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Thierry Deronne

 

Desde o desaparecimento de Hugo Chávez, em 2013, a Venezuela é vítima de uma guerra económica que visa privar a população de bens essenciais, principalmente alimentos e medicamentos. A direita local reúne certos elementos da estratégia implementada no Chile pelo par Nixon-Pinochet, claramente para causar a exasperação dos sectores populares e legitimar a própria violência.

 

Enfiemo-nos na pele de uma pessoa que apenas dispusesse dos média para se informar sobre  a Venezuela e  que, dia após dia, se falasse  de “manifestantes”  e “repressão”. Como não entender que essa pessoa acreditasse que a população está na rua e que o governo a reprime?

 

Porém, não há nenhuma revolta popular na Venezuela. Apesar da guerra económica, a grande maioria da população vai para as suas ocupações, trabalha, estuda, sobrevive. É por isso que a direita organiza as suas marchas com início nos bairros ricos. É por isso que recorre à violência, ao terrorismo e se localiza nos municípios de direita. Os bairros venezuelanos são, em 90%, bairros populares. Compreende-se a enorme  lacuna:  os  media  transformam  as  ilhas  sociológicas  das  camadas  ricas (alguns % do território) em “Venezuela”. E 2% da população em “população”1.

 

A ex-presidente argentina Cristina Fernandez, depois de Evo Morales, denunciou “a violência  é  utilizada  na Venezuela  como  metodologia  para  alcançar  o  poder  e derrubar um governo”2. Do Equador, o ex-presidente Rafael Correa recordou que “a Venezuela é uma democracia. É através do diálogo, com eleições, que devem ser resolvidas as diferenças. Muitos casos de violência vêm claramente dos partidos da oposição”3. Esta também é a posição do Caricom, que inclui os países do Caribe4. O papa Francisco teve de incitar os bispos da Venezuela a que, como no Chile, em 1973, arrastavam os pés face ao diálogo nacional proposto pelo Presidente Maduro5. Este lançou o processo participativo para a Assembleia Constituinte, e confirmou a eleição presidencial legalmente prevista para 2018.

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Desde o desaparecimento de Hugo Chávez, em 2013, a Venezuela é vítima de uma guerra económica que visa privar a população de bens essenciais, principalmente alimentos e medicamentos. A direita local reúne certos elementos da estratégia implementada no Chile pelo par Nixon-Pinochet, claramente para causar a exasperação dos sectores populares e legitimar a própria violência. De acordo com o relatório do orçamento 2017, colocado no site do Departamento de Estado6, foram entregues 5,5 milhões de dólares à “sociedade civil” da Venezuela. O jornalista venezuelano Eleazar Diaz Rangel, editor do diário Últimas Notícias (centro-direita) revelou  trechos  do  relatório  que  o  Almirante  Kurt  Tidd,  chefe  do  comando  Sul, enviou para o Senado dos EUA: “com a política do MUD (coligação da oposição venezuelana)  estabelecemos  uma agenda  comum,  que  inclui  um  cenário  duro, combinando ações de rua e dosificando o emprego da violência a partir da perspetiva de cerco e asfixia”7.

 

A fase insurrecional implica atacar os serviços públicos, escolas, maternidades (El Valle, El Carrizal), instituições de saúde, bloquear ruas e artérias principais para bloquear a distribuição de alimentos e paralisar a economia. Através dos média privados, a direita apela abertamente aos militares para realizarem um golpe de Estado contra o Presidente eleito8. Mais recentemente, os bandos paramilitares colombianos passaram do papel de formadores para um papel mais ativo: o corpo sem vida de Pedro Josué Carrillo, militante chavista, acaba de ser encontrado no Estado de Lara, com marcas de tortura típicas do país de Uribe9.

 

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Apesar dos morteiros, armas, granadas ou coquetéis Molotov usados por manifestantes  “pacíficos”  (sem esquecer  as  efígies  de  chavistas  enforcadas  em pontes, assinatura dos paramilitares colombianos), a lei proíbe a polícia ou a guarda nacional de usar as armas de fogo. Manifestantes da direita aproveitam a oportunidade para forçar a sua vantagem e evidenciam o seu ódio sobre guardas ou polícia, provocando-os com jactos de urina, excrementos e disparos com balas reais, observando a reação das câmaras da CNN.

 

Elementos das forças de segurança que desobedeceram e foram culpados de ferimentos ou mortes de manifestantes foram presos e processados10. O facto é que a grande maioria das vítimas são trabalhadores que iam para o trabalho ou voltavam, ativistas chavistas ou elementos das forças da ordem11. É por isso que os média falam de mortes em geral – para que se acredite que se trata de “mortos pelo regime”. A lista dos “mortos” serve para aumentar o apoio global à desestabilização: há nestes assassinatos, é terrível constatá-lo, o efeito de uma encomenda para os média.

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Qualquer manifestante que mata, destrói, agride, tortura, sabota sabe que será santificado pelos média internacionais. Estes tornaram-se um incentivo para perseguir o terrorismo. Todos os mortos, todas as sabotagens económicas serão atribuídas ao “regime”, incluindo dentro da Venezuela, onde os média, como a economia, são na sua maioria privados. Que a democracia participativa que é a da Venezuela tente defender-se como compete a todo o Estado de direito, vai ser imediatamente denunciada como “repressiva”. Quem ouse punir um terrorista, isto o tornará de imediato  um  “preso político”.  Para o  jornalista  e  sociólogo argentino Marco Teruggi, “uma intervenção na Venezuela, o governo dos Estados Unidos tem condições mais favoráveis do que tinha para bombardear a Líbia, tendo em conta o facto  de  que  a  União  Africana  tinha  condenado  essa  intervenção quase  por unanimidade. (..) tudo depende da capacidade da direita manter mais tempo o braço de ferro na rua como espaço político. Donde a importância de manter a caixa de ressonância mediática”12.

 

Exemplo sórdido desta ligação: em 5 de maio de 2017, usando uma foto digna de um fotograma de Hollywood (mas que não é a da vítima) Le Monde denuncia “a morte de  um  líder   estudantil,  morto  durante os  protestos   contra  o  projeto  do Presidente Maduro convocar uma Assembleia Constituinte”. Ora a vítima, Juan (e não José como escreveu Le Monde) Bautista Lopez Manjarres é um jovem líder estudantil revolucionário, assassinado por um comando da direita quando participava numa reunião em apoio do processo da Assembleia Constituinte.

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Le Monde menciona também a reação do maestro Gustavo Dudamel, em digressão no estrangeiro, pedindo para que “cesse a repressão”, após a morte do jovem violista Armando Canizales. No entanto, este músico não foi vítima da repressão, mas também ele de um projétil disparado das fileiras da direita.

 

O jornal espanhol La Vanguardia, virulentamente oposicionista da Revolução Bolivariana, admite excecionalmente pelo texto do seu enviado especial Andy Robinson: “Tal como em outros momentos da crise, a narrativa de uma juventude heroica, morta pela ditadura Bolivariana não cola no caso de Armando Canizales. (..) é quase certo que o projétil não foi disparado pela polícia, mas pelos próprios manifestantes. É sabido que alguns deles fizeram armas artesanais para os choques diários a polícia”13.

 

A reação  rápida do  Sr. Dudamel  é representativa das numerosas personalidades artísticas submetidas a forte pressão mediática nos seus países, obrigados a fazer declarações para satisfazer a opinião pública, 99% convencida pelos média, para denunciarem a “repressão na Venezuela”.

 

A 16 de maio, o Le Monde denunciou “a morte de um jovem de 17 anos, baleado num comício contra o Presidente Maduro”. Não é verdade. A pesquisa mostra que Yeison Natanael Mora Castillo foi morto por um projétil idêntico ao usado para assassinar o violista Canizales. Ele não participava numa reunião anti Maduro. Seus pais são membros de uma cooperativa em luta para  recuperar  um latifúndio de sete mil hectares, suportando desde há muito ataques do grande proprietário. Eles apresentaram uma queixa contra os organizadores da marcha da oposição, e numa entrevista   ao   jornal   local   Ciudad   Barinas denunciaram   a manipulação que falsamente atribuía ao governo Maduro o assassinato de seu filho14.

 

Imputar sistematicamente ao governo bolivariano os assassinatos cometidos pela direita, é todo o “jornalismo” de Paulo Paranaguá no Le Monde. Em 21 de abril, atribui aos coletivos chavistas a morte de um estudante de 17 anos, Carlos Moreno, morto por uma bala na cabeça, bem como de Paola Ramírez Gómez, de 23. Dupla mentira. De acordo com a família de Carlos Moreno, o adolescente não participava em qualquer manifestação e dirigia-se para um torneio desportivo. O assassino foi preso: é um membro da polícia de Oscar Oscariz, presidente da Câmara Municipal de Sucre. O jornal da oposição Tal Cual assim relata15. Quanto à segunda vítima referida por Paranaguá, Paola Rodríguez, o seu assassino foi preso pelas autoridades: é Ivan Aleisis Pernia, um militante da direita.

 

O "diário dos mercados" não é o único a mentir de forma assim tão sórdida nesta 'luta pela liberdade'. O La Libre Belgique, New York Times, France-Culture, El País, Le Figaro, ou mesmo Mediapart são robôs da vulgata global. Esta invenção da "repressão" é tanto mais fácil quanto a imagem típica do manifestante maltratado por um polícia tem vantagem quando se é privado do contexto relativo à imagem. Longe da Venezuela, apenas alguns poderão dispor dos cenários onde jovens são treinados, armados, pagos para provocar as forças de segurança e produzir a “imagem” necessária. A concentração global dos meios de comunicação e a crescente convergência de redes sociais com os grandes média fazem o resto, fixando o imaginário tanto à esquerda como à direita. Veem-se assim os politicamente “insubmissos” submeterem-se aos média e acrescentarem sem dar por isso a sua pedrinha para a campanha global.

 

Os  que  retransmitem  na  internet  este  poster  provavelmente  não  imaginam  a falsidade que se esconde por trás do “Anonymous Venezuela”. A capacidade da extrema-direita de se servir de alguns símbolos do movimento alternativo global e capitalizar apoios é revelada aqui: “quando cai a máscara de Guy Fawkes da oposição venezuelana”16.

 

Em  suma,  como  se  da  história  da  propaganda  e  das  guerras  nada  se  tivesse aprendido, caímos sem cessar na armadilha. Malcolm X tinha prevenido: “se não tivermos cuidado, os média vão fazer que as vítimas sejam consideradas os torturadores  e  os  carrascos  as  vítimas”.  Transformando  a  violência  da extrema-direita em “revolta popular”, travestindo de “combatentes da liberdade” assassinos nostálgicos do apartheid dos anos 90, é em primeiro lugar contra os cidadãos da Europa,  que  a  uniformização  mediática  se  volta:  a  maioria  dos  telespetadores, leitores e ouvintes apoiam sem saber uma agressão para derrubar um governo democraticamente eleito. Sem a democratização em profundidade da propriedade dos média, a profecia de Orwell acaba por ser tímida. A Venezuela é suficientemente forte para evitar um golpe como aquele que acabou com a unidade popular de Salvador Allende, mas a crescente desconexão da população de ocidente com o mundo voltar-se-á contra ela própria.

 

Micromanual de autodefesa perante a vaga mediática

 

«A Venezuela é um “regime ditatorial”». Falso. Desde 1999, a Venezuela bolivariana organizou um número recorde de votos (25), reconhecidos como transparentes por observadores internacionais. De acordo com o antigo presidente do Brasil Lula da Silva, é um “excesso de democracia”. Por Jimmy Carter, que observou 98 eleições em todo o mundo, a Venezuela tem o melhor sistema eleitoral no mundo. Em maio de 2011, o relatório da canadiana Fondation pour l'Avancée de la Démocratie (FDA) colocou o sistema eleitoral da Venezuela no primeiro lugar do mundo pelo respeito das normas de base da democracia. A ONG chilena Latinobarómetro estabeleceu no seu relatório de 2013 que a Venezuela bate registos da confiança dos cidadãos na democracia na América Latina (87%), seguidos por Equador (62%) e México (21%). O Presidente Nicolás Maduro acaba de lançar um processo participativo para a Assembleia Constituinte que permite que todos os sectores sociais façam as suas propostas, o que vai resultar num novo escrutínio, tendo também reafirmado que as eleições presidenciais terão lugar em 2018, conforme estipulado na lei.

 

“Não há liberdade de expressão para a Venezuela”. Falso. Das mais de 1000 estações de rádio e televisão, a que o Estado concedeu permissão para emitir, 67% são privadas (a grande maioria opostas à Revolução Bolivariana), 28% estão nas mãos das comunidades, mas transmitem apenas a um nível estritamente local e 5% são propriedade do Estado. Em 108 jornais que existem, 97 são privados, 11 públicos; 67% da população venezuelana tem acesso à internet. Esta plataforma é dominada pelos media privados, reforçada pela rede das transnacionais, desempenha um papel crucial na desinformação e no serviço de desestabilização. Para um dossier pormenorizado e  quantificado desta paisagem mediática ver “François Cluzel ou l'interdiction d'informer sur France-Culture”17.

 

“Existem prisioneiros políticos na Venezuela”. Falso. A menos que se considere   “presos   políticos”   assassinos   de   extrema-direita   do   partido   Aurora Dourada presos na Grécia. No Estado de direito, quer se chame França ou Venezuela, ser de direita não significa estar acima da lei, nem poder cometer impunemente crimes  como  assassinatos,  ataques  à  bomba  ou  ser  corrupto.  Não  é  pelas  suas políticas, mas por este tipo de crimes que as pessoas têm sido julgadas e aprisionadas18.  Na  prática, observa-se  também  um  certo  laxismo  da  justiça.  De acordo com pesquisas da empresa privada Hinterlaces, 61% dos venezuelanos consideram que os promotores da violência e atos de terrorismo devem responder pelos seus atos perante um tribunal19.

 

Lembremos que os atuais líderes da direita nunca respeitaram as instituições democráticas: estes são os mesmos que, em abril de 2002, lideraram um sangrento golpe de Estado contra o Presidente Chávez, com a ajuda da confederação patronal local e soldados treinados na School of Americas. Estes são os mesmos que organizaram a violência de 2013 a 2016. Observe-se a identidade de um dos seus mentores Alvaro Uribe, um dos maiores criminosos contra a humanidade da América Latina, antigo presidente de um país governado pelo paramilitarismo e os cartéis de drogas, que  tem  as  maiores  valas  comuns  do  mundo,  o  que  conta  9  500  prisioneiros políticos, 60 630 pessoas desaparecidas nos últimos 45 anos e que desde a assinatura dos acordos de paz retomou uma política seletiva de assassinato de líderes sociais e defensores dos direitos humanos. Para informações completas e fotos destas ligações dos heróis do Le Monde com o paramilitarismo colombiano, leia-se Venezuela: la presse française lâchée par sa source?

  

Venezuela, 20 de maio de 2017.

 

 

O original encontra-se em: www.legrandsoir.info/comment-le-monde-invente- la-repression-au-venezuela.html

 

 

1 Ver https://venezuelainfos.wordpress.com/2014/02/22/brevissime-cours-de-journalisme-pour- ceux-qui-croient-encore-a-linformation/.

2 Entrevista integral de Cristina Kirschner com Jorge Gestoso www.youtube.com/watch?v=- WM6nD6hPu0.

3 ambito.com/883274-tras-reunirse-con-michetti-correa-defendio-a-venezuela Ver também http://www.telesurtv.net/news/Long-rechaza-injerencia-de-EE.UU.-en-asuntos-internos-de- Venezuela-20170518-0039.html.

4 http://www.correodelorinoco.gob.ve/cancilleres-de-caricom-resaltan-solucion-pacifica-para- situacion-de-violencia-en-venezuela/. 

5 http://www.ultimasnoticias.com.ve/noticias/politica/papa-francisco-dialogo-venezuela-afectado-la- division-la-oposicion/.

6 www.state.gov/documents/organization/252179.pdf , (pág. 96).

http://www.southcom.mil/Portals/7/Documents/Posture%20Statements/SOUTHCOM_2017_post ure_statement_FINAL.pdf?ver=2017-04-06-105819-923.

8 Como reconhece Julio Borges, líder do partido de extrema-direita Primero Justicia e atual presidente da Assembleia Nacional, numa entrevista não complacente que lhe fez o jornalista da BBC Stephen Sackur, em 19 maio de 2017: bbc.co.uk/programmes/p052nsxd.

9 http://tatuytv.org/index.php/noticias/duelo/3680-terrorismo-hallan-sin-vida-y-con-signos-de- tortura-a-militante-del-psuv-secuestrado-en-zona-opositora.

10 Detalhes de vários casos no site Parquet bit.ly/2ro4iXE; bit.ly/2qE9MNb; bit.ly/2q5RsbU;

bit.ly/2rnNT5s.

11 albaciudad.org/2017/05/lista-fallecidos-protestas-venezuela-abril-2017/.

12 hastaelnocau.wordpress.com/2017/05/09/radiografia-de-la-violencia.

13 http://www.lavanguardia.com/internacional/20170507/422343873153/violinista-muerto- venezuela-manifestaciones.html.

14 www.desdelaplaza.com/poder/yeison-lo-mataron-manifestantes-la-mud-destacado/.

15 http://www.talcualdigital.com/Nota/142708/detenido-polisucre-por-asesinato-de-estudiante-de-la- ucv-carlos-jose-moreno.

16 https://venezuelainfos.wordpress.com/2014/03/15/fauxccupy-sous-les-masques-de-guy-fawkes-de- lopposition-venezuelienne/.

17 https://venezuelainfos.wordpress.com/2015/03/12/thomas-cluzel-ou-linterdiction-dinformer-sur- france-culture/.

18 https://venezuelainfos.wordpress.com/2015/08/04/venezuela-la-presse-francaise-lachee-par-sa- source/.

19 http://hinterlaces.com/61-afirma-que-responsables-de-manifestaciones-violentas-deberian-ir- presos/.

 

Publicado em: http://resistir.info/venezuela/como_os_media_inventam_repressao_na_venezuela.html

 

 

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