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Nick Alexandrov *

Poderia ter sido em 1495, como aconteceu com o indígena Taíno, em Hispaniola – a ilha que Colombo invadiu. Os espanhóis cortavam as mãos – efetivamente sangravam até a morte –, de qualquer Taíno que falhasse ou recusasse garimpar bastante ouro. Era um pecado imperdoável não enriquecer outros, não trabalhar para que outros pudessem lucrar. As transgressões dos defensores das terras filipinas são praticamente as mesmas. As suas mortes mostram os traços da barbárie moderna do início da nossa era.

 

 

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Norma Capuyan, vice-presidente de Apo Sandawa Lumadnong Panaghiusa, em Cotabato (ASLPC).
Fonte da fotografia: Keith Kristoffer Bacongco – CC BY 2.0

Dois homens, provavelmente soldados, viram Bai Leah Tumbalang. Foi em agosto passado. Ela estava em Valencia City, na província filipina de Bukidnon. Os homens aproximaram-se na sua motocicleta, seguiram-na, depois pararam e dispararam sobre ela, na testa. Morreu imediatamente.

Mas a sua morte não foi aleatória, sem sentido. Com ela, os seus assassinos sinalizaram que proteger as terras nativas é um pecado imperdoável. Porque Tumbalang “era uma líder do ‘Kaugalingong Sistema Igpasasindog to Lumadnong Ogpaan’ (Kasilo), uma organização cujos membros fizeram campanha contra a entrada de empresas de mineração em Bukidnon e pela defesa do seu domínio ancestral”. E pessoas como ela, fazendo um trabalho semelhante, têm sido mortas a tiro, uma e outra vez, nas Filipinas.

Em termos de ativistas ambientais assassinados, “as Filipinas foram o país mais afetado, em números absolutos”, no ano passado, informa a Global Witness. Beverly Geronimo, 27 anos, era ativista na Associação de Agricultores de Tabing Guangan (TAGUAFA) e, como Tumbalang, contra as grandes empresas de mineração. Estava a levar a sua filha de oito anos para casa, quando dois homens armados a detiveram e alvejaram até à morte. O padre Mark Ventura, 37 anos, contrário às empresas de mineração e defensor dos direitos dos indígenas, “estava a abençoar as crianças depois de uma missa” quando um homem com um capacete de motocicleta veio do outro lado da sala com uma arma, disparando duas vezes e matando-o. Treze membros da Federação Nacional dos Trabalhadores da Cana-de-Açúcar (NFSW) estavam a ocupar parte de “uma vasta plantação de cana ... quando cerca de 40 homens armados os surpreenderam”, matando nove – “incluindo três mulheres e dois adolescentes” – e queimaram “três dos corpos no fogo”.

A Global Witness acusa os militares filipinos de “trabalhar em conluio com poderosos interesses privados” – a que Kasilo, TAGUAFA, NFSW e outros se opõem – nesses assassinatos. Também se pode acusar o governo dos EUA. Nenhum exército do Sudeste Asiático recebe mais fundos de Washington do que as Filipinas, com uma ajuda para a segurança a totalizar US $ 1,35 bilião, de 2000 a 2020. Obama foi muito mais generoso do que George W. Bush para as forças filipinas, concedendo US $ 651 milhões aos US $ 400 milhões do seu antecessor. Para quem deseja o período pré-Trump é reconfortante saber que Obama trabalhou para deixar um legado.

O mais bem financiado programa de segurança é o Financiamento Militar Estrangeiro (FMF), que canalizou quase US $ 650 milhões para Manila, desde 2000. O Defense News descreve o FMF, em geral, como “uma subvenção concedida aos aliados dos EUA para permitir que comprem equipamentos de defesa” – especificamente “bens fabricados nos Estados Unidos”, tornando-os “um impulso para a indústria de defesa doméstica”. As outras prioridades de Washington incluem a autoridade da Secção 1206 e a da Secção 333 para criar capacidades, ambas abençoadas com 218 milhões de dólares para treinar e armar as tropas filipinas.

Esses soldados, habilitados com dinheiro e armas dos EUA, dedicaram-se a várias iniciativas de contrainsurgência, desde o início do milénio. Oplan Bantay Laya, lançado em 2001, abrangendo os dois mandatos da presidente Gloria Macapagal Arroyo (2001-2010) foi, segundo a organização de direitos humanos Karapatan, “de longe, a mais sangrenta e brutal campanha de contrainsurgência desencadeada sobre o povo filipino por qualquer presidente”.

Seguiu-se a Oplan Bayanihan, de 2010 a 2016, a coincidir com a presidência de Benigno Aquino III. A política visava, oficialmente, “reduzir a capacidade de ameaças armadas internas”, como o Novo Exército Comunista do Povo (NPA), “limpar” as terras mantidas pelo NPA e, ainda, reduzir o seu número de combatentes. Na realidade, os soldados filipinos invadiram comunidades indígenas e camponesas, matando quem quisessem – um legado que o atual presidente Rodrigo Duterte desenvolve com o Oplan Kapayapaan.

O casamento de Lito Aguilar estava para breve. Ele precisava de peixe para a festa, por isso levou com ele Christopher Abraham, um colega fazendeiro de cânhamo, para o rio mais próximo. Não voltaram mais. Logo após os assassinatos, o Exército filipino emitiu uma declaração afirmando que os dois homens eram membros do NPA, mortos numa escaramuça com as forças do Estado. Leonila e Ramon Pesadilla eram ativistas na Associação de Fazendeiros de Compostela (CFA), um grupo camponês contra a mineração, que os militares decidiram que era realmente uma frente do NPA. Uma noite, o casal estava com o seu neto de cinco anos quando ouviu bater à porta. Era um par de assassinos que baleou cinco vezes Leonila e seis vezes Ramon, matando-os. Cindy Tirado foi considerada culpada por viver com um membro do NPA, Jay Mendoza, o seu namorado. Emma Tirado, mãe de Cindy, afirmou que soldados capturaram a sua filha, torturaram-na e puseram fim à sua vida. O corpo de Cindy foi encontrado com os braços fraturados e com os genitais “destruídos por uma bala”.

Estes assassínios, uma marca registada da contrainsurgência filipina, parecem revelar os reais objetivos da polícia. Há décadas, um mercenário dos EUA, um ex-fuzileiro naval, talvez tenha feito o melhor resumo possível desses objetivos. “O exército não está a matar guerrilheiros comunistas”, mas sim “a matar os civis que estão do lado deles”. Ele estava em El Salvador, na década de 1980, quando Washington deu ao exército desse país US $ 6 biliões, enquanto este procedia à matança de dezenas de milhares de civis. Relatório atrás de relatório concluem que as forças armadas filipinas desenvolvem o seu trabalho, em parte, nessa tradição.

Mas o assassinato de defensores da terra e de ativistas indígenas também está de acordo com os mais antigos costumes. Pensemos na história inicial dos EUA: “Com o crescimento das ferrovias transcontinentais, surgiram mais colonos e os apelos para obter as matérias-primas e minerais que se encontram nos territórios que permanecem sob o controle dos nativos americanos no Oeste”, escreve o historiador Adam Burns. “Os soldados americanos massacraram frequentemente os povos nativos que não se dispuseram a assinar a venda das suas terras e, em vez disso, aí se mantiveram firmemente”.

As autoridades dos EUA ainda veem os grupos nativos como obstáculos, nesse sentido – como impedir a extração de minerais, por exemplo. Washington estava ansiosa por ajudar Manila a pesquisar os seus depósitos minerais. Em 2005, o Mapeamento Geológico dos EUA delineou planos “para conduzir a primeira fase de uma avaliação dos recursos minerais das Filipinas”, a fim de encontrar “grandes reservas de cobre, ouro, níquel, crómio e outros minerais”, como o cobalto, para serem explorados. Mas, três anos depois, a embaixadora dos EUA, Kristie Kenney, queixou-se de que, na ilha de Mindanau, a exploração mineira ainda não havia atingido o seu potencial. “Um dos mais significativos desafios enfrentados pelas operações de mineração em larga escala é o de lidar com os atuais detentores das terras sobre as quais obtiveram direitos de exploração”, referiu ela. Destacou também que “os ancestrais povos indígenas, embora não reconhecidos pelo sistema legal, reivindicam as áreas ricas em minerais” o que é especialmente problemático. Vimos acima o tratamento que o Exército das Filipinas dá aos ativistas antimineração.

A leitura sobre esses assassinatos não consegue transmitir o seu horror. Nós estamos online. Somos viciados em websites ou aplicativos que colhem os nossos dados, recolhendo os nossos registos fossilizados na Internet para vender a outras empresas. Há ouro nas nossas placas de circuito telefónico, cobalto nas baterias. Esperamos por um comboio, que contém aço inoxidável, e os carros contêm níquel. Nas nossas casas, mais de 400 libras de fios de cobre e canalizações entrelaçam as paredes, 300 libras nos nossos apartamentos. Vivemos em 2019.

Poderia ter sido séculos antes, para Bai Leah Tumbalang e para o padre Mark Ventura. Poderia ter sido em 1495, como aconteceu com o indígena Taíno, em Hispaniola – a ilha que Colombo invadiu. Os espanhóis cortavam as mãos – efetivamente sangravam até a morte –, de qualquer Taíno que falhasse ou recusasse garimpar bastante ouro. Era um pecado imperdoável não enriquecer outros, não trabalhar para que outros pudessem lucrar. As transgressões dos defensores das terras filipinas são praticamente as mesmas. As suas mortes mostram os traços da barbárie moderna do início da nossa era.

 

* Nick Alexandrov vive em Tulsa, Oklahoma.  Endereço eletrónico: nicholas.alexandrov@gmail.com.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2019/11/13/murder-like-its-1495-u-s-backed-counterinsurgency-in-the-philippines/, publicado em 201-11-13, acedido em 201-11-15

Tradução do inglês de PAT

 

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