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Brian Cloughley *

Washington está firme no seu apoio à ditadura saudita e à sua procura de indústrias de armamento que façam circular dinheiro, não importa que excessos possam ser perpetrados pelo regime de Riade. Por outro lado, os EUA estão determinados em causar os maiores danos e, se possível, destruir Cuba, Venezuela e Nicarágua, e irão usar as sanções económicas para o fazer,  sem se importarem com o sofrimento que possa ser causado.

 

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Fonte da foto: Debra Sweet | CC BY 2.0

 

George W. Bush usou a frase “Eixo do Mail” na sua intervenção sobre o Estado da União, em janeiro de 2002, referindo-se à Coreia do Norte, ao Irão e ao Iraque, acusando este último de ter “conspirado para desenvolver o antrax,  o gás nervoso e as armas nucleares durante mais de uma década”. Houve também vastas sanções da ONU contra o Iraque mas, como foi afirmado pelo Forum para a Política Global, “Os governos dos EUA e do UK sempre deixaram claro que iriam bloquear qualquer levantamento ou grandes alterações de sanções enquanto Hussein estivesse no poder.  Ao fim de mais de doze anos de sanções, os EUA e o  Reino Unido atacaram de novo o Iraque, em março de 2003, varrendo o governo de Hussein”. E o resto é história.

Em 1996, “algo como 576.000 crianças” iraquianas morreram em resultado das sanções, e uma análise independente concluiu que houve “um forte nexo de causalidade entre as sanções económicas, o aumento da mortalidade infantil e das taxas de malnutrição”.

Tendo isto em conta, seria de esperar que os Estados Unidos e os seus aliados deixassem de impor sanções económicas como arma de coerção, porque ficou definitivamente provado que o sofrimento causado a crianças inocentes foi catastrófico, ao ponto de genocídio.

Mas, obviamente, eles não pararam. Esta gente gosta realmente de impor sanções porque pensam que isso os faz parecer virtuosos e poderosos – e se as sanções matam crianças, é pena.

Em novembro de 2001,  numa entrevista  ao Secretário de Estado dos EUA, um  jornalista disse, em relação às sanções contra o Iraque: “Ouvimos dizer que meio milhão de crianças morreu. Quer dizer que morreram mais crianças do que em Hiroshima. Acha que o preço a pagar por isso vale a pena?” o Secretário de Estado respondeu: “Penso que é uma escolha muito difícil, mas o preço – pensamos que o preço vale a pena”.

A política dos Estados Unidos em relação às sanções não mudou.

Em 2 de novembro, o fantasma da morte americano, o Conselheiro Nacional de Segurança John Bolton, anunciou a imposição de mais sanções, para além das que já vigoram, nas Caraíbas e na América do Sul. Declarou que: “Esta administração não vai tolerar mais ditadores e déspotas perto das nossas costas. Não iremos pagar esquadrões de fuzilamento, torturadores e assassinos. Vamos defender a independência e a liberdade dos nossos vizinhos. E este Presidente e toda a administração apoiarão os lutadores pela liberdade. A tróica da tirania neste hemisfério – Cuba, Venezuela e Nicarágua – encontrou finalmente o inimigo à sua altura”.

Os Estados Unidos têm ido desde a condenação de um “Eixo do Mal” até à denúncia da “Tirania da Tróica” em dezasseis ensanguentados anos, durante os quais reduziram vários países e regiões a um caos ingovernável. Parece que vai haver outra ronda de punições criminosas contra Cuba, Venezuela e Nicarágua, primeiro através do aumento das sanções e, a seguir, muito provavelmente,   através do crescente apoio aos “lutadores pela liberdade” pagos pela CIA que serão encorajados a assassinar os dirigentes desses países, estabelecendo regimes mais aceitáveis para o establishment de Washington.

Tudo isto parece bastante claro, mas há uma intrigante qualificação na declaraçãos do fantasma da morte, Bolton. A sua frase exata foi “não toleraremos ditadores e déspotas perto das nossas costas”, o que significa que Washington vai continuar a tolerar déspotas e ditadores que não estão perto das costas dos Estados Unidos – como a ditadura na Arábia Saudita, que, como figura nos  Livros de Registo da CIA,  é uma monarquia absoluta sem partidos políticos.

O Departamento de Estado entra num detalhe mais fino sobre o regime saudita, registando que existem numerosas violações dos direitos humanos, incluindo “mortes ilegais, execuções por ofensas pouco graves e sem o devido processo; tortura; prisões arbitrárias, incluindo de advogados, ativistas dos direitos humanos e reformadores antigovernamentais; prisioneiros políticos; e violações arbitrárias da privacidade”.

Em que ficamos, afinal, sobre a tão valorizada “independência e liberdade” na Arábia Saudita? Por que não há sanções dos EUA contra o regime de Riad?

Pensemos na conduta da monarquia absoluta da Arábia Saudita depois do assassinato do jornalista Jamal Kahashoggi, na Turquia, depois de ter entrado no consulado da Arábia Saudita em Istambul, em 2 de outubro, e nunca mais  ter sido visto. Há relatórios  de gritante evidência em video de que a sua tortura e morte foi registada pelos turcos, mas eles viraram as coisas ao contrário, presumivelmente porque não queriam que o mundo soubesse que eles espiam as missões diplomáticas de vários países, o que provocaria o riso de organizações como a Agência para a Segurança Nacional dos Estados Unidos e da agência britânica tecno-dependente de espionagem, Quartel General das Comunicações do Governo, ou GCHQ, que espia toda a gente.

Quando os sauditas declararam que Khashoggi tinha morrido durante uma rixa no consulado, Donald Trump disse que isso era credível e um “bom primeiro passo”. Depois, em 23 de outubro, três semanas depois do assassinato, os Estados Unidos anunciaram que Washington estava “a tomar as medidas apropriadas” contra a Arábia Saudita. Essas ações envolviam a revogação dos vistos dos que foram implicados no assassinato.

Então, o Secretário de Estado, Mike Pompeo, que viajou para a Arábia Saudita para discutir sorridentemente o assassinato de Khashoggi com o ditador saudita Mohammad bin Salman, declarou que “Estas penalizações não serão a última palavra nesta matéria para os Estados Unidos. Continuaremos a considerar medidas adicionais para responsabilizar os culpados”. Mas não houve  nenhuma espécie de atitude posterior.

Tudo foi explicado pela Chefe executiva da Locheed Martin, Marillyn Hewson, que anunciou, em 25 de outubro, que “a Lockheed determinou como principal  objetivo de crescimento as vendas a governos estrangeiros”. Mais tarde, “Hewson disse que as vendas internacionais da sua empresa subiram de 17% em 2013, para 30% em 2017. A Arábia Saudita desempenhou um papel de primeira linha nesse crescimento, disse ela, e deixou claro que esse  relacionamento iria continuar. ‘A Arábia Saudita exprimiu a sua intenção de procurar sistemas integrados de defesa aérea e de mísseis,  navios de combate, helicópteros,  sistemas de vigilância e aeronaves táticas nos próximos anos’”.

A mensagem é clara: Washington está firme no seu apoio à ditadura saudita e à sua procura de indústrias de armamento que façam circular dinheiro, não importa que excessos possam ser perpetrados pelo regime de Riade. Por outro lado, os EUA estão determinados em causar os maiores danos e, se possível, destruir Cuba, Venezuela e Nicarágua, e irão usar as sanções económicas para o fazer,  sem se importarem com o sofrimento que possa ser causado.

Vale a pena o preço a pagar.

Os pregadores morais do establishment de Washington são uns hipócritas perversos.

 

* Brian Cloughley   Escreve sobre política internacional e assuntos militares. Vive em Voutenay sur Cure, França.

 

Fonte: https://www.counterpunch.org/2018/11/09/the-malevolent-hypocrisy-of-selective-sanctions/, publicado em 2018/11/09, acedido em 2018/11/14

 

Tradução do inglês de TAM

 

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