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Os mesmos arquitetos ocidentais que mergulharam o Iraque em chamas estão agora a montar uma equipa de gestão liderada por sionistas para controlar Gaza. O seu plano: liquidar a resistência palestiniana, confiscar imóveis e chamar paz a isso.

Com o anúncio do plano de 20 pontos para Gaza do presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu em 29 de setembro, duas figuras notórias ressurgiram das sombras: o genro de Trump, Jared Kushner, e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair – o criminoso da guerra do Iraque que, ao lado do ex-presidente dos EUA, George W. Bush, mergulhou a Ásia Ocidental em décadas de derramamento de sangue.
Durante o primeiro mandato de Trump, como conselheiro sénior, Kushner elaborou o que chamou "Acordo do Século" para a eliminação completa da Palestina através da anexação da Cisjordânia ocupada. O seu sogro, juntamente com o amigo da família Netanyahu, revelou esse plano em janeiro de 2020 sob o título "Paz para a Prosperidade: Uma Visão para Melhorar a Vida do Povo Palestiniano e Israelita".
O eixo Blair-Kushner
O fracasso desse plano foi recuperado em setembro de 2020 pela assinatura, sob a mediação de Trump, dos Acordos de Abraão, que também foram orquestrados por Kushner e normalizaram as relações de Estados árabes como os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, Marrocos e o Sudão com Israel.
Kushner voltou com um novo esquema para refazer Gaza à imagem da "Riviera do Médio Oriente" idealizada por Trump.
Blair, que infamemente ordenou que a inteligência britânica "apimentasse" o discurso com falsas alegações sobre armas iraquianas de destruição em massa, garantiu a participação de Londres na invasão de 2003, apesar dos protestos em massa e da dissidência parlamentar. A guerra matou centenas de milhares de pessoas e destruiu o Iraque, mas Blair afastou-se para construir uma fortuna com os destroços do pós-guerra. A sua passagem como enviado do Quarteto para a Ásia Ocidental foi um veículo velado para a diplomacia pró-Israel e enriquecimento pessoal.
Agora, Blair regressa para presidir ao chamado "Conselho da Paz" de Gaza, completando um eixo de ambição assentamento de colonatos cuja missão é clara: liquidar a resistência palestiniana e instalar um corpo governante escolhido a dedo para servir Tel Aviv e investidores ocidentais.
No topo dessa hierarquia "colonial" está o "Conselho de Blair" e, abaixo dele, uma comissão local composta por palestinianos, designados por seleção e aprovação israelitas. O ex-primeiro-ministro britânico encomendou ao seu think tank Tony Blair Institute for Global Change [Instituto Tony Blair para a mudança global] a preparação de um plano para "governar Gaza no pós-guerra". Blair visitou a Casa Branca para consultas em 7 de julho durante a visita de Netanyahu e, em seguida, apresentou-o formalmente a Trump e Kushner em 27 de agosto.
Liquidando Gaza
O plano, conforme descrito no Artigo 9 da proposta de Trump, prevê que Blair preside o conselho que supervisiona a transição de Gaza. Um comité palestiniano tecnocrático administraria os assuntos diários, mas permaneceria sob a supervisão rígida desse conselho externo. A Autoridade Palestina (AP) pode ser reintroduzida, mas somente depois de concluir um processo de reforma ditado por potências estrangeiras.
De acordo com o plano de Blair, "a Autoridade Internacional de Transição de Gaza (GITA) será administrada por um órgão internacional com a autoridade política e legal suprema para Gaza durante o período de transição". A composição de tal autoridade foi caracterizada como tendo "pelo menos um palestiniano qualificado (potencialmente do mundo dos negócios ou da segurança), um alto funcionário da ONU, figuras internacionais proeminentes com experiência em gestão ou finanças e uma forte representação de membros muçulmanos para aumentar a legitimidade regional e a credibilidade cultural".
O simples facto de Kushner e Blair estarem a unir forças é suficiente para nos dar uma ideia do plano de Trump. O plano de 20 pontos, que não considera as opiniões dos palestinianos, pede que o Hamas entregue as armas, o desarmamento de Gaza e a exclusão do Hamas e de outros grupos de resistência do governo de Gaza. A agência de notícias palestina Shehab News descreveu-a como "a combinação favorita de Trump" e que "reúne figuras que combinam os mundos dos negócios e investimentos com a política e a lealdade a Israel em nome da 'paz' no Médio Oriente [Ásia Ocidental]".
Uma junta de bilionários, sionistas e colaboracionaistas escolhida a dedo
Entre a equipe proposta por Blair estão bilionários ligados a Kushner e leais e inabaláveis sionistas, selecionados pelo seu alinhamento com os objetivos EUA-Israel. Isso inclui Marc Rowan, um dos homens mais ricos de Wall Street, com uma fortuna de US$ 10,2 mil milhões, judeu-americano fundador e CEO da Apollo Global Management, uma gigante de private equity [capital de investimento privado] que administra US$ 840 mil milhões em ativos, incluindo investimentos significativos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.
Um autodeclarado "orgulhoso defensor de Israel" e dos seus militares, Rowan chamou à Operação Al-Aqsa Flood, liderada pelo Hamas, uma "oportunidade" para atingir o Irão. Trabalhou ativamente para suprimir a defesa pró-palestina nos campi universitários dos EUA, inclusive através de campanhas que pressionam as universidades a rotular esse ativismo como "antissemita", e usou a sua influência na Universidade da Pensilvânia, da qual é um dos principais doadores e membro do conselho da Escola Wharton [de negócios na mesma universidade]. Rowan também foi considerado por Trump como um potencial candidato a secretário do Tesouro em 2024 e doou US$ 1 milhão para a sua campanha de 2020.
O rabino Aryeh Lightstone, ex-conselheiro de Kushner e CEO do Instituto da Paz dos Acordos de Abraão, cofundou a Fundação Humanitária de Gaza (GHF), que substituiu os canais de ajuda da ONU e tem sido cúmplice de massacres israelitas em pontos de distribuição de alimentos, conforme documentado pelos Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Lightstone foi nomeado representante especial dos EUA para a normalização económica pelo Departamento de Estado em 2020 e "representou os interesses americanos na normalização das relações económicas entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão, Marrocos e Kosovo". Também desempenhou um papel fundamental na implementação dos Acordos de Abraão, participou do planeamento da Casa Branca sobre a "Gaza pós-guerra", escreveu um livro para promover os imóveis costeiros de Gaza como parte do plano de Trump para Gaza e atuou como chefe da Shining City, a organização de fachada de Israel nos EUA que doou US $ 1 milhão em 2015 ao Im Tirtzu, um grupo israelita que visa atacar defensores da paz ao mesmo tempo que “educa” as autoridades americanas quanto aos "perigos" dos boicotes a Israel.
Naguib Sawiris, o homem mais rico do Egito e parceiro de negócios de longa data de Blair, lucrou com contratos militares dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Sawiris defende a transformação de Gaza numa zona de capital livre semelhante ao Dubai, refletindo as ambições lideradas pelos Emirados Árabes Unidos de redesenhar a faixa para obter lucro. O bilionário egípcio, que sofreu perdas financeiras significativas recentemente, criticou Israel e os EUA, até mesmo quando se encontrou com o líder norte-coreano Kim Jong Un. No início deste ano, disse: "Israel não deseja o bem para o Egito, nem os EUA. Ninguém quer o bem para o Egito, exceto os próprios egípcios".
Sigrid Kaag, a atual coordenadora da ONU para a reconstrução de Gaza, embora nominalmente independente, desempenhou um papel facilitador no processo. Ela criticou recentemente as políticas israelitas, mas permanece inserida numa estrutura projetada para facilitar o controle estrangeiro.
Gaza outra vez embalada para obter lucro
O retorno de Blair não tem nada a ver com preocupação humanitária. É impulsionado pelo lucro, poder e controlo. A costa de Gaza – descrita por Lightstone e Kushner como uma joia inexplorada – está a ser esculpida como um parque de diversão para as elites regionais. A chamada "Riviera do Médio Oriente" representa outro projeto de colonização para apagar a vida e a memória palestinas sob a bandeira da reconstrução.
Essa visão encaixa-se nas ambições dos Emirados Árabes Unidos e de outros Estados árabes do Golfo Pérsico, cujo capital subscreve o esquema. Kushner, cuja empresa recebeu US $ 2,5 mil milhões das monarquias do Golfo, está agora no centro das negociações no Cairo ao lado do enviado dos EUA, Steve Witkoff. A sua missão é impor a subjugação e abrir Gaza à exploração, apresentando o confisco de terras palestinianas como "desenvolvimento económico".
Mais de um século após a Declaração Balfour de 1917, a Grã-Bretanha mais uma vez assume o papel de administradora colonial num projeto apoiado pelo Ocidente para apagar a Palestina. A era do mandato simplesmente mudou o nome, os soldados tornaram consultores-se e os oficiais imperiais agora usam fato. No entanto, o objetivo permanece inalterado – governar um povo negando-lhe soberania. Os palestinianos não consentiram esse projeto, e nenhum plano estrangeiro decidirá o seu futuro. A Resistência, como mostra a história, perdura muito depois da queda dos impérios.
Fonte: A segunda vinda de Blair: Gaza sob tutela colonial, publicada e acedida em 07.10.2025
Tradução de TAM
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