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 Sharmini Peries - Michael Hudson*

 Tradução do inglês de TAM e PAT

 

... quando a Grécia falha, isso é bom para os investidores estrangeiros, que querem comprar os caminhos de ferro gregos. Querem ficar com os portos. Querem ficar com a terra. Querem ficar com as zonas turísticas. Mas a maioria deles quer fazer da Grécia um exemplo, para mostrar à França, à Holanda e a outros países que podem pensar sair do euro – sair e decidir crescer mais do que empobrecer – que o FMI e a UE lhe farão exatamente o que estão a fazer à Grécia.

 

 

Sharmini Peries: Os últimos indicadores económicos mostraram que a economia grega se contraiu em cerca de 0,4% nos últimos três meses de 2016. Isto coloca um verdadeiro problema à Grécia, porque os seus credores esperam que cresça 3,5% ao ano para poder pagar o seu resgate. Está previsto que a Grécia pague 10,5 mil milhões de euros da sua dívida no próximo verão, mas também se espera que não o possa fazer sem outro empréstimo de 86 mil milhões de euros.

Um crescente impasse entre o FMI e o Banco Central Europeu, os dois principais credores da Grécia, ameaça empurrar a Grécia para a falência e para a saída do euro. Entretanto, o governo grego disse aos seus credores, a que hoje se chama troika, que não estaria de acordo com mais nenhuma medida de austeridade. Está connosco hoje, Michael Hudson, para observarmos mais de perto a situação grega. Michael é um distinto professor de Economia, na Universidade do Missouri, Kansas City. É autor de muitos livros, o último dos quais é J is for Junk Economics: A Guide to Reality in the Age of Deception. [L de economia do lixo: um guia para a realidade na idade da fraude].

Muito obrigado por estar hoje connosco, Michael.

Michael Hudson: É bom estar aqui. Mas não estou de acordo com uma coisa que disse. Disse que os credores esperam que a Grécia cresça. Mas não é assim. Os credores de modo nenhum esperam que a Grécia cresça. De facto, o FMI foi quem mais emprestou e disse que a Grécia não pode crescer nas circunstâncias em que hoje se encontra.

O que se faz quando se empresta dinheiro a um país, e todos os especialistas dizem que não há maneira de o país pagar a dívida? Isso foi o que os técnicos do FMI disseram em 2015. Mesmo assim, concedeu o empréstimo – não à Grécia, mas para pagar aos bancos franceses, alemães e a um punhado de outros acionistas; nem um cêntimo foi realmente para a Grécia. A economia do lixo que eles aplicam exigiu um programa para ter a certeza de que o FMI ajudaria a gerir a economia grega para lhe dar a possiblidade de pagar. Infelizmente, o seu ingrediente secreto era a austeridade.

Sharmini, nos últimos 50 anos, todos os programas de austeridade impostos pelo FMI fizeram diminuir a economia da vítima. Nunca nenhum programa de austeridade ajudou uma economia. Os condicionalismos impostos, as chamadas reformas, são um termo orwelliano para antirreforma, o corte de pensões e a regressão das conquistas que o movimento dos trabalhadores alcançou no último meio século. Por isso, os credores sabiam muito bem que a Grécia nunca cresceria, pelo contrário, contrair-se-ia.

Por isso, a questão é: por que continua a economia do lixo, década após década? A razão é que os empréstimos foram feitos à Grécia precisamente porque a Grécia não podia pagar. Quando um país não pode pagar, as regras do FMI e dos banqueiros alemães e da UE por detrás dele são: não se preocupem, insistiremos simplesmente que vendam em saldo a vossa propriedade pública. Vendam a vossa terra, os vossos transportes, os vossos portos, as vossas instalações elétricas. Isto agora é um programa que continua, década após década.

Agora, surpreendentemente, o embaixador americano na UE, Ted Malloch, foi à Bloomberg e à TV grega dizer que os gregos devem deixar o euro sozinhos. O embaixador nomeado por Trump para a UE diz que a eurozona está morta. Que se vai contrair. Se a Grécia continua a pagar o empréstimo, se não for atirada para fora do euro, vai ficar permanentemente em depressão, até onde o nosso olhar alcance.

A Grécia está a sofrer o resultado destes maus empréstimos. Está ainda numa depressão mais prolongada, mais profunda do que estava nos anos de 1930.

Sharmini Peries: Sim, isso é uma questão importante… no princípio da sua resposta, aqui, referiu um ponto muito importante, é que os credores – isto é, os credores da Eurozona – estabeleceram uma meta de crescimento de 3,5% como condição para a Grécia poder receber a sua primeira fatia do resgate. O FMI diz, está bem, mas isso não é facilmente realizável, a meta deve ser 1,5%.

Mas você está a dizer que nenhuma destas condições é real, ou alcançável, ou desejada para esse fim, porque o que eles realmente querem é que a Grécia falhe. Por que diz isso?

Michael Hudson: Porque, quando a Grécia falha, isso é bom para os investidores estrangeiros, que querem comprar os caminhos de ferro gregos. Querem ficar com os portos. Querem ficar com a terra. Querem ficar com as zonas turísticas. Mas a maioria deles quer fazer da Grécia um exemplo, para mostrar à França, à Holanda e a outros países que podem pensar sair do euro – sair e decidir crescer mais do que empobrecer – que o FMI e a UE lhe farão exatamente o que estão a fazer à Grécia.

Portanto, estão a fazer da Grécia um exemplo. Vão mostrar que as regras da finança dominam e, de facto, essa é a razão por que Trump e Ted Malloch vieram apoiar o movimento separatista em França. Apoiam Marine Le Pen, tal como Putin. A nível mundial existe a perceção de que as finanças são realmente uma maneira de fazer a guerra.

Se conseguirem de algum modo convencer os países a adotar economias de lixo e a seguirem políticas que os destruam, então será mais fácil atrair investidores estrangeiros, e, aos monopólios, tomar conta das suas economias. Então, isto é uma forma de guerra.

Sharmini Peries: Certo. Michael, estava a dizer que o embaixador Ted Malloch, da administração Trump, recentemente nomeado para a União Europeia, sugeriu que a Grécia deveria considerar deixar esta União, ou o euro, em particular.

O que pensa disso e se será coerente com o que a Grécia está a sugerir? Porque a Grécia já disse não a mais medidas de austeridade. Não vamos concordar com eles. Então, isto vai chegar a um impasse que não vai ser resolúvel. Deveria a Grécia sair do euro?

Michael Hudson: Sim, deveria, mas a questão é como fazê-lo, e em que termos? O problema não é apenas deixar o euro. O problema é, realmente, a dívida externa, que foi uma dívida má imposta pela Eurozona. Se deixar o euro e, ainda assim, tiver de pagar a dívida externa, então fica numa permanente depressão, da qual nunca pode sair.

Há aqui um amplo princípio moral: se emprestar dinheiro a um país que as suas estatísticas mostram não poder pagar a dívida, existe realmente uma obrigação moral de a pagar? A Grécia teve uma comissão, há dois anos, a dizer que esta dívida é odiosa. Mas não basta apenas dizer que há uma dívida odiosa. Tem de ter algo mais positivo.

Estive a conversar com políticos gregos e líderes do Syriza sobre o que é necessário; e, o que é necessário, é uma Declaração de Direitos. Precisamente como as regras de Westfália, em 1648, uma Declaração Universal de que os países não seriam atacados com guerras, nem seriam derrubados por outros países. Penso que a Declaração de Direito Internacional tem de reconhecer que nenhum país deve ser obrigado a impor a pobreza à sua população e a vender o domínio público para pagar aos seus credores estrangeiros.

A Declaração diria que se os credores fazem uma dívida que não pode ser reembolsada, a dívida é, por definição, odiosa; por isso, não há necessidade de a pagar. Cada país tem o direito de não pagar dívidas que são impagáveis, exceto pela falência do país e forçando-o a vender o seu domínio público a países estrangeiros. Essa é a real definição de soberania.

Assim, espero trabalhar com políticos de vários países para elaborar esta Declaração de Direitos dos Devedores. Isto é o que está a faltar. Há uma ideia de que, se sair do euro, pode desvalorizar a sua moeda e baixar ainda mais os padrões dos direitos do trabalho, acabar com as pensões e de alguma forma espremer o suficiente para pagar a dívida.

Contudo, o problema não é apenas a Eurozona. Na verdade, juntar-se ao euro significa que não tem permissão para executar um défice orçamental que permita bombear dinheiro para a economia, para a recuperar – como a América fez. Mas o iminente problema é que tem de pagar dívidas que estão muito para além da sua capacidade de pagar, que vai acabar como o Haiti depois que se rebelou a seguir à Revolução Francesa.

A França disse, certamente, vamos dar-lhes a independência, mas terão de nos reembolsar pelo facto de deixarmos de os ter como escravos. Têm de comprar a liberdade. Não podem dizer que a escravidão é errada. Têm de nos pagar, a todos os proprietários de escravos. Então, o Haiti submeteu-se a esta enorme dívida externa à França, depois da sua independência, e acabou por não ser capaz de se desenvolver.

Poucos anos depois, em 1824, a Grécia teve uma revolução e defrontou-se com o mesmo problema. Pediu um empréstimo aos irmãos Ricardo, os irmãos de David Ricardo, o economista e lobista dos banqueiros, em Londres. Exatamente como o FMI, ele disse que qualquer país tem condições para pagar as suas dívidas, devido à estabilização automática. Ricardo apareceu com uma teoria económica de lixo que ainda é hoje assumida pelo FMI e pela União Europeia, dizendo que os países endividados podem pagar automaticamente.

Bem, a Grécia acabou a assumir uma enorme dívida, pagando juros, mas também falhando uma e outra vez. De cada vez, teve de desistir de mais soberania. O resultado foi, basicamente, uma constante depressão. O lento crescimento é o que atrasa a Grécia e grande parte do resto do sul da Europa.

Assim, a não ser que resolvam o problema da dívida, ser membro da Eurozona ou da União Europeia é realmente secundário.

 

* Michael Hudson é um ex-economista de Wall Street. Distinto investigador, Professor da Universidade do Missouri, Kansas City (UMKC), é o autor de muitos livros, incluindo o Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire [Superimperialismo: a Estratégia Económica do Império Americano] (nova edição, Pluto Press, 2002). O seu novo livro é: Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy [Matando o Anfitrião: Como os Parasitas Financeiros e a Servidão da Dívida Destroem a Economia Global] (uma edição digital CounterPunch).

Sharmini Peries é produtora executiva da Real News Network [Notícias reais em rede]. Esta é uma transcrição da entrevista de Michael Hudson a Sharmini Peries na Real News Network.

 

 Publicado em 2017/02/21, em: http://www.counterpunch.org/2017/02/21/finance-as-warfare-the-imf-lent-to-greece-knowing-it-could-never-pay-back-debt/

 

 

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