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David Rosen*

 

Em 1930, o economista John Maynard Keynes previu que, no prazo de um século, o aumento da produtividade significaria que todos estaríamos a trabalhar 15 horas semanais. A pouco mais de uma década desse prazo, tudo indica que essa previsão não se irá verificar.

 

 

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Quando 2017 chega ao fim, é importante lembrar que este ano marca o 200.º aniversário da reivindicação de uma semana de trabalho de 40 horas para os trabalhadores. O movimento pelo dia de trabalho de 8 horas envolve, não só mudanças na semana de trabalho, mas também a luta pelo poder de classe. Os pontos de referência nesta história da semana de trabalho esboçam a reconfiguração do moderno capitalismo:

 

1817 – Robert Owen, um bem-sucedido fabricante galês, ativista dos direitos laborais e fundador da comunidade utópica da New Harmony, acreditava na divisão do dia em três partes iguais, de 8 horas – “oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso”.

 

1869 – Numa altura em que os trabalhadores trabalham 12 a 14 horas por dia, 6 dias por semana, o Presidente Ulysses Grant emite uma proclamação garantindo uma jornada de trabalho de 8 horas por dia sem uma diminuição no salário, mas só para os trabalhadores do governo.

 

1926 - Henry Ford implementou a semana de trabalho de 5 dias e 40 horas para os trabalhadores da sua empresa de fabricação de automóveis; lembrou aos seus colegas barões usurpadores: “É hora de nos livrarmos da noção de que o lazer para os trabalhadores é, ou perda de tempo, ou um privilégio de classe”.

 

1930 – Enquanto a Grande Depressão continuava violenta, o magnata dos flocos de milho, W. K. Kellogg, introduziu o dia de trabalho de 6 horas na sua fábrica em Battle Creek, MI.

 

1940 - O Congresso alterou a Lei de Padrões de Trabalho Justo, de 1938, que limitou a semana de trabalho de 44 horas, ou 8,8 horas por dia, a 40 horas, 8 horas por dia.

 

1970 – A Reserva Federal de Minneapolis informa que a média da semana de trabalho foi de 38,8 horas.

 

Mais preocupante, a FED também informa que, entre 1970 e 2000, a média da semana de trabalho aumentou para 40,5 horas. Um Bureau of Labor Statistics (BLS) [Escritório de Estatísticas do Trabalho] de 2016, estima que essa média atinja as 43 horas por semana, ou 8,6 horas por dia.

 

A semana de trabalho de 40 horas está a desaparecer. As pessoas estão a trabalhar mais horas na nova e sempre tão badalada economia “informal” de escravos assalariados altamente qualificados e independentes. E isto ocorre quando a semana de trabalho deveria ser reduzida para metade, com salários e benefícios por inteiro.

 

***

 

Quantas horas trabalhais todas as semanas? Quantas horas gastais todos os dias “a trabalhar”?

 

Quanto tempo estais escravizados no vosso computador, seja num escritório, em casa, num café, ou num espaço de trabalho partilhado? Quanto tempo sacrificais a aumentar as vendas numa loja local?, a fazer trabalho burocrático no emprego público?, ou a embrulhar mercadorias na expedição de um armazém? Quantas horas a dirigir uma sonda ou uma carrinha? Quanto tempo a fechar um acordo?, a trabalhar numa reunião ou (se tiverdes sorte) num jantar reembolsável ou numa receção? E quanto tempo gastais para fazer chamadas pessoais, tomar um café ou fazer uma pausa para fumar um cigarro, ou, simplesmente, para falar com os colegas de trabalho? Tudo isso é trabalho, faz parte do trabalho e, provavelmente, totaliza muito mais do que as 40 horas por semana.

 

Noutros tempos, as pessoas tinham um “salário diário justo” por um “um dia de trabalho justo”. O grande “sonho americano” pós II Guerra Mundial visionava um mundo no qual o – branco, homem – trabalhador industrial se deslocava para o trabalho, registava as 8 horas de turno (se trabalhasse mais recebia horas extraordinárias) e ia para casa, tomava uma bebida, comia uma refeição noturna cozinhada pela sua mulher, passava tempo com a família, punha as crianças na cama, ligava a TV para uma hora ou duas de distração e ia para a cama.

 

Hoje, ninguém parece saber quanto tempo os americanos trabalham por semana. Em 2016, o BLS fixou-o em 43 horas semanais; em 2014, um inquérito da Gallup apresentava como média 47 horas semanais (9,4 horas por dia), com muitos inquiridos a dizer que trabalham 50 horas. Um estudo de 2016 da Upwork e da Freelancers Union concluiu que os freelancers a tempo inteiro estão a trabalhar 36 horas por semana. Outros relatam que aqueles que trabalham nos média, alta tecnologia, venda a retalho e noutros setores, incluindo os freelancers, trabalham perto de 60 horas por semana.

 

Quaisquer que sejam as horas de trabalho que cada um tem definidas no emprego, sabe-se que não representam a totalidade ou a realidade do efetivo horário que praticam. Todos sabem que o dia do trabalho tem duas partes: o emprego propriamente dito e o seu impacto no resto da vida de cada um. No mundo das comunicações instantâneas, facilitadas pela internet e os smartphones, uma crescente proporção de americanos pós-modernos vive o trabalho 24 horas por dia, 7 dias por semana. Hoje, muito do trabalho diário consome horas intermináveis ​​de vida familiar – ou pessoal – respeitantes à sua preparação, deslocações, limpeza de roupa e compra do almoço, assim como às preocupações sociais e familiares. Tudo isso é considerado trabalho não pago exigido para facilitar o emprego, o trabalho.

 

***

 

Nos dias de hoje, as pessoas fazem mais ou menos as mesmas coisas (se não mais) que faziam ontem, mas fazem-nas de forma diferente. Contudo, a vida de trabalho dentro e fora do emprego está a tomar uma maior parte da vida dos trabalhadores, comprimindo todos os outros segmentos.

 

Após a II Guerra Mundial ocorreu uma mudança fundamental na relação trabalho-vida americana, à medida que o consumismo substituiu o tempo livre e as mulheres se integraram de forma crescente na força de trabalho para apoiar o lar com dois rendimentos. Num discurso de campanha, em 1956, o vice-presidente Nixon previu a possibilidade de uma semana de trabalho de 32 horas, sob as seguintes condições: “A semana de trabalho apenas pode ser reduzida quando essa redução não reduza a eficiência nem reduza a produção”. Três fatores vieram confirmar a previsão de Nixon, ao conceder aos americanos a semana de 32 horas de trabalho.

 

Primeiro, a incessante automatização do processo de trabalho trouxe uma mudança fundamental ao trabalho no segundo emprego, para não falar do trabalho semanal. O cérebro substituiu o músculo, o digital superou o analógico e a globalização reconfigurou o mercado doméstico. Em conjunto, essas forças aumentaram a produtividade, desenvolveram a eficiência e sugaram a vida à vida de trabalho.

 

Segundo, a força de trabalho foi reconfigurada. Desde o tempo de Nixon, os sindicatos foram sistematicamente esmagados e uma percentagem crescente da força de trabalho tornou-se precária – trabalhadores independentes, freelancers ou tarefeiros. O BLS estima a força laboral civil em 160 milhões de trabalhadores, dos quais cerca de 11% “autoempregados” e 22% precários, isto é, cerca de 35 milhões de trabalhadores. Outros estimam uma percentagem mais elevada: um estudo da McKinsey coloca-os nos 27% e um estudo de Upwork e da Freelancers Union afirma que “a força de trabalho em regime freelancer cresceu de 53 milhões em 2014, para 55 milhões em 2016 e representa hoje 35% da força de trabalho nos EUA”. A Upwork/Freelancers Union projeta que o sector freelancer – trabalho precário – atinja os 40% da força de trabalho em 2020.

 

Terceiro, e também de fundo, segundo o Center for American Progress “em 1960, só 20% das mães trabalhavam. Hoje [2010], 70% das crianças norte-americanas vivem em lares em que todos os adultos estão empregados”. O Bureau of Labor Statistics (BLS) estima que, entre 1969 e 2000, a semana de trabalho para os casais – combinando homem e mulher – aumentou de 56 horas para 67 horas. O lar de dois empregados é o novo normal.

 

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Em 1930, o economista John Maynard Keynes previu que, no prazo de um século, o aumento da produtividade significaria que todos estaríamos a trabalhar 15 horas semanais. A pouco mais de uma década desse prazo, tudo indica que essa previsão não se irá verificar.

 

Outros economistas partilharam variantes da previsão de Keynes. Argumentaram que, à medida que as economias avançadas se tornavam mais produtivas, as pessoas escolheriam trabalhar menos horas. Infelizmente, isso não aconteceu.

 

Nos EUA, o capitalismo triunfa! A partir da grande revolução consumista, após a II Guerra Mundial, os americanos trocaram uma mais curta semana de trabalho por mais elevados níveis de consumo – e sempre por crescentes níveis de endividamento. A recentemente aprovada vigarice republicana das alterações fiscais consagra o plano do Presidente Trump de “Tornar a América Grande de Novo”. O apelo a uma semana de trabalho mais curta parece tão fora do tempo como os grandes movimentos utópicos do séc. XIX.

 

O capitalismo forjou um sistema global dominado pela finança e, de forma sempre crescente, acaba por dominar sistematicamente todos os momentos ou aspetos da vida pessoal. No trabalho ou no lazer, no escritório, em casa ou em férias, os americanos sabem como funcionar como sujeitos e objetos, comprar e vender. O mercado é o intermediário da máscara da individualidade, mas está a ser posto em causa em todo o mundo.

 

Em alguns países do mundo capitalista avançado há esforços para reduzir a semana de trabalho. Por exemplo, o maior sindicato alemão, o IG Metall, pressiona para uma semana de trabalho de 28 horas. Segundo o Independent, do Reino Unido, “o sindicato argumenta que os trabalhadores devem ter uma parte justa dos benefícios do crescimento da economia alemã, sob a forma de melhores salários e um melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal”.

 

O jornal refere também que, no Reino Unido, os trabalhadores dos correios (Royal Mail), representados pela Communication Workers Union (CWU) votaram recentemente uma greve, sendo uma das suas reivindicações centrais o apelo para a redução da semana de trabalho para 32 horas e quatro dias. Os Verdes juntaram-se ao coro, apelando a uma semana de trabalho mais curta, assim como a um rendimento garantido adequado. Até o multimilionário mexicano Carlos Slim defendeu uma semana de trabalho de três dias como um melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal.

 

O capitalismo também triunfa porque conseguiu conter, de facto, o debate social sobre a desigualdade. O aparecimento do Occupy Wall Street, em 2011, reintroduziu a desigualdade no vocabulário político dos EUA. A campanha de Bernie Sanders, em 2016, constatou a desigualdade, colocando-a como uma questão chave da atual luta social. As recentes vitórias eleitorais do Partido Democrata, na Virgínia e Nova Jersey, a disputa senatorial no Alabama, bem como os ganhos conseguidos na Câmara de Delegados da Virgínia podem indiciar o que virá nas eleições intercalares de 2018. Então, os confrontos a nível local e estadual sobre o plano fiscal dos republicanos poderão ter impacto. Por agora, o debate acabou e o 1% ganhou!

 

Trump é um grande homem do espetáculo e, quase todos os dias, através de tweets e comunicados de imprensa, deita poeira nos olhos do público americano. Combinando a habilidade dos espetáculos de circo P.T.Barnum e do entretenimento americano de Dick Clark, Trump seduz e envolve a sua audiência, oferecendo um infindável fluxo de veneno como sendo um astucioso jogo de distração. E os populares média – dominantes, de direita ou de esquerda –, promovem a distração. A sua ficção ecoa nos noticiários, na conversa dos comentadores e nos escândalos sexuais. Tudo serve para fazer com que os americanos esqueçam as desigualdades e que os trabalhadores têm vindo a lutar, desde há cerca de dois séculos, pela semana de trabalho de 40 horas.

 

* David Rosen é o autor de Sex, Sin & Subversion: The Transformation of 1950s New York’s Forbidden into America’s New Normal (Skyhorse, 2015). Pode ser contatado em drosennyc@verizon.net, ou em www.DavidRosenWrites.com.

 

Fonte: publicado em 217/12/29, em https://www.counterpunch.org/2017/12/29/what-happened-to-the-40-hour-workweek/

 

Tradução do inglês de MFO.

 

 

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