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Melvin Goodman

Tradução do inglês de PAT

 

Como analista júnior na CIA, ajudei a elaborar o relatório que descreveu o ataque de Israel ao Egito, na manhã de 5 de junho de 1967. Havia interceções de comunicações sensíveis que documentavam os preparativos israelitas para um ataque e nenhuma evidência de um plano de batalha egípcio.

 

 

Em muitas ocasiões na história dos EUA, o uso da força tem sido justificado com a corrupção dos serviços secretos ou, simplesmente, com puras mentiras. Tal foi o caso da guerra mexicano-americana; da guerra hispano-americana; da guerra do Vietname; e da Guerra do Iraque de 2003. Os pesos e contrapesos necessários para evitar o uso indevido dos serviços secretos não foram operacionais, e os presidentes Polk, McKinley, Johnson e Bush enganaram o povo americano, o Congresso dos EUA e a imprensa. Em 1967, os responsáveis israelitas, ao mais alto nível, mentiram à Casa Branca sobre o início da Guerra dos Seis Dias.

Como analista júnior na CIA, ajudei a elaborar o relatório que descreveu o ataque de Israel ao Egito, na manhã de 5 de junho de 1967. Havia interceções de comunicações sensíveis que documentavam os preparativos israelitas para um ataque e nenhuma evidência de um plano de batalha egípcio. Os israelitas clamaram sobre indícios de preparativos egípcios para uma invasão, mas nós não tínhamos sinais de uma preparação egípcia na base do seu poder aéreo ou militar. A conclusão era a de que os israelitas estavam a utilizar a desinformação para obterem o apoio dos EUA.

O meu ponto de vista era o de seria improvável que o Egito começasse uma guerra com Israel, enquanto metade do seu exército estava amarrado a uma luta numa guerra civil no Iémen. Os arabistas da CIA acreditavam que o presidente egípcio Nasser estava a fazer bluff e citou a baixa qualidade do equipamento militar do Cairo.

Por isso, ficámos chocados quando o assessor de segurança nacional do presidente Johnson, Walt Rostow, recusou aceitar a avaliação dos nossos serviços secretos sobre o ataque israelita. Rostow referiu “garantias” do embaixador israelita em Washington, de que, em nenhuma circunstância, os israelitas atacariam primeiro. Sobre os protestos do ministro de Defesa israelita, Moshe Dayan, o governo israelita mentiu à Casa Branca sobre como a guerra começou. O presidente Johnson foi informado de que os egípcios iniciaram o tiroteio contra assentamentos israelitas e de que fora visto um esquadrão egípcio a dirigir-se para Israel. Nenhuma das afirmações era verdadeira.

Em resultado disto, o nosso relatório a descrever ataques surpresa de Israel contra aeródromos egípcios, jordanos e sírios teve uma resposta hostil do Conselho Nacional de Segurança (CNS). Felizmente, o diretor da CIA, Richard Helms, apoiou a nossa avaliação, e o Centro de Comando Militar Nacional também o corroborou. Rostow convocou Clark Clifford, presidente do Conselho Consultivo para o Estrangeiro do Presidente e um líder do CNS, o arabista Hal Saunders, para examinar a nossa análise, e também ambos a corroboraram.

Além de mentir à Casa Branca sobre o início da guerra, oficiais militares israelitas mentiram ao embaixador americano em Israel, Walworth Barbour, sobre movimentos militares egípcios inexistentes. A CIA, entretanto, beneficiou de uma fotografia de satélite que mostrou aviões egípcios estacionados nos aeródromos, asa com asa, o que não apontava para qualquer plano de ataque.

Vinte anos depois, soube que um confidente do presidente, Harry McPherson, estava em Israel no início da guerra e acompanhou o embaixador Barbour na reunião com o primeiro-ministro Eshkol. Quando as sirenes israelitas contra ataques aéreos começaram a tocar, durante a reunião, o chefe dos serviços secretos israelitas, General Aharon Yariv, assegurou a todos que não havia necessidade de se mudarem para um bunker subterrâneo. Se tivéssemos esta informação em 1967, ela teria corroborado nossa análise de que os israelitas destruíram mais de 200 aviões egípcios no solo.

Além de mentir sobre o início da guerra, os israelitas foram ainda mais traiçoeiros, três dias depois, quando atribuíram o seu maldoso ataque ao USS Liberty a um acidente fortuito. Se o foi, foi um acidente bem planeado. O navio era um barco dos serviços secretos dos EUA em águas internacionais, lento e ligeiramente armado. Ostentava, a cinco ou oito pés, a Stars and Stripes [bandeira dos EUA - NT] ao sol do meio-dia e não se assemelhava a um navio de qualquer outra marinha, muito menos a um navio do arsenal de algum dos inimigos de Israel. No entanto, os israelitas alegaram que acreditaram que estavam a atacar um navio egípcio.

O ataque israelita ocorreu após seis horas de intenso e pormenorizado reconhecimento. Foi realizado durante um período de duas horas, por jactos Mirage descaracterizados, usando canhões e foguetes. Os barcos israelitas dispararam metralhadoras, nas áreas próximas, contra aqueles que ajudavam os feridos e, depois, dispararam contra as balsas salva-vidas a que os sobreviventes recorreram na esperança de abandonar o navio. A investigação do CNS sobre o desastre permanece classificada até hoje.

 

Melvin A. Goodman é membro sénior do Centro de Política Internacional e professor do governo da Universidade Johns Hopkins. Ex-analista da CIA, Goodman é o autor de Failure of Intelligence: The Decline and Fall of the CIA e National Insecurity: The Cost of American Militarism. O seu último livro é A Whistleblower at the CIA. (City Lights Publishers, 2017). Goodman é o colunista da segurança nacional em counterpunch.org.

 

Fonte: publicado em 2017/06/05, em: https://www.counterpunch.org/2017/06/05/the-six-day-war-and-israeli-lies-what-i-saw-at-the-cia/

 

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