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Greg Godels

 

 […] as tentativas de ligar o fascismo ao comunismo eram um projeto em curso. Esforços determinados para encontrar características comuns para justificar o anticomunismo levaram a uma construção chamada "totalitarismo". Popularizado por Hannah Arendt, as tropas da guerra fria quiseram e obtiveram uma contagem de supostas semelhanças que serviam os seus propósitos e serviam para gerar uma definição comum de duas ideologias díspares.

 

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A palavra "fascismo" é um para-raios. Ninguém quer ser chamado fascista. Toda a gente  está preparada para chamar  fascista a alguém. Como muitas palavras altamente carregadas de sentidos, quanto mais comum se torna o seu uso, mais inexato se torna o seu significado.

 

Hoje, Trump é fascista, Putin é fascista, Modi é fascista, islamismo radical é islamofascismo, os membros da Câmara e do Senado que aprovaram a renovação da FISA

[Foreign Intelligence Surveillance Act of 1978 (FISA) (em português: Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira)] -  são fascistas, a Ucrânia é um país fascista, o politicamente correto é fascismo, os antissionistas são fascistas, os sionistas são fascistas e assim por diante…

 

Claramente, a palavra "fascismo" nesses contextos é, na maioria das vezes, uma expressão de extrema desaprovação – uma espécie de palavrão.

 

Um problema surge quando o falante – a pessoa que usa a palavra – tem algo mais definido em mente, algo mais exigente. Outro problema surge quando o usuário da palavra pretende traçar uma associação com os fenómenos reais e historicamente concretos do fascismo que surgiram após a Primeira Guerra Mundial e se ergueram tragicamente para devastar e aterrorizar quase todo o mundo.

 

A ideia de que pessoas ou organizações estão a preparar-se para organizar camisas negras, camisas castanhas, camisas prateadas ou o que quer que seja para intimidar ou derrubar processos políticos convencionais é compreensivelmente condenável. Mas conjurar tal imagem para influenciar o processo político, ainda que sem justificação suficiente, é enganoso.

 

Num contexto político altamente carregado, não é apenas enganoso, mas também inútil e até incendiário.

 

Mesmo uma política tão santificada por grande parte da esquerda como o New Deal tem sido chamada fascista, protofascista ou de cores fascistas por comentaristas de todo o espectro político. E o "santo" Franklin Roosevelt foi rotulado fascista por muitos. Críticos de esquerda e de direita viram paralelos entre elementos do New Deal e o corporativismo de Mussolini. Outros ainda encontraram semelhanças entre o Corpo de Conservação Civil Rooseveltiano e os Serviços de Trabalho Alemães de Hitler. Como o New Deal foi uma mistura de pragmatismo de tentativa e erro, não é útil casá-lo com qualquer ideologia em particular.

 

É claro que o "fascismo" depende de como o definimos. Os problemas de definição surgiram imediatamente após a Segunda Guerra Mundial e a derrota das grandes potências fascistas. A emergente Guerra Fria levou os EUA e seus aliados a aceitarem uma definição estreita quando se tratava de novos aliados entre ex-nazis e colaboradores nazis. No seu conflito com os soviéticos, os líderes dos EUA contaram com alemães e europeus orientais com ligações duvidosas ou fascistas para avançar programas de armas, utilizar inteligência e reforçar o anticomunismo. O veto aos fascistas pela ideologia foi, na melhor das hipóteses, um processo aleatório.

 

Por outro lado, as tentativas de ligar o fascismo ao comunismo eram um projeto em curso. Esforços determinados para encontrar características comuns para justificar o anticomunismo levaram a uma construção chamada "totalitarismo". Popularizado por Hannah Arendt, as tropas da guerra fria quiseram e obtiveram uma contagem de supostas semelhanças que serviam os seus propósitos e serviam para gerar uma definição comum de duas ideologias díspares.

 

Assim, a Guerra Fria criou uma interpretação estreita e ampla do fascismo – uma para fins práticos, a outra para fins de propaganda.

 

À medida que a Guerra Fria aquecia na década de 1980, académicos como Stanley Payne (Fascism, Wisconsin, 1980), fizeram tentativas de definições mais independentes, matizadas e objetivas de "fascismo". Payne empenhou-se-se na análise histórica comparativa e chegou à sua descrição tipológica do fascismo. Infelizmente, sofreu um pouco de empirismo bruto e de uma falha em pesar adequadamente os fatores divulgados. Para seu crédito, ele minou a mistura de comunismo e fascismo da Guerra Fria ao enfatizar o anticomunismo como uma característica comum do fascismo, e não confundi-lo com o comunismo.

 

Além disso, Payne, em 1980, reconhece o conceito historicamente encontrado de "autoritarismo liberal" – uma forma de liberalismo iliberal – que pode servir para explicar grande parte da confusão da nossa esquerda anti-Trump hoje, que está ansiosa para dispensar a Lei dos Direitos para salvar a "nossa" democracia.

 

Num ensaio recente sobre a moda "o fascismo é iminente" de hoje, o notável comentarista liberal, Patrick Lawrence, fala sobre o conceito de "autoritarismo liberal". Lawrence declara no seu artigo "This Isn't Fascism" publicado no Consortium News que "Eu não consigo precisar o que é que as pessoas querem dizer quando falam de fascismo nas nossas atuais circunstâncias. E, até onde se pode perceber, muitas pessoas que usam o termo, e talvez a maioria, também não sabem o que significa".

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Infelizmente, enquanto Payne ainda servir como uma pedra angular para a erudição académica ocidental contemporânea, a velha mistura de comunismo e fascismo da Guerra Fria foi retomada, particularmente sob uma nova onda de tropas retro-guerra fria como Anne Applebaum e Timothy Snyder.

 

Mas, mais consequentemente, a acusação de fascismo – invocada irresponsavelmente – tem servido de arma política eleitoral. Especificamente, muitos no Partido Democrata – desprovidos de um programa apelativo – proclamam que um voto em Biden é um voto contra o fascismo. Dado que o fracasso de Biden na inflação e na sua sangrenta guerra são rejeitados, especialmente pela juventude e pela ala esquerda do partido, retratar Trump como fascista é um ato de desespero, mas um ato que, em última análise, fará pouco para impedir a ascensão de Trump e os da sua trupe.

 

Novamente, invocando Lawrence:

 

Muito disso, chamemos-lhe poluição do discurso público, vem dos autoritários liberais. Rachel Maddow, para pegar um dos casos mais lamentáveis, quer que pensemos que Trump, o ditador, acabará com as eleições, destruirá os tribunais e tornará o Congresso impotente. O comentarista da MSNBC realmente disse essas coisas nas redes.

 

A lei de um só homem é o tema, se se ouvir Rachel Maddow. A intenção evidente é lançar Donald Trump à luz mais temível possível, já que fica claro que Trump pode muito bem derrotar o presidente Biden nas urnas em 5 de novembro.

 

Podemos resumir essas coisas a uma guerrinha política grosseira em ano eleitoral, com certeza. Não há nada de novo nisso. Mas a questão não é essa.

 

Vozes oportunistas na esquerda costumam fazer uma analogia grosseira com a ascensão do nazismo. Eles evocam o caso simplista e falso de que a desunião na esquerda abriu as portas para a ascensão de Hitler a primeiro-ministro da Alemanha em 1933. Repetem um velho mantra do branqueamento da história – rejeitando o apoio dado pelos capitalistas alemães a Hitler, a perfídia do governo enfraquecido e a traição dos social-democratas. Eles ignoram a crise económica, o fracasso dos governantes em lidar com a crise e a busca desesperada dos povos por uma resposta radical para esse fracasso. Um sinal inquestionável desse desespero foi o crescimento contínuo dos votos no Partido Comunista, juntamente com a diminuição dos votos para os sociais-democratas e outros partidos de centro.

 

O nazismo não era inevitável, mas inaugurou um medo da revolução, do poder dos trabalhadores, por parte de uma classe dominante desesperada. Essa era a realidade onde o fascismo tomava o poder no século XX.

 

Hoje, a resposta para uma crise cada vez mais profunda do domínio capitalista que está a perder a sua legitimidade aos olhos das massas não é reunir apoio em torno das políticas fracassadas que criaram e aprofundaram a crise. A resposta não é dizer que vem aí o lobo ou lembrar às pessoas que as coisas podem piorar. Elas sabem disso!

 

A resposta é desenvolver respostas reais para o desespero enfrentado pelos trabalhadores – reduzindo a desigualdade, elevando o padrão de vida, garantindo cuidados de saúde, aumentando os benefícios sociais, melhorando o transporte público acessível, protegendo o meio ambiente, melhorando a educação pública e assim por diante. Esses problemas existem há muitas décadas, agravando-se a cada ano que passa. Não é nenhum mistério. Oferecem-nos apenas dois partidos e eles estão determinados a fugir a estas questões.

Lawrence faz uma afirmação semelhante:

 

Suponho que isso possa tornar a crise multifacetada dos Estados Unidos – política, económica, social – mais compreensível se lhe pusermos um nome [fascismo] para sugerir que ela tem um antecedente assustador. Mas isso é profundamente contraproducente. Enquanto nós, alguns de nós, continuarmos a convencer-nos de que enfrentamos a ameaça do fascismo ou o Fascismo, obscurecemos simplesmente  o que realmente enfrentamos.

 

Estamos a dar-lhe um nome errado... Não vejo fascismo de forma alguma no horizonte dos Estados Unidos. Chamá-lo assim é tornar-nos incapazes de agir efetivamente.

 

Mas isso ainda nos deixa com a pergunta: o que é o fascismo? Não há uma definição convincente?

 

De facto, há uma que nasce de um estudo profundo e minucioso do falecido pensador marxista, R. Palme Dutt. Publicado em 1934, logo após a ascensão de Hitler ao poder, Fascismo e Revolução Social (Editora Internacional) localiza o fascismo no caldeirão da ascensão do comunismo, de uma profunda crise económica e do colapso da legitimidade da classe capitalista.

 

Dutt, ao contrário dos académicos servis que tecem uma ligação bizarra e historicamente contestada entre comunismo e fascismo, descobre laços diretos entre capitalismo e fascismo (p. 72-73).

 

O fascismo fabrica a sua ideologia em torno da sua prática. Dutt explica:

 

O fascismo, de facto, desenvolveu-se como um movimento na prática, nas condições da ameaça da revolução proletária, como um movimento de massas contrarrevolucionário apoiado pela burguesia, empregando armas de demagogia social emeranhadas e terrorismo para derrotar a revolução e construir uma ditadura estatal capitalista fortalecida; e só mais tarde procurou adornar e racionalizar esse processo com uma "teoria" (p. 75).

 

A definição operacional de Dutt contrasta favoravelmente com a tentativa fracassada de escritores como Payne, que tentaram utilizar estudos comparativos para chegar a uma tipografia superficial do fascismo.

 

Dutt acrescenta ainda as dimensões de classe, ausentes em quase todas as definições não-marxistas:

 

O fascismo, em suma, é um movimento de elementos mistos, predominantemente pequeno-burgueses, mas também lumpen-proletariado e classe trabalhadora desmoralizada, financiado e dirigido pelo capital financeiro, pelos grandes industriais, latifundiários e financeiros, para derrotar a revolução operária e esmagar as organizações operárias (p. 82).

 

Elegante na sua simplicidade, robusta na sua abrangência, a explicação de Dutt sobre o fascismo caracteriza bem o fascismo histórico, desde a marcha sobre Roma até o golpe dos generais na Indonésia e o regime de Pinochet no Chile. Quando as condições sociais se deterioram drasticamente e os trabalhadores e as suas organizações ameaçam a ordem capitalista, os governantes lançam o seu apoio atrás de contrarrevolucionários preparados para defender e fortalecer a ordem capitalista, mesmo à custa da democracia burguesa.

 

Estas instituições e organizações grassam na sociedade burguesa como forças contrarrevolucionárias latentes prontas para serem desencadeadas no momento certo por uma classe dominante capitalista desesperada.

 

Claramente, o estudo e a elucidação do fascismo de Dutt limpam as águas turvas agitadas pelos alarmistas e oportunistas de hoje. Não há ameaça iminente de revolução; a esquerda revolucionária e as organizações operárias representam atualmente uma pequena ameaça à ordem capitalista, infelizmente.

 

Não há um movimento emergente de massas organizado respondendo a um apelo contrarrevolucionário. Os movimentos de massas da direita – as Legiões Negras, a KKK, os Proud Boys, as milícias, etc. – existem, caso amadureçam as condições para uma mobilização contra a classe trabalhadora; mas, por hoje, continuam a ser inaceitáveis para a maioria da classe dominante.

 

Na sua maioria, a classe capitalista, especialmente o seu setor monopolista dominante, está satisfeita em conduzir os seus negócios dentro dos limites da democracia burguesa. "O capital financeiro... os grandes industriais, latifundiários e financeiros." defendem e protegem o sistema bipartidário porque consideram que funciona adequadamente, embora os ataques judiciais que se acumulam sobre Trump e os ataques raivosos da media contra ele mostrem que uma parte importante da classe dominante considera a sua imprevisibilidade uma ameaça à estabilidade.

 

Outros acham que o seu bobo e o seu fanfarrão servem como válvula de segurança para o descontentamento que infeta os cidadãos, assim como as palhaçadas de Berlusconi pacificaram e entretiveram italianos insatisfeitos com o seu destino político durante três décadas.

 

De qualquer forma, Trump não representa a ameaça do fascismo na qual muitos gostariam que acreditássemos.

 

Precisamos de encontrar outras palavras para descrever a profunda crise de legitimidade burguesa que estamos a viver, palavras que não nos obriguem a uma postura defensiva frenética que nos desvie de encontrar soluções reais para um problema real e profundo que os trabalhadores enfrentam.

 

Fonte: https://mltoday.com/fascism-whats-in-a-word/, publicado e acedido em 17.06.2024

 

 

Tradução de TAM

 

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