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Paul Craig Roberts

Aquilo a que estamos a assistir é os Estados Unidos tornarem-se o primeiro país a reverter o processo de desenvolvimento e a recuar, desistindo da indústria, da produção e de empregos para operários especializados.

 

Será que os responsáveis pelo editorial do Wall Street Journal leem o seu próprio jornal?

 

O título do artigo de primeira página do fim-de-semana do 1º de maio era “O crescimento dos salários baixos desafia o Fed” [Sistema de Reserva Federal dos EUA – Banco Central – NT]. Apesar da referência a uma alegada taxa de desemprego de 4,4%, o que é pleno emprego [1], não existe um crescimento real dos salários. O artigo de primeira página sublinha corretamente que uma economia em expansão para o pleno emprego, mas, sem aumento dos salários ou da inflação é “um puzzle que complica as decisões políticas da Reserva Federal”.

 

Na própria página editorial, na rubrica “cartas ao Editor”, o professor Tony Lima, da Universidade Estadual da Califórnia, salienta aquilo para que venho chamando a atenção há anos: “A percentagem de participação da força de trabalho no rendimento nacional situa-se em mínimos históricos. Grande parte da diminuição encontra-se no grupo etário dos 18-34 anos, enquanto as taxas de participação aumentaram no grupo dos 55 anos e mais”. O professor Lima afirma que a maior evidência de que o trabalhador americano não está em boa forma é o aumento crescente do número de americanos que só conseguem emprego em part-time, o que os deixa com salários cortados e sem benefícios adicionais, tais como o acesso à saúde.

 

O editorial escrito por alguém que não leu o artigo de primeira página, ou a carta do professor, está precisamente ao lado desta carta factual.

 

O realce do editorial declara: “A melhor notícia deste Dia do Trabalhador é a dificuldade que os empresários estão a encontrar para encontrar trabalhadores em todo o país”. Os editores do jornal creem que a solução para a alegada falta de mão-de-obra é a lei do senador Ron Johnson (R.Wis) que autoriza os estados a dar 500.000 vistos de trabalho a estrangeiros.

 

No meu dia de editor e colunista, foram colocadas questões que desmontavam o editorial. Por exemplo, como pode existir falta de mão-de-obra quando não há pressão para a subida de salários? No mercado de trabalho os salários sobem quando os patrões competem entre si para arranjarem trabalhadores.

 

Por exemplo, como pode o mercado de trabalho estar forte, quando o nível da participação da força de trabalho está em mínimos históricos? Quando há emprego, a taxa de participação sobe à medida em que as pessoas vão entrando no mercado de trabalho e conseguem empregos.

 

Em várias ocasiões já referi que, segundo os estudos da Reserva Federal, cada vez mais americanos na faixa etária dos 24-34 anos não são independentes, vivem em casa dos pais, e que são os da faixa de 55 anos e mais que estão a arranjar empregos  a tempo parcial. Por que é que isto acontece? As razões estão no facto de nos empregos a tempo parcial o salário não ser suficiente para ter uma existência independente e a política da Reserva Federal de manter, há uma década, a taxa de juro em zero, obrigando os reformados a entrar no mercado de trabalho, pois as suas poupanças-reforma não dão rendimento.  Não são apenas os postos de trabalho na indústria que são ocupados por estrangeiros, para fazer baixar os custos da força de trabalho e maximizar os rendimentos dos executivos e dos acionistas. O mesmo se passa com empregos mais qualificados como engenharia de software, design, contabilidade ou tecnologia da informação, que os americanos esperam arranjar para pagar os empréstimos que contraíram para pagarem os seus estudos.

 

O editorial do Wall Street Journal afirma que os jovens não estão no mercado de trabalho porque andam na droga, ou são incapazes, ou têm baixas qualificações. Contudo, por todo o país existem pessoas com qualificações universitárias e com uma boa educação que não conseguem arranjar emprego, porque os postos de trabalho foram deslocalizados. Para piorar a crise, o senador republicano pelo Wisconsin quer trazer mais estrangeiros com vistos para trabalhar, a fim de baixar ainda mais os salários, para que nenhum americano possa sobreviver com o seu salário; e os editorialistas do Wall Street Journal sancionam estas afirmações grotescas!

 

Os estrangeiros com visto para trabalhar são pagos por um terço do salário corrente nos EUA. Vivem juntos, em grupos e em quartos minúsculos. Não têm direitos enquanto trabalhadores. São explorados para fazer subir os bónus e os dividendos do capital. Desenvolvi extensamente este assunto no meu livro The Failure of Laissez Faire Capitalism [O Falhanço do Capitalismo do Laissez Faire] (Clarity Press, 2013).

 

Quando Trump disse que iria trazer os postos de trabalho de volta teve muito eco, mas, obviamente, ele não o poderia fazer, tal como não lhe foi permitido normalizar as relações com a Rússia.

 

O governo da América não está nas mãos do seu povo. O governo está nas mãos da oligarquia governante. Os ditames da oligarquia prevalecem, independentemente dos resultados eleitorais. O povo americano está a entrar num mundo de escravatura mais severo do que alguma vez existiu. Sem trabalho, dependentes das regalias a conta-gotas dos patrões, sempre sujeitos a serem cortadas, e sem voz ou representação, os americanos, exceto os “Um Por Cento”, estão a tornar-se o mais escravizado povo da história.

 

Os americanos continuam a acumular dívida e a tornar-se escravos dessa dívida. Muitos só conseguem ter o rendimento mínimo no seu cartão de crédito e, portanto, acumulam dívida. A política da Reserva Federal fez explodir os preços dos ativos financeiros. O resultado foi a massa da população deixar de ter rendimentos disponíveis e, os que têm ativos financeiros, só serem ricos até os valores se ajustarem à realidade.

 

Como economista, não consigo encontrar na história uma economia cujos negócios fossem tão mal conduzidos e cujas perspetivas fossem tão negras como a economia dos Estados Unidos da América. Nas políticas correntes de curto/médio prazo que ensombram as perspetivas dos trabalhadores americanos beneficiam os “Um por cento”, enquanto a deslocalização dos empregos reduz os custos empresariais e as transferências financeiras, transformando o rendimento disponível em lucros e comissões do setor financeiro. Mas, à medida que o rendimento disponível desaparece e os encargos com a dívida aumentam,  a procura agregada vacila e nada fica que possa orientar a economia.

 

Aquilo a que estamos a assistir é os Estados Unidos tornarem-se o primeiro país a reverter o processo de desenvolvimento e a recuar, desistindo da indústria, da produção e de empregos para operários especializados. A força de trabalho está a tornar-se terceiro-mundista, com empregos a preços muito baixos e com os serviços domésticos a tomarem o lugar da alta produtividade, dos empregos  que produzem elevado valor acrescentado.

 

A resposta inicial foi pôr as mulheres e as mães no mercado de trabalho, mas agora   até as famílias com dois salários sentem a estagnação ou a descida dos padrões materiais de vida. Os novos universitários com o curso concluído enfrentam enormes dívidas, sem empregos capazes de produzir o rendimento suficiente para as pagar.

 

Agora os EUA estão no rumo de andar para trás a um ritmo mais rápido. Os robôs não compram casas, mobílias, eletrodomésticos, carros, roupas, comida, divertimento, serviços médicos, etc. A menos que os robôs paguem imposto sobre o salário, o financiamento da segurança social e da saúde colapsarão. E assim continuará a ser. Os gastos dos consumidores simplesmente secarão e, depois, quem comprará as mercadorias e os serviços produzidos pelos robôs?

 

O facto destas importantes considerações estarem ausentes do debate público sugere que os Estados Unidos vão continuar no caminho da desindustrialização e da não produção.

 

Notas

[1] dos editores – Do ponto de vista da economia política marxista não existe pleno emprego sob o capitalismo. O desemprego, a existência de um “exército de reserva de mão-de-obra” é uma lei deste sistema.

 

* Paul Craig Roberts é um antigo Secretário Assistente do Tesouro dos EUA e editor associado do Wall Street Journal.

 

Fonte: publicado em 2017/10/29, em https://www.counterpunch.org/2017/09/29/the-us-economy-is-failing/

 

Tradução do inglês de TAM

 

 

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