Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Como historiador que sou da história moderna do México, especialmente das lutas do povo trabalhador mexicano contra as tremendas injustiças que sofria e sofre, quero afirmar que este documento, as “Teses”, é o melhor resumo, o mais honesto e verdadeiro que já li sobre os primeiros anos tão difíceis do partido, as suas relações internacionais, através da Comintern, as suas bravas lutas pelo proletariado mexicano, industrial e rural, os seus sucessos e os seus erros e, até, os seus fracassos durante os anos setenta e o pior erro, a liquidação do partido, em 1981.

 

Sem Título (4).jpg

Três breves comentários sobre um século de luta comunista no México

John Womack, Jr. *

 

Estimados camaradas do Partido Comunista do México,

Recebam as minhas solidárias saudações e estes poucos parágrafos de comentários, que espero lhes sejam úteis.

Em primeiro lugar, felicito-os pela celebração que dignamente desenvolvem para honrar o centenário do Partido Comunista no México, nascido em novembro de 1919 e, dois anos depois, já Partido Comunista Mexicano, devidamente reconhecido como a Secção Mexicana da Internacional Comunista.

Em segundo lugar, felicito-os pelas “Teses do Comité Central do PCM” [1], de 7 de novembro. Como historiador que sou da história moderna do México, especialmente das lutas do povo trabalhador mexicano contra as tremendas injustiças que sofria e sofre, quero afirmar que este documento, as “Teses”, é o melhor resumo, o mais honesto e verdadeiro que já li sobre os primeiros anos tão difíceis do partido, as suas relações internacionais, através da Comintern, as suas bravas lutas pelo proletariado mexicano, industrial e rural, os seus sucessos e os seus erros e, até, os seus fracassos durante os anos setenta e o pior erro, a liquidação do partido, em 1981. Como historiador, devo dizer-lhes que em alguns pontos da história discordo das teses, mas são poucos e pequenos, são detalhes. Com as linhas importantes da análise, que considero muito perspicazes e muito interessantes – e, também muito a propósito para celebrar o centenário – estou inteiramente de acordo.

Em terceiro lugar, mais amplamente, um comentário clarificador: entendo que, hoje, se está a disputar no México a história do PCM, isto é, como comemorar o centenário. De acordo com as notícias que tenho, a diferença surge mais clara entre aqueles que querem lembrar a história e aqueles que querem estudá-la para a utilizar, a atualizar e torná-la eficaz nas lutas pelo poder no México. Esta questão pode expressar-se na diferença entre dois propósitos.

O propósito de lembrar a história, só para comemorar o partido, é, com efeito, o propósito de, finalmente, lhe fazer um enterro decente e respeitoso, prestar-lhe os devidos ritos funerários, regressando de seguida, nostalgicamente, à vida quotidiana subordinada ao domínio perpétuo do imperialismo. Por respeito sincero à memória do pobre partido liquidado, o enlutado pode, de vez em quando, participar em movimentos para limitar a exploração e a opressão que o imperialismo impõe, no México e em outros países. Estes movimentos podem dedicar-se a suavizar o imperialismo, torná-lo menos doloroso e pesado, insistir para que deixe de fazer aquilo que, sistemicamente, é a razão de ser da sua existência. Mas, como o enlutado enterrou o partido e celebrou a sua história para a encerrar, já não sonha pôr fim ao capitalismo. Tampouco pensa num partido para se opor ao imperialismo nas suas bases, muito menos para o derrubar, mas antes fazer um partido capaz, quando o imperialismo se destruir por si mesmo, no México e no mundo, de lutar por uma nova ordem pública, mexicana e internacional, de justiça trabalhadora.

Este triste e resignado propósito parece-se com o daqueles que propõem que tudo o que há de bom para comemorar e salvar do pobre partido liquidado em 1981 já foi subsumido no Morena e no AMLOismo [2] – que tudo o que tinha de bom aquele partido se vai cumprir na chamada Quarta Transformação e, agora, novo baralho, mas o mesmo jogo. Ou seja, uma transformação que não toca nos três fortes pilares do imperialismo no México –, os grandes bancos estrangeiros, os monopólios e os impostos que os capitalistas estrangeiros e mexicanos no México (não) pagam –, outra transformação burguesa, é a maior conquista que os trabalhadores mexicanos podem esperar. Se este é o fruto da liquidação de 1981, se comemorá-lo agora é referenciá-lo ao passado e pretender que o seu destino termine nestas mudanças de forma do capitalismo no México, esta nova fuga do problema fundamental do México trabalhador parece-me que, inconsciente ou deliberadamente, é a desonra da história do partido. Pessoalmente, não questiono aqueles que de boa fé sabem e confessam que estão apenas a fazer o melhor que podem imaginar, dentro dos limites do imperialismo no México. Eu rejeito os limites do capitalismo e desejo que os de boa fé tenham sido comunistas, mas não questiono os seus motivos nos limites que aceitam. São honestos e não pensam que possa fazer-se outra coisa, na melhor das hipóteses, do que mudar a forma da exploração capitalista –, talvez, se o sonho se realizasse, fazer mais outra transformação do capitalismo no México que seja, pelo menos a breve prazo, um pouco menos injusto. Mas aqueles que defendem que nesta mudança de forma do capitalismo, nesta rendição ao capitalismo, o partido liquidado chegou ao seu destino, ou mentem e sabem-no bem (nada de novo na política), ou sofrem dessa triste e doce loucura onde as ilusões são reais. Nas histórias futuras, os mentirosos sairão desonrados; os iludidos lamentados.

O outro propósito, o que leio nas “Teses” do CC do PCM, de estudar a história do PCM para entender os seus sucessos e erros, aprender as melhores lições para a atualizar, ou seja, desenvolver lutas efetivas pelo socialismo no México, esse propósito parece-me que sim, honra a história do partido. Significa, o que eu também creio, que nem o capitalismo nem a sua expressão internacional no imperialismo são a signa humana, tão perpétua e inevitável quanto o sol ou a lua. Significa o reconhecimento de que o capitalismo, sistema internacional do imperialismo, não desaparecerá por si só, nem aceitará novas regras que o limitem por muito tempo, que mobilizará toda a sua força e inteligência para defender a sua ordem. Atualizar a história do PCM é reconhecer que sem luta consciente e perseverante das classes trabalhadoras não é possível acabar com este indecente mundo de exploração e, de seguida, implantar uma nova ordem de justiça trabalhadora. Além disso, é reconhecer que não será possível garantir essa nova ordem sem o comando do trabalhador, dedicado, com toda a consciência e total compromisso, à formação do socialismo, no longo caminho das lutas para o comunismo. E só um partido decidido contra o capitalismo e o seu sistema internacional, um partido que não se limita a reformar um inimigo incorrigível, mas a derrotá-lo para tornar o mundo justo, pode merecer esse mandato.

Por isso gostei muito e, muito especialmente, da referência das Teses ao Partido Comunista como o Estado Maior da classe operária.

20 de novembro de 2019

 

Notas

[1] As Teses do Comité Central do PCM foram publicadas neste blog, em 2 partes, nos dias 22 e 25 de novembro de 2019. – NT

[2] Morena: acrónimo de Movimento de Regeneração Nacional, partido político social-democrata do México, que começou por ser um movimento/associação civil social e político impulsionado por Andrés Manuel López Obrador, conhecido pelo acrónimo AMLO, atual presidente do México, desde 1 de dezembro de 2018. – NT

* John Womack, Jr. é um historiador da América Latina, particularmente do México, da Revolução Mexicana (1910-1921) e de Emiliano Zapata. Aposentou-se em junho de 2009 do cargo de professor de História e Economia da América Latina, na Universidade de Harvard. – NT

Fonte: http://www.comunistas-mexicanos.org/partido-comunista-de-mexico/2223-carta-del-dr-john-womack-al-pcm, publicado em 2019/11/27, acedido em 2020/01/02

Tradução do castelhano de PAT

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.