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Movimento pelos direitos do povo palestino e pela paz no Médio Oriente (MPPM)

 

A sua aldeia, Nabi Saleh, foi vítima do roubo de dezenas de hectares de terras e de uma nascente de água em proveito do vizinho colonato israelita de Halamish. Todas as sextas-feiras, durante anos, realizaram-se na aldeia protestos pacíficos, alvo de uma repressão que se saldou em três mortos e centenas de feridos, mais de metade da população de Nabi Saleh.

 

 

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A jovem Ahed Tamimi, de 16 anos, conhecida ativista palestina contra a ocupação, foi detida na madrugada do passado dia 19 de dezembro por forças do exército e polícia de fronteira de Israel que assaltaram a sua casa, na aldeia de Nabi Saleh, na Margem Ocidental ocupada.

 

A razão próxima da sua detenção é um vídeo que provocou reações de choque e ira em Israel. Nesse vídeo vê-se Ahed, juntamente com a sua a prima Nur, enfrentando com pontapés e bofetadas soldados israelitas armados. A ministra da Cultura, Miri Regev, declarou-se “humilhada, esmagada”; o ministro da Educação, Naftali Bennett, declarou que as jovens “deveriam acabar os seus dias na prisão”. No entanto, o vídeo começou por ser divulgado numa versão editada. Na versão integral vê-se que Ahed procurava afastar os soldados com pequenos empurrões e só depois de esbofeteada por um deles é que responde com bofetadas e pontapés.

 

No próprio dia 19, a mãe de Ahed, Nariman, foi presa quando ia visitar a filha à esquadra. A prima, Nur, foi presa no dia seguinte. A sua detenção tem sido sucessivamente prorrogada por um tribunal militar — os territórios palestinos ocupados são governados pelas forças armadas de Israel —, permanecendo as três encarceradas.

 

O ato das jovens da família Tamimi não foi gratuito. Pouco antes da cena registada no vídeo, no dia 15 de dezembro, um seu parente, Mohammed Tamimi, de 15 anos, tinha sido atingido na cabeça por uma bala de borracha disparada por um soldado israelita, tendo sido levado para o hospital a esvair-se em sangue e em perigo de vida. As duas jovens procuravam por isso impedir que os soldados invadissem o pátio da sua casa e a usassem para atacar os jovens da aldeia que protestavam contra a recente decisão estado-unidense de reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

 

A notoriedade de Ahed Tamimi, porém, vem de mais longe e faz parte de uma história de resistência à ocupação e à colonização.

 

A sua aldeia, Nabi Saleh, foi vítima do roubo de dezenas de hectares de terras e de uma nascente de água em proveito do vizinho colonato israelita de Halamish. Todas as sextas-feiras, durante anos, realizaram-se na aldeia protestos pacíficos, alvo de uma repressão que se saldou em três mortos e centenas de feridos, mais de metade da população de Nabi Saleh.

 

Ahed Tamimi participou desde os 9 anos de idade nesses protestos, em que o seu pai, Bassem, desempenhou um papel destacado. Aos 13 anos Ahed tornou-se conhecida por uma série de fotos em que, juntamente com a mãe e tia, tentava desesperadamente salvar o seu irmão ferido, Mohammad, então com 11 anos, de ser preso pelas forças israelitas.

 

Mas história de Ahed Tamimi é também um testemunho vivo da violência da repressão israelita.

 

Quando tinha 12 anos, um primo de sua mãe, Mustafa Tamimi, foi morto diante dos seus olhos por um disparo de uma granada de gás. Um ano depois, viu o seu tio Rashadi ser morto a tiro pelo exército israelita. E a 15 de dezembro viu Mohammed, quase da sua idade, atingido na cara por uma bala revestida de borracha que lhe penetrou no crânio.

 

O seu pai, Bassem, foi preso pelas autoridades israelitas mais de uma dezena de vezes, tendo passado mais de três anos em detenção administrativa, sem julgamento nem culpa formada; foi descrito pela União Europeia como “defensor dos direitos humanos” e designado prisioneiro de consciência pela Amnistia Internacional. A mãe, Nariman, já tinha sido detida cinco vezes. A sua casa já foi assaltada pelas forças israelitas mais de 150 vezes.

 

Além de ver sucessivamente prolongada a sua detenção, Ahed tem sido transferida entre várias prisões de Israel, em violação do direito internacional, que proíbe a transferência de palestinos do território ocupado para o território israelita.

 

Ahed Tamimi vem juntar-se aos mais de 300 menores palestinos atualmente presos nos cárceres de Israel. Segundo o Addameer, grupo de defesa dos presos palestinos, desde 2000, mais de 12.000 menores palestinos foram detidos e aproximadamente 700 menores palestinos da Margem Ocidental ocupada são processados todos os anos por tribunais militares israelitas, depois de serem detidos e interrogados pelo exército israelita.

 

A maioria dos menores relatam terem sido submetidos a maus-tratos — bofetadas, espancamentos e empurrões, privação de sono, além de insultos — durante os interrogatórios, para lhes extrair confissões forçadas, sendo muitas vezes obrigados a assinar documentos escritos em hebraico, apesar de não compreenderem a língua. Alguns dos jovens palestinos presos durante os protestos das últimas semanas e libertados recentemente, como Fawzi al-Juneidi, de 16 anos – cuja fotografia, vendado e rodeado por mais de vinte soldados, correu mundo – apresentam sinais evidentes de tortura e maus tratos. A organização Defence for Children International - Palestine assinalou que, só em 2017, 11 menores estiveram sujeitos a prisão solitária e que, em 520 casos de crianças palestinas detidas por Israel, entre 2012 e 2016, 72% enfrentaram violência física e 66% foram vítimas de insultos e humilhações.

 

Bem conhecida pela sua atitude destemida na resistência à ocupação, Ahed Tamimi é de há muito alvo de insultos e ameaças, e por isso corre na prisão riscos iminentes e muitíssimo graves. Na sequência da sua prisão, um destacado jornalista de Israel, Ben Caspit, chegou mesmo a defender que as raparigas palestinas presas deveriam ser sujeitas a alguma forma de punição violenta, “no escuro, sem testemunhas nem câmaras”.

 

O MPPM apela a todas as pessoas, organizações e instituições que prezam a liberdade e a justiça, e nomeadamente às instituições do Estado português, a que, com a urgência que a situação reclama, desenvolvam todos os esforços para obter a libertação imediata de Ahed Tamimi e de todos os menores presos por Israel.

 

O MPPM expressa o seu respeito e a sua solidariedade com Ahed Tamimi e com a corajosa luta de todo o povo palestino contra a ocupação e a colonização israelitas, e junta a sua voz ao clamor que no mundo inteiro se ergue para exigir a liberdade para Ahed Tamimi e todos os menores presos por Israel.

Lisboa, 29 de dezembro de 2017

A Direção Nacional do MPPM

 

Fonte. publicado em http://www.mppm-palestina.org/

 

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