela luta de morte que a extrema-direita ucraniana moveu contra o socialismo e contra a colectivização da agricultura. No decurso dos anos 30, esta extrema-direita ligada aos hitlerianos já tinha utilizado a fundo o tema da «fome provocada deliberadamente para exterminar o povo ucraniano». Após a II Guerra Mundial esta propaganda foi «ajustada» com o objectivo principal de encobrir os crimes cometidos pelos nazis e mobilizar as forças do Ocidente contra o comunismo.

Com efeito, desde o começo dos anos 50, a realidade do extermínio de seis milhões de judeus impôs-se ante a consciência mundial. A extrema-direita mundial tinha necessidade de uma quantidade superior de mortos «vítimas do terror comunista». E, em 1953, o ano do macartismo triunfante, assistiu-se a um crescimento espectacular do número de mortos na Ucrânia durante a fome ocorrida 20 anos antes. Como os judeus tinham sido mortos de forma deliberada, científica, era necessário que «o extermínio» do povo ucraniano tomasse também a forma de um genocídio cometido a sangue frio. A extrema-direita, que nega com convicção o holocausto dos judeus, inventa então o holocausto ucraniano!

A fome de 1932-1933 na Ucrânia teve quatro causas. Antes de mais foi provocada pela verdadeira guerra civil desencadeada pelos kulaques e os elementos reaccionários contra a colectivização da agricultura.

Frederick Schuman viajou como turista pela Ucrânia durante o período da fome. Já como professor do Williams College, publicou, em 1957, um livro sobre a União Soviética. Nesta obra fala-se da fome.

«A oposição (dos kulaques) manifestou-se de início pelo abate do gado bovino e cavalar, que consideravam preferível a vê-los colectivizados. Dado que a maioria das vacas e dos cavalos pertencia aos kulaques, o resultado foi terrível para a agricultura soviética. Entre 1928 e 1933, o número de cavalos passou de cerca de 30 milhões para menos de 15 milhões; de 70 milhões de cabeças de gado bovino, das quais 31 milhões vacas, passou-se para 38 milhões, das quais 20 milhões de vacas; o número de carneiros e cabras diminuiu de 147 milhões para 50 milhões e o de porcos, de 20 milhões para 12 milhões. Em 1941, a economia rural soviética ainda não tinha recuperado completamente destas perdas terríveis (...) Alguns (kulaques) assassinaram funcionários, incendiaram propriedades colectivas e chegaram a queimar as suas próprias colheitas e sementes. Um número ainda maior recusou-se a semear e a colher, talvez na convicção de que as autoridades lhes fariam concessões e lhes assegurariam de qualquer forma a alimentação. O que se seguiu foi a “fome” de 1932-1933. (...) Relatos macabros, fictícios na sua maior parte, apareceram na imprensa nazi e na imprensa de Hearst nos Estados Unidos (...). A fome, nas suas fases ulteriores, não foi o resultado de um défice de alimentação, apesar da redução importante das sementes e das colheitas, consequência das requisições especiais na Primavera de 1932, motivadas aparentemente pelo receio de uma guerra com o Japão. A maior parte das vítimas foram kulaques que se haviam recusado a semear os seus campos ou que tinham destruído a sua colheita.»[35].

É interessante constatar que este testemunho é confirmado por um artigo publicado em 1934, de Isaac Mazepa, chefe do movimento nacionalista ucraniano e antigo primeiro-ministro de Petliúra em 1918. Na altura, gabou-se de a direita ter conseguido, em 1930-1932, sabotar em grande escala os trabalhos agrícolas. «Começou por haver distúrbios nos kolkhozes, noutros lugares foram mortos funcionários comunistas e seus colaboradores. Mas depois desenvolveu-se sobretudo um sistema de resistência passiva que visava entravar sistematicamente os planos dos bolcheviques para as sementeiras e colheitas. Os camponeses faziam parte da resistência passiva; mas, na Ucrânia, a resistência adquiriu o carácter de uma luta nacional. A oposição da população ucraniana provocou o descalabro do plano de colheitas de 1931 e, sobretudo, de 1932. A catástrofe de 1932 foi o golpe mais duro que a Ucrânia soviética suportou depois da fome de 1921-1922. As campanhas das sementeiras falharam tanto no Outono como na Primavera. Vastas áreas foram deixadas incultas. Ainda por cima, no ano anterior, no início das ceifas, em várias regiões, sobretudo no Sul, 20, 40 e mesmo 50 por cento dos cereais foram deixados nos campos, não foram colhidos ou foram destruídos durante a malha.»[36].

A segunda causa da fome foi a seca que atingiu grandes zonas da Ucrânia em 1930, 1931 e 1932. Para James E. Mace, de Harvard, trata-se de uma história inventada pelo regime soviético. No entanto, Michail Kruchevski, um dos principais historiadores nacionalistas, na sua História da Ucrânia, refere-se ao ano de 1932 nos seguintes termos: «Este novo ano de seca coincidiu com condições agrícolas caóticas.»[37].

O professor Nicholas Riasnovsky, que leccionou no Russian Research Center, em Harvard, escreve que os anos 1930 e 1931 foram marcados por condições de seca. O professor Michael Florinsky, que lutou contra os bolcheviques durante a Guerra Civil, assinala: «Secas severas em 1930 e 1931, especialmente na Ucrânia, agravaram a situação da agricultura e criaram condições próximas da fome.»[38].

A terceira causa da mortalidade foi uma epidemia de tifo que assolou a Ucrânia e o Cáucaso do Norte. Hans Blumenfeld, um arquitecto canadiano de renome, que se encontrava na época na cidade de Makaiévka, escreveu: «Não há dúvida de que a fome tem feito muitas vítimas. Não disponho de dados para calcular o seu número. (...) Provavelmente a maior parte das mortes de 1933 foi causada por epidemias de tifo, de febre tifóide e de disenteria. Doenças transmitidas pela água eram frequentes em Makaiévka; eu próprio sobrevivi à justa de um ataque de febre tifóide.»

Horslet Grant, o homem que inventou a estimativa absurda de 15 milhões de mortos pela fome (isto é, 60 por cento da população ucraniana, que contava 25 milhões de pessoas em 1932), assinala, todavia, que «o pico da epidemia de tifo coincidiu com o da fome». (...) É impossível separar estas duas causas que foram as mais importantes em número de vítimas.»[39].

A quarta causa da fome foi a inevitável desordem provocada pela reorganização total da agricultura e igualmente profunda transformação de todas as relações económicas e sociais: a falta de experiência, a improvisação e confusão nas directivas, a falta de preparação, o radicalismo esquerdista de determinadas camadas mais pobres e de alguns funcionários.

O número de um a dois milhões de mortos da fome é importante. Estas perdas humanas foram largamente causadas pela oposição feroz das classes exploradoras à organização e à modernização da agricultura numa base socialista. Mas a burguesia inscreverá estas mortes na conta de Stáline e do socialismo. Este número, de um a dois milhões, deve ser comparado com os nove milhões de mortos causados pela fome de 1920-1921. Esta foi essencialmente provocada pela intervenção militar de oito potências imperialistas e pelo apoio que prestaram aos grupos armados reaccionários.

A fome não foi além do período que precedeu a colheita de 1933. Medidas extraordinárias tomadas pelo governo soviético garantiram o sucesso da colheita desse ano. Logo na Primavera, 16 mil toneladas de sementes, alimentos e forragens foram enviados para a Ucrânia. A organização e a gestão dos kolkhozes foram melhoradas e vários milhares de tractores, de debulhadoras e de camiões suplementares foram fornecidos.

Hans Blumenfeld apresenta nas suas Memórias um resumo da experiência que viveu durante a época da fome na Ucrânia. «Uma conjunção de um número de factores (a causa). Em primeiro lugar, o Verão quente e seco de 1932, que já tinha visto no Norte de Viátka[40], fez fracassar a colheita nas regiões semi-áridas do Sul. Depois, a luta pela colectivização tinha desorganizado a agricultura. A colectivização não era um processo que seguia uma ordem e regras burocráticas. Consistia em acções dos camponeses pobres, encorajados pelo Partido. Os camponeses pobres revelavam grande entusiasmo em expropriar os kulaques, mas mostravam menos fervor na organização de uma economia cooperativa. Em 1930, o Partido já tinha enviado quadros para combater e corrigir os excessos. (...) Depois de, em 1930, ter dado provas de prudência, o Partido desencadeou nova ofensiva em 1932. Como consequência, a economia dos kulaques deixou de produzir nesse ano e a nova economia colectiva ainda não estava a produzir em pleno. Com uma produção insuficiente, assegurava-se, em primeiro lugar, as necessidades da indústria urbana e das forças armadas; não era possível fazer de outro modo, já que o futuro de toda a nação, inclusive dos camponeses, dependia delas (...) Em 1933, as chuvas foram suficientes. O Partido enviou os seus melhores quadros para ajudar no trabalho organizativo dos kolkhozes. Tiveram êxito. Após a colheita de 1933, a situação melhorou radicalmente e com uma velocidade impressionante. Tive a impressão de que havíamos puxado uma carroça muito pesada através de uma montanha na incerteza de o conseguirmos, mas, no Outono de 1933, tínhamos ultrapassado o cume e a partir daí podíamos avançar em ritmo acelerado.»[41].

Hans Blumenfeld sublinha que a fome atingiu tanto as regiões do Baixo Volga e a Região do Cáucaso do Norte como a Ucrânia.

«Isso refuta o “facto” de um genocídio anti-ucraniano similar ao holocausto anti-semita de Hitler. Para os que conheceram bem o défice desesperado de força de trabalho que havia na altura na União Soviética, a ideia de os seus dirigentes reduzirem deliberadamente esse recurso raro é absurda.»[42].

 

A Ucrânia sob a ocupação nazi

 

Os exércitos japoneses ocuparam a Manchúria em 1931 e tomaram posição ao longo da fronteira soviética. Em Janeiro de 1933, Hitler chegou ao poder. Os programas de reorganização industrial e agrícola, empreendidos pela URSS no período 1928-1933, tinham vindo no momento certo. Só a sua realização, a custo de uma mobilização total das forças, tornou possível a resistência vitoriosa contra os nazis. Por ironia da história, os nazis começaram por acreditar nas suas próprias mentiras sobre o genocídio ucraniano e sobre a precariedade do sistema soviético.

O historiador Heinz Hohne escreveu o seguinte: «Dois anos de guerra sangrenta na Rússia, que tinham desalentado mais do que um, constituíam a prova cruel da inexactidão da fábula dos “unter-menschen”. Desde Agosto de 1942, as Sicherheitsdienst [SD] assinalavam, nos seus Relatórios do Reich, que crescia no povo alemão o sentimento de ter sido vítima de quimeras. As grandes massas dos exércitos soviéticos, a sua qualidade técnica e o esforço gigantesco da industrialização empreendido pelos soviéticos – tudo isto em contradição aguda com a imagem anterior da União Soviética – provoca uma impressão avassaladora e apavorante. As pessoas perguntam-se como conseguiu o bolchevismo produzir tudo isto.»[43].

O professor americano William Mandel escreveu em 1985: «Na parte Oriental, a mais extensa da Ucrânia, que era soviética há 20 anos, a lealdade era dominante e quase geral. Havia meio milhão de guerrilheiros soviéticos (...) e 4,5 milhões de homens de etnia ucraniana combatiam no exército soviético. É evidente que este exército teria ficado extremamente enfraquecido se tivesse havido desentendimentos importantes num contingente tão amplo».

E o historiador Roman Szporluk confessa que as «zonas operacionais do nacionalismo ucraniano organizado (...) estavam limitadas aos antigos territórios polacos», quer dizer, à Galícia. Sob a ocupação polaca, o movimento fascista ucraniano manteve a sua base até 1939[44].

As mentiras do holocausto ucraniano foram inventadas pelos hitlerianos no âmbito da preparação para a conquista dos territórios ucranianos. Mas desde que puseram o pé em solo ucraniano, os «libertadores» nazis encontraram uma das mais encarniçadas resistências. Aleksei Fiódorov comandou um grupo de resistentes que eliminou 25 mil nazis durante a guerra. No seu livro, Resistentes da Ucrânia, mostra de forma admirável a atitude do pequeno povo ucraniano ante os nazis. Aconselha-se vivamente a sua leitura como antídoto contra todas as historietas sobre o «genocídio ucraniano» de Stáline[45].

 

 

19 Ibidem, p. 86.  

20 Robert Conquest, Harvest of Sorrow, p. 334.

21 Tottle, op. cit., p. 105.

22 Aleksei Fiódorovitch Fiódorov (1901-1989), membro do Partido desde 1927, participante na Guerra Civil, major-general (1943), Herói da URSS (1942 e 1944). Foi primeiro secretário do Partido em várias regiões, destacou-se durante a II Guerra como organizador da resistência nos territórios ocupados da Ucrânia. Exerceu funções de ministro dos Assuntos Sociais da Ucrânia entre 1957 e 1979 (NT).

23 Tottle, op. cit., p. 113.

24 Ibidem, p. 113.

25 Vladímir Mikháilovitch Kubióvitch (1900-1985) contra-revolucionário ucraniano, colaborador nazi durante a guerra e um dos líderes da diáspora ucraniana no Ocidente (NT).

26 Andréi Mélnik (1890-1964), um dos líderes da Organização dos Nacionalistas Ucranianos durante a II Guerra. Emigrou em 1945 e veio a falecer no Luxemburgo (NT).

27 Tottle, op. cit., p. 115.  

28 Ibidem, p. 118.

29 Ibidem, p. 118.  

30 Ibidem, p. 122.

31 Ibidem, p. 128.

32 Ibidem, p. 129.  

33 Ibidem, p. 58.

34 Arch Getty, Origins of the Great Purges, Cambridge University Press, Cambridge, 1985, p. 5.  

35 Tottle, op. cit., p. 94.

36 Ibidem, p. 94, e Sydney and Beatrice Webb, op. cit., p. 247.

37 Tottle, op. cit., p. 91.

38 Ibidem, p. 92.  

39 Ibidem, p. 97.

40 Antigo nome da cidade de Kírov (NT).  

41 Ibidem, p. 97.

42 Ibidem, p. 100.

43 Ibidem, p. 99.  

44 Ibidem, p. 101.

45 Alexei Fédorov, Partisans d’Ucraine, em dois tomos, Ed. J’ai lu, Paris, 1966, também publicado sob o título, L’Obkom Clandestin, Les Editeurs Français Reunis, 1951.  

 

Do Livro “UM OUTRO OLHAR SOBRE STÁLINE”, de Ludo Martens, edição de “Para a História do Socialismo”, Documentos, agosto de 2009 (pp. 149 a 172), também postado em: http://www.hist-socialismo.com/docs/UmOutroOlharStaline.pdf

 

 

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