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Srećko Vojvodić

O reatamento da atividade legal dos comunistas indonésios é, em si, um importante acontecimento moral, independentemente de como se desenvolverá o PCI mais à frente, que papel desempenhará na vida política e social do seu país e de quantos comunistas conseguirem alcançar a confiança das massas, da classe operária.

 

 

O ensaio seguinte trata do reinício da atividade legal do Partido Comunista da Indonésia, após 50 anos de proibição.

O artigo oferece informação interessante sobre a heróica e trágica história daquele que foi o maior Partido Comunista no mundo que não esteve no poder e expressa o otimismo de que as novas gerações de comunistas indonésios continuarão no caminho da luta, juntando-se ao movimento marxista-leninista, pela concretização do ideal comunista.

 

Communist Party of Indonesia.jpg

 

Prólogo

 

Este assunto tem uma grande importância moral para nós, comunistas. Aqui falamos do Partido Comunista da Indonésia. É rica a sua história de criação, tragédias e bravura dos comunistas, e crimes contra eles cometidos pela reação burguesa. Agora, depois de uma proibição de 50 anos, o Partido Comunista da Indonésia realizou a sua Convenção e retomou a atividade legal no seu próprio país.

 

A sua experiência

 

Um dos maiores partidos comunistas do mundo, um dos maiores partidos comunistas da Ásia, o Partido Comunista da Indonésia tinha, na altura em que foi proibido, 1965, aproximadamente três milhões de membros e seguidores. Era o terceiro partido comunista mais numeroso do mundo, logo a seguir ao Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e ao Partido Comunista da China (PCCn).

 

A história do Partido começou em maio de 1920. A Indonésia é um país que se estende por um vasto arquipélago no sudeste da Ásia que, naquela altura, era uma colónia holandesa.

 

O social-democrata Henk Sneevelt começou a reunir os seus camaradas, social-democratas de esquerda – holandeses e locais, e organizou o Congresso fundador de um partido que entrou para a história depois disso, como Partido Comunista da Indonésia. É portador do seu nome desde 1924.

 

Quem era Henk Sneevelt? Não sendo muito jovem, tinha cerca de 40 anos, tinha acumulado muita experiência no trabalho sindical na Holanda e, por essa razão, foi indigitado como representante da Secção Oriental da Internacional Comunista. Depois da fundação do Partido Comunista da Indonésia foi para a China, onde esteve na fundação do Partido Comunista da China, em Xangai. Também foi ele que convidou para este congresso, entre outros, um jovem estudante da Universidade de Pequim, Mao Tse-tung, vendo nele traços de um futuro dirigente comunista.

 

Depois de ter trabalhado na Secção Oriental da Internacional Comunista, Henk Sneevelt regressou à Holanda, ocorrendo a sua dramática rutura com a direção comunista holandesa,  o seu desvio para as posições do trotskismo e depois o seu rompimento com Trotsky. Mais tarde, nos anos da II Guerra Mundial, foi deputado independente na Holanda, chegou à direção da Resistência clandestina e organizou a maior greve contra o hitlerismo no tempo da ocupação nazi da Europa ocidental, em novembro de 1941. Foi preso e executado pela Gestapo, em abril de 1942. Não tinha ainda 60 anos.

 

O Partido fundado por Sneevelt desenvolveu-se do mesmo modo que muitos outros partidos orientais da Internacional Comunista – Partidos Comunistas asiáticos: atravessou o Terror Branco, em 1926, a luta contra os colonizadores, a ocupação japonesa e a resistência armada aos aliados japoneses de Hitler.

 

Depois da queda do militarismo japonês, em 1945, os nacionalistas indonésios, liderados pelo presidente Sukarno, começaram a sua luta pela independência contra os holandeses e as suas leis coloniais. O PCI apoiou Sukarno – como qualquer força patriótica deveria fazer – tendo recebido uma amarga ingratidão. Não foi ninguém senão Sukarno que, juntamente com os nacionalistas indonésios e os generais islâmicos, montou uma provocação armada, em 1948, envolvendo o exército e formações armadas do Partido, cujo resultado foi um sangrento massacre dos comunistas indonésios, tendo sido morto o então secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista da Indonésia, Munawar Musso, e o membro da comissão política, Amir Sjarifuddin, que era o ministro da defesa do governo de coligação de comunistas e nacionalistas – o governo anticolonialista de Sukarno.

 

Porém, percebendo que ainda poderia precisar dos comunistas na luta contra os generais islâmicos e os colonizadores holandeses, depressa deixou de proibir o Partido Comunista, esperando que os seus novos dirigentes lhe fossem mais leais que  Munawar Musso e Amir Sjarifuddin, que ele tinha executado.

 

E, realmente, dirigiam o Partido Dipa Nusantara Aidit, Njoto, M. H. Lukman e alguns outros, orientados para o vitorioso Partido Comunista da China e para uma colaboração do Partido Comunista da Indonésia com o PCCn.

 

Em 1951, a completa legalidade da atividade do PCI foi restaurada e, nesse ano, os comunistas indonésios adotaram o programa do seu partido, que tinha – como  a vida mostrou mais tarde – muitos pontos erróneos e confusão, o que forçou o secretário-geral do PCUS(b), I.Estaline, a expressar a sua crítica ao esboço do programa do PCI. Infelizmente, em condições de semilegalidade e terror contra o PCI, levado a cabo pelos generais islamitas, na ausência de uma ligação direta entre o PCI e o PCUS(b), as opiniões de Estaline só chegaram à nova direção do PCI já depois da aprovação do novo programa.

 

Em vez de tomar as críticas em linha de conta para a sua atividade política, os dirigentes do PCI escreveram uma resposta a Estaline refutando praticamente todas  as suas considerações, mostrando uma autossuficiência de principiantes: o seu líder Aidit, na altura, ainda não tinha 30 anos! Apenas um dos membros da Comissão Política – Rinto, que era realmente o Professor Iskandar Subetki, eminente marxista que falava fluentemente a língua holandesa, o inglês e várias outras línguas estrangeiras, educado na Europa, largamente familiarizado com os trabalhos dos clássicos do marxismo –, expressou a sua discordância e escreveu uma carta separada a Estaline, pedindo-lhe um esboço de algumas ideias sobre as perspetivas da revolução indonésia. Para espanto de Aidit e Njoto, Estaline respondeu à carta do camarada Subetki, convidando-o, e a outros comunistas indonésios, para participarem no 19.º Congresso do PCUS em outubro de 1952.

 

Subetki chegou a Moscovo e, mais tarde, em dezembo de 1952, Dipa Nusantara Aidit e Njoto também chegaram à capital a União Soviética, depois de participarem no Congresso do Partido Comunista da Holanda. Assim, nos primeiros dias de janeiro de 1953, começaram as conversações  do PCI com Estaline: sobre as forças motrizes, as perspetivas e a natureza da revolução indonésia.

 

As conversações foram bastante interessantes e significativas, fraternas. Estaline tentou convencer os comunistas indonésios de que as suas conclusões eram corretas. Conseguiu fazê-lo completamente.

 

Com base nestas conversas, Estaline elaborou um longo documento em 16 de fevereiro de 1953, dirigido a Aidit: “Sobre a natureza e as forças motrizes da revolução indonésia, as perspetivas do movimento comunista na Ásia oriental  e a estratégia e a tática dos comunistas na questão agrária”. De facto, este foi o último trabalho teórico de Estaline, infelizmente desconhecido na URSS durante muito tempo. Foi pela primeira vez publicado em língua russa, em 2009, editado diretamente a partir do seu manuscrito. O documento original encontra-se no Arquivo Presidencial da Federação Russa, Fundo de Estaline.

 

Este último trabalho teórico de Estaline, de 16 de fevereiro de 1953, duas semanas apenas antes da sua morte, é muito interessante, em primeiro lugar, porque ele formulou o ponto-chave da revolução indonésia: a questão agrária. Criticou os comunistas indonésios quando escreveram: “Lutaremos contra o feudalismo”, sem clarificar de que restos de feudalismo estavam a falar e insistia claramente em que o PCI devia adotar a palavra de ordem de entregar a terra aos camponeses indonésios como sua propriedade privada, sem compensação – fornecendo uma firme explicação teórica da razão por que deveria ser assim, de como a situação agrária na Indonésia naquela altura era diferente da situação pré-revolucionária na Rússia, da situação agrária na Europa ocidental e por que razão, consequentemente, na Indonésia se aplicava a palavra de ordem sobre a entrega da terra aos camponeses como sua propriedade privada, sem compensação, por que razão ela era necessária, e explicando também por que motivos uma palavra de ordem de nacionalização da terra não funcionaria naquela situação concreta.

 

Foi exatamente neste trabalho que Estaline levantou a questão da Frente Nacional, alertando a direção do Partido Comunista da Indonésia para a possível absorção do partido pela burguesia nacional, para a conversão do Partido num apêndice do presidente Sukarno e da sua clique, com o objetivo de que os comunistas da Indonésia não se convertessem em moeda de troca, numa luta de clãs entre nacionalistas e islamitas, entre os colonizadores diretos e os seus cúmplices, com o objetivo de conduzirem uma linha política autónoma, de aliança da classe operária com o campesinato, e dizendo que quanto mais forte fosse essa aliança, mais firmes seriam as posições do Partido na Frente Nacional.

 

O trabalho é interessante em si mesmo, porque é uma abordagem completamente antidogmática. Por exemplo, quando analisa a situação agrária na Rússia nas vésperas da Revolução de Outubro, Estaline avalia positivamente, não apenas o programa agrário dos bolcheviques, mas também o dos Socialistas Revolucionários (SR), chamando “partidos socialistas” a ambos. Mais adiante afirma que outubro saiu vitorioso devido à aliança da classe operária com o campesinato, que se materializou politicamente em ações comuns dos dois partidos socialistas, Bolcheviques e Socialistas Revolucionários – o que era absolutamente uma visão não tradicional nas ciências sociais soviéticas naquela altura!

 

Nestas circunstâncias, o PC Indonésio, naturalmente, armou-se com todas estas clarificações. As formulações de Estaline encontraram o seu lugar, também, numa nova versão do programa do PCI, adotado em 1954, e num grande trabalho teórico de Aidit, publicado um ano depois. É claro, dadas as circunstâncias da campanha de desacreditação da luta revolucionária pelo socialismo e o comunismo de Krustchov, sob a capa absurda do “antiestalinismo”, o nome de Estaline não é mencionado em lado nenhum nestes documentos e as suas formulações só foram conhecidas depois de terem sido publicadas em russo, em 2009.

 

Na prática, o mero facto de terem sido implementadas as sugestões de Estaline no sentido de centrar o foco do trabalho político do PCI nas aldeias, resultou em tal crescimento da força do PCI  e do número dos seus militantes,  que se tornou o terceiro mais poderoso partido comunista do mundo.  O ingresso de camponeses em massa, a criação de associações de camponeses dirigidas pelos comunistas, o reforço das posições do Partido no movimento dos trabalhadores refletiram-se em vitórias eleitorais e no aumento do prestígio dos comunistas na sociedade indonésia. Três milhões de membros e seguidores, entre os quais dois milhões eram membros do Partido, e um milhão membros da organização de juventude, sindicatos, camponeses, mulheres e outras organizações dirigidas pelos comunistas. Estes números falam por si. E estes números não são míticos, estão abundantemente documentados. 

 

O aumento das contradições sociais na Indonésia, a ausência de solução para a questão agrária e o agravamento da situação do povo trabalhador, tudo isto, coberto por palavras de ordem nacionalistas e pela retórica anti-imperialista do presidente Sukarno e do seu amigo Khrushchov, resultou numa gradual viragem do PCI para a oposição ao regime de Sukarno, apesar de dois dos seus membros continuarem a ser ministros do seu gabinete – sendo um deles membro da Comissão Política, Njoto, numa nova inclinação para as posições do maoismo –  vendo na afirmação de Mao “a espingarda sustenta o poder” uma solução simples para todos os problemas da sociedade indonésia.

 

As atitudes de Khrustchov contribuíram muito para isto. Encontrava-se muitas vezes com Sukarno, presenteava-o com peças exclusivas do tesouro da URSS – sem consultar ninguém, chamando-lhe “distinta figura progressista do nosso tempo”, enquanto tratava os comunistas indonésios como seus criados. Ao contrário de Estaline, que não poupava tempo nem esforços para, fraternalmente, os convencer da validade dos seus argumentos, Khrushchov tratava-os com arrogância, como um  latifundiário trata os seus servos: “O chefe disse, ponto final! Os que discordavam: rua”. Tudo isto contribuiu para a atmosfera e o pano de fundo psicológico para a transição da direção do PCI para uma linha maoista.   E isto tornou-se numa das principais causas da tragédia que ocorreu em 30 de setembro de 1965 e a subsequente queda do PCI: a liquidação física da maioria de um milhão de comunistas e seus seguidores às mãos da reação burguesa.

 

Uma explosão iminente

 

À superfície e nos corações de um mar de camponeses analfabetos mas devotados, a Indonésia era governada pela fraseologia pseudorrevolucionária de Sukarno sobre o “Socialismo indonésio” – que, na retórica, beneficiava toda a gente, desde os camponeses sem terra até aos latifundiários hereditários, com a burguesia intermediária e a crescente burocracia pelo meio. Na verdade, houve avanços significativos, principalmente na saúde e na educação, mas em geral a economia baixou: no princípio dos anos 60 a sua produção estava abaixo dos níveis de 1940. A indústria trabalhava a ¼ da sua capacidade, especialmente pela falta crónica de matérias-primas, e o orçamento, em 1961, recebeu apenas ⅛ do rendimento previsto do setor estatal! Mesmo os caros equipamentos, importados em massa, estavam parados por falta de qualquer planeamento sistémico –, muitas vezes deixavam-se degradar ou eram simplesmente roubados.

 

Em tais circunstâncias, o financiamento regular das forças armadas cessou e os comandantes dedicaram-se ao negócio, ao ponto de saquear a propriedade do Estado, fazerem contrabando e, até, traficarem droga. Muitos jovens oficiais, nascidos na pobreza, rapidamente se misturaram com intermediários de terras e latifundiários e tudo isto, inevitavelmente, favoreceu o desenvolvimento de sentimentos e mundividências militaristas, inimigas dos políticos em geral e dos comunistas em particular.

 

Preparando as condições para o estabelecimento da sua ditadura e a supressão de todas as tentativas de resistência, os militaristas indonésios focaram os seus esforços principais nas aldeias. Desde o tempo em que o estado de emergência foi introduzido, em 1957, os comandantes do exército dirigiam todos os assuntos das aldeias: designavam e substituíam os chefes das aldeias, instruíam administradores e assim por diante. De facto, a cúpula do exército decidiu, como disse um jornalista americano “competir com o PCI no campo do trabalho de massas”. O então ministro da Defesa, General Nasution, atribuiu às tropas desmobilizadas depois do conflito da Nova Guiné com a Holanda, entre 1961 e 1963, uma “missão cívica” a que chamou “Operação trabalho”. Estes soldados lavravam a terra virgem com os aldeões, construíam e reparavam casas, escolas, centros de saúde, estradas, canais e diques: distribuíam sementes aos agricultores, alfabetizavam-nos e ensinavam-nos a purificar a água. À luz de um constante adiamento da reforma agrária, esta “missão cívica” do exército atraiu muitos camponeses. Contudo, o trabalho útil era sempre acompanhado por lavagens propagandísticas ao cérebro, quer dos camponeses, quer dos soldados, e sempre num espírito anticomunista.

 

Segundo a doutrina de Nasution, a atividade “cívica” dos militares fazia parte da preparação do exército para a “defesa do país”, em conjunto com os camponeses, como nos tempos da guerra contra os holandeses. Contudo, desta vez “o inimigo” não era externo, mas interno. As aldeias não estiveram tanto a ser preparadas para a guerra, mas para o terror de massas. Escoltas armadas dos latifundiários, destacamentos de religiosos fanáticos e gangues criminosos estavam todos misturados num sistema de formações terroristas  para massacres. Como na América Latina, iriam ser conhecidos muitos anos depois como “esquadrões da morte” – conforme o nome de um deles.

 

A orientação política do regime entre blocos sociais e de classe antagónicos estava gradualmente a esgotar-se, juntando-se a isso a proximidade da  transição de todo o poder para as mãos de um deles. Esta crise nacional geral apenas podia ser resolvida   de uma de duas formas:

 

. ou uma ditadura revolucionária-democrática do povo trabalhador, com a hegemonia do proletariado, o que abriria uma perspetiva socialista no país;

 

. ou uma ditadura reacionária das classes exploradoras, com a hegemonia da burocracia corrupta (só ministros eram 100!), misturada com empresários fardados. Os comunistas costumavam chamar “cabirs” (capitalistas-burocratas) a esse conjunto de exploradores.

 

A explosão estava inexoravelmente a aproximar-se. Em agosto de 1965, o presidente respondeu publicamente ao apelo do Comité Central do PCI para “o reforço da ofensiva revolucionária”. O Procurador-geral declarou que o poder judicial estava pronto para a liquidação dos “cabirs”. Em setembro, as forças de esquerda sairam várias vezes às ruas de Jakarta com a palavra de ordem “Morte aos cabirs!”. A 8 e 9 de setembro, os manifestantes e os comunistas cercaram o consulado dos EUA em Surabaya. A 14 de setembro, Aidit apelou à máxima vigilância do Partido. Finalmente, em 30 de setembro, a Juventude Popular e a União de Mulheres organizaram uma grande manifestação em Jakarta, contra a inflação e a crise económica. Na véspera, num comício de estudantes, o presidente apelou abertamente ao “esmagamento dos generais que se tornaram protetores dos contrarrevolucionários”.

 

Se isto não é uma situação revolucionária, o que é?

 

Porém, como avisou Lénine  em “A falência da Segunda internacional”: “… nem toda a situação revolucionária conduz à revolução; a revolução surge apenas de uma situação em que [por toda a parte] as mudanças objetivas são acompanhadas por uma mudança subjetiva, designadamente, a capacidade da classe revolucionária para tornar a ação revolucionária de massas suficientemente forte para quebrar (ou derrubar) o anterior governo que nunca ‘cai’, nem num período de crise, se não for derrubado”. Especificamente, ele sublinhou que “Não se pode vencer só com a vanguarda. A vitória exige que, não apenas o proletariado, mas largas massas trabalhadoras, oprimidas pelo capital, atinjam, através da sua própria experiência, uma posição de apoio direto à vanguarda ou, pelo menos, a uma neutralidade benevolente para com ela e uma completa incapacidade de apoiar o seu inimigo”.

Por conseguinte, a objetiva natureza de massas da contrarrevolução indonésia mostrou que, naquela situação, era inútil e, pior que isso, era mortalmente perigoso esperar por uma melhor correlação de forças. Havia apenas um único caminho para evitar a catástrofe: usar todas as oportunidades para elevar a revolução a um novo patamar democrático-popular abrindo, não apenas ao proletariado, mas também às massas pequeno-burguesas, uma perspetiva visível de uma vida melhor.

 

A batalha perdida

 

Em 30 de setembro de 1965, um grupo de jovens oficiais, na sua maioria pertencendo à Guarda Presidencial e à Força Aérea, tentou capturar e destruir as mais altas patentes do Exército que professassem as posições islamitas. Cinco generais e o seu pessoal foram mortos, mas a principal figura dos mais altos comandantes capturados pelos jovens oficiais de esquerda, o chefe de estado-maior Nasution, escapou, escondeu-se e depois lançou, com o comandante do Exército Suharto, um contra ataque contra o Conselho da Revolução, constituído por esses jovens oficiais de esquerda. O Exército tinha grande superioridade numérica e assegurou o apoio dos paraquedistas e da Marinha. No entanto, a sua superioridade sobre a Guarda Presidencial e a Força Aérea era tão grande que, no final do dia seguinte, 1 de outubro, esmagaram o Conselho da Revolução, que, praticamente, ficou desmembrado sob o feroz ataque das tropas de Suharto e Nasution. Os líderes do Conselho da Revolução esconderam-se na base da Força Aérea de Halim e o Exército lançou sobre eles um ataque devastador.

 

Exatamente nesse momento, nem um dia antes, nem um dia depois, a direção do PCI declarou o seu apoio ao Conselho da Revolução e ao Movimento 30 de Setembro! Nesse momento, quando já se anunciava a derrota, estava bastante claro que os seus adversários estavam a ganhar. Considerou-se que não era fácil convocar um Congresso, uma Conferência ou o pleno do Comité Central. Mas o presidente do Comité Central, Aidit, nem sequer convocou uma reunião da Comissão Política. Cinco deles, Aidit, Njoto, o vicepresidente de Aidit, Sakirman, o  segundo vicepresidente, Lukman e o membro da Comissão Política, Sudisman, tomaram a posição de apoiar o Conselho da Revolução. Então, na manhã de 2 de outubro, quando a base da Força Aérea de Halim estava praticamente tomada pelos inimigos da revolução – os comandantes islamitas – o órgão central do PCI publicou um apelo ao apoio do Conselho da Revolução, que, naquele momento já não existia, e uma declaração sobre a posição do PCI.

 

Catástrofe

 

Não é preciso dizer que tudo isto foi um pretexto para o assassínio em massa dos comunistas pelas forças dos islamitas fanáticos. Queimaram o edifício do Comité Central, a redação do órgão central do PCI e a sua tipografia. Por todo o país, fanáticos enraivecidos começaram a matar os comunistas das formas mais brutais. No peito dos comunistas capturados e dos seus familiares, cortavam martelos e foices e estrelas de cinco pontas; depois faziam o mesmo nas costas e na testa; cortavam os genitais; abriam-lhes o estômago; empalavam-nos em postes, decapitavam-nos nas aldeias para fazer paliçadas em seu redor com as cabeças em cima… em outubro de 1965, o terror anticomunista de massas ceifou as vidas de cerca de 500 000 membros do PCI, enquanto a sua direção esperava que Sukarno os protegesse. Infelizmente nada disso aconteceu! Em 6 de outubro, Sukarno entregou aos militares o seu ministro e membro da Comissão Política do PCI, Njoto; depois, em 7 de outubro, o segundo vice-presidente do CC do PCI, Lukman, foi executado. O próprio Aidit fugiu para uma aldeia para tentar organizar a resistência, mas foi capturado pelos paraquedistas, em 22 de novembro de 1965, e foi abatido. Sudisman dirigiu o Partido depois da morte de Aidit e Lukman. Sakirman e Njoto sobreviveram até 1967, organizando a resistência clandestina nas cidades, mas foram capturados pelas unidades de contraespionagem do almirante Sudomo e também foram mortos depois de terem sido selvaticamente torturados.

 

No dia 12 de março de 1966, sob pressão de Suharto e Nasution, o presidente Sukarno, camarada e amigo de Khruschtchov, tomou a decisão de proibir o Partido Comunista da Indonésia. No mês seguinte, os sindicatos foram proibidos, assim como outras organizações de massas dirigidas pelos comunistas.

 

Os fanáticos islamitas foram substituídos pelas tropas de contraespionagem do almirante Sudomo e por Forças Especiais militares, que lançaram um ataque terrorista anticomunista em massa. Assassinatos nas ruas, detenção de comunistas e das suas famílias em campos de concentração e a sua execução nesses campos, mortes às mãos de soldados, Forças Especiais, tropas da contraespionagem, esquadrões da morte islamitas...

 

Parecia que uma sombra negra tinha descido sobre a Indonésia. Contudo, um fator humano, como sempre, teve um papel a desempenhar e os oficiais da contraespionagem do almirante Sudomo erraram um cálculo. O membro da Comissão Política do CC do PCI, Iskandar Subetki, afastado por Aidit e Njoto como um elemento pró-soviético – teórico, intelectual e orador mas não um organizador, o homem que nunca tinha pegado em nada mais pesado que um lápis ou uma caneta –, ficou fora da zona de influência dos oficiais da contraespionagem do almirante Sudomo, que tinham concluído que ele emigrara para a União Soviética para escrever as suas memórias numa casa de campo suburbana em Moscovo, ou estaria a ensinar marxismo em universidades europeias.

 

Porém, Iskandar Subetki não emigrou, mas foi para uma zona rural no lado oriental de Java, onde os comunistas tinham a maior influência nas associações de camponeses, e lançou uma insurreição de camponeses! Em conjunto com os seus companheiros de armas: o líder da Youth Communist League [Liga da Juventude Comunista], Sukatno, e do vice-presidente do sindicato Ruslan Wijayasastra. 

 

O exército dos camponeses começou a implementar a reforma agrária – aquela sobre a qual Estaline  tinha falado em 1953! A distribuição das terras dos latifundiários aos camponeses sem compensação tornou-a uma real força de massas. Destacamentos armados de comunistas não só deram luta aos islamitas fanáticos, como esmagaram os seus gangues, expulsando-os do seu território, e começaram a atacar as forças militares e policiais  do regime de Sukarno. Ao mesmo tempo, estavam clandestinamente  a preparar a constituição de uma frente conjunta com todos os destacamentos insurretos em todas as ilhas do arquipélago indonésio, pelo estabelecimento de um comando conjunto e a criação de um Exército Vermelho indonésio. Depois das primeiras vitórias, adquiriram armamento pesado.

 

Os primeiros que lhes deram luta foram os diplomatas dos EUA, espiões dos EUA – assustados com a possibilidade de a Indonésia se vir a tornar um novo Vietname. Pressionaram altamente Sukarno e Suharto; ofereceram apoio financeiro e técnico ao Exército indonésio, assim como armamento e instrutores. Silenciaram  as contradições existentes entre os regimes malaio e indonésio, impedindo Suharto de retirar tropas da fronteira com a Malásia, e organizaram, de facto, uma operação de retaliação contra os territórios vermelhos libertados.

 

Dispondo de superioridade numérica e técnica, assim como de soldados mais bem treinados, o Exército indonésio destruiu os últimos redutos da resistência em 1968.

 

O próprio professor Iskandar Subekti, aquele que costumava encontrar-se com Estaline,  tombou, e os seus camaradas Ruslan e Sukatno também –  com muitos milhares de comunistas indonésios.

 

Epílogo

 

Uma sombra da reação burguesa finalmente caiu sobre o país e Sukarno, tendo vendido tudo e todos já não era necessário aos generais islamitas e foi atirado para a insignificância política. Suharto tornou-se presidente do país e Nasution – o seu vice-presidente.

 

Durante mais de trinta anos, o país viveu sob o mais férreo terror anticomunista. Os comunistas eram mortos ou enviados para campos de concentração e cadeias. As últimas sentenças de morte pela participação nos acontecimentos de 30 de setembro de 1965 foram aplicadas já no declínio do regime de Suharto, em 1996. Durante trinta anos as pessoas estiveram nas cadeias à espera, na fila da morte. Porém, a crise asiática irrompeu. Como o regime de Suharto e Nasution  não resolveu nenhum dos escaldantes problemas económicos – não só não melhorou a situação dos trabalhadores, mas, realmente, piorou-a –, grandes manifestações populares varreram o regime como mero lixo político.

 

O presidente civil Abdurrahman Wahid, o primeiro presidente da Indonésia eleito depois da resignação de Suharto, em 1998, declarou uma amnistia geral e as pessoas que estiveram nas cadeias e nos campos de concentração durante trinta e mais anos começaram a sair. Em 2000, tentou legalizar a atividade do Partido Comunista, invocando a Constituição da Indonésia. Os generais, porém, opuseram-se.

 

Não teve igualmente sucesso a segunda tentativa de legalizar o PCI, em 2009 – os islamitas opuseram-se, argumentando que não era admissível ter na Indonésia um partido político que afirma abertamente o seu ateísmo.

 

Camaradas teimosos

 

Não obstante, em 2004, ao fim de quarenta anos, todas as limitações dos direitos cívicos dos comunistas foram retiradas. Os círculos marxistas começaram a surgir, assim como as organizações comunistas nas empresas, nas residências de estudantes, etc. A acrescentar a isso, o Comité do PCI no exílio tinha trabalhado durante cinquenta anos entre a numerosa emigração indonésia, na Europa e na China, dirigindo os ativistas de esquerda indonésios – embora sem ligação direta com a pátria.

 

Eventualmente, o aumento das contradições sociais, o desenvolvimento da luta de classes e do capitalismo na Indonésia, assim como a coragem e a tenacidade dos comunistas indonésios, forçaram o regime a recuar. 

 Aqui estamos nós: em jnho de 2016, o PC da Indonésia retoma a sua atividade legal.

 

Contudo, as autoridades não levantaram a proibição existente. Por conseguinte, o próximo Congresso do PC da Indonésia será considerado o primeiro e não o oitavo –  depois do sétimo, em 1962, como se o Partido tivesse sido constituído a partir do zero. Porém, o Partido conservará os seu nome: Partido Comunista da Indonésia e os seus símbolos fundadores: a bandeira vermelha com a foice e o martelo e a estrela de cinco pontas. Conserva a ideologia do marxismo-leninismo e a direção coletiva.

 

O Partido unirá todos aqueles que, mantendo-se fiéis às ideias comunistas, durante longas décadas na clandestinidade, nas masmorras de Suharto ou na emigração, foram e continuaram a ser comunistas.

 

Conclusões

 

O reatamento da atividade legal dos comunistas indonésios é, em si, um importante acontecimento moral, independentemente de como se desenvolverá o PCI mais à frente, que papel desempenhará na vida política e social do seu país e de quantos comunistas conseguirem alcançar a confiança das massas, da classe operária.

 

Isto mostra que as ideias do comunismo não podem ser esquartejadas, abatidas ou queimadas vivas. Não podem ser mortas nem proibidas. Mesmo depois de uma proibição de cinquenta anos, como aconteceu na Indonésia, elas farão o seu caminho, sob a mesma bandeira vermelha com a foice e o martelo e a estrela de cinco pontas. Esta é a ideologia fundada pelos nossos grandes professores: Marx, Engels e Lénine.

 

Estamos certos de que a nova geração de comunistas indonésios vai continuar as tradições dos seus professores: Munawar Musso, Iskandar Subetki e muitos, muitos outros que caíram às mãos dos islamitas, da reação burguesa e militarista.

 

Estamos certos de que o Partido Comunista da Indonésia se juntará ao Movimento Comunista Internacional, ao exército dos lutadores pelo socialismo-comunismo.

 

Por isso, desejamos de todo o coração aos comunistas indonésios, em nome de muitos camaradas, vitórias na luta pela nossa causa comum, pela concretização do nosso ideal comunista!

 

Em suma: o comunismo não pode ser morto, não pode ser proibido. O ideal vermelho, o ideal de justiça social e fraternidade dos trabalhadores de todos os países, da igualdade social vencerão, independentemente dos obstáculos!

 

Assim será!

Junho de 2016.

 

Principais fontes: 

  • A apresentação por Vladimir M. Soloveichik na Leningrad Internet TV, em 27 de junho de 2016 (https://www.youtube.com/watch?v=lMA1akb535g). 
  • O livro ТЯЖКИЙ УРОК ИСТОРИИ: К 50-летию антикоммунистического геноцида в Индонезии автора А.В. Харламенко © Рабочий Университет им. И.Б. Хлебникова 2007 – 2016: https://prometej.info/blog/istoriya/tyazhkij-urok-istorii/
  • O livro Pretext for Mass Murder: The September 30th Movement and Suharto’s Coup d’Etat in Indonesia, [Pretexto para assassinatos em massa: O movimento 30 de setembro e o golpe de Estado de Suharto na Indonésia] por John Roosa, Univ. de Wisconsin Press, 2006.

Fonte: publicado em 2017/11/12, em https://communismgr.blogspot.pt/2017/11/the-rebirth-of-communist-party-of.html

Tradução do inglês de TAM

 

 

 

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