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Initiative Communiste – jornal mensal do Polo do Renascimento Comunista em França (PRCF)

Essa desmaterialização forçada afeta muito os serviços públicos, acompanhando um declínio na qualidade do serviço. Pessoas em dificuldade cada vez menos conseguem recorrer a um agente diretamente para pedir ajuda. O autor destas linhas pode citar como exemplo as finanças e a “entrevista personalizada”, procedimento que consiste em encaminhar os contribuintes pela Internet, fechando os balcões onde estes poderiam vir fazer as suas reclamações.

 

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A desmaterialização tem as costas largas. Este é o pretexto permanente para justificar  a supressão de empregos. O chamado trabalho seria feito na internet. Como se ela  fosse mágica. Isto é especialmente verdade para a abolição de balcões e receções nos serviços públicos, mas também é verdade em muitos serviços comerciais (bancos, seguros ...). Com os resultados que conhecemos. Filas intermináveis para  trocar o bilhete de comboio nas estações, a impossibilidade de aceder aos serviços públicos dos impostos, a pista de obstáculos quando se tem problemas com o  contador de gás, electricidade ou água, ou as conversas  ridículas e  dispendiosas com os robôs das seguradoras para  pedir a indemnização do sinistro. E  poderíamos multiplicar os exemplos ...

Não é segredo. Se não é  um  trabalhador, um funcionário que faz o trabalho, é o cliente ou o utilizador que  tem de o  fazer, de uma forma ou outra. E as tarefas nunca são completamente  suprimidas, mas transformadas.

E a verdade é que a abolição dos guichês de receção ao público reforça a exploração dos trabalhadores,  e o trabalho  deixa de ser visível para o público. E assim gerar lucro para a classe capitalista. À custa do consumidor ou do utilizador.

E ai de quem não tem internet, porque vive numa zona rural, porque não pode pagar os terminais de computador necessários, ou porque não foi  ensinado a usá-los.

Os nossos jovens camaradas da JRCF fizeram um alerta num fórum sobre esse assunto importante, demasiadas vezes subestimado por trabalhadores e militantes.

Tudo sobre a internet

A última edição do  Monde Diplomatique, de agosto de 2019, oferece-nos uma coluna do jornalista Julien Brygo, já autor de uma investigação, com o jornalista Olivier Cyran,  sobre trabalhos desqualificados, sobre a transição para o digital e as pessoas que lutam para se adaptar a ele *.

De facto, ainda existem  pessoas que não têm acesso à internet, tanto reformados como pessoas de 40 anos, seja por sua vontade ou por razões técnicas (por exemplo, em pequenas cidades do norte da França).

O artigo é interessante no sentido em que destaca que, mais do que uma questão de escolha, em cada vez mais tarefas administrativas – como procurar  emprego, receber ajuda ou outras –, o uso de internet se tornou obrigatório. Isso pode parecer óbvio para a nossa geração, mas  não é  evidente para muitas pessoas, como o demonstram os exemplos dados por muitas pessoas que precisam de ajuda para navegar neste labirinto de procedimentos,  como o daquela mulher de 62 anos de idade  que teve necessidade de pedir  ajuda para poder encontrar um benefício específico de que estava à espera, após dois meses de miséria, simplesmente por não conhecer a internet.

Acontece que algumas pessoas se encontram excluídas do  Centro de Emprego devido a um único erro no preenchimento do seu formulário via web. Ainda mais frequentemente, algumas pessoas não usam um direito porque não têm conhecimento dele, ou porque não sabem como o  solicitar.

Essa desmaterialização forçada afeta muito os serviços públicos, acompanhando um declínio na qualidade do serviço. Pessoas em dificuldade cada vez menos conseguem recorrer a um agente diretamente para pedir ajuda. O autor destas linhas pode citar como exemplo as finanças e a “entrevista personalizada”, procedimento que consiste em encaminhar os contribuintes pela Internet, fechando os balcões onde estes poderiam vir fazer as suas reclamações.

Nós, comunistas, somos pelo desenvolvimento do acesso à eletricidade e pela conexão de todas as casas  em França, sem nos iludirmos  quanto aos riscos psicossociais relacionados com a utilização abusiva da Internet. No entanto, nunca  concordaremos com o desaparecimento dos serviços públicos que este abuso da internet acompanha.

 

 * “Ainda se pode viver sem internet?”, Julien Brygo, Le monde diplomatique n°785.

Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/luttes/sous-pretexte-de-dematerialisation-supprimer-des-services-et-services-publics-precariser-les-travailleurs/, acedido em 2019/08/12

Tradução do francês de TAM

 

 

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