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Recensão crítica de Joseph Jamison

Por que falhou a Revolução Alemã? A meia-revolução na Alemanha foi diferente da Revolução Russa que derrubou o Czar, em março de 1917, e proclamou a sua natureza socialista, em novembro de 1917. A possibilidade de uma revolução socialista alemã estava lá, acredita o autor, em janeiro de 1919, ou em 1920, ou ainda em outubro de 1923. Porque é que isso não aconteceu?

 

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Sob a sombra da revolução: Berlim-Varsóvia-Ancara 1920, por Kemal Okuyan.

Istambul: Yazilama Yazinevi, 2020, 367 pp., Brochura.

Informações de compra: Os leitores podem receber uma versão eletrónica (PDF) gratuita deste livro, ou comprar a versão impressa em inglês, entrando em contato com a editora em: yazilama@yazilama.com para mais detalhes.

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“O destino do todo o século XX foi decidido entre 1917 e 1923.”

Esta frase surpreendente abre o livro Sob a sombra da revolução: Berlim-Varsóvia-Ancara 1920, um novo e admirável livro de Kemal Okuyan, secretário-geral do Partido Comunista da Turquia.

No seu livro, Okuyan aborda a grande questão: Por que falhou a Revolução Alemã? A meia-revolução na Alemanha foi diferente da Revolução Russa que derrubou o Czar, em março de 1917, e proclamou a sua natureza socialista, em novembro de 1917. A possibilidade de uma revolução socialista alemã estava lá, acredita o autor, em janeiro de 1919, ou em 1920, ou ainda em outubro de 1923. Porque é que isso não aconteceu? Diz ele:

Neste estudo, procuramos responder à questão de quais foram os fatores que impediram a propagação da revolução mundial nos seus anos mais cruciais, entre 1918 e 1924, particularmente em 1920. Quais desses fatores eram inevitáveis? Que erros cometeram os comunistas? Passado um século é chegado o momento de enfrentar essas questões com ousadia. O campo está repleto de historiadores burgueses abertamente anticomunistas, mas também de intelectuais que presumem falar pelo marxismo, mas que exibem uma atitude ainda mais fanática do que os historiadores burgueses quando se trata de antissovietismo”.

Kemal Okuyan, nascido em 1962, cresceu em Ancara e Izmir, na Turquia. Graduado pelo Departamento de Ciência Política da Universidade do Bósforo, trabalhou muitos anos no movimento da juventude comunista. Foi o fundador de várias publicações de esquerda (Socialist Power [Poder Socialista] e Tradition [Tradição]) . Após a reconstituição do Partido Comunista da Turquia (TKP), assumiu várias funções no partido. Os seus livros incluem: Os primeiros anos da política externa soviética; O livro para seguidores de 'o que deve ser feito'; Compreender Estaline; A procura do poder pelo socialismo na Turquia; Antíteses sobre a dissolução da União Soviética e outros .

A tese de Okuyan é: “A revolução socialista foi sem dúvida possível na Alemanha. Uma combinação de razões objetivas e subjetivas protegeu a ordem capitalista, e a humanidade ainda está a pagar o preço por coisas que poderiam ter acontecido de outra forma em Berlim e Varsóvia. Apesar de tudo, os acontecimentos poderiam ter sido diferentes. Por outro lado, noutra capital do período revolucionário, Ancara, a revolução permaneceu dentro dos limites burgueses, pois era impossível dizer 'uma revolução socialista é possível' naquela época. Esta revolução turca foi bem-sucedida. O seu sucesso deu uma ajuda da maior importância ao único país socialista, os soviéticos, porque, pelo menos o que se pensava ter feito e, eventualmente, o que acontece com todas as revoluções burguesas, aconteceu. A burguesia rapidamente se tornou reacionária e  entregou à classe operária turca a tarefa de derrubar essa classe reacionária. Esta tarefa, não cumprida até agora, certamente será cumprida no futuro”.

Nos primeiros capítulos, Okuyan conta de novo a história comovente da classe operária alemã, fervilhando de ardor revolucionário e perdendo repetidamente oportunidades de conquistar o poder do Estado. As coisas poderiam ter acontecido de outra maneira. Se eles tivessem ido por outro caminho, no século XXI viveríamos num mundo diferente. Na opinião do autor,

... Não me conto entre aqueles que pensam que a Revolução Alemã estava destinada ao fracasso. Sim, a Alemanha tinha algumas desvantagens que afetariam uma revolução socialista, mas o inverso também era verdadeiro. Também tinha vantagens consideráveis em comparação com a Rússia ... O principal problema na Alemanha em 1918 era a ausência de um partido revolucionário da classe operária que tivesse passado primeiro pelas fábricas. Sempre houve uma ala revolucionária na social-democracia alemã, mas esta ala nunca aprendeu a voar por si mesma e a tornar-se um poder independente”.

Em novembro de 1918, a Revolução Alemã depôs o Kaiser Guilherme II, mas não avançou para um segundo nível socialista. Os generais alemães, numa “revolução” que forçou a abdicação de Guilherme, enviaram o Kaiser e a sua família para uma mansão confortável na Holanda. Colocaram em Berlim, no poder, líderes sociais-democratas domesticados. Os líderes da S[ocial] D[emocracia] (Noske, Scheidemann, Ebert) estavam determinados a manter intacta a ordem capitalista existente e a manter os verdadeiros revolucionários como os social-democratas de esquerda Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht fora do poder, por todos os meios necessários.

A traição da revolução pela social-democracia de direita foi consciente e explícita. Em 7 de novembro de 1918, na Alemanha, de acordo com Okuyan,

A revolução estava a surgir sem vanguarda e deu o seu primeiro golpe. A capital alemã e o comando militar perceberam o que estava por vir e agiram rapidamente. Tinham percebido meses antes que o império poderia entrar em colapso debaixo do seu nariz, e agora o que temiam estava a tornar-se realidade. Imediatamente sacrificaram o Kaiser. Os representantes mais fortes da classe capitalista estavam à porta dos líderes social-democratas, dizendo-lhes que estavam ‘prontos para concessões que nunca nenhum grupo considerável de patrões alemães tinha feito em troca de ajuda na luta contra o bolchevismo’. Os seus apelos foram ouvidos. Ebert, a figura mais proeminente da social-democracia, tinha assegurado ao príncipe Max von Baden, que era o chefe do governo: a ordem seria restaurada”.

Socialismo num só país

Okuyan é franco sobre a contradição entre defender o estado nascente soviético e espalhar a revolução mundial, isto é, entre a atividade da Comintern e a busca do objetivo de preservar um socialismo sitiado num único país, a Rússia Soviética, onde o poder da classe operária sobreviveu à guerra civil e às intervenções imperialistas.

Espalhar a revolução dependia, antes de mais nada, da criação de partidos que tivessem suficiente músculo e qualidades para liderar a revolução. Para este objetivo, teve de ser travada uma luta multifacetada contra a social-democracia, que era a corrente principal do movimento dos trabalhadores. Além disso, os aspetos da experiência russa que podiam ser generalizados deveriam ser cristalizados política, teórica e organizativamente. No entanto, nem mesmo tudo isso foi suficiente para desferir o golpe fatal no capitalismo. Os partidos comunistas tinham de ser coordenados – até mesmo dirigidos – a partir de um único centro. Por outro lado, a defesa da Rússia Soviética dependia tanto de encontrar países com os quais pudessem ser estabelecidas relações políticas, como capacidade de repelir as intervenções militares diretas e indiretas do imperialismo”.

O socialismo num só país era uma política, argumenta ele, imposta pela necessidade, não por escolha. O reconhecimento da sua necessidade remonta a Lenine, não a Estaline, embora o trotskismo e a maior parte da historiografia burguesa gostem de enquadrar isto como a política de Estaline. De acordo com Okuyan,

Já dissemos que a noção de Trotsky como sendo 'o defensor infalível e incondicional da revolução mundial' era uma lenda urbana. Por outro lado, afirmar que foi Estaline quem planeou a política de proteger a Rússia Soviética e fazer o que fosse necessário para estabelecer o socialismo num só país seria conferir uma honra demasiada a Josef Vissarionovich Estaline. Ele compreendeu e destacou-se por fazer o que fosse necessário. Mas, de 1920 em diante, foi Lenine quem insistiu que, à medida que a onda revolucionária diminuía, a Rússia Soviética deveria ficar longe de aventuras e concentrar-se nos seus próprios problemas”.

Organização do Livro

Capítulos curtos – 28 ao todo – facilitam a leitura. A primeira parte do livro contém uma cronologia de datas importantes no período de 1917-1923 e um guia prático para a lista aparentemente interminável de abreviações e acrónimos dos partidos políticos e movimentos da época. As notas de rodapé são abundantes e interessantes. A tradução é geralmente satisfatória e idiomática. O significado de cada frase é sempre claro. O estilo de Okuyan – animado, enérgico, popular, quase jornalístico – fica bem em inglês. O tradutor pode ser elogiado por isso. Mas a incómoda ausência do artigo definido “the”, onde um falante de inglês normalmente esperaria (o turco não tem artigo definido, nem “the”) é irritante. Se este livro valioso e importante tiver uma segunda edição em tradução inglesa – e espera-se que tenha – esta e algumas outras incorreções na tradução devem ser corrigidas.

Uma parte do interesse do livro reside no facto de ele estar cheio de comentários impressionantes e de novas interpretações independentes e interessantes. Por exemplo:

  • O tratamento de Estaline e Trotsky é fresco e original. O autor não mostra relutância em citar historiadores trotskistas quando escreveram importantes trabalhos académicos sobre a época (como Chris Harman). Por exemplo, Okuyan afirma que Trotsky prejudicou realmente as forças armadas soviéticas nos seus sete anos como comissário militar soviético 1918-1925. Isso teve implicações anos depois. Sob a supervisão de Trotsky, por exemplo, o número de ex-oficiais czaristas no Exército Vermelho passou de 30.000 em 1919 para uns surpreendentes 314.000. A repressão de 1937 – incluindo a purga do Exército Vermelho – pode ser vista como a etapa final para pôr fim a essa distorção. Tukachevsky, uma das vítimas mais proeminentes da purga das forças armadas soviéticas, tinha sido um oficial czarista. Okuyan tenta ser justo: “Trotsky deu uma grande contribuição para o esforço de criar um verdadeiro exército a partir de uma massa confusa, mas também fez alguns arranjos desnecessários, e até prejudiciais, ao mesmo tempo que os necessários. Ao fazer isso.... ele estava a agir de forma irresponsável, já que achava que a Rússia Soviética não era importante em si mesma no caminho para o socialismo”.
  • Embora honrando o heroísmo dos mártires revolucionários Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, o autor não é um hagiógrafo. Observa que Karl Liebknecht tinha uma tendência individualista e uma fobia de organização. Rosa Luxemburgo nunca gostou da cultura organizativa bolchevique.

Porquê “Varsóvia, Ancara, 1920”?

No título do livro fica claro por que razão Berlim, a capital da Alemanha, está “na sombra” lançada pela revolução bolchevique. Todos os primeiros capítulos do livro são dedicados às múltiplas oportunidades perdidas para a classe trabalhadora alemã de transformar uma revolução democrática contra um Kaiser autocrático numa revolução socialista. Mas por que é que o título diz Varsóvia , Ancara, 1920 ?

O ano de 1920, acredita o autor, foi o ano mais decisivo dos seis anos decisivos 1918-1923. Foi o ano das maiores oportunidades para o sucesso revolucionário alemão. Foi também o ano em que a contraofensiva soviética contra a invasão polaca de abril de 1920 fracassou às portas de Varsóvia, excluindo a hipótese de derrubar o regime nacionalista burguês de Pilsudski, que trabalhava em conluio com o imperialismo britânico e francês. Se a contraofensiva do Exército Vermelho não tivesse vacilado, Moscovo poderia ter instalado em Varsóvia um governo operário amigo dos soviéticos nas fronteiras de uma Alemanha ainda dominada por humores revolucionários.

Em relação à pouco estudada Guerra polaca-soviética de 1920, Okuyan revela a confusão dentro da liderança bolchevique – sem exceção de Lenine – ansiosa por preservar o seu princípio de não “exportar” a revolução mas, aparentemente, também calculando que derrubar o regime reacionário de Varsóvia poderia acelerar a Revolução Alemã, da qual dependiam tantas esperanças revolucionárias.

Okuyan argumenta que a evolução da política bolchevique em relação à nova Turquia de Kemal Ataturk tipificou a política bolchevique em relação ao Leste em geral. À medida que as esperanças revolucionárias no Ocidente se desvaneciam, os bolcheviques voltaram os olhos para o leste, onde os movimentos anti-imperialistas de independência nacional de natureza democrática burguesa na Turquia, Irão, Índia e China, por exemplo, estavam em ascensão. A necessidade pragmática de uma aliança bolchevique com a Turquia democrática burguesa de Ataturk, disposta a desafiar o imperialismo britânico e a renunciar ao fascínio de um nacionalismo pan-turco que poderia ter desestabilizado a Ásia Central Soviética, garantiu que uma aliança soviético-turca surgisse.

Por que falhou a Revolução Alemã?

O último capítulo, Capítulo 28, “Por que ... Por que falhou?” é talvez o mais interessante livro. Nele, Okuyan afirma que o fracasso da Revolução Alemã teve mais de uma causa, mas fundamentalmente, nos momentos cruciais entre 1918 e 1923, a Alemanha carecia de um partido de vanguarda revolucionário e experiente. O KPD [Partido Comunista da Alemanha], fundado em dezembro de 1918, não estava à altura da tarefa. Os melhores líderes desse partido, Luxemburgo e Liebknecht, foram assassinados pelos Freikorps, o núcleo paramilitar do fascismo alemão. Os líderes restantes eram frequentemente indecisos e inexperientes.

Okuyan oferece outras razões para o fracasso da revolução: a experiência e astúcia da classe capitalista alemã foram muito maiores do que a da sua contraparte russa. Os bolcheviques, ao contrário do KPD, foram bem-sucedidos em transformar o anseio das massas pela paz em 1917-1918 em impulso revolucionário. Os capitalistas alemães, cujos círculos de topo beneficiaram da hiperinflação que causou uma grande agonia à classe operária e às camadas médias, de alguma forma conseguiram obter o crédito pelo seu fim, em 1923-24. O papel de traição dos Social-democratas alemães foi uma constante. A Alemanha carecia de um único centro proletário comparável a Petrogrado. As revoltas dos trabalhadores alemães (Berlim, Baviera, Kiel) foram descoordenadas. Os conselhos políticos bolcheviques ao KPD frequentemente refletiam as divisões bolcheviques. A liderança do Comintern – Zinoviev era o principal líder nesse período –  tinha sérias deficiências. Finalmente, Lenine ficou gravemente doente após o início de 1923. Morreria em janeiro de 1924.

Conclusão

Se era para haver uma revolução em todo o continente europeu, abrindo o caminho para a revolução no resto do mundo, a Alemanha era a chave. Grande parte da história do século XX –, muitas vezes parece a este revisor, em retrospetiva do século 21 –, equivale ao que não aconteceu na Alemanha, o Estado mais forte da Europa continental, o mais populoso (exceto a Rússia), o país com o movimento operário mais organizado e ostensivamente marxista. Primeiro, houve a revolução socialista que não ocorreu em 1917-23. Finalmente, em maio de 1945, ao preço de oceanos de sangue soviético, veio a derrota da Alemanha nazi, mas uma derrota deixando dois terços do país nas mãos dos capitalistas ocidentais, dando ao capitalismo alemão uma chance de se recuperar. Finalmente, em 1990, graças à pressão imperialista e à conivência da camarilha de Gorbachev, a República Federal da Alemanha capitalista desestabilizou e absorveu a República Democrática Alemã, a maior conquista dos alemães antifascistas. Para o povo alemão, o século XX foi uma história trágica de coisas que poderiam ter sido.

Este livro, então, é uma reavaliação honesta e perscrutadora desses anos revolucionários cruciais, por um líder político que vasculhou uma quantidade impressionante de literatura primária e secundária e que traz para apoiar o seu material muitas décadas de experiência política comunista.

Fonte: https://mltoday.com/book-review-under-the-shadow-of-the-revolution-berlin-warsaw-ankara-1920-by-kemal-okuyan/, publicado em 2021/05/08 e acedido em 2021/08/30.

Tradução do inglês de TAM

 

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