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Kemal Okuyan, Primeiro-secretário do Partido Comunista da Turquia (PKT)

Quando o Partido Comunista da Turquia (TKP) disse que “a verdadeira injustiça é o sistema de exploração” não tinha a intenção de estragar a marcha, antes apontava para a  evidência básica de que aquela mobilização, que envolvia claramente grandes massas, não podia resolver esse problema.

 

Comentário sobre os resultados políticos da “marcha da justiça” e o comício  do principal partido da oposição turca, Partido Republicano do Povo (CHP), que se lhe seguiu.

 

O grande sucesso da direita

 

Na Turquia, a partir de agora, aparecem não um, mas dois líderes à frente do sistema. Enquanto toda a gente fixava a atenção em Aksener (um líder da fação de direita de um grupo antipresidente turco, Recep Tayyip Erdogan, saído de uma cisão do Partido do Movimento Nacionalista, pró-Erdogan),  Kemal Kiliçdaroglu (líder do principal partido de oposição, CHP), desenvolveu um movimento gigante, pondo fim ao estatuto de Erdogan enquanto político sem concorrência.

 

Está em perspetiva um grande sucesso. Kiliçdaroglu dirigiu um processo quase perfeito em termos de gestão de tempo, metodologia e contexto. No mundo de hoje, não teria qualquer sentido discutir se existe um organizador por detrás dele. Livrando-se rapidamente do seu, até agora, baixo perfil,  Kiliçdaroglu tem dado uma resposta perfeita à questão de eliminar o estatuto de invencibilidade de Erdogan.

 

Mas, de facto, a sua tarefa não foi tão difícil assim. “Deve fazer-se alguma coisa contra  Erdogan”, disseram quase todos os círculos, desde o seu próprio partido até à esquerda, que anteriormente tinham criticado o líder do CHP por ser negligente e pouco eficaz. Estas críticas esconderam a essência da questão; as preocupações ideológicas de pouca importância sentidas até há três ou quatro anos atrás deixaram de existir. O que importa agora é dizer-lhe, “Vamos, homem, faça alguma coisa!”.

 

Por isso, quando começou a marcha da justiça, a perplexidade – “olhem, ele mexeu-se” –  transformou-se num grande respeito em pouco tempo. O limiar da expectativa tinha descido tanto, que foi suficiente Kiliçdaroglu levantar-se e organizar uma difícil marcha em pleno verão para agradar às grandes massas. Quase ninguém  pôs a questão de saber se uma estratégia de longa data, baseada na imobilidade em momentos críticos de viragem,  foi substituída por uma longa marcha.

 

Realmente,  quase ninguém...

 

Quando o Partido Comunista da Turquia (TKP) disse que “a verdadeira injustiça é o sistema de exploração” não tinha a intenção de estragar a marcha, antes apontava para a  evidência básica de que aquela mobilização, que envolvia claramente grandes massas, não podia resolver esse problema.

 

E o que disse  Kiliçdaroglu?

 

Sejamos honestos e demos uma resposta corajosa.

 

A  “marcha pela justiça” foi a terceira vaga de ações de massas que se realizaram na Turquia do AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan – NT]. Os Protestos da República (um conjunto de comícios seculares, em 2007), a Resistência do Parque Gezi [Praça Taksim – NT] (manifestações de massas antigovernamentais, em junho de 2013) e, agora, a “marcha da justiça” … Apesar de as três serem diferentes umas das outras quanto aos seus objetivos e importância, a última é completamente diferente no que se refere à sua orientação ideológica.

 

As cores ideológicas dos Protestos da República eram mais ou menos evidentes. A Resistência de junho manifestou, de tempos a tempos, as cores pró-iluministas, modernistas, libertárias e patrióticas. Apesar de terem mobilizado mais algumas pessoas, foram praticamente os mesmos que participaram nos Protestos da República, na Resistência de junho e estiveram no comício de Maltepe (comício que culminou a marcha da justiça), porém, com um enquadramento ideológico que é difícil ser definido neste momento: não-ideologia…

 

Esta situação não pode ser discutida simplesmente como  Kiliçdaroglu pretendia.

 

A posição do antierdoganismo devia ser mais bem definida na Turquia.

 

Quem pode estar contra os dez pontos, exceto um ou outro, declarados por Kiliçdaroglu em Maltepe? Alguns são sobre inclusão; mas a sua linguagem foi desenvolvida no sentido de trazer o antierdoganismo, que não conseguiu ter um final feliz na Turquia, de uma “esquerda” descontextualizada à totalidade da direita. Além do mais, a Direita nunca teve nenhum contexto.

 

Kiliçdaroglu alcançou os seus objetivos. Com o discurso do “Novo CHP”, conseguiu reunir à sua volta vastas massas, expurgando-as totalmente dos seus extremos, incluindo uma fantasia infantil dos corredores da União Europeia, com dez anos de idade – a aproximação do CHP ao movimento curdo.

 

Foi extremismo defender teimosamente uma República ultrapassada pela classe capitalista durante os Protestos da República. Para o sistema capitalista, é um extremismo que algumas orientações políticas e ideológicas desafiem as fronteiras da ordem. “Vamos salvar-vos de tudo isso”, disse Kiliçdaroglu, e cumpriu.

 

O capitalismo está feliz e a Alemanha também… assim estão largas camadas populares que vivem em regiões desenvolvidas da Turquia e parecem firmes em recusar render-se a Erdogan, como uma vez mais se viu no referendo (de abril de 2016).

 

Então, o que vai acontecer depois de tão grande prazer?

 

Erdogan está a defrontar condições realmente difíceis. Já perdeu terreno e agora tem dificuldade em tomar a iniciativa; se a tomar, então é altamente provável que cometa um erro. O discurso que ele pronunciou na Alemanha foi um testemunho de pânico e desespero. Além disso, Erdogan ficou bloqueado, desde que  Kiliçdaroglu começou a sua marcha.

 

Em todo o caso, será forçado a fazer alguma coisa, embora as condições sejam diferentes de agora em diante.

 

Kiliçdaroglu, por outro lado, dissolveu a já de si obscura esquerda na multidão. A sua intenção inicial era catalisar o “novo nascimento”, que não aconteceu, algures no centro-direita. Depois do comício de Maltepe, foram postos em funcionamento outros canais para orientar a energia acumulada dentro do AKP, para o seu lançamento.

 

Os apoiantes do AKP, que tinham dito “Parece impossível” durante o referendo,  viram que estava a chegar um momento favorável quando viram Maltepe.

 

São boas notícias?

 

Sim, com certeza

 

Então, o que vai surgir deste quadro geral?

 

A ordem.

 

A busca da ordem foi sempre um objetivo perseguido pelo antierdoganismo. Alguns fizeram um grande esforço para não levar esta procura da ordem e da estabilidade para uma mudança de sistema. Alguns conceitos que eram necessariamente expressos, mesmo pela esquerda pró-sistema, de que qualquer resquício da realidade das classes tinha sido abandonado e de que se desenvolveu um secularismo submetido à religiosidade levaram ao esquecimento do fenómeno do imperialismo.

 

A esquerda também colaborou nesta operação através de conceitos como “tarefas imediatas”.

 

A ordem atingiu este nível. A esquerda não chega a ser um pormenor entre os vencedores.

 

Este é o preço do recuo de Erdogan.

 

Saudamos todas as pessoas que marcharam e conservam vivas as suas esperanças.

 

Contudo … nós continuamos a dizer “Abaixo a ordem!

 

E nós continuamos a partir deste ponto.

 

Fonte: publicado em http://www.tkp.org.tr/en/aciklamalar/justice-rally-great-success-right

 

Tradução do inglês de TAM

 

 

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