Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


T.J. Coles *

Espiado e manipulado pelas tecnologias que financia, o público, como consumidor, paga pelos serviços prestados por esses gigantes da tecnologia. Podemos falar num ciclo vicioso…

 

 

Sem Título (37).jpg

Fonte da fotografia: DoD, foto do Primeiro Sargento  Ken Hammond, 

Força aérea dos EUA –Domínio público

 

O orçamento  inflacionado do Departamento de Defesa dos EUA, juntamente com o capital de risco da CIA, ajudou a criar gigantes da tecnologia, incluindo a Amazon, a Apple, o Facebook, o Google e o PayPal. O governo, então, contrata essas empresas para ajudar as suas operações militares e de inteligência. Ao fazê-lo, torna os gigantes da tecnologia ainda maiores.

Nos últimos anos, as tradicionais empresas bancárias, de energia e industriais da Fortune 500 vêm perdendo terreno para gigantes da tecnologia como a Apple e o Facebook. Mas a tecnologia da qual eles dependem surgiu da  investigação e do desenvolvimento financiados pelos contribuintes  em décadas  anteriores. A internet começou como ARPANET, uma invenção da Honeywell-Raytheon, que trabalhava  com um contrato do Departamento de Defesa (DoD). Os mesmos satélites que permitem as comunicações modernas pela internet também permitem que os jatos dos EUA bombardeiem os seus inimigos, assim como o GPS, que permite que os retalhistas online forneçam produtos com alta precisão. A tecnologia touchscreen da Apple foi criada como uma ferramenta da Força Aérea dos EUA. Os mesmos drones que gravam vídeos de tirar o fôlego são versões modificadas de Reapers e Predators.

A investigação do DoD, financiada por impostos, é a espinha dorsal da economia moderna e de alta tecnologia. Mas essas tecnologias são de uso duplo. As empresas que muitos de nós tomamos como garantidas – incluindo a Amazon, a Apple, o Facebook, o Google, a Microsoft e o PayPal – estão conectadas indiretamente, e às vezes muito diretamente, com o complexo militar e de inteligência dos EUA.

Um relatório recente da Open the Government, uma organização bipartidária  defensora da transparência, revela a extensão dos contratos da Amazon com o Pentágono. Fundada em 1994 por Jeff Bezos, a empresa  é agora avaliada em US $ 1 trilião, dando a Bezos uma fortuna pessoal de US $ 131 000 milhões. Quem abrir o relatório da Open the Government observa que grande parte do governação dos EUA “agora, é executada na Amazon”, tanto que a gigante da tecnologia vai abrir uma filial perto de Washington, DC. Os serviços fornecidos pela Amazon incluem contratos na nuvem, inteligência artificial e sistemas de dados biométricos. Mas, mais do que isso, a Amazon está pronta para  realizar um lucrativo contrato de TI [Tecnologia da Informação] do Pentágono com o programa Joint Enterprise Defense Infrastructure, de US $ 10 000 milhões, ou JEDI. O Pentágono diz que espera que a tecnologia da Amazon “apoie a letalidade e melhore da eficiência operacional”.

O relatório revela o que pode, mas muita coisa está afastada do escrutínio público, sob os véus gémeos da segurança nacional e do sigilo corporativo. Por exemplo, foi pedido a todas as possíveis cidades que viessem a albergar a segunda sede da Amazon  que  assinassem contratos de  confidencialidade.

Mas isto não termina aqui. De acordo com o relatório, a Amazon forneceu software de vigilância e de reconhecimento facial ao Departamento de Segurança Interna e  lançou a culpa da alegadamente imprecisa e preconceituosa tecnologia, quanto à raça e ao género, ao Departamento de Segurança Interna para as suas operações de contraimigração. Dez por cento dos lucros da subsidiária da Amazon Web Services respeitam a contratos com o Governo. Os Departamentos incluem o Departamento de Estado, a NASA, a Administração da Alimentação e Medicamentos e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Em 2013, a Amazon ganhou um contrato de US $ 600 milhões do Commercial Cloud Services (C2S) com a CIA. O C2S permitirá a  inteligência artificial profunda e dados sobre impressões digitais. A segunda sede da Amazon será construída na Virgínia, o estado natal da CIA. Apesar dos repetidos pedidos, a empresa recusa-se a divulgar de que forma os seus dispositivos pessoais, como o Amazon Echo, se conectam com a CIA.

Mas a Amazon é apenas a ponta do iceberg.

Dez por cento dos lucros da subsidiária da Amazon Web Services respeitam a contratos com o Governo. Os Departamentos incluem o Departamento de Estado, a NASA, a Administração da Alimentação e Medicamentos e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Em 2013, a Amazon ganhou um contrato de US $ 600 milhões do Commercial Cloud Services (C2S)  com a CIA. O C2S permitirá a  inteligência artificial profunda  e dados sobre impressões digitais. A segunda sede da Amazon será construída na Virgínia, o estado natal da CIA. Apesar dos repetidos pedidos, a empresa recusa-se a divulgar  de que forma os seus dispositivos pessoais, como o Amazon Echo, se conectam com a CIA.

Mas a Amazon é apenas a ponta do iceberg.

De acordo com um artigo de investigação completo: em meados dos anos 90, os futuros fundadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, usaram indiretamente o Pentágono e outros fundos do governo para desenvolver rastreadores da Web e aplicações de classificação de páginas. Na mesma época, a CIA, agência de Inteligência e de Segurança Nacional – sob os auspícios da National Science Foundation – financiou o programa Massive Data Digital Systems [Sistemas de dados digitais em massa] (MDDS). Uma publicação de Sergey Brin reconhece que   recebeu financiamento do programa MDDS. Segundo o professor Bhavani Thuraisingham, que trabalhou no projeto, “A comunidade de inteligência… trabalhou essencialmente  para o capital-semente [1] de Brin, que foi complementado por muitas outras fontes, incluindo o setor privado”. A parte do Query Flocks do sistema patenteado PageRank, do Google, foi desenvolvida como parte do programa MDDS. Dois empresários, Andreas Bechtolsheim (criador da Sun Microsystems) e David Cheriton, que já haviam recebido dinheiro do Pentágono,  tinham sido anteriormente investidores no Google.

Tal como Bezos, os dois empresários, Brin and Page  tornaram-se  bilionários.

O Project Maven do Pentágono (ou Equipe Multifuncional de Guerra Algorítmica) foi lançado em 2017, como uma forma de aplicação de inteligência artificial para ajudar drones a diferenciar humanos de objetos. A tecnologia e o pessoal foram fornecidos pelo Google, muitos dos quais desistiram em protesto depois  de ter sido   revelado que o projeto tinha como alvos iraquianos e sírios.

Em 1999, a CIA criou uma empresa de capital de risco, a Peleus;  mais tarde In-Q-Tel. Uma das empresas da In-Q-Tel foi a empresa de mapeamento Keyhole, comprada pelo Google em meados dos anos 2000 e desenvolvida no Google Earth. Em poucos anos, os militares estavam a usar o Google Earth para atacar locais no Afeganistão. Em 2005, a In-Q-Tel investiu US $ 2,2 milhões no Google. Em 2010, a CIA e o Google investiram na Recorded Futures, uma empresa de rastreamento dos média sociais.

Outro bilionário, Peter Thiel, criou o PayPal e o Palantir. Com US $ 2 milhões de investimento da In-Q-Tel, Palantir foi lançado em 2004 e forneceu análise de dados para a CIA, no Afeganistão e no Iraque. Recentemente, foi testado em Nova Orleães como parte do programa de “policiamento preventivo” da polícia local. A Palantir cria redes digitais de cidadãos, cujos dados pessoais são obtidos de várias fontes. As teias de Palantir mostram imagens policiais de possíveis supostos futuros suspeitos, juntamente com legendas como “Colega de…”, “Vive com…”, “Dono de…”, “Irmão de…” e “Amante de…”. O Palantir também é usado pelas autoridades de imigração dos EUA. Apesar de todas as acusações de interferência russa nas eleições dos EUA e no referendo do Brexit, no Reino Unido, os grandes média ocidentais subestimaram o papel dos funcionários da Palantir, que trabalharam com o Facebook para criar perfis psicográficos de potenciais eleitores.

Estes e outros exemplos mostram que, além de tentar  formatar o mundo no interesse das elites americanas, a intenção seguinte do Pentágono é financiar a indústria de alta tecnologia para estimular novas economias. Essa mesma alta tecnologia, que existe num chamado sistema de “livre empresa”, não só cria monopólios, como o faz com dinheiro do contribuinte. Espiado e manipulado pelas tecnologias que financia, o público, como consumidor, paga pelos serviços prestados por esses gigantes da tecnologia. Podemos falar num ciclo vicioso …

 

Notas

[1] É uma forma de oferta de títulos em que um investidor aplica o seu capital  numa empresa iniciante [start up] em troca de uma participação acionária na empresa. O termo semente sugere que este é um investimento muito inicial, destinado a apoiar o negócio até que ele possa gerar  capital próprio, ou até que esteja pronto para novos investimentos. – NT  

* O Dr. T.J. Coles é diretor do Instituto Plymouth para a Investigação da Paz e autor de vários livros, incluindo Voices for Peace (com Noam Chomsky e outros) e o próximo “Fogo e Fúria: Como os EUA isolam a Coreia do Norte, envolvem a China e riscos nucleares de guerra na Ásia” (ambos Clairview Books).

 

Fonte:  https://www.counterpunch.org/2019/05/22/vicious-cycle-the-pentagon-creates-tech-giants-and-then-buys-their-services/, colocado em 2019/05/22, acedido em 2019/05/23

Tradução do inglês de TAM

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.