Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Robert Fantina*

 

Por que é que a Palestina reconhece o seu brutal opressor sem exigir a mesma concessão de Israel? Agindo assim, dá alguma legitimidade à ocupação e, de todos os países que em nenhuma circunstância o deveriam  fazer, é a Palestina que está no topo da lista.

 

 

Screen-Shot-2017-06-27-at-11.21.44-PM.png

O fraco líder da Palestina, traidor e sem coluna vertebral, Mahmoud Abbas, assegurou um voto para rescindir o reconhecimento palestiniano  de Israel. Foi apenas há um ano que declarou o fim da “cooperação para a segurança” (leia-se: a cumplicidade palestiniana na opressão exercida por Israel sobre a Cisjordânia [1]) e as coisas continuaram como sempre. A decisão do reconhecimento de Israel será provavelmente a mesma. 

 

Alguns membros da comunidade internacional, que  pela primeira vez, desde há muito tempo, parece dar-se conta do abjeto sofrimento dos palestinianos (não que importe fazer alguma coisa a esse respeito), e reconhecem que Israel viola numerosas leis internacionais, tiveram uma reação tépida, que vai do “inútil” (França) ao “completamente compreensível” (Rússia).

 

Existe uma variedade de questões que esta última “decisão” não vinculativa levanta e vamos analisar algumas.

  • Por que é que a Palestina reconhece o seu brutal opressor sem exigir a mesma concessão de Israel? Agindo assim, dá alguma legitimidade à ocupação e, de todos os países que em nenhuma circunstância o deveriam fazer, é a Palestina que está no topo da lista. Com certeza, uma vez que os EUA fomentam a violência, apoiaram Israel e oprimiram a Palestina, é natural que a Palestina tenha pouca escolha na matéria.

 

  • Por que é que um país não pode deixar de reconhecer outro? As circunstâncias mudam e, apesar de não ser um gesto fácil ou imediato, quando uma nação viola seriamente a lei internacional durante décadas,  é governada por um regime de apartheid e recusa qualquer monitorização da sua capacidade nuclear, parece  haver uma boa razão para  as outras nações retirarem o seu reconhecimento oficial.

 

  • Por que é que Mahmoud Abbas ainda não saiu deste filme? Há anos que a Palestina ultrapassou o tempo para a realização de eleições que, seguramente, mandariam embora o velho, traidor e incompetente fantoche de Israel. Os EUA, claro, enquanto hipocritamente proclamam o seu apoio à autodeterminação do povo, trabalha para evitar tal eleição, porque o Hamas, com toda a probabilidade, ganharia a maioria. E se não fosse o Hamas, qualquer outro partido que desse um pontapé na linha EUA-Israel. O partido vitorioso seria o que, pela primeira vez em muitos anos, tivesse as necessidades e aspirações dos palestinianos no coração, em vez de outro que se ajoelhe perante as exigências do brutal ocupante da Palestina e o seu cruel facilitador.

Evitar eleições em outros países, cujo resultado não possa ser predeterminado a favor dos EUA, é algo de que o governo dos EUA não tem falta de experiência. Um único caso específico chegará para demonstrar este facto.

 

Em 1954, quando os franceses estavam a tentar, com bastante insucesso, ficar com o Vietname como colónia, foi assinado o Acordo de Genebra, que dividia o Vietname: o norte comunista e o sul não comunista. Os acordos previam eleições a realizar em 1956, que constituiriam um referendo à reunificação. Estas eleições foram boicotadas pelo sul, sob pressão dos EUA. Na memórias do presidente  Dwight D. Eisenhower, ele escreveu que, se as eleições se tivessem realizado em 1956, “Ho Chi Min (o líder comunista do norte) teria tido 80% dos votos”. Permitir ao povo decidir a sua própria liderança só é admitido se os EUA gostarem dela.

 

O  respeito pela vontade do povo declarado pelos EUA sempre foi um mito. Em 1916, o presidente Woodrow Wilson disse que “Todas as pessoas têm o direito a escolher a soberania sob a qual desejam viver”. O secretário de Estado de Wilson, Robert Lansing, ficou bastante perturbado com tais declarações . “Nas suas notas privadas escreveu que isso (o conceito de autodeterminação) estava  carregado de dinamite, podia  criar a desordem, o descontentamento e a rebelião. A sua mente arrumada e lógica viu que tais declarações levariam o presidente a estranhas contradições. ‘Não poderiam os maometanos da Síria e da Palestina e, possivelmente, de Marrocos e Tripoli apoiar-se nisso? Como se pode harmonizar isto com o sionismo, com o qual o presidente está praticamente comprometido?’”.

 

Os palestinianos na Cisjordânia, desarmados e desprotegidos, sabem que, quando os polícias não estão em cena, podem esperar os terroristas das Forças  de Defesa  de Israel, que virão invadir as suas casas, negócios, mesquitas e escolas, prender e aterrorizar todos os que encontrarem e matar inocentes, homens indefesos, mulheres e crianças. Isto é conhecido na linguagem particular de Israel e de Abbas como “cooperação para a segurança”. Os palestinianos não podem atirar pedras, mas os israelitas podem atirar a matar.

 

Esta é a política que, há um ano, Abbas disse que não iria respeitar mais. Do mesmo modo que acontece com os políticos americanos, as suas palavras não têm significado; os palestinianos na Cisjordânia continuam a ser agredidos, mortos, desmoralizados, presos sem culpa formada durante meses e anos, independentemente da idade, e tudo isto com assistência voluntária do seu dito líder. Qualquer eleição na Palestina poria um fim a esta “cooperação para a segurança”.

 

As iniciativas políticas que Abbas diz que vai tomar e não toma poderiam ser uma viragem para os palestinianos. Se os polícias da Fatah passassem o tempo a fazer frente a Israel em vez de trabalhar com ele, a desobediência civil atingiria rapidamente um ponto de ebulição com que a comunidade internacional teria de lidar. Se ele retirar o reconhecimento de Israel, ou mesmo apenas a ameaça de fazê-lo, pode motivar outras nações a concordar com o reconhecimento da Palestina, se esta mantiver o reconhecimento do estado de apartheid.

 

Mas estas são iniciativas que beneficiariam o povo palestiniano, e Abbas já provou repetidamente, durante anos, que essa é a última das suas preocupações.

 

O que vai acontecer a seguir? Com os EUA a pregar os pregos do caixão da Palestina e Israel ocupado a cavar a sua sepultura, procura-se em vão apoio substancial dos líderes da comunidade internacional. A grande esperança está nos membros mais humildes dessa comunidade, as pessoas que estão sempre a a  exigir o boicote, o desinvestimento e as sanções económicas (movimento BDS) em Israel. Os EUA e outros países tentam futilmente ilegalizar estas ações (nos EUA em completo desrespeito da Constituição), enquanto Israel gasta milhões de dólares para tentar anular as consequências económicas e reputacionais do movimento BDS.

 

Infelizmente, no curto prazo, isto não muda nada para os palestinianos; em Gaza, continuam fechados na maior prisão do mundo ao ar livre, e na Cisjordânia continuam a sofrer as ações brutais dos terroristas das Forças de Segurança de Israel e dos colonos terroristas. As pessoas de todo o mundo com consciência e humanismo devem aumentar os seus esforços; a própria existência da nação da Palestina depende disso.

 

Notas

[1] É uma região a oeste do rio Jordão e a noroeste do Mar Morto. Inclui Jericó, Hebron, Nablus, Bethlehem e outros colonatos. Tornou-se parte da Jordânia em 1948 e foi ocupado por Israel durante a guerra dos seis dias, em 1967. Em 1963, foi assinado um acordo que outorgava uma autonomia limitada aos palestinianos, que consituíam 97% dos seus habitantes. A retirada das tropas de Israel começou em 1994, mas o conflito na área continua. – NT

 

* O último livro de  Robert Fantina é Empire, Racism and Genocide: a History of US Foreign Policy [Império, Racismo e Genocídio: uma História da Política Externa dos EUA] (Red Pill Press).

 

Fonte: publicado em 2018/01/19, em https://www.counterpunch.org/2018/01/19/palestine-and-israeli-recognition/.

Tradução do inglês de TAM.

 

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.