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Kemal Okuyan – SG do Partido Comunista da Turquia (TKP) – Discurso de abertura (2019/10/18)

... a Internacional Comunista não era uma organização de solidariedade ou de recomendações. A Internacional Comunista foi fundada para estabelecer a vontade comum, era o centro revolucionário de que o proletariado precisava para dar o golpe final ao capitalismo. Nesse sentido, não é errado dizer que a Terceira Internacional era um Partido Mundial.

 

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Camaradas,

Dou as boas vindas aos representantes dos partidos irmãos.

Estávamos a pensar receber-vos no próximo ano para o 100.º aniversário do Partido Comunista da Turquia. No entanto, devido a razões conhecidas de todos , assumimos a tarefa de organizar o nosso 21.º Encontro, em conjunto com o Partido Comunista da Grécia. De qualquer forma, é sempre uma grande honra para nós encontrarmo-nos convosco para receber-vos em Esmirna. Acreditamos que esta reunião servirá a nossa luta comum.

Outra questão que preciso colocar no início está relacionada com o grande comício que tínhamos programado para a noite de sábado. Devido à operação militar lançada pela Turquia contra a Síria, tivemos de cancelar uma atividade política e cultural que reuniria mais de cinco mil participantes e para a qual vos convidaríamos também. As declarações do nosso partido relacionadas com esses desenvolvimentos mais recentes foram-vos enviadas. Além disso, preparámos uma conferência de imprensa sobre a matéria, para partilhar mais detalhadamente as nossas declarações e análises. Estão todos convidados para esta reunião.

Ao iniciar o meu discurso, gostaria de agradecer a todos os camaradas do Partido Comunista da Grécia que contribuíram para a preparação desta reunião, a todos, desde o Secretário Geral Dimitris aos jovens militantes do KKE que vieram dar apoio técnico e, claro, aos meus camaradas do TKP. Obrigado; estou confiante em que transformaremos esta região num paraíso onde as pessoas vivam em amizade e numa ordem social igualitária.

Queridos camaradas,

O 21.º Encontro Internacional dos Partidos Comunistas e Operários realiza-se no centésimo aniversário da fundação da Internacional Comunista, uma organização cujo significado histórico para o movimento comunista é incontestável.

A Internacional Comunista foi fundada numa época em que os bolcheviques pensavam que o processo iniciado com a Revolução de Outubro de 1917 continuaria noutros países e que a classe operária chegaria ao poder em, pelo menos, parte da Europa. Por isso, a Internacional Comunista não era uma organização de solidariedade ou de recomendações. A Internacional Comunista foi fundada para estabelecer a vontade comum, era o centro revolucionário de que o proletariado precisava para dar o golpe final ao capitalismo. Nesse sentido, não é errado dizer que a Terceira Internacional era um Partido Mundial.

Camaradas, o poder que a Internacional Comunista alcançou em pouco tempo pode confundir-nos. No entanto, ao iniciar-se, em março de 1919, não devemos esquecer que a Internacional Comunista foi fundada com recursos extremamente escassos, que as delegações vindas de diferentes países ao congresso fundador não tinham muita representatividade e que a maioria dos partidos membros não tinham muito peso nos seus próprios países. Se excetuarmos os bolcheviques, que tinham tomado o poder na Rússia havia apenas um ano e meio, a Internacional Comunista foi fundada por partidos ou grupos muito pouco organizados.

No entanto, eles agiram com grande assertividade, entusiasmo, determinação e otimismo. A profunda crise em que o capitalismo estava a cair e a mobilização de milhões de proletários diante dessa crise foram suficientes para os comunistas. Concentraram-se na sua missão e responsabilidade históricas em oposição às suas fraquezas e estavam convencidos de que a burguesia poderia ser e seria derrotada. Dessa forma, os partidos comunistas que foram fundados com a ajuda dos bolcheviques não se tornaram apenas uma força importante em pouco tempo e lutaram para levar a classe operária ao poder, em alguns casos, como também o conseguiram, mesmo que por pouco tempo. Hoje, ninguém deve classificar como aventureiras as tentativas revolucionárias na Hungria, Eslováquia, Alemanha e outros países. Aqueles que lutaram pelo poder revolucionário permaneceram leais à filosofia fundadora da Internacional Comunista e fracassaram por várias razões.

Queridos camaradas,

Há uma razão para eu falar sobre tudo isto. É extremamente importante determinar a relação de forças entre as classes e afastarmo-nos de uma linha política administrativa. As revoluções não acontecem apenas pelas decisões que tomamos. A nossa tarefa não é fazer a revolução, mas liderá-la, porque uma revolução não é algo que possa ser feito. No entanto, também é verdade que existe uma relação dialética entre as crises do capitalismo e o aumento de oportunidades revolucionárias e, mesmo, o surgimento da revolução. Nesse sentido, é muito enganador avaliar estaticamente a relação de forças, especialmente em tempos de crise.

Em 1919, os partidos comunistas eram extremamente fracos, tanto quantitativa como qualitativamente. Quando olhamos para o mundo, hoje, queixamo-nos compreensivelmente da fraqueza do movimento comunista, mas, em 1919, quando a Internacional Comunista foi criada, também não tinha grande poder.

Então qual era a diferença? A mobilização e a organização das massas trabalhadoras vêm à mente em primeiro lugar. Mesmo que a classe operária estivesse sob a égide dos partidos social-democratas, estava amplamente envolvida na luta política e, em alguns países, os sindicatos tinham sério potencial.

Outro fenómeno que pode ser mencionado como diferença é a reação à destruição e à pobreza gerada pela guerra imperialista e o facto de a guerra não ter posto fim à profunda crise económica, e até lhe ter acrescentado novas dimensões.

No entanto, ninguém pode afirmar que o capital internacional hoje é mais forte ou mais durável do que há 100 anos atrás. O imperialismo está a falhar em todos os sentidos, nada mais tem a dizer à humanidade sob o ponto de vista económico, ideológico e político. Em parte alguma.

Camaradas, não estou a tentar dizer que estamos a viver nas mesmas condições de há 100 anos atrás. Isso não é verdade. O que precisamos fazer é analisar as condições concretas de hoje e, com base nisso, lutar com as ferramentas e métodos certos.

No entanto, é impossível determinar as tarefas de hoje de maneira saudável sem apontar para uma diferença muito, muito importante entre há 100 anos atrás e hoje.

Camaradas, há 100 anos atrás, a começar na classe operária, para grandes massas de pessoas, centenas de milhões de pessoas, o socialismo ou uma ordem igualitária era uma palavra de ordem tangível e atual. A partir da segunda metade do século XIX, toda a luta da classe operária estava embebida do desejo de derrubar o capitalismo, embora primitivo. Não estou aqui a falar de estratégias e programas políticos. O desejo de mudar a ordem era uma realidade social. Esse desejo não emergiu com a Revolução de Outubro de 1917. A Revolução de Outubro trouxe um novo sentido de energia e realidade a esse desejo e espalhou-o por uma geografia mais ampla.

Preciso de repetir que o capitalismo hoje não é mais durável e estável do que há 100 anos atrás. Talvez centenas de milhões de trabalhadores não estejam em luta, mas milhares de milhões de pessoas deixaram de crer na ordem social atual. Isso também tem um papel no aumento do racismo e dos movimentos populistas de direita em todo o mundo. Embora não seja a única razão pela qual milhões de pessoas vão atrás de pessoas que não conhecem, ou pelo menos apoiem eleitoralmente novas formações centradas em líderes, isso está relacionado com a procura de uma saída pelas pessoas.

Sim, camaradas, temos de admitir que uma das diferenças mais importantes em relação a há 100 anos atrás é que a ideia de que o capitalismo pode ser destruído e que uma ordem igualitária pode ser estabelecida está em grande parte fora da mente da humanidade.

Isto não pode ser explicado apenas por condições objetivas. Manter essa ideia viva e torná-la concreta nas mentes e corações de grandes massas de pessoas, a partir da classe operária, é a principal tarefa dos comunistas. Esta ideia não pode ser afastada em nome da relação de forças. Pelo contrário, é a disseminação desta ideia que mudará a relação de forças.

Camaradas, quando olhamos para os últimos cem anos, temos de admitir que nós, comunistas, também somos culpados pelo fracasso da humanidade em declarar em voz alta que uma ordem mais igualitária é possível e que o capitalismo deve ser destruído.

E agora estou a mudar para a Turquia e a nossa região. Gostaria de vos mostrar, perante os desenvolvimentos atuais, como se pode perder o rumo e movermo-nos sem uma bússola que aponte o caminho certo, se esquecermos a realidade do socialismo.

O nosso encontro coincidiu com a nova ofensiva militar da Turquia lançada em território sírio. Esta não é a primeira vez. A presença do exército turco no território de outros países começou com a Coreia. Fazia parte de uma guerra injusta travada para proteger os interesses do imperialismo dos EUA. Nos anos seguintes, soldados da Turquia participaram em muitas operações da organização internacional terrorista dos monopólios, a NATO. Em Chipre, a soberania, a independência e a integridade da ilha são violadas há 45 anos. Existem inúmeras operações transfronteiriças no Iraque, bem como inúmeras bases, postos avançados e pontos de observação pertencentes ao exército turco, tal como na Síria.

Caros camaradas,

Como avaliamos este quadro?

Um ponto de vista é ver a Turquia como um obstáculo à democracia e à liberdade.

Algum comunista que luta na Turquia tem objeções a isto?

Não se pode objetar a isto, mas, camaradas, esta expressão, esta formulação está errada. Está errada porque o domínio do capital é o inimigo da democracia e das liberdades em todo o mundo. Esta formulação significa esvaziar de conteúdo de classe os problemas na Turquia e vinculá-los às pessoas ou ao exército e isso levar-nos-á a erros.

É impossível uma posição política revolucionária sem entender que existe uma forte classe capitalista agindo com crescente autoconfiança e que, em geral, as políticas internas e internacionais da Turquia são moldadas de acordo com os interesses dessa classe.

Quando não se entende isto, acontece o seguinte: acabamos por tomar partido, tornando-nos aliados de poderosos países imperialistas, ou da classe capitalista da Turquia, pelas liberdades e a democracia na Turquia ou numa região maior. O que estou a dizer não é um exagero. Isto aconteceu na Turquia e, infelizmente, muitos revolucionários tornaram-se colaboradores reais do imperialismo durante todo este processo.

Camaradas, devo lembrar que Erdoğan, que aparece nas notícias de todo o mundo hoje e que recebe vários adjetivos, foi apoiado pelos chamados círculos democráticos e pró-liberdade desde os primeiros períodos da sua ascensão ao poder até 2010. Não foi apenas pela União Europeia ou os Estados Unidos, mas por muitas tendências diferentes da esquerda e o movimento nacionalista curdo na Turquia que esse apoio foi fornecido. Por outro lado, nós, o TKP, que lutamos contra o governo do AKP desde o início, fomos até rotulados como fascistas, porque enfrentámos Erdoğan.

Mais tarde, quando as rivalidades e contradições dentro do sistema imperialista se aprofundaram, e quando Erdoğan, enfrentando grandes problemas na política interna, abriu espaço para si mesmo, usando essas rivalidades e contradições, e começou a ter problemas reais com os EUA, alguns falsos, outros reais, começaram as críticas e as acusações contra Erdogan. No entanto, para muita gente de esquerda, isso não resultou na assunção da posição correta, porque muitos viam os imperialistas e a burguesia turca como estando contra Erdoğan. Lamentável.

Não vos tomarei tempo a fornecer-vos provas de tudo isso. Quero debruçar-me sobre a outra face da moeda.

Camaradas, afirmei que a luta pela democracia e pela liberdade que não tenha conteúdo de classe, que não coloque o objetivo da revolução socialista no seu cerne, significará uma colaboração aberta ou velada com a UE e a NATO e que essa abordagem resultará numa total rendição à classe capitalista.

E a luta pela independência? Camaradas, quando os conceitos de independência e soberania são separados da sua base de classe, tornam-se tão perigosos quanto os conceitos de liberdade e democracia. Vemos que há uma divisão em muitos países e no público progressista em geral. Por um lado, há uma tendência de cooperar com a burguesia em torno dos conceitos de “liberdade e democracia”. Por outro lado, há uma tendência para a reconciliação com uma ou outra secção do capital através do conceito de “independência”.

A situação na Turquia reflete exatamente essa divisão. Dizem-nos que precisamos de uma aliança das maiores potências para a derrota de Erdoğan. Existe imperialismo alemão nesta aliança; existem os representantes mais poderosos da burguesia turca; existe o governo dos EUA; existem social-democratas, classificados como sendo de esquerda, liberais, alguns islâmicos e uma fração do fascismo. Essa aliança certamente poderia travar Erdoğan, mas nunca traria democracia e liberdade.

Além disso, argumentam que o mais importante é ganhar a capacidade de agir independentemente dos EUA, fazendo uma interpretação incompleta do imperialismo e até restringindo o imperialismo aos EUA. E dizem que todos os tipos de opressão, intimidação, reacionarismo e guerra podem ser permitidos face a essa causa.

Em quase todos os países desta região, há pressões sobre os comunistas para que aceitem um dos dois paradigmas. Ou cooperam com os imperialistas-capitalistas em prol da democracia e da liberdade, ou calem-se em relação a todos os tipos de opressão e crueldade de outros imperialistas ou grupos capitalistas, em nome da independência.

Podem a liberdade, a independência e a soberania ser indiferentes para os comunistas? Não, nunca. No entanto, o uso aleatório desses conceitos causa-nos grandes prejuízos, como se pode ver. Só há uma maneira de sair dessa situação incompreensível. É colocar a luta por uma ordem social alternativa na ordem do dia dos trabalhadores, com o impulso vindo da fundação da Comintern, há 100 anos. Não é de lamentar que os pobres do meu país estejam a ir atrás da ganância de Erdogan e da burguesia por causa da sua raiva contra os EUA? Não é uma pena que os trabalhadores, sejam eles turcos, curdos ou árabes, esperem liberdade e democracia dos imperialistas europeus ou de uma ou de outra fações dos EUA?

Estes são os resultados da nossa fraqueza, as lacunas que deixámos abertas. Não tomemos as circunstâncias desfavoráveis ou a relação de forças como desculpa. Como eu disse no início, quando a Comintern se lançou, há 100 anos atrás, havia menos pessoas do que temos agora nesta sala.

Acredito que, em pouco tempo e juntos, recuperaremos as nossas reivindicações e o entusiasmo que tínhamos há 100 anos atrás.

Camaradas,

O Partido Comunista da Turquia está a organizar a sua luta com esta perspetiva. Não é verdade que o objetivo do socialismo, a defesa da contemporaneidade e a atualidade do socialismo, leve inevitavelmente ao isolamento. Não é verdade que a atitude revolucionária resulte em propaganda ou sectarismo. Pelo contrário, hoje no mundo, o objetivo do comunismo requer um alto nível de criatividade e inteligência. Quando isso é combinado com coragem e determinação, a defesa da revolução socialista como um objetivo real encontra eco na classe operária. E não poderia ser de outro modo nesta era de crise, quando se prova todos os dias que o capitalismo não tem nada para oferecer à huanidade.

O Partido Comunista da Turquia disse “não” a qualquer aliança com a burguesia ou com os representantes políticos da burguesia. Apesar da forte pressão, o partido defendeu persistentemente esta tese, afirmando que “esta ordem social tem de mudar”. Na classe operária, desenvolvemos a nossa organização pacientemente; conseguimos fazer o que os sindicatos não fazem em muitos casos com uma tática única chamada “Sopramos no pescoço dos patrões”. Conseguimos fazer com que trabalhadores despedidos voltassem aos seus locais de trabalho e conseguimos aumentos de salários. Ao fazê-lo, afirmámos que os trabalhadores se deveriam focar no estabelecimento de uma ordem igualitária, não nesta ou naquela solução burguesa.

Dissemos não às alianças burguesas, mas fizemos com que os comunistas vencessem as eleições municipais numa cidade pela primeira vez na história da Turquia, fazendo uma aliança revolucionária. Os nossos votos, pela primeira vez, subiram acima de 1% em alguns bairros nas maiores cidades da Turquia.

O número de membros do partido aumentou mais de 30% num ano. Estamos no início da nossa tarefa, num país muito grande e desafiador. Mais importante do que as quantidades são as características qualitativas. Fazendo o nosso melhor, estamos a tentar fazer do Partido Comunista da Turquia a vanguarda urbana, moderna, intelectual e revolucionária da classe operária. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas, sabendo que a vida nos pode dar responsabilidades históricas a qualquer momento, seguimos persistentemente o caminho da revolução, o caminho de Lénine, que marcou uma era há 100 anos. O importante é o que nossos camaradas dizem, não o que os anticomunistas dizem, abertamente ou pela calada.

O TKP cometerá erros, por vezes dará passos atrás; é da natureza da luta. Mas, queridos camaradas, o que o TKP não fará é trair os ideais revolucionários, o objetivo do comunismo, os trabalhadores e os seus amigos.

Viva a luta comum dos partidos comunistas...

Viva o Marxismo-Leninismo!

Até à vitória, sempre!

Fonte: http://www.solidnet.org/article/21-IMCWP-Opening-Speech-Communist-Party-of-Turkey/, publicado e acedido em 2019/10/18

Tradução do inglês de TAM

 

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