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Mandy Smithberger *

Para colocar isto em perspetiva, no meio de uma pandemia, os codiretores do Projeto dos Custos da Guerra, da Universidade de Brown, referiram recentemente que as alocações para a Administração de Alimentos e Medicamentos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças e os Institutos Nacionais de Saúde para 2020 representaram menos de 1% do que o governo dos EUA gastou, apenas nas guerras no Iraque e no Afeganistão, desde o 11 de setembro.

 

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Neste momento de uma crise sem precedentes, poder-se-ia pensar que aqueles que não são vencidos pelas consequências económicas e mortais do coronavírus se perguntariam: “O que podemos fazer para ajudar?”. Algumas empresas, de facto, dedicaram-se a fabricar máscaras e ventiladores para um sobrecarregado sistema médico. Infelizmente, quando se trata das principais autoridades do Pentágono e dos CEO que administram uma grande parte da indústria de armas, abundam os exemplos em que perguntam o que podem fazer para se ajudarem a si próprios.

É importante compreender como a indústria de defesa se saiu chocantemente bem nestes últimos quase 19 anos, desde o 11 de setembro. As suas empresas (recheadas de ex-militares e oficiais de defesa) receberam triliões de dólares em contratos governamentais, que usaram largamente no seu enriquecimento. Dados compilados pelo New York Times mostraram que os diretores executivos das cinco principais empresas militares-industriais receberam quase US $ 90 milhões em compensações, em 2017. Uma investigação, neste mesmo ano, efetuada pelo Providence Journal descobriu que, de 2005 até ao primeiro semestre de 2017 , as cinco principais empresas com contratos de defesa gastaram mais de US $ 114 biliões a recomprar as ações das suas próprias companhias e, assim, aumentaram o seu valor à custa do novo investimento.

Para colocar isto em perspetiva, no meio de uma pandemia, os codiretores do Projeto dos Custos da Guerra, da Universidade de Brown, referiram recentemente que as alocações para a Administração de Alimentos e Medicamentos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças e os Institutos Nacionais de Saúde para 2020 representaram menos de 1% do que o governo dos EUA gastou, apenas nas guerras no Iraque e no Afeganistão, desde o 11 de setembro. Embora quase todas as agências e indústrias governamentais imagináveis ​​tenham sofrido o impacto da propagação do coronavírus, o papel da indústria de defesa e militar na resposta à pandemia foi, na verdade, limitado. O uso, amplamente publicitado, de navios-hospitais militares em Nova York e Los Angeles, por exemplo, não só teve um impacto relativamente pequeno nas crises nessas cidades, mas também passou a servir como um símbolo de quão disfuncional realmente foi a resposta militar.

Dar a mão ao complexo militar-industrial no momento Covid-19

As exigências de usar o Ato de Produção de Defesa para direcionar empresas para produzir equipamentos necessários no combate à Covid-19 continuaram, provocando uma forte resistência das indústrias, preocupadas sobretudo e em primeiro lugar com os seus próprios lucros. Até o colunista conservador do Washington Post, Max Boot, apoiante de longa do aumento dos gastos do Pentágono, se retratou recentemente, observando como essas prioridades orçamentais enfraqueceram a capacidade de os EUA manterem os americanos a salvo do vírus. “Nunca fez qualquer sentido, como o orçamento de Trump para 2021 tinha inicialmente proposto, aumentar os gastos com armas nucleares em US $ 7 biliões, enquanto cortava em US $ 1,2 bilião o financiamento dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças”, escreveu ele. “Ou criar uma desnecessária Força Espacial, fora da Força Aérea dos EUA, enquanto se elimina a importante e vital diretoria de saúde global, inserindo-a noutro serviço, no interior do Conselho de Segurança Nacional”.

De facto, continuar a priorizar as forças armadas dos EUA só enfraquecerá ainda mais o sistema público de saúde do país. E para começo, chamar simplesmente médicos e enfermeiros nas reservas militares, como até o Secretário de Defesa Mark Esper apontou, prejudicará a resposta civil mais ampla à pandemia. Afinal, nas suas vidas civis, muitos deles trabalham agora em hospitais domésticos e centros médicos inundados por pacientes da Covid-19.

A situação atual, no entanto, não impediu solicitações de resgates financeiros por parte do complexo militar-industrial. A Associação Nacional de Defesa Industrial, um grupo comercial da indústria de armas, normalmente solicitava ao Pentágono que acelerasse contratos e prémios de US $ 160 biliões em fundos não obrigatórios do Departamento de Defesa para as suas empresas, o que envolvia atirar dinheiro pela porta fora sem ter em conta o mínimo cuidado ou a devida diligência.

Já sob fogo, no momento pré-pandémico, por grotescos problemas de segurança com os seus jactos comerciais, a Boeing, o segundo maior contratante do Pentágono, recebeu US $ 26,3 biliões no ano passado. Agora, essa empresa pediu um apoio ao governo de US $ 60 biliões. E, certamente, não ficará surpreendido ao saber que o Congresso já forneceu à Boeing parte do dinheiro desejado, na sua recente legislação sobre resgates financeiros. Segundo o Washington Post , foram negociados US $ 17 biliões nesse acordo com empresas “essenciais para manter a segurança nacional” (tendo, em particular, a Boeing em mente). Quando, no entanto, ficou claro que esses fundos não chegariam como um completo cheque em branco, a empresa começou a repensar. Agora, alguns membros do Congresso estão praticamente a implorar para ficarem com o dinheiro.

E a Boeing estava longe de estar sozinha. Mesmo com a disseminação do coronavírus a provocar conversações no Congresso sobre o que se tornaria um pacote de ajuda de US $ 2 triliões, 130 membros da Câmara já estavam a pedir fundos para comprar mais 98 caças Lockheed Martin F-35, o sistema de armas mais caro da história, ao custo de mais meio bilião de dólares, ou ao preço de mais de 90.000 ventiladores.

Da mesma forma, deveria ter sido absurdamente óbvio que este não era o momento de fomentar os gastos, já astronómicos, em armas nucleares. No entanto, a solicitação do orçamento de defesa deste ano para tal armamento foi 20% superior à do ano passado e 50% acima dos níveis de financiamento existente quando o presidente Trump assumiu o cargo. A agência que fabrica armas nucleares já tinha deixado US $ 8 biliões não utilizados  de anos anteriores e o chefe da Agência Nacional de Segurança Nuclear, responsável pelo desenvolvimento de ogivas nucleares, admitiu ao representante Susan Davis (D-CA) que a agência era, provavelmente, incapaz de gastar a totalidade do novo aumento.

No entanto, os apoiantes desse armamento continuam afoitos pela pandemia da Covid-19. De facto, a crise só parece ter fornecido mais uma desculpa para acelerar a concessão de uns estimados US $ 85 biliões à Northrop Grumman para desenvolver uma nova geração de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), considerada a “perna coxa” da tríade nuclear da América. Mas como William Hartung, diretor do Projeto de Armamento e Segurança do Centro de Política Internacional realçou, tais ICBMs “são redundantes porque os invulneráveis mísseis balísticos lançados por submarinos ​​são suficientes para impedir outros países de atacarem os Estados Unidos. E são perigosos porque operam em alerta de gatilho, com decisões de lançamento que são tomadas, nalguns casos, em poucos minutos. Isso aumenta o risco de uma guerra nuclear por acidente”.

E como o autor de livros infantis, Dr. Seuss, devia ter acrescentado: “Mas isso não é tudo! Oh, não, isso não é tudo”.  De facto, o gigante da defesa Raytheon também está a receber o seu pedaço do bolo, no momento Covid-19, por uma arma de longo alcance de US $ 20 a US $ 30 biliões, um míssil nuclear armado, de igual forma redundante. Isto mostra tudo o que é preciso saber agora sobre as prioridades de financiamento, que a empresa está, de facto, a receber esse dinheiro dois anos antes do previsto.

No meio da disseminação da pandemia, o Comando Indo-Pacífico das forças armadas dos EUA também viu uma oportunidade de usar o alarmismo do medo da China, um país oficialmente na sua área de responsabilidade, para obter um financiamento adicional. E, assim, está a tentar obter US $ 20 biliões que antes não haviam conseguido a aprovação  do Secretário de defesa, na proposta de orçamento do governo para o ano fiscal de 2021. Esse dinheiro seria destinado a duvidosos sistemas de defesa antimísseis e a uma igualmente duvidosa “Iniciativa de Dissuasão do Pacífico”.

Como não lidar com a Covid-19

Juntamente com aqueles resgates militares-industriais, houve o roubo de contribuintes americanos. Enquanto muitos americanos aguardavam ansiosamente os seus pagamentos de US $ 1.200 do pacote de ajuda e assistência do Congresso, o Departamento de Defesa estava a acelerar os pagamentos dos contratos à indústria de armamento.  Shay Assad, um ex-alto funcionário do Pentágono, chamou com precisão “roubo aos contribuintes” que indústrias com tantos recursos –, para não falar da capacidade de pedir dinheiro emprestado a taxas de juros incrivelmente baixas –, estivessem a ser tão rica e rapidamente recompensadas, em tempos difíceis. Entregar tais financiamentos a gigantes da defesa, neste momento, era como alguém dar à cabeça a um empreiteiro 90% dos custos de renovações, quando não estava claro se poderia pagar a próxima tranche da hipoteca. Precisamente agora, a indústria de defesa está a ter idêntico sucesso em convencer o Pentágono de que a prestação básica de contas deve ser atirada pela janela. Mesmo em tempos normais, é raro o governo federal negar dinheiro a um fabricante de armas gigante, a menos que o seu desempenho seja realmente ofensivo. A Boeing, no entanto, continua a encaixar-se perfeitamente nessa lista, com o seu interminável programa de construção do avião-tanque KC-46 Pegasus, basicamente um “posto de gasolina voador” destinado a reabastecer outros aviões no ar.

Como anotou o analista de segurança nacional Mark Thompson, meu colega no Projeto de Supervisão Governamental (POGO), mesmo após anos de desenvolvimento, aquele avião-tanque tem pouca esperança de cumprir a sua missão no futuro próximo. As sete câmaras com que o piloto conta para transferir o combustível do KC-46 para outros aviões têm tanto brilho e tantas sombras, que a possibilidade de raspar desastrosamente o revestimento furtivo dos F-22 e F-35 (ambos fabricados pela Lockheed Martin), enquanto o reabastecimento continua, é um perigo constante. A Força Aérea também ficou cada vez mais preocupada porque o próprio avião-tanque vaza combustível. No momento pré-pandémico, tais problemas e outros associados levaram aquele serviço a decidir reter US $ 882 milhões para a Boeing. Agora, porém, em resposta à crise da Covid-19, esses fundos estão, acredite-se ou não, a ser libertados.

Recorde-se todo este comportamento (e mais), quando se ouvem pessoas a sugerir que, nesta emergência de saúde pública, os militares devem ser colocados no comando. Afinal, estamos a falar da mesma instituição que, regularmente, administrou, mal, programas massivos de armas, como o programa de caças a jacto F-35, de US $ 1,4 trilião, já o sistema de armas mais caro de todos os tempos (com inúmeros problemas). Mesmo quando se trata de cuidados de saúde, os militares mostraram-se notavelmente ineptos. Por exemplo, as tentativas do Departamento de Assuntos dos Veteranos e do Departamento de Defesa para integrar os seus registos de saúde foram infamemente abandonadas, após quatro anos e gastos de US $ 1 bilião.

Ter alguém de uniforme no pódio não é, infelizmente, garantia de sucesso. De facto, vários veteranos foram rápidos em reprovar a ideia de liderança dos militares, neste momento. “Não coloquem os militares no comando de qualquer coisa que não envolva explosões, prevenção de explosões, ou o aparecimento num local como uma mensagem para outros de que estaremos lá para explodir com coisas e com eles, se necessário for”, escreveu um deles.

Aqui está um vídeo de Camp Pendleton de fuzileiros navais sem máscara na fila para cortar o cabelo, durante a pandemia”, tuitou outro . “Então, que tal o 'não'?”. Aquele vídeo de tropas sem máscaras ou distanciamento social chocou, até, o Secretário da Defesa Esper, que pediu uma interrupção no corte de cabelo aos militares, o que só serviu para ser contrariado pelo presidente do Estado-Maior Conjunto, desesperado para manter os cortes regulamentares no momento da pandemia. Isso inspirou uma ridicularização dos “heróis do corte de cabelo” no Twitter.

Infelizmente, quando a Covid-19 se espalhou pelo porta-aviões USS Theodore Roosevelt , aquele barco tornou-se emblemático de quão impreparada mostrou ser a atual liderança do Pentágono no combate ao vírus. Apesar de, pelo menos, terem sido reportados 100 casos a bordo – 955 tripulantes, no final, testaram positivo para a doença e o suboficial, Charles Robert Thacker Jr., morreria por causa disso – os líderes seniores da Marinha foram lentos a responder. Por sua vez, mantiveram aqueles marinheiros muito próximos e numa situação insustentável de risco crescente. Quando um mail, expressando as preocupações do comandante do navio, capitão Brett Crozier, chegou à imprensa, ele foi rapidamente removido do comando. Mas, enquanto os seus chefes não apreciaram a sua defesa da tripulação, os seus marinheiros apreciaram. Ele deixou o barco com uma  despedida de herói.

Tudo isto não quer dizer que alguns militares dos EUA não tenham tentado avançar com as pastas da Covid-19. O Pentágono, por exemplo, firmou contratos para construir instalações de “cuidados alternativos”, para ajudar a aliviar a pressão nos hospitais. A Universidade de Serviços Uniformizados das Ciências da Saúde já está a permitir que os seus médicos e enfermeiros se juntem aos militares. Vários meses depois desta crise, o Pentágono usou finalmente o Ato de Defesa da Produção para lançar um processo de produção de US $ 133 milhões em máscaras cruciais para o respirador N95, e de US $ 415 milhões de unidades de descontaminação para cuidados intensivos N95. Mas trata-se de atos modestos, no meio de uma pandemia e num momento em que os resgates, fraudes e atrasos sugerem que o complexo militar-industrial não se mostrou capaz de uma concretização efetiva, mesmo para as suas próprias tropas.

Entretanto, os bandidos de Beltway, que compõem esse complexo, encontraram uma notável oportunidade para garantirem muitos dos seus sonhos esperanças. O seu sucesso em colocar os seus desejos e lucros à frente da verdadeira segurança nacional dos americanos já era suficientemente claro no impressionante orçamento pré-pandémico de US $ 1,2 trilião na segurança nacional. (Enquanto isso, é claro, as principais estruturas médicas federais foram subfinanciadas ou dissolvidas nos anos da administração Trump, minando a segurança real do país). Esse tipo de gastos desproporcionais ajuda a explicar por que é que a nação mais rica do planeta se mostrou tão incapaz até de fornecer o necessário equipamento de proteção individual aos profissionais de saúde da linha da frente, bem como os testes necessários para tornar este país seguro.

A indústria de defesa pediu muito, e recebeu, neste momento de crescentes casos de doenças e mortes . Embora haja, indubitavelmente, um papel a desempenhar nesta crise pelos grandes fabricantes de armas e pelo Pentágono, eles mostraram ser qualquer coisa, mas não eficazes instituições líderes na resposta a este momento. Chegou a hora do complexo militar-industrial pagar de volta a um público americano que foi mais do que generoso com ele.

Finalmente, não estará também na hora de reduzir o orçamento da “defesa” e colocar mais dos nossos recursos na verdadeira crise de segurança nacional que temos nas mãos?

Este artigo apareceu pela primeira vez no  TomDispatch .

* Mandy Smithberger  é a diretora do Centro para a Defesa da Informação no Projeto sobre Supervisão Governamental.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2020/05/06/beware-the-pentagons-pandemic-profiteers/, publicado e acedido em 2020/05/06

Tradução do inglês de PAT

 

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