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Harol Gonzalez*

... o aumento das ações de grupos paramilitares, depois da assinatura dos acordos, recorda a época mais sombria do conflito armado colombiano, onde o assassinato sistemático dos opositores políticos era a regra e a intervenção do Estado para os impedir a triste exceção.

 

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A multiplicação das ações violentas da parte dos grupos paramilitares de extrema-direita, a inação do governo, assim como  o assassinato sistemático dos militantes e dos defensores dos direitos humanos, recordam a época mais sombria do conflito armado colombiano. A vasta cobertura mediática internacional durante o ano de 2016 a respeito da assinatura dos acordos de paz entre o governo colombiano e as FARC exaltava o fim do conflito armado mais antigo do hemisfério ocidental. Apesar disso, a partir de janeiro desse mesmo ano, foi perpetrado o assassinato de 131 líderes sociais, o regresso dos massacres das populações camponesas e o assassinato de uma trintena de membros não armados e desmobilizados da antiga guerrilha.

 

Em matéria de segurança, o Observatório de acompanhamento da aplicação dos acordos de paz (OIAP) contabilizou em apenas 22,7% o sucesso da instauração normativa do sistema integral de segurança acordado entre as FARC e o governo, na discussão sobre o fim do conflito. Isto é alarmante, quando se verifica que 335 líderes e defensores dos direitos humanos foram ameaçados de morte, entre janeiro e junho deste ano.

 

É preciso sublinhar que estas ameaças e os assassinatos delas decorrentes têm em comum a sua natureza de marcadores de alvos. De acordo com o último relatório do Indepaz, entre janeiro de 2016 e junho de 2017, são os líderes sociais e camponeses de organizações como a «Marcha Patriótica», o «Congresso dos Povos» e as comunidades indígenas que são as mais afetadas pelas ameaças e o assassinato dos seus militantes.

 

No passado dia 17 de outubro, o líder camponês Jair Cortés foi assassinado em Tumaco, depois de ter denunciado as ameaças dos paramilitares no departamento de Nariño. Jair Cortés fazia parte da comissão dos defensores dos direitos humanos que se tinha reunido alguns dias antes com o vice-presidente da república colombiana para lhe expressar precisamente as suas preocupações com os graves atentados aos direitos humanos nesta região do país.

 

No que respeita aos partidos políticos, é importante assinalar que, no passado dia 12 de outubro, os representantes nacionais do partido político «União Patriótica» receberam uma ameaça do grupo paramilitar «Autodefesas Gaitanistas da Colômbia» que os  obrigaram a não se apresentar às próximas eleições presidenciais, sob pena de serem assassinados.

 

É preciso relembrar que o partido «União Patriótica» está de volta à arena política do país apenas desde 2013, depois de ter desaparecido em 2002, por causa do assassinato de mais de 4000 militantes e eleitos seus às mãos de grupos paramilitares, com a colaboração de agentes do Estado colombiano.

 

Ameaça de morte aos membros da direção do partido União Patriótica

 

A violência tem também como alvo a população civil. No passado dia 25 de outubro, assistiu-se ao massacre de 3 indígenas da municipalidade de Mesetas, no departamento de Méta. Eram eles Diego Ferney Pilcué e a sua esposa Diana Marcelo Calvo, de 18 anos, e o primo de Diana, Róbinson Tobar Calvo, de 17 anos. Este massacre teve lugar na proximidade do «espaço territorial de formação e reincorporação» (ETCR) de Mesetas, um dos atuais 23 espaços de concentração de antigos combatentes das FARC. Estes assassinatos foram perpetrados, de acordo com os habitantes de Mesetas, para aterrorizar as pessoas mais suscetíveis de ajudar os antigos combatentes ou de trabalhar para a sua reintegração na vida civil. Foi o caso de RobinsonTobar Calvo, que trabalhava na organização do ETCR para que as FARC pudessem depor as armas junto da ONU, no passado dia 27 de junho.

 

No que se refere ao assassinato dos antigos combatentes das FARC, a situação continua igualmente inquietante. Numa conferência de imprensa ,no passado dia 2 de outubro, as FARC sublinhavam que 25 dos seus membros regressados à vida civil tinham sido assassinados. Com os 6 ex-combatentes que foram assassinados no dia 16 de outubro, no departamento de Nariño, contam-se 31 membros do novo partido das FARC assassinados por  indivíduos ditos «não identificados».

 

O êxito da aplicação dos acordos entre o governo e a antiga guerrilha nos planos jurídico e constitucional continua a ser primordial, para garantir a estabilidade no país. Apesar disso, o aumento das ações de grupos paramilitares, depois da assinatura dos acordos, recorda a época mais sombria do conflito armado colombiano, onde o assassinato sistemático dos opositores políticos era a regra e a intervenção do Estado para os impedir a triste exceção.

 

* Harol Gonzalez Duque  

Exilado político colombiano em França

 

Fonte: publicado em 2017/11/23, em https://www.initiative-communiste.fr/articles/international/colombie-assassinats-politiques-continuent-silence-medias-de-france/?ct=t(RSS_EMAIL_CAMPAIGN)

 

Tradução do francês de TAM

 

 

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