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Para quem está fora da Venezuela é muito importante entender que após a morte de Chávez o país entrou numa nova fase. Há um antes e um depois, um governo revolucionário anti-imperialista de esquerda que defendeu os direitos dos povos e a unidade latino-americana e agora o atual governo que mudou completamente esse rumo.               

           

 

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Discutindo salários, saúde e direitos dos trabalhadores, Paul Dobson conversou com o secretário internacional do Partido Comunista da Venezuela no contexto da campanha de fundos do Partido Comunista Britânico e da Youth Communist League [Liga da Juventude Comunista] para a nação latino-americana sitiada.

           

Paul Dobson: Muito se tem falado sobre a “rutura” entre o Partido Comunista Venezuelano (PCV) e o Partido Socialista Unido (PSUV) no governo em 2020. Quais foram as causas políticas subjetivas e objetivas dessa decisão?

Carolus Wimmer: Queremos enfatizar que a política do PCV é de unidade e a mais ampla aliança patriótica, democrática e anti-imperialista possível e hoje o PCV continua a procurar e a lutar pela unidade.

Naturalmente, não se trata de uma unidade entre organizações políticas, mas de uma unidade que visa o bem-estar do povo e a defesa dos direitos sociais e políticos dos trabalhadores. Essa política continua a existir e no clima atual em que praticamente não há contacto entre o PCV e o PSUV, o nosso apelo é sempre para que nos juntemos e debatamos as nossas diferentes posições em busca de soluções.

Houve um exemplo claro disso em 2018, quando a candidatura presidencial de Nicolás Maduro foi apresentada e, naturalmente, nós comunistas realizámos uma coligação política antes de apoiá-lo. Como tal, o PCV discutiu mais de 100 questões e propostas. Finalmente, em 2018, 19 questões foram acordadas como um bom ponto de partida [para o apoio à candidatura] e assinámos um acordo unitário PCV-PSUV. O acordo incluía o compromisso de iniciar grupos de trabalho conjuntos para essas 19 questões que abordassem questões como trabalhadores e camponeses, salários, segurança, etc. — e realizar reuniões mensais de acompanhamento e discutir acordos  noutras áreas.

Após 2018, o PSUV iniciou a ruptura. Eles nunca atenderam as nossas chamdas e nunca tivemos a oportunidade de nos sentar novamente com eles. Queremos enfatizar isso:   numa clara crise política e económica que afetou os trabalhadores, a rutura partiu do PSUV contra o PCV. Nunca aceitámos esse tipo de ruptura; em vez disso, queríamos falar de política com eles.

PD: A rutura trouxe várias consequências diferentes. Quais foram as consequências na esfera política?

CW: Em primeiro lugar, o distanciamento das duas organizações políticas mais representativas: o partido no poder e o PCV. Obviamente, esse distanciamento bloqueou a voz de um importante setor comunista que luta há 90 anos pelos trabalhadores, camponeses e pelo povo em geral. O PSUV é cada vez mais social-democrata e aliado dos interesses do capital transnacional.

Isso pode ser uma surpresa para alguns, mas há conversas em andamento entre eles e a direita fascista que encenou o golpe de Estado de 2002 contra Chávez e preparou o ataque desde sua morte. Atualmente, o governo senta-se com esses setores. A decisão é deles, mas não entendemos por que não se reúnem também com trabalhadores, camponeses, profissionais e grupos indígenas, que são a base fundamental do nosso processo democrático participativo.

As consequências dessa falta de comunicação, dessa forma autoritária de governar, atingem muito os setores operário e popular, pois seus problemas não estão sendo debatidos, não se identificam soluções e quaisquer críticas ou protestos são recebidos com repressão e prisão. Nesse sentido, na nossa luta de classes aumentam as contradições entre o PCV e setores do governo.

A Venezuela continua a travar uma luta anti-imperialista pela libertação nacional como parte da contradição nação-imperialismo. A história ensina- nos que esta luta requer a mais ampla unidade para poder superar o imperialismo e as fraturas nas forças populares beneficiam apenas o grande capital. Como é que a rutura impactou nessa luta?

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Para quem está fora da Venezuela é muito importante entender que após a morte de Chávez o país entrou numa nova fase. Há um antes e um depois, um governo revolucionário anti-imperialista de esquerda que defendeu os direitos dos povos e a unidade latino-americana e agora o atual governo que mudou completamente esse rumo.

Internacionalmente, muitas vezes as coisas são vistas de forma idealista, como se  apenas tivesse havido uma mudança de pessoa e se amntivesse uma continuidade de política, mas isso não está certo. Vemos um aumento diário da influência do capital sobre a política governamental.

Assim, o PCV e outros setores  de esquerda criaram a Alternativa Popular Revolucionária (APR), que é uma organização em construção e crescimento que deve definir as missões de cooperação na luta revolucionária anti-imperialista pela construção do socialismo. Esta é a linha política do PCV: unidade anti-imperialista.

 

Do ponto de vista teórico, muitos criticaram a aliança passada entre os comunistas e setores do governo. Acha que a aliança foi um erro tático no seu tempo que está a ser corrigido hoje?

Estamos numa luta de classes, onde a correlação de forças define naturalmente os resultados vitoriosos. O PCV foi o primeiro partido político a apoiar Chávez na campanha eleitoral de 1998. Isso veio de uma profunda análise da realidade da Venezuela na época e depois de uma longa discussão no Comité Central. O apoio e a análise do PCV  mostraram-se corretos: sem o nosso apoio, Chávez poderia não ter vencido aquelas eleições.

Esta unidade entre o grupo de Chávez e o PCV foi bem sucedida e ameaçou os interesses do capital e dos EUA. Logicamente, essa luta de classes levou ao golpe de estado de 2002, liderado por setores de extrema direita venezuelanos e apoiado pelos EUA e pela maioria dos governos europeus. Infelizmente, esta aliança foi quebrada hoje devido ao conteúdo de classe do partido no poder, que é completamente diferente do projeto proposto por Chávez.

 

Levando em conta o persistente encantamento com o PSUV nas massas populares venezuelanas, como propõem o PCV e a APR penetrar na consciência social com as suas propostas?

O PCV sempre esteve com os trabalhadores, a classe  operária, os camponeses, as camadas médias e os profissionais, que sofreram com as políticas governamentais, mas também com as sanções dos EUA.

No exterior, há uma certa confusão pelo facto de que o atual governo, que é social-democrata de direita e procura uma acomodação tática com os governos dos EUA e da UE, continua a usar simbolicamente uma linguagem que nos lembra Chávez.

Muitas vezes fala sobre o “socialismo bolivariano”, o que é absurdo para nós, pois aqui não existe socialismo. Falar de socialismo aqui é mera propaganda, porque os salários estão abaixo dos níveis de pobreza  extrema e os nossos setores da saúde e educação estão destruídos.

Alcançámos grandes conquistas com Chávez, mas agora estamos em completa reversão; venha visitar as nossas escolas e hospitais e verá o estado real e desastroso dos nossos serviços públicos que devem garantir o bem-estar das pessoas. Mas o conceito de socialismo bolivariano ou socialismo do século XXI ainda é usado.

A nossa tarefa é trabalhar com a classe operária que temos de definir no atual estágio de desenvolvimento capitalista. O PCV está se a preparar-se para o seu XVI Congresso em novembro,  na qual haverá um debate vivo, um estudo científico marxista-leninista sobre a nossa realidade e sobre as políticas que procuram uma saída vitoriosa da crise atual.

Um grande setor popular ainda apoia o PSUV e vota maioritariamente no atual  governo de forma quase religiosa ou mecânica,  como um reflexo. A tarefa do PCV e da APR é conquistar a consciência desses setores que se abstêm politicamente cada vez mais. Isso é muito preocupante, pois a rejeição do governo autoritário leva muitos a  desmobilizarem-se politicamente. À medida que crescermos e nos organizarmos melhor, fortalecemo-nos e  seremos reconhecidos como alternativa.

 

Existem condições materiais que permitam ao PCV retomar a sua aliança com o governo e, em caso afirmativo, quais são?

Não é realista para nós retomar a aliança com o PSUV no curto prazo. Entendemos isso no contexto da luta de classes: os acordos com o capital nacional e internacional, assim como os elementos fascistas, as renovadas áreas comuns com os EUA e os governos de direita europeus, são a prioridade do PSUV e isso está em completa contradição com uma aliança com a classe trabalhadora e o campesinato, com o PCV e a APR.

Reconhecemos a dialética na política –  essa situação pode mudar, é claro! Naturalmente, o governo deve corrigir as políticas que coincidem com a deterioração da situação social e económica do povo venezuelano.

 

Fonte: https://morningstaronline.co.uk/article/f/pcvs-carolus-wimmer-there-no-socialism-venezuela

Fonte das fotos: https://www.jn.pt/mundo/um-desastre-imparavel-79-da-venezuela-em-pobreza-extrema—12423866.html; https://www.voaportugues.com/a/1579268.html

 

 

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