Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Ivan Pinheiro (fevereiro de 2005)

 

Tribuna de debates ao XIII Congresso nacional do PCB

 

Alguns Congressos depois, ainda encontramos entre nós quem defenda as teses contra as quais nos insurgimos: o mesmo tipo diluído de partido, a mesma linha política de conciliação de classe, o etapismo, a aliança com a burguesia nacional, a ocupação de cargos a qualquer preço, o privilégio da luta institucional.

 

 

A bandeira da unidade dos comunistas vem sendo desfraldada pelo PCB, desde 1992, quando houve a ruptura com os liquidacionistas que fundaram o PPS, e deve continuar sendo objeto dos melhores dos nossos esforços.

 

Mas esta tarefa entre nós tem sido conduzida de forma errática e voluntarista. Nosso erro principal é a idealização da unidade, tanto política como orgânica, o que acaba por gerar um ambiente de subestimação da necessidade de fortalecimento do nosso próprio Partido, como se a unidade fosse um fim, um objetivo, uma fatalidade e não um meio, um processo, uma possibilidade. Isto é agravado pelas nossas próprias dificuldades de reconstrução. Neste processo que já dura 13 anos, desde o racha, é óbvio que os nossos resultados são insuficientes, com pouca inserção, tanto no movimento de massas como no campo institucional.

 

Não nos basta constatar as dificuldades que enfrentamos, que foram e continuam sendo grandes e concretas. A principal delas foi a herança da cultura reformista. Muitos dos companheiros que ficaram connosco o fizeram principalmente em defesa do PCB, de sua história, não necessariamente porque discordavam da política do Partido nos anos 80 e pelo desejo de reconstruí-lo revolucionariamente. Alguns Congressos depois, ainda encontramos entre nós quem defenda as teses contra as quais nos insurgimos: o mesmo tipo diluído de partido, a mesma linha política de conciliação de classe, o etapismo, a aliança com a burguesia nacional, a ocupação de cargos a qualquer preço, o privilégio da luta institucional.

 

Esse desânimo pela falta de resultados concretos, ao lado da ideia fatalista de fusão com outros partidos, levou-nos a um círculo vicioso, às vezes pendular, que precisa ser rompido. Nosso último grande erro nessa questão foi a resolução do último Congresso, no sentido de privilegiar nossos companheiros do PCdoB, nos esforços pela unidade comunista, que passamos voluntaristamente a chamar de reunificação comunista, como se, num passe de mágica, pudéssemos voltar no tempo há mais de quarenta anos atrás e restabelecer o partido comunista único que vigorava.

 

Na verdade, a direção do PCdoB, majoritariamente oriunda da AP, nunca quis a reunificação comunista da maneira que nós formulávamos, ou seja, um processo de amplo debate de idéias (algumas divergentes), de convívio no movimento de massas, de conhecimento mútuo e aproximação, de unidade de ação, que poderia (ou não) resultar na fusão dos dois partidos. A direção política dos nossos parceiros jogou o tempo todo no caminho que não os ameaçava: a aposta na anexação do nosso Partido, na cooptação de alguns arrivistas em nosso meio, na lógica do maior e do menor.

 

Devemos reconhecer que foram eficientes. Nas poucas conversas bilaterais, reservadas, ouviam-se suaves palavras de unidade. Em seus meios de divulgação, a sutil arrogância hegemonista. São exemplos desta postura alguns textos tentando “explicar” as diferenças entre os dois partidos, ou insinuando a iminência da fusão, ou noticiando “rachas” no nosso Partido, exagerando “fluxos migratórios” de militantes abandonando o PCB para se somarem a eles. De nosso lado, jamais recorremos a esses expedientes, apesar de recebermos constantemente em nossas fileiras militantes egressos do PCdoB.

 

Não creio que nossos amigos tenham dado tanto destaque aos nomes dos mais variados partidos dos quais receberam milhares de filiados recentemente, alguns já como candidatos às últimas eleições municipais, oriundos até do PFL. Não hesitaram sequer em se aproveitar de nossas divergências manipulando em sua imprensa a presença de membros de nossa direção nacional em eventos por eles promovidos.

 

Na verdade, à direção do PCdoB interessava apenas criar e fortalecer a impressão de que os dois partidos se fundiriam no curto prazo, com o objetivo de formar uma espécie de dique em torno de sua militância, sobretudo para os que poderiam vir a divergir, à esquerda, da ampla política de alianças do partido. Para que ingressar no PCB se este vai se anexar em breve, minoritariamente, ao PCdoB?

 

Esta equivocada opção preferencial acabou por aprofundar o desânimo no seio de nossa militância, inibir a aproximação de militantes que nos tinham como opção política e nos afastar de outras forças e correntes políticas comunistas.

 

Pessoalmente, como dirigente do Partido, participei nos últimos anos, com outros companheiros indicados pela Direção, de diversos encontros bilaterais com outras correntes comunistas. Todas, sem exceção, deixaram claro que não prosseguiriam entendimentos com vistas à unidade connosco, inclusive a orgânica, pelo risco de entrarem num partido que desembocaria no PCdoB, com o qual não queriam qualquer relacionamento.

 

Este erro trouxe grandes prejuízos para o nosso Partido nos últimos anos, sobretudo mais recentemente, com o agravamento de nossas divergências com os nossos interlocutores, em função de suas duas últimas resoluções políticas: a “consecução de um projeto democrático, nacional-desenvolvimentista” e a “construção de um partido comunista de massas”.

 

Mas foi com o advento do governo Lula que as divergências ficaram mais transparentes, passando da teoria para a prática. Afinal, éramos todos oposição ao governo FHC! Um eventual governo Lula não passava de um cenário.

 

É natural que o debate em nosso meio acabe imbricando a questão da unidade comunista com nossa postura frente ao governo Lula, porque é nele que se dá a discussão sobre o projeto nacional-desenvolvimentista e todos seus pressupostos, como a política de alianças. A postura frente ao governo Lula é um divisor de águas em várias correntes de esquerda. Não é à toa que, entre nós, os maiores entusiastas da anexação ao PCdoB sejam os maiores entusiastas do governo Lula.

 

A linha política faz do PCdoB o mais fiel e contemplado aliado do Presidente Lula, o que obriga seus parlamentares e militantes a se pronunciarem publicamente em defesa de todas as propostas de interesse do governo federal, como temos assistido nas questões da reforma da Previdência, dos leilões da Petrobrás, do salário mínimo, nas PPPs.

 

Aceitando assumir a Articulação Política (Ministério recém-criado, o único sem qualquer conotação técnica) o PCdoB assinou um pacto de fidelidade com o governo Lula, que cola os destinos de ambos. O exercício desse cargo transforma seu ocupante, como diz o Presidente Lula, numa espécie de capitão do time, no relacionamento com forças e personalidades políticas, da situação e da oposição, incluindo a tarefa de chefiar a fiscalização da fidelidade na base aliada e a administração do cotidiano do balcão de interesses do ambiente parlamentar partidário, no atacado e no varejo.

 

Que ninguém se iluda. Não cabe qualquer conciliação no XIII Congresso do PCB. Não é que não haja vontade de conciliar. É que, desta vez, como em 1992, não há o que conciliar. Todos terão que se pronunciar claramente, sobretudo os membros da direção. A vida está nos impondo escolhas impostergáveis.

 

Caberá ao nosso Congresso resolver as divergências que vêm paralisando o Comitê Central do nosso Partido. Para isso, as questões que se imbricaram têm que ser resolvidas com coerência política. Francamente, se optarmos pela linha política hoje adotada pelo PCdoB, não terá qualquer sentido a manutenção do PCB, a não ser como um bem tombado ao património histórico. Será melhor se render ao tamanho, à competência e à experiência dos nossos amigos para ocupar espaços institucionais, sem amadorismo nem intermediários.

 

Num ponto os arrivistas têm razão. Sem dizerem o nome do PCdoB, afirmam sempre que há espaços mais consequentes para apoiar o governo Lula. Pelo menos no curto prazo o “partido comunista de massas” será muito maior do que o nosso, mais poderoso, com muito mais influência na sociedade, certamente captando muito mais voto nas eleições do que o PCB. No movimento comunista internacional, muitos partidos se enfraqueceram ou se fortaleceram, foram extintos ou preservados. Muitos tiveram que sobreviver isolados, com poucos espaços e pouca influência. A história é rica em exemplos os mais variados. Mas o decisivo será a correção da nossa linha política, a manutenção da perspetiva classista, a disciplina consciente, a formação de quadros, o internacionalismo proletário, a inserção do Partido nas lutas de massas.

 

Em nosso Congresso, estaremos diante da responsabilidade histórica de resolver a crise de identidade do PCB, de decidir se esgotou-se o seu papel, se é hora de encerrar seu ciclo. Trata-se de decidir se o PCB ainda tem um papel a jogar na construção do socialismo.

 

Alinho-me entre aqueles que são pela manutenção do PCB. Mas deixo claro que só acredito na possibilidade de o PCB sobreviver, como Partido e não como património histórico, se o XIII Congresso reafirmar a linha política do nosso último Congresso, reforçada pela Conferência Política de São Bernardo, se atualizar sua tática nos termos da Tese do Secretariado Nacional sobre a conjuntura nacional, se privilegiar o melhor de seus esforços no movimento de massas, se renovar radicalmente sua direção nacional, se reforçar a direção coletiva, se formar e prestigiar quadros, preferencialmente os jovens e se romper com qualquer idéia de fusão ou anexação orgânica com qualquer agrupamento e apostar na unidade de ação com aqueles que ainda objetivam a ruptura do sistema capitalista e não sua reforma.

 

Notas

[1] Mantém-se a variante do português do Brasil. - NE

 

Fonte: “Um olhar comunista”, Ivan Pinheiro, MGRAF – Gráfica e editora, Coordenação Editorial de Fundação Dinarco Reis, Rio de Janeiro.

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.