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Annie Lacroix-Riz – Professora emérita de História Contemporânea, Universidade de Paris 7, janeiro de 2016

O fascismo é muitas vezes apresentado como uma “contrarrevolução preventiva” das classes dominantes para impedir a renovação da agitação social e política que se seguiu à Primeira Guerra Mundial (caso alemão, de novembro 1918 a janeiro 1919, e italiano, 1919-1920). Mas foi, acima de tudo, uma réplica feroz à crise de sobreprodução que ameaçava o colapso dos lucros.

 

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O fascismo é muitas vezes apresentado como uma “contrarrevolução preventiva” das classes dominantes para impedir a renovação da agitação social e política que se seguiu à Primeira Guerra Mundial (caso alemão, de novembro 1918 a janeiro 1919, e italiano, 1919-1920) [1].

Mas foi, acima de tudo, uma réplica feroz à crise de sobreprodução que ameaçava o colapso dos lucros. Limitar-me-ei aqui ao exemplo do fascismo alemão, com um sucesso mais tardio do que em Itália (outubro de 1922), mas considerado mais “perfeito”: o alinhamento das classes dominantes da Europa continental com este modelo e a atração considerável que exerceu nos Estados Unidos e no Reino Unido tiveram as mesmas motivações socais e económicas.

O falacioso acordo capital-trabalho, de novembro de 1918

O grande patronato alemão digerira mal as concessões públicas que teve de consentir, em 15 de novembro de 1918, para matar no ovo a “revolução” que ameaçava suceder à rendição do Kaiser, Guilherme II, ocorrida no dia 9. Este fundamento do “contrato social” da República de Weimar baseava-se, assim, numa capitulação falaciosa. A ADGB (Confederação Geral Sindical Alemã), maioritária, organicamente ligada ao SPD e, também, seu ponto de apoio contra a revolução social, tinha assinado simultaneamente com os representantes patronais um protocolo secreto libertando-os dos seus compromissos: As convenções coletivas sobre os salários e as condições de trabalho só seriam aplicáveis ​​“de acordo com as condições da respetiva indústria”; e “a jornada de 8 horas em todas as indústrias” se “as principais nações industriais” se juntassem a esse acordo.

Este acordo clandestino entre o trabalho e o capital foi o equivalente social da aliança política secreta “com as forças do antigo regime”, concluído em outubro-novembro entre o SPD e o Estado-Maior da Reichswehr [nome das Forças Armadas alemãs, entre 1919 e 1935, data em que foram renomeadas para Wehrmacht - NT], porta-voz, em 1918, das classes dominantes. Completada por uma cruel caça aos vermelhos, na qual se treinaram as futuras eminências nazis, este pacto “contranatura” deixou poucas hipóteses de sobrevivência à “República de Weimar” [2].

Dívida privada e falência da Alemanha

Com ódio àquela república (ainda tão boa menina), nascido da sua derrota pública, a aristocracia e a grande burguesia cedo a esvaziaram do seu enganador verniz inicial de “esquerda”. A base social de “Weimar” resistiu-lhes melhor até ao furacão dos anos 1930, que devastou a Alemanha. Empresas, prefeituras e Estado endividaram-se maciçamente nos principais bancos internacionais, desde a estabilização do marco, de 1923-1924, operada sob a tutela americana, a fim de desenvolver as capacidades produtivas, particularmente ao serviço da vingança militar.

Assim, o Reich tornou-se o maior devedor internacional em relação aos Estados Unidos e a todos os países do “centro” imperialista. O capital financeiro estrangeiro foi, pois, um ator maior, como nos anos 1920 para o enorme devedor italiano, com medidas drásticas tomadas pelo Banco de Pagamentos Internacionais, durante a turbulência do verão de 1931, para prorrogar a dívida alemã. As imposições deste clube privado dos bancos centrais –, fundados pelo Plano Young, antepassado (sempre vivo) mal conhecido das instituições americanas de Bretton-Woods –, prenunciam exatamente aquelas que foram adotadas na última fase aguda da atual crise sistémica, sob a tutela dos principais bancos de cada país, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional.

Guerra aos salários e política do “mal menor” do SPD

O colapso dos mercados e dos lucros e a necessidade de regular “a dívida internacional privada” exigiam a “quebra”, além dos salários, de todos os rendimentos não-monopolistas: este objetivo mobilizou as classes dominantes locais e os seus credores americanos, ingleses, franceses, etc. Entre as condições impostas, em julho de 1931, para “salvar” o Reich, figurava a integração do NSDAP [Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazi – NT], vencedor eleitoral, em setembro de 1930, graças ao apoio de longa data (especialmente depois de 1923 e da ocupação do Ruhr) do patronato mais concentrado da indústria pesada, seguido pelo restante patronato: esta fórmula de direita, sem exclusividade, permitiria, com os seus métodos de terror (e de sedução), quebrar os rendimentos das vítimas, sem medo de reação.

Antes que o NSDAP assumisse, em fevereiro de 1933, ao lado da direita “clássica”, o custo governamental, a missão havia sido confiada às organizações operárias “compreensivas”. Estas apelavam aos seus membros que participassem nos sacrifícios, apresentados como indispensáveis ao interesse nacional, reduzindo os seus salários: o chefe ultradireitista (SPD) do Sindicato da Madeira e um dos dirigentes nacionais da ADGB, deputado do SPD (1928), Fritz Tarnow, defenderam, em 1931, «“um casamento da razão” com os patrões» (“não deveríamos nós ser o médico à mesa de cabeceira do capitalismo?”). O SPD apoiou o seu chanceler, Hermann Müller, que, investido após o sucesso eleitoral da esquerda, governou com a direita “clássica” e tentou uma primeira “reforma” (por baixo) dos subsídios de desemprego (junho de 1928-março de 1930).

O SPD também apoiou o sucessor de Müller, Brüning (maio de 1930-maio de 1932), e a reeleição de Hindenburg à Presidência do Reich (abril de 1932), e não tugiu nem mugiu perante o golpe de Estado da direita, aliada aos nazis (Göring) na Prússia (julho de 1932), dizendo que contava com as próximas eleições gerais (novembro de 1932). Tudo em nome do “mal menor” contra Hitler, enquanto a direita, com Brüning e Hindenburg à cabeça, preparava abertamente o advento do NSDAP. Os adeptos da “frente republicana” do século XXI deveriam olhar para os ganhos políticos dos anos 1930.

Esquerda alemã e nazismo

A conversa sobre a culpa do KPD “esquerdista” esconde as esmagadoras responsabilidades, percebidas como tal desde 1933, das lideranças do SPD e das suas organizações, incluindo a ADGB [3]. A passividade perante o patronato e a sua solução nazi, levada ao extremo de oferecer serviços, serviria de sésamo para as carreiras “ocidentais” depois da guerra, como a de Tarnow: rejeitado pelos nazis e forçado ao exílio, regressou da Suécia em 1946, solicitado pelos americanos, que o haviam escolhido para dirigir –, contra o risco de união com os comunistas, no Bizone, em 1947, e na Alemanha Ocidental, em 1949 –, a antiga central sindical que passou ser chamada DGB (Deutscher Gewerkschaftsbund).

Não foi a agitação social que levou, em 1933, os hitlerianos ao poder: foi a recusa maioritária das classes lesadas em repelir esse assalto aos seus rendimentos, ou a sua passividade perante essa “estratégia de choque”, para retomar uma expressão posterior de Naomi Klein. Contra esta linha assumida pelas organizações, maioritárias, da “esquerda governamental”, os combatentes isolados, essencialmente operários, do KPD e da sua “Organização Sindical Vermelha” (OSV) lutaram valentemente –, como antes de fevereiro 1933 –, mas em vão. É urgente refletir sobre isto na atual crise sistémica do capitalismo, onde os «“médico[s de “esquerda” à  Tarnow] à mesa de cabeceira do capitalismo» fingem acreditar na magia dos encantamentos “antifascistas” [4].

Dois textos inéditos, para ilustração

Descoberta e transcrição, Annie Lacroix-Riz

A esquerda alemã e o triunfo do nazismo: um julgamento policial francês

Fonte: RG da Segurança Nacional SN JC5. A. 4509, Paris, 18 de maio de 1933, F7 (fundos da polícia geral), vol. 13430, Alemanha, janeiro-junho de 1933, Arquivos Nacionais, datilografados, 7 p., in extenso, passagem em itálico sublinhada no texto.

Lembremos, para memória futura, a animosidade do aparelho do Estado policial em relação ao comunismo.

«O papel e o destino dos comunistas e dos socialistas alemães.

A total eliminação das organizações marxistas alemãs perante o hitlerismo triunfante não tem precedentes. Não há ditadura que não tenha encontrado, pelo menos no momento da sua implantação, algumas tentativas de resistência ou de reação. Não houve nada de semelhante na Alemanha. Se houve confrontos, algumas vezes sangrentos, entre racistas e revolucionários de esquerda – quase sempre comunistas – quando o NSDAP era um partido de oposição, esses confrontos cessaram radicalmente assim que Hitler assumiu o poder. No entanto, nesta altura, os partidários do novo Chanceler e os partidários dos seus aliados nacionalistas representavam pouco mais da metade da população do Reich. Tomar partido por parte das forças revolucionárias, apesar de ser difícil, poderia pelo menos ser tentado, e havia, de qualquer forma, depois dos apelos de confiança feitos no estrangeiro pela “Alemanha republicana”, a honra a salvar. Nada foi feito, nada se empreendeu. Esta questão não é apenas de interesse histórico. Pois pode-se questionar o que aconteceu às massas, que os partidos socialista e comunista pretenderam enquadrar; quais são os sentimentos destas massas depois da falta ou do desaparecimento dos líderes?

Mas convém distinguir entre socialistas e comunistas. Notemos, desde logo, que nenhum dirigente do Partido Comunista se curvou à revolução nacional. Todos estão na prisão, em fuga ou escondidos. São principalmente os comunistas que foram povoar os campos de concentração. Nestes campos encontrar-se-iam, atualmente, 50.000 revolucionários. Entre os líderes encarcerados estão:

Ernst Thaelmann, líder do Partido Comunista;

Ernst Torgler, chefe da fração comunista no Reichstag [um dos raríssimos futuros renegados; o KPD contou muito pouco nisso, Annie Lacroix-Riz];

Willi Kasper, líder do grupo parlamentar no Landtag prussiano;

Ernst Scheller, Anton Jadasch, [Fritz] Selbmann, Willi Kunz, etc.

Outros procuraram ir para o estrangeiro. A sua conduta foi severamente julgada pela Terceira Internacional, que os vê como “desertores”. Aqueles que se refugiaram na Rússia foram aconselhados a retornar aos seus postos e continuar a luta na ilegalidade. Outros, que conseguiram atravessar as fronteiras ocidentais do Reich, foram convidados a regressar à Alemanha. Aqueles que se recusaram foram excluídos do partido. Assim, no final de abril, o Arbeiter Zeitung, órgão comunista de Sarrebruck, publicou a seguinte nota: “O distrito de Baden-Palatinado pediu-nos para publicar a seguinte exclusão: o deputado do Reichstag, Bennedom- Kusel, que há algumas semanas se instalou em Sarre, tendo recebido da direção do distrito a ordem de reentrar na Alemanha, não o fez. Foi expulso do Partido Comunista Alemão por covardia perante o inimigo de classe”.

Que tarefas, então, são propostas aos dirigentes que continuam nos seus postos? Ei-las, tal como são definidas pelo Comité Executivo da Terceira Internacional: (a) Desenvolver organizações ilegais; (b) Alargar a rede da imprensa ilegal do partido; (c) Enfraquecer ao máximo as organizações dos partidos adversos; d) Atuar principalmente nas fábricas.

Tudo isto, evidentemente, é muito importante. Mas os resultados não são o que tais disposições poderiam sugerir. A necessidade em que se encontram os líderes que permaneceram nos seus postos de se esconder e trabalhar clandestinamente reduziu a sua ação a pouca coisa e é mesmo duvidoso que o seu trabalho se possa prolongar muito tempo, perante as buscas de uma polícia extremamente desenvolvida. Sem dúvida, a imprensa comunista estrangeira anuncia com espalhafato que os Serviços hitlerianos apreenderam exemplares de jornais ou de brochuras publicados clandestinamente, o que tenderia a mostrar que uma abundante informação escrita revolucionária circula na clandestinidade. Mas a maioria dessas apreensões remontam aos primeiros dias de abril, e o último número do Rote Fahne (jornal do KPK) ilegal é de 15 de abril. Caso tenha sido editado, é duvidoso que tenha sido muito difundido. Assinala-se também que ocorreram manifestações em fábricas, mas as últimas foram em março. Alguns “conselhos de empresa” (Betriebsraete), enfim, compostos por elementos de esquerda, teriam sido reeleitos na última renovação, mas esta renovação sucedeu há mais de um mês e nenhuma reação ocorreu perante a tomada imediata das medidas policiais contra os referidos Betriebsraete.

Além disso, os chefes comunistas não podem esconder inteiramente que uma grande parte das suas tropas os abandonaram ou estão desencorajadas. O militante Erich, um dos dirigentes da Rote Gewerkschaft da (organização sindical vermelha) escreveu na  Rundschau, boletim agora editado em Basileia: “A  organização  Rote Gewerkschaftorganisation [RGO] sofreu fortemente o terror fascista. Este terror deu origem a que uma pare dos nossos camaradas tenham abandonado as nossas hostes e que outros tenham adotado uma atitude absolutamente passiva”.

Se os comunistas que, repitamo-lo, deram provas de uma coragem incontestável até março, estavam lá, facilmente se imagina até onde foram os socialistas. Os comunistas sempre censuraram os socialistas por estarem eivados de um espírito pequeno-burguês e, em certo sentido, conservador. Nada é mais verdadeiro. Depois de terem colhido sem danos, em 1918, os frutos de uma situação revolucionária que atingiu a maturidade, os socialistas alemães não souberam senão edificar  construções burocráticas, que podiam criar ilusões no estrangeiro  e de  cuja propaganda a Segunda Internacional não deixou de se servir, mas que, na realidade, não tinham alma e eram completamente incapazes de inverter o curso dos acontecimentos demasiadamente previsíveis.

De resto, estes acontecimentos demonstraram que os chefes, sobre cujas declarações se fundavam as esperanças de uma grande parte da opinião estrangeira no futuro da República alemã, não tinham convicção. Não souberam senão submeter-se ou fugir, como Braun, Grzesinski, Breitscheid, Dittmann, Crisprein, Noske, Bergemann,  ou  aderirem ao novo regime de forma mais ou menos aberta, como  Leipart, Grassmann, Tarnow, Wels, Stampfer ou Hilferding.  Muitos se recordam da submissão escandalosa do chefe socialista Wels e da declaração, datada de 21 de março do comité dirigente da Allgemeiner Deutscher Gewerkschaftsbund (Confederação Geral do Trabalho),  consentindo a sua adesão – rejeitada com desprezo – à organização sindical do III Reich. A Federação dos empregados socialistas (Afa Bund) e a Federação dos funcionários socialistas (a Allgemeiner Deutscher Beamter Bund) seguiram o mesmo caminho e os trezentos mil membros das organizações desportivas operárias foram entregues pelos seus chefes ao regime hitleriano. Não foi até à  Reichsbanner [5], feita para defender a República, que se desfizeram espontaneamente em pedaços. Ela tinha ainda um milhão de membros organizados. Mas, os que conheciam verdadeiramente a situação da Alemanha, sabiam muito bem que a combatividade destas tropas, dirigidas por burocratas, era quase nula e que era imprudente contar com elas. A  Reichsbanner tinha recebido dos seus adversários a alcunha de Papenhelm (Capacete de cartão). Quanto às secções da Juventude socialista, elas foram transformadas em inocentes associações recreativas, apesar da meritória oposição de Eric Schmitt, chefe da secção de Berlim.

A submissão total da social-democracia, de resto, não impediu totalmente as represálias e sanções. O ex-ministro Sollman foi seriamente intimidado em Colónia. Os dirigentes sindicais Leipart, Grassmann e Wissel foram presos, mesmo tendo dado o seu apoio às iniciativas hitlerianas. O chefe da Reichsbanner, Holtermann, foi apanhado quando fugia. Mas tinha sido ainda sob a sua direção, exatamente em 6 de abril, que o distrito Berlim-Brandenburgo da Reichsbanner tinha definido a posição da organização de forma a, claramente, satisfazer os nazis. Este distrito, com efeito, tinha dirigido uma circular às suas secções, em 6 de abril, em que é particularmente dito: “Restam-nos três possibilidades:

- O emprego dos métodos violentos dos comunistas. Mas é claro para todos os nossos camaradas que estes métodos são criminosos e que devem ser postos de lado.

- A abstenção.

- A procura de uma colaboração, no quadro da atividade prática.

Há muitos anos que temos nos nossos corações a fé na Alemanha e no futuro da Alemanha. É por essa razão que reclamaremos o nosso lugar na nova vida do Estado alemão e faremos pela Alemanha o que ela espera de nós: o nosso dever. A direção negocia já com os serviços competentes relativamente à atividade da nossa associação. Os seguintes pontos são fundamentais: a cultura da amizade; a ajuda aos antigos combatentes; a educação da juventude, preparação militar; trabalho voluntário”. Eis tudo o que uma organização de autodefesa socialista pode fazer para proteger o regime republicano, num momento em que esse regime está em colapso.  

A mesma atitude por parte da organização desportiva da classe operária. A  Zentral Kommission für Arbeitersport und Koerperpflege  [Comissão Central para o Desporto e a Educação Física dos Trabalhadores] publicou a seguinte declaração: “A Comissão desportiva central operária declara que está pronta a colaborar lealmente sob o regime nacional para bem do povo. Tem a opinião que esta colaboração deve assentar numa base neutra. As associações desportivas operárias estão dispostas a incorporar-se sem reserva na organização desportiva do Estado e para isso fazer todos os sacrifícios necessários. Apelam ao espírito cavalheiresco do novo governo, sem renegar cobardemente a sua antiga posição. Para estas organizações fazer desporto era servir o povo. Assim o será também no futuro”.

Tanto rebaixamento não iria servir para nada. A colaboração oferecida foi desdenhada, as organizações varridas, os dirigentes afastados e desprezados. O novo regime faz tudo para si próprio e constrói tudo a partir da base. Mas as tropas socialistas? Podiam elas atuar contra as instruções superiores? Que a atitude dos chefes tenha podido irritar alguns militantes, isso é possível. Mas estes foram impotentes no meio do desencorajamento e da cobardia universais, e nenhuma reação, por mais pequena que fosse, se produziu. É evidente que a traição dos chefes   destroçou todas as energias que estavam dispostas a resistir. Também as destruiu para o futuro e foi ainda mais nefasta para o republicanismo e o liberalismo alemães do que as batalhas infelizes que pudessem ter sido travadas.»

Sobrexploração operária na Alemanha, fevereiro de 1933-fevereiro de 1939

Fonte, RG da Prefeitura de polícia, Informação, 20 de fevereiroo de 1939, BA 2140, Alemanha, 1928-1947, Arquivos da Prefeitura de polícia.

«Os operários alemães que trabalham na indústria da guerra são submetidos a uma disciplina particularmente severa.

Os operários das fábricas químicas estão sujeitos à lei militar [.dos] regulamentos das grandes empresas da IG Farben [11]. Nas fábricas Leuna, um verdadeiro exército de agentes da Gestapo e bufos profissionais vigia os operários durante e depois do trabalho. É proibida a entrada dos operários noutras oficinas que não sejam aquelas em que trabalham. Certas oficinas estão mesmo interditas aos contramestres e aos engenheiros. Todos os operários têm de prestar o compromisso, por escrito, de não falarem sobre o seu trabalho na fábrica. O regulamento da fábrica tem um sistema de sanções que chegam à pena de morte.

A indústria química tomou  proporções enormes por causa dos preparativos de guerra do fascismo hitleriano, como  provam as imensas construções de oficinas e fábricas. Depois de 1935,  o número de empresas da indústria química aumentou em 2 520 e o número de operários em 131 415, de  tal forma que, em 1938, esta indústria ocupava mais de 500 000 pessoas.

O plano quadrienal, designadamente, conduziu ao aumento do fabrico de produtos de substituição, graças às subvenções extraordinárias do Estado. Em 1938, a Alemanha produziu 165 000 toneladas de lã vegetal, o Japão 130 000, a Itália 100 000; isto significa que as potências do Eixo totalizaram 81% da produção mundial, que subiu para 440 000 toneladas.

Não  é de admirar que a indústria química tenha podido registar nestes anos lucros muito consideráveis, apesar de os produtos de substituição não serem rentáveis. A IG Farben registou um lucro líquido [declarado] de

49,14 milhões em 1933;

50,98 milhões  em 1934;

51,44  milhões em 1935;

55,40 milhões em 1936.

Tendo em conta algumas outras empresas camufladas, o resultado é uma soma de 1.500 milhões de marcos para os primeiros quatro anos do regime de Hitler.

Apesar do  aumento da produção e do esforço muito maior que se pedia aos operários, estes viram baixar o seu salário real. As estatísticas nazis atestam que o salário anual de um operário da indústria química, em 1930, era, em média, de 2 543 R.M [7] e, em 1936 era de 2 193. Mas isto refere-se apenas aos salários brutos. É preciso deduzir-lhes as retenções de 20 a 25%, tal como os “donativos voluntários” que se impunha aos operários. Com estes salários não se podia sobreviver. Os tribunais constataram que muitos dos operários empregados nas fábricas de explosivos, em Coswig-Anhalt, são obrigados a trabalhar nas horas livres como empregados de mesa ou músicos. O chefe da empresa depôs perante o mesmo tribunal que os “operários chegavam ao trabalho depois de terem trabalhado noutros lados”, isto é, trabalhavam 16 horas seguidas.

 [Le Dr. Ley reconheceu, num discurso pronunciado em Essen, a 30 de outubro:] “Até agora temos tido em cada empresa um aumento do esforço de, pelo menos, 30%. Numa  das maiores fábrica de borracha tivemos um aumento de produção de 60%. As pessoas estavam cansadas e entravam em colapso … Trata-se da fábrica Phoenix, de Hamburgo”.

Esta exploração acrescida, a cadência exagerada e os baixos salários, as más condições de trabalho e a escassez de víveres provocam um aumento dos acidentes de trabalho. A Frente do trabalho, secção da química, assevera que, a partir de 1933, o número de acidentes de trabalho não parou de aumentar. Em 1936, registaram-se 32 453, dos quais 144 mortais; 40 225, em 1937, dos quais 188 mortais; e estes números ainda aumentaram em 1938. Houve efetivamente 200 acidentes mortais. Apesar deste estado de coisas, pretende-se aumentar os lucros através de novas medidas de racionalização. Esta exploração vergonhosa depara-se, contudo, com uma resistência crescente.»

 

Notas

[1] Pierre Milza, Fascisms [Fascismos], Paris, Points Threshold, 1991.

[2] Gerald Feldman, Army, Industry and Labour in Germany [Exército, Indústria e Trabalho na Alemanha], 1914-1918, Princeton, 1966, obra-prima não traduzida em francês; Gilbert Badia, Histoire de l’Allemagne contemporaine [História da Alemanha Contemporânea]1933-1962, Paris, Éditions sociales, 1962, e Les spartakistes [Os spartaquistas], 1918: l’Allemagne en révolution [Alemanha em revolução], Paris, Julliard, 1966.

[3] RG da Prefeitura de Polícia sobre “Os Acontecimentos da Alemanha”, 8 de maio, e RG da Segurança Nacional, SN JC5. A. 4509, Paris, 18 de maio de 1933, F7 (polícia geral), vol. 13430, Alemanha, janeiro-junho de 1933, Arquivos Nacionais, segundo documento publicado abaixo; e Derbent, A Resistência Comunista Alemã, Bruxelas, Aden, 2008 (e transcrição online).

[4] Badia, História da Alemanha; Lacroix-Riz, Industrialização e Sociedades (1880-1970). A Alemanha, Paris, Elipses, 1997; comparação fascismo francês e alemão, Escolha da derrota: as elites francesas nos anos 1930, Paris, Armand Colin, 2010 e De Munique a Vichy, o assassinato da 3.ª República, 1938-1940, Paris, Armand Colin, 2008; sobre Tarnow, Cisões sindicais, reformismo e imperialismos dominantes, Montreuil, Le Temps des Cerises, 2015, p. 172, 207-209 e 232. O documento de 1939, publicado a seguir, mostra o efeito devastador do triunfo patronal de 1933 sobre os salários e as condições de vida populares.

[5] Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold [Bandeira do Reich Preto-Vermelho-Dourado] foi uma organização formada pelos partidos que apoiavam a República de Weimar, em 1924, constituída principalmente por ex-membros das forças armadas que tinham participado na I Guerra Mundial. Tinha representantes dos três principais partidos de centro: Partido Social Democrata, Partido Centro Alemão e Partido Democrático Alemão. Pretendia  defender os sindicatos (exceto os sindicatos de classe). A atuação das SA e do Partido Nazi no Putsch de Munique levaram ao encontro destes  partidos em Magdeburg, para formar a organização Reichsbanner. – NT

[6] A IG Farben (abreviatura de Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG) (“Grupo de Interesses da Indústria de Tintas SA”), companhia fundada em 1925 por aglomeração de um conjunto das maiores companhias químicas, mas que já trabalhavam em conjunto desde a Primeira Guerra Mundial. A IG Farben deteve um monopólio quase total da produção química na Alemanha Nazi.  Construiu uma fábrica para a produção de óleo sintético e borracha (a partir do carvão) em Auschwitz.   Em 1944, esta fábrica fazia uso de 83.000 trabalhadores escravos. O pesticida Zyklon B,  de que detinha a patente,   usado nas câmaras de gás para o assassínio massivo, era fabricado por uma empresa do grupo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, nos anos 1950, a multinacional foi dividida em: AGFA, Bayer, BASF e Hoechst AG. – NT

[7] Reichsmark, símbolo R.M., moeda oficial na Alemanha, de 1924 até 1948. – NT

Fonte: http://www.historiographie.info/pourquoifascisme.pdf, acedido em 2019/07/13.

- ou página 4 do sítio da UJRE

- ou diretamente por este link: http://data.over-blog-kiwi.com/1/10/37/54/20160214/ob_05014e_pnm-333.pdf.

 

Tradução do francês de MFO e TAM

 

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