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I. V. Stáline [entrevistado por Harold Stassen, em 9 de abril de 1947]

Para cooperar, não são necessários os mesmos sistemas. Deve-se respeitar o outro sistema, quando aprovado pelo povo. Só nesta base podemos garantir a cooperação.

 

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Stassen: Generalíssimo Stáline, nesta viagem europeia estou particularmente interessado em estudar as condições globais de natureza económica. Neste aspeto, claro, as relações dos EUA e da URSS são muito importantes. Eu percebo que temos dois sistemas económicos que são muito diferentes. A URSS, com o Partido Comunista e a sua economia planificada e o Estado coletivamente socializado, e os Estados Unidos da América, com a sua economia livre e o capitalismo privado regulado, são muito diferentes. Interessar-me-ia saber se pensa que estes dois sistemas económicos podem existir em conjunto, no mesmo mundo moderno, em harmonia um com o outro?

Stáline: Claro que podem. A diferença entre eles não é importante no que respeita à cooperação. Os sistemas na Alemanha e nos Estados Unidos são os mesmos, mas rebentou a guerra entre eles. Os sistemas nos EUA e na URSS são diferentes, mas não travámos uma guerra entre nós e a URSS não tem esse propósito. Se durante a guerra puderam cooperar, por que não podem fazê-lo hoje, em paz, dado o desejo de cooperar? É claro que se não houver vontade de cooperar, mesmo países com o mesmo sistema económico podem guerrear, como foi o caso com a Alemanha.

Stassen: Eu acredito, claro, que podem cooperar se ambos tiverem essa vontade, mas tem havido muitas declarações sobre não serem capazes de o fazer. Algumas delas foram feitas pelo próprio Generalíssimo antes da guerra. Mas será possível agora, que o eixo fascista foi derrotado e que a situação mudou?

Stáline: Não é possível que eu tenha dito que os dois sistemas económicos não poderiam cooperar. As ideias de cooperação foram expressas por Lénine. Eu poderia ter dito que um sistema estava relutante em cooperar, mas isso dizia respeito apenas a um lado. Porém, quanto à possibilidade de cooperação eu concordo com Lénine, que expressou tanto a possibilidade quanto o desejo de cooperação. Em relação ao desejo do povo de cooperar, por parte da URSS e do Partido isso é possível – e os dois países só poderiam beneficiar com essa cooperação.

Stassen: Essa última parte é clara. As declarações a que me referi são as feitas por si, no Décimo Oitavo Congresso do Partido Comunista, em 1939, e na sessão plenária, em 1937 – declarações sobre o cerco e o monopólio capitalistas. Concluo agora da sua declaração, que a derrota da Alemanha e do Japão fascistas não resolveu essa situação.

Stáline: Não houve um único congresso do Partido ou sessão plenária do Comité Central do Partido Comunista em que eu dissesse ou pudesse ter dito que a cooperação entre os dois sistemas era impossível. Afirmei que existia um cerco capitalista e um perigo de ataque à URSS. Se uma das partes não deseja cooperar, isso significa que existe uma ameaça de ataque. E, na verdade, a Alemanha, não desejando cooperar com a URSS, atacou a URSS. Poderia a URSS ter cooperado com a Alemanha? Sim, a URSS poderia ter cooperado com a Alemanha, mas os alemães não desejavam cooperar. De outra forma, a URSS poderia ter cooperado com a Alemanha como com qualquer outro país. Como vê, isto diz respeito à esfera do desejo e não à possibilidade de cooperação. É necessário fazer uma distinção entre a possibilidade de cooperação e desejo de cooperar. A possibilidade de cooperação existe sempre, mas nem sempre existe o desejo de cooperar. Se uma das partes não quer cooperar, então o resultado será o conflito, a guerra.

Stassen: Isso deve ser mútuo.

Stáline: Sim. Quero dar testemunho do facto de que a Rússia quer cooperar.

Stassen: Quero salientar, em referência à sua declaração anterior, que havia uma grande diferença entre a Alemanha e os Estados Unidos, na altura em que a Alemanha iniciou a guerra.

Stáline: Havia uma diferença no governo, mas nenhuma diferença nos sistemas económicos. O governo era um fator temporário.

Stassen: Não concordo. Sim, havia também uma diferença de sistemas económicos. O imperialismo, o desenvolvimento do monopólio do Estado e a opressão dos trabalhadores são os males do capitalismo praticado pelos nazis. A mim parece-me que fomos bem-sucedidos na América ao impedir o monopólio do capitalismo e a tendência imperialista, e que os trabalhadores fizeram um progresso maior através do uso da força do seu voto e da sua liberdade do que Karl Marx ou Friedrich Engels pensavam que poderiam fazer – e essa regulação do capital livre e prevenção do monopólio e a liberdade dos trabalhadores na América tornam a situação económica bem diferente daquela que existia na Alemanha.

Stáline: Não vamos criticar mutuamente os nossos sistemas. Todos têm o direito de seguir o sistema que desejam manter. Qual é melhor será dito pela história. Devemos respeitar os sistemas escolhidos pelo povo e se o sistema é bom ou mau isso diz respeito ao povo americano. Para cooperar, não são necessários os mesmos sistemas. Deve-se respeitar o outro sistema, quando aprovado pelo povo. Só nesta base podemos garantir a cooperação. Se só criticarmos, isso levar-nos-á demasiado longe.

Quanto a Marx e Engels, não podiam prever o que aconteceria quarenta anos depois da sua morte. Mas devemos aceitar o respeito mútuo pelo povo. Algumas pessoas chamam totalitário ao sistema soviético. O nosso povo classifica o sistema americano de capitalismo monopolista. Se começarmos a chamar nomes uns aos outros, com as palavras monopolista e totalitário, isso levará a uma não cooperação.

Devemos partir do facto histórico de que há dois sistemas aprovados pelo povo. Só nessa base é possível a cooperação. Se nos distrairmos com criticismos, isso é propaganda.

Quanto à propaganda, não sou um propagandista, mas sim um homem pragmático. Não devemos ser sectários. Quando as pessoas querem mudar os sistemas, elas fá-lo-ão. Quando nos reunimos com Roosevelt para discutir as questões da guerra, não chamámos nomes um ao outro. Nós cooperámos e conseguimos derrotar o inimigo.

Stassen: Essa espécie de criticismo tem sido uma causa de mal-entendidos depois da guerra. Espera, no futuro, uma maior troca de ideias e notícias, por parte de estudantes e professores, de artistas e de turistas, se houver cooperação?

Stáline: Isso acontecerá inevitavelmente se houver cooperação. Uma troca de mercadorias levará a um trânsito de pessoas....

Stassen: Vejamos, pensa então que é possível haver cooperação, desde que haja vontade e desejo de cooperar.

Stáline: Isso está correto.

Stassen: No desenvolvimento dos padrões de vida das pessoas, a mecanização e a eletrificação foram de grande importância. O novo desenvolvimento da energia atómica é de grande importância para todos os povos do mundo. Eu sinto que a questão da inspeção internacional, os controles efetivos e a proibição do uso da energia atómica na guerra são também de suprema importância para todos os povos do mundo. Sente que há uma perspetiva razoável de fazer acordos para o futuro, a longo prazo, para o desenvolvimento pacífico da energia atómica?

Stáline: Eu espero isso. Há grandes diferenças de pontos de vista entre nós, mas, a longo prazo, espero que possamos chegar a um entendimento. O controle e a inspeção internacionais serão estabelecidos, de um qualquer ponto de vista, e serão de grande importância. O uso pacífico da energia atómica trará grandes mudanças tecnológicas. É uma questão muito importante. Quanto ao uso da energia atómica na guerra, com toda a probabilidade será proibido. Será um problema a longo prazo que será resolvido pela consciência do povo e será proibido.

Stassen: Sim, esse é um dos nossos importantes problemas; se resolvido, pode ser um grande benefício – e, se não for, uma grande maldição para os povos do mundo inteiro.

Stáline: Penso que vamos conseguir estabelecer uma inspeção e um controle internacionais. As coisas estão a orientar-se para aí.

Stassen: Agradeço a oportunidade de ter podido conversar consigo.

(A entrevista durou 40 minutos e Stassen preparava-se para partir. Porém, Stáline mostrou disposição para continuar a discussão. O resto da conversa tratou das condições económicas vigentes na Europa e nos Estados Unidos. – Ed.)

 

Fonte: Pela Coexistência Pacífica: Entrevistas pós-guerra

Editora: Editores Internacionais, Nova York, 1951

Transcrição: Brian Reid

 

Publicado em https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1947/04/09.htm, acedido em 2018/05/08

 

Tradução do inglês de MFO

 

 

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