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Dimitris Koutsoumpas – SG do Partido Comunista da Grécia (KKE)

Esmirna, 2019/10/18-20

 

Na Europa ocidental, principalmente sob a influência do eurocomunismo, nas décadas de 1960, 1970 e 1980, as táticas de formar governos de coligação com a social-democracia, isto é, com partidos burgueses, e a participação dos PC em governos que, essencialmente, administravam o desenvolvimento capitalista, na lógica das etapas, com a primeira etapa a resolver as reivindicações democráticas-burguesas antimonopolistas e a questão da dependência, levou quase todos os países da Europa ocidental a um maior fortalecimento do poder da capital, com o apoio a novos mecanismos de repressão e manipulação.

 

 

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Caros camaradas,

Caros representantes dos Partidos Comunistas e Operários,

Sejam muito bem-vindos ao Encontro deste ano que, na base da decisão do Grupo de Trabalho, é coorganizada pelo Partido Comunista da Turquia e o Partido Comunista da Grécia, aqui, na costa da Ásia Menor, na costa do Mar Egeu, que deveria ser um mar de paz e cooperação e não de agressão e provocação e de disputas de direitos de soberania no quadro dos antagonismos das classes burguesas na região.

A classe operária, o nosso povo e, ainda mais, os povos vizinhos, os povos grego e turco, têm os mesmos interesses. Todos compartilhamos as preocupações e a vontade de paz, amizade, progresso e socialismo.

O KKE opõe-se ao acordo de manutenção e expansão das bases dos EUA-NATO na Grécia. Lutamos contra o envolvimento do país em planos imperialistas contra outros povos. Lutamos pela saída do país das organizações imperialistas da NATO e da UE.

O KKE condena a última invasão da Síria pelas tropas turcas e expressa a sua solidariedade com o povo sírio, que sofre as duras consequências da longa guerra imperialista.

Realce-se que o encontro deste ano ocorreu numa conjuntura crítica, com o aprofundamento dos antagonismos e contradições imperialistas, a continuação de guerras e conflitos imperialistas locais e regionais, a intensificação da exploração da classe operária e das camadas populares, as crises económicas capitalistas, a intensificação da preocupação com um novo perigo de uma crise internacional e, talvez, mais profunda e sincronizada, nos próximos anos, a exacerbação dos problemas ambientais e das mudanças climáticas e dos refugiados e imigrantes, a restrição dos direitos e liberdades populares, a intensificação do anticomunismo, do racismo, do nacionalismo, etc.

Mas isto representa também um ano fortemente simbólico para a nossa luta e solidariedade internacionalista, pois este ano marca o 100.º aniversário da fundação da Internacional Comunista (IC).

O Comité Central do KKE comemora o centenário da fundação da Internacional Comunista (2-6 de março de 1919).

O nosso partido desenvolveu uma significativa atividade no movimento internacional. Isto expressa também uma urgente necessidade de hoje, após a derrota contrarrevolucionária de 1991, e porque a crise económica do capitalismo exige uma ainda maior coordenação e organização da ação conjunta, para que o Movimento Comunista Internacional (MCI) dê passos mais rápidos no caminho da formulação de uma única estratégia contra a agressão e a guerra imperialistas, pela paz entre os povos, pelo socialismo.

Desde o seu nascimento que o movimento operário, com o surgimento e a difusão da cosmovisão marxista e a fundação dos primeiros partidos políticos da classe operária, adotou o internacionalismo como interesse comum na derrota da burguesia.

A análise leninista do imperialismo, a teoria sobre o desenvolvimento desigual e o “elo” mais fraco num país ou grupo de países e as tarefas que daí advêm para cada partido comunista, bem como a experiência histórica de todo o século passado levam inequivocamente à conclusão de que o campo nacional da luta continua o dominante, mas sem que isso seja finalmente interpretado como uma renúncia à necessidade de coordenação e elaboração de uma estratégia e atividade conjuntas dos comunistas em todo o mundo. Uma necessidade que, hoje, está a ganhar uma ainda maior importância, uma vez que a internacionalização capitalista assumiu formas superiores, não só no campo da economia, mas também no da política, conjuntamente com a formação de uniões internacionais e regionais transnacionais, como a NATO, a UE, o FMI, etc.

Desde a sua fundação, o nosso partido está comprometido com os princípios do internacionalismo proletário. Durante 100 anos, lutou de forma consistente e não abandonou esses princípios. Como secção da Internacional Comunista, recebeu uma grande ajuda na sua formação de partido de novo tipo. Ao mesmo tempo, sofreu as consequências negativas dos problemas de imaturidade teórica e mesmo de oportunismo que surgiram no MCI, mas nunca negou a necessidade de uma estratégia conjunta do movimento comunista contra o imperialismo, pelo socialismo.

Não “teorizou” qualquer experiência negativa numa direção errada. Mesmo se as escolhas e decisões internacionais também nos afetaram negativamente, nunca caímos no erro de justificar os nossos próprios erros ou deficiências responsabilizando outros e pondo-nos de parte.

Em particular, algumas questões que têm a ver com aspetos da estratégia do MCI, nas décadas anteriores, dão-nos valiosas lições para o presente e devem ser discutidas no movimento comunista, porque, de vários lados, expressam-se e repetem-se pontos de vista e construções ideológicas erradas, que, muitas vezes, foram postas em prática e falharam, levando à derrota e ao recuo do movimento revolucionário e conduzindo inevitavelmente à sua extrema expressão contrarrevolucionária.

Gostaria de abordar esta questão um pouco mais especificamente, de forma sistematizada, mas não hierarquizada.

Uma PRIMEIRA questão, que também existe como uma conclusão fundamental nas análises do KKE e que merece uma maior análise é a incapacidade do MCI para elaborar uma única estratégia revolucionária, especialmente, durante e logo após o final da Segunda Guerra Mundial e nas décadas que se lhe seguiram. Muito embora proclamassem a necessidade do socialismo, alguns partidos comunistas, especialmente dos fortes países capitalistas, quando elaboravam a sua linha política, estabeleciam objetivos que, independentemente das suas intenções, não serviam uma estratégia de concentração e organização de forças com o fim de preparar o conflito e a rutura total com a burguesia. Assim, a linha política deste período não funcionou como uma componente da estratégia para o socialismo. É verdade que havia uma incapacidade para elaborar uma estratégia revolucionária durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, na medida em que a IC como um todo e a maioria dos Partidos Comunistas do oeste capitalista não conseguiram criar uma estratégia para transformar a guerra imperialista, ou a guerra de libertação contra a ocupação estrangeira e o fascismo, numa luta pela conquista do poder pelos trabalhadores, em condições de intensa agudização das contradições sociais de classe no país em que atuavam. Ao mesmo tempo, a classe dominante demonstrou, em tempo, a capacidade de formar alianças para defender o seu poder, bem como para reordenar as alianças internacionais e nacionais.

Uma SEGUNDA questão é o facto de diversos partidos terem assumido, e assumirem ainda hoje, a formação de alguns “governos democráticos”, no âmbito de uma reforma parlamentar ou de um estágio intermediário no processo revolucionário, como um objetivo político da sua estratégia. Insistimos que vale a pena observar e refletir sobre como o nosso próprio partido e quase todos os PC colocaram nos seus programas, por exemplo, a questão da dependência do seu país e como ligámos isto à posição de fazer alianças e propostas de um “governo democrático”. A experiência histórica prática e as elaborações e os estudos teóricos provam-nos que quaisquer das multifacetadas dependências (económicas, políticas, culturais, etc.), existem, de uma ou outra forma, dentro do sistema imperialista internacional, entre os vários países capitalistas e são precisamente formadas pelo desenvolvimento desigual e, claro, são dependências que não podem ser resolvidas no quadro do capitalismo, mas apenas com a revolução socialista, com a transição para o socialismo. Também existe, de facto, a particular questão da dependência respeitante à ocupação político-militar de um país por outro, que pode ser resolvida dentro do capitalismo, isto é, conseguir expulsar, por exemplo, o ocupante do seu país, mas o sistema continuará uma democracia burguesa, capitalismo. Mas este problema também pode ser resolvido de maneira diferente, dando um passo em frente, com o estabelecimento do poder dos trabalhadores, ou seja, o derrubamento do capitalismo e a construção do poder e da economia populares, uma tarefa que o movimento comunista revolucionário deve colocar.

Uma TERCEIRA e importante questão, em nossa opinião, é a de que a experiência histórica nos mostrou quão utópica era, e ainda é, a perceção da transição para o socialismo através da chamada gradual “expansão da democracia burguesa”. Assim, as pré-condições para a emancipação de classe dos movimentos operários e populares não foram criadas. Este é um processo que amadurece e amplia a iniciativa revolucionária e os laços com as massas populares até ao surgimento de novas condições, quando as prolongadas crises económicas e políticas estimularem objetivamente a ação popular revolucionária das massas. Na Europa Ocidental, principalmente sob a influência do eurocomunismo, nas décadas de 1960, 1970 e 1980, as táticas de formar governos de coligação com a social-democracia, isto é, com partidos burgueses, e a participação dos PC em governos que, essencialmente, administravam o desenvolvimento capitalista, na lógica das etapas, com a primeira etapa a resolver as reivindicações democráticas-burguesas antimonopolistas e a questão da dependência, levou quase todos os países da Europa ocidental a um maior fortalecimento do poder da capital, com o apoio a novos mecanismos de repressão e manipulação.

Uma QUARTA questão: o renascimento do revisionismo e do oportunismo nas fileiras do movimento comunista surgiu com o recuo para posições reformistas da social-democracia e, em muitos casos no Ocidente capitalista, levou a um programa de gestão e cooperação com as forças da democracia burguesa, enquanto muitos partidos comunistas e operários foram ou estão a ser substancialmente transformados em partidos social-democratas. É óbvio que a experiência da Revolução de Outubro foi completamente ignorada nesta específica questão. Naquela altura, a política de aliança com a social-democracia e a burguesia era vista pelos bolcheviques como uma traição à classe operária. A maioria dos partidos social-democratas de então entrou numa completa rutura com o slogan de transformar a guerra imperialista numa luta pelo poder dos trabalhadores em todos os países. Lénine abriu uma frente contra a social-democracia ao nível internacional. Essa frente expressou-se, pela primeira vez, na Rússia, daí resultando que as forças revolucionárias não foram enredadas nos objetivos e manobras da burguesia doméstica, nem nas oportunistas pressões pequeno-burguesas. Mais tarde, com a ideia de que os PC não seriam capazes de libertar as forças laborais que seguiam a social-democracia e de que seriam isolados se não seguissem uma política de alianças com os partidos social-democratas a prevalecerem, a separação da social-democracia entre “direita” e “esquerda” tornou-se um “dogma” para o movimento comunista trazer a “esquerda” para o seu lado. Isto é algo que nunca foi confirmado, desde que a maior parte da base popular dos outros partidos, como a prática demonstrou há décadas, pôde vencer através do aprofundamento da luta de classes –, com uma forte frente ideológica contra todas as variações da política burguesa – e, às vezes, da intensificação dos conflitos socio-políticos.

Caros camaradas,

Após a dissolução da Internacional Comunista e devido aos problemas estratégicos acumulados nos partidos comunistas não foi possível conseguir a criação de uma nova organização internacional de PC.

O MCI teve de superar pesados fatores negativos, como os numerosos membros da pequena burguesia e as consolidadas tradições do parlamentarismo burguês. Estes fatores tornaram-se um pretexto para muitos PC colocarem as “particularidades nacionais” acima das leis da revolução socialista.

Os anos que se passaram desde a contrarrevolução de 1989-1991 já são suficientemente longos. Oferecem uma nova experiência, positiva e negativa. Em vários países, os PC foram reorganizados, realizaram regularmente encontros regionais e temáticos e desenvolveram outras iniciativas, que tiveram mais ou menos sucesso na obtenção de uma determinada unidade de ação em algumas questões. Estes são passos que necessitam de ser consolidados e multiplicados. No entanto, tudo isto fica, dramaticamente, muito atrás do papel que o movimento comunista deve desempenhar nos desenvolvimentos internacionais.

Ao mesmo tempo, vários problemas continuaram ou, até, pioraram. Os esforços de reagrupamento trouxeram à tona velhos problemas, juntamente com as dificuldades criadas pela contrarrevolução e a derrota temporária do socialismo. Paralelamente, a repressão estatal, a criminalização da ideologia e prática comunistas e da luta de classes estão a intensificar-se. Os sinais que surgiram nos últimos anos, especialmente na UE, são sinais gerais de alarme.

Todos os componentes do espetro político burguês no Parlamento Europeu – incluindo liberais, social-democratas, “neoesquerdistas”, ecologistas, verdes, extremistas de direita, nacionalistas e centro-esquerdistas – votaram a favor da recente decisão da UE. Inverteram a verdade histórica, avançaram numa caça às bruxas, equiparam fascismo com comunismo e hitlerismo com stalinismo. O mesmo acontece também noutros continentes.

O nosso partido acredita que os Encontros Internacionais dos Partidos Comunistas e Operários são úteis e, certamente, devem continuar, no quadro da troca de pontos de vista e experiências dentro do movimento comunista e anti-imperialista e do esforço de coordenação. Mas, para uma substancial reconstrução ou uma contraofensiva muito mais bem-sucedida do MCI, é necessário algo mais. Precisamos de um esforço conjunto dos PC cujos pontos de vista ideológicos e políticos se baseiam no marxismo-leninismo, que reconheçam a tentativa histórica da construção socialista no século XX e a sua contribuição, independentemente de ter terminado, bem como a necessidade da luta pelo socialismo.

O KKE está agora mais maduro do que nunca para avançar nessa direção.

Caros camaradas,

O KKE está ciente de que o processo de reconstrução revolucionária será lento, tortuoso e vulnerável e basear-se-á na capacidade dos PC se reforçarem ideológica e organizativamente nos seus países, numa perspetiva multifacetada.

Isso combina ação revolucionária com teoria revolucionária, superando posições erradas que dominaram o Movimento Comunista Internacional nas últimas décadas e, hoje, são reproduzidas de várias formas.

Cada Partido Comunista será fortalecido com sólidas ligações na classe operária, em setores estratégicos da economia e reforçando a sua participação no movimento operário e popular.

Os 100 anos da fundação da IC deveriam ser um novo ponto de partida para a reconstrução revolucionária do movimento operário e comunista internacional, contra a ação contrarrevolucionária das dominantes forças do capitalismo de hoje e contra a regressão social.

Continua oportuno o lema do “Manifesto Comunista”: “Proletários de todos os países, uni-vos!”

18.10.2019

Fonte: https://inter.kke.gr/en/articles/Speech-of-the-GS-of-the-CC-of-the-KKE-Dimitris-Koutsoumpas/, publicado em 2019/10/18, acedido em 2019/10/23

Tradução do inglês de PAT

 

 

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