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Annie Lacroix-Riz *

Mesmo tendo em conta a assustadora “lista de Orwell” –, rica em comentários antissemitas, antinegros e anti-homossexuais –, a realidade ainda é pior em relação a este antigo agente policial colonial (na Birmânia), tão violento quanto a sua função o exigia nos já muito avançados anos 1930, apesar de sua demissão oficial em 1927, na caça aos dissidentes vermelhos sob o disfarce de ódio ao stalinismo;…

 

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27 de junho de 2019

Thierry Discepolo, em apoio à sua próxima reedição-tradução de 1984, faz, em “A arte de redirecionar George Orwell”, uma vibrante defesa desse “homem de esquerda”, combatente nas fileiras do POUM [Partido Operário de Unificação Marxista – NT] durante a guerra de Espanha, indevidamente “apropriado pelos neoconservadores”, ele que nunca havia apoiado os Tories, “nem sequer para lutar contra o stalinismo”.

O catálogo de Agone, rico em autores da extrema esquerda “antitotalitária”, conta, desde 2006, vários escritos de ou sobre Orwell. Mesmo o ficheiro francês da Wikipedia (seis referências Agone) evoca a antipatia da esquerda antifascista britânica para com este pretenso “revolucionário”, objeto de um enorme escândalo póstumo, em 1996: O Guardian revelou que tinha entregado, em 1949, uma longa lista de nomes de jornalistas e intelectuais “criptocomunistas”, “compagnons de route [companheiros de viagem – NT]” ou “simpatizantes” da URSS no Departamento de Pesquisa de Informação (IRD). Ou seja, na secção anticomunista e antissoviética criada em 1948, pelo muito direitista secretário trabalhista do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ernst Bevin. Mesmo tendo em conta a assustadora “lista de Orwell” –, rica em comentários antissemitas, antinegros e anti-homossexuais –, a realidade ainda é pior em relação a este antigo agente policial colonial (na Birmânia), tão violento quanto a sua função o exigia nos já muito avançados anos 1930, apesar de sua demissão oficial em 1927, na caça aos dissidentes vermelhos sob o disfarce de ódio ao stalinismo; espetacular “pacifista”, usado, desde 1941, pelo “serviço oriental” da BBC; curioso “patriota”, que sempre foi um notório antissoviético enquanto, oficialmente, Londres gostava dos soviéticos, desde junho; agente do IRD, etc.

As revelações surgiram depois da pedrada no charco da britânica Frances Saunders, com A Guerra Fria cultural: a CIA e o mundo das artes e letras, Nova York, The New Press, 1999, um estudo que, como os seguintes, expõe o conjunto Orwell-Arthur Koestler. Saunders foi implacável sobre a sua colaboração com o IRD e com a CIA. A qual, através das reedições (do seu editor-sombra Praeger), do cinema e da banda desenhada (indispensável para os povos colonizados analfabetos), forjou, após a morte precoce de Orwell (1950), com a sua viúva Sonia, a enorme carreira “ocidental” de “O Triunfo dos Porcos” e “1984” – e empurrou a de Koestler, que se vendeu pelo  melhor (até 1983), aos serviços ingleses e americanos, para se tornar “o homem [oficial] da direita” ( Tony Shaw).

Saunders, considerada demasiado quente para o empreendimento “cultural” dos Estados Unidos, foi, entretanto, confirmada por mais autores “ocidentais”. O sr. Discepolo moderaria o seu apelo à “reabilitação” de um Orwell caluniado, se ele consultasse essas obras esmagadoras, alimentadas nos arquivos, stricto sensu, diferentemente das de Agone. Apenas uma dessas obras foi traduzida, a de Saunders, mas a sua Guerra Fria Cultural…, Denoel, 2004, esgotada, negocia-se na Internet, no mercado negro (até 600 €, recentemente).

Nenhuma outra obra foi traduzida, designadamente:

. Richard Aldrich, The hidden hand: Britain, America, and Cold War secret intelligence [A Mão Escondida: a Grã-Bretanha, a América e a Inteligência Secreta da Guerra Fria – NT], London, John Murray, 2001;

. Hugh Wilford, The CIA, the British Left and the Cold War: Calling the Tune? [A CIA, a Esquerda Britânica e a Guerra Fria: música à escolha? – NT], Abingdon, Routledge, 2003, reedição 2013;

. James Smith, British Writers and MI5 Surveillance, 1930-60 [Os escritores britânicos e os Serviços de Vigilância MI5, 1930-60 – NT], Cambridge, 2012 (fabuloso capítulo sobre Orwell e Koestler, pp. 110-151);

. Andrew Defty, Britain, America and anti-communist propaganda 1945-53: the Information Research Department [A Grã-Bretanha, a América e a propaganda anticomunista 1945-53: Departamento de Pesquisa de Informação – NT], London, Routledge, 2013;

. Tony Shaw,

http://researchprofiles.herts.ac.uk/portal/en/persons/tony-shaw(d6062eb5- b560-4803-b267-7b568a0b81e6)/cv.html?id=943264,

Orwell, ídolo dos “neocons” [neoconservadores] cada vez mais venerado desde os anos 80? Não há mal-entendido.

 

* Annie Lacroix-Riz é professora emérita na Universidade Paris 7

Fonte: http://www.historiographie.info/orwell.pdf, acedido em 201/09/08

Tradução do francês de PAT

 

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