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Jonathan Cook *

Num enclave onde dois terços dos jovens estão desempregados, ele não tinha esperança de encontrar trabalho. Não podia pagar uma casa para a sua jovem família e estava prestes a ter outra boca para alimentar.

Sem dúvida, tudo isto contribuiu para a sua decisão de se imolar pelo fogo até a morte.

 

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 Photo by Jordi Bernabeu Farrús | CC BY 2.0

 

Fathi Harb teria tido muito para viver, além da importante e iminente chegada de um novo bebé. Mas, na semana passada, o jovem de 21 anos acabou com a sua vida num inferno de chamas, no centro de Gaza.

Acredita-se ser o primeiro exemplo de um ato público de autoimolação no enclave. Harb regou-se com gasolina e pegou-se fogo numa rua da cidade de Gaza, pouco antes das orações do amanhecer, durante o mês sagrado do Ramadão.

Em parte, Harb foi levado a este terrível ato de autodestruição por desespero.

Depois de um selvagem bloqueio israelita por terra, mar e ar, ao longo da última década, Gaza é como um carro a andar no meio da fumarada. As Nações Unidas têm repetidamente alertado que o enclave estará inabitável dentro de alguns anos.

Nessa mesma década, Israel encurralou intermitentemente Gaza, em ruínas, de acordo com a doutrina Dahiya [1] do exército israelita. O objetivo é dizimar a área-alvo, fazendo aí recuar a vida à Idade da Pedra, de modo a que a população esteja de tal modo preocupada em fazer face ao seu sustento que não possa preocupar-se com a luta pela liberdade.

Estes assaltos tiveram um impacto devastador na saúde psicológica dos habitantes.

Harb mal se teria lembrado de um tempo antes de Gaza ser uma prisão a céu aberto e de outro onde uma bomba israelita de 1.000 kg podia cair perto de sua casa.

Num enclave onde dois terços dos jovens estão desempregados, ele não tinha esperança de encontrar trabalho. Não podia pagar uma casa para a sua jovem família e estava prestes a ter outra boca para alimentar.

Sem dúvida, tudo isto contribuiu para a sua decisão de se imolar pelo fogo até a morte.

Mas a autoimolação é mais do que suicídio. Isso pode ser feito em silêncio, fora da vista, de forma menos horrorosa. De facto, os números sugerem que as taxas de suicídio em Gaza dispararam nos últimos anos.

Mas a autoimolação pública está associada a um protesto.

Um famoso monge budista transformou-se numa bola humana de fogo no Vietname, em 1963, em protesto contra a perseguição dos seus correligionários.

Mas para Harb, mais provavelmente, o modelo foi Mohamed Bouazizi, o vendedor ambulante tunisino que se incendiou no final de 2010, depois das autoridades o humilharem frequentemente. A sua morte pública desencadeou uma onda de protestos em todo o Médio Oriente, o que originou a Primavera Árabe.

A autoimolação de Bouazizi indicia o seu poder para incendiar as nossas consciências. É o ato final do autossacrifício individual, que é inteiramente não-violento, exceto para a própria vítima, realizado altruisticamente por uma superior causa coletiva.

Com quem esperava Harb falar com o seu chocante ato?

Em parte, de acordo com a sua família, ele estava zangado com a liderança palestina. A sua família estava presa na disputa não resolvida entre os governantes de Gaza, o Hamas e a Autoridade Palestina (AP), na Cisjordânia. Essa disputa levou a AP a cortar os salários dos seus trabalhadores em Gaza, incluindo o do pai de Harb.

Mas Harb, sem dúvida, tinha também em mente uma audiência maior.

Até há poucos anos, o Hamas disparava regularmente morteiros para fora do enclave, numa luta para acabar com a contínua colonização israelita da terra palestina e para libertar o povo de Gaza da sua prisão, imposta pelos israelitas.

Mas o mundo rejeitou o direito de os palestinos resistirem violentamente e condenou o Hamas como “terrorista”. A série de ataques militares de Israel em Gaza, para silenciar o Hamas, foi humildemente criticada no Ocidente como “desproporcionada”.

Os palestinos da Cisjordânia e Jerusalém Oriental, onde ainda há contacto direto com os judeus israelitas, geralmente com colonos ou soldados, veem como a resistência armada de Gaza falhou no despertar da consciência do mundo.

Então, alguns assumiram a luta como indivíduos, atingindo israelitas ou soldados nos postos de controle. Pegaram uma faca de cozinha para atacar israelitas ou soldados nos postos de controle, ou atropelá-los com um carro, autocarro ou trator.

Mais uma vez, o mundo colocou-se ao lado de Israel. A resistência não era apenas fútil, era denunciada como ilegítima.

Desde o final de março, a luta pela libertação voltou para Gaza. Dezenas de milhares de palestinos desarmados concentraram-se semanalmente perto da vedação de Israel que os cerca.

Os protestos pretendem ser uma desobediência civil de confronto, um grito de pedido de ajuda ao mundo e uma lembrança de que os palestinos estão a ser lentamente sufocados até à morte.

Israel tem respondido, repetidamente, atirando sobre os manifestantes com munições reais, ferindo gravemente muitos milhares e matando mais de 100. Mais uma vez, o mundo permaneceu basicamente impassível.

De facto, e ainda pior, os manifestantes foram apresentados como lacaios do Hamas. A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, culpou as vítimas sob ocupação, dizendo que Israel tem o direito de “defender as suas fronteiras”, enquanto o governo britânico proclamou que os protestos foram “sequestrados por terroristas”.

Nada disso pode ter passado por Harb.

Quando os palestinos disseram que podem “protestar pacificamente”, os governos ocidentais ficaram em silêncio, de forma a que Israel possa ignorar e de forma a não perturbar as consciências, ou a exigir qualquer tipo de ação.

Em Gaza, o exército israelita está a renovar a doutrina Dahiya, desta vez destruindo milhares de corpos palestinos, mais do que infraestruturas.

Harb entendeu apenas demasiado bem a hipocrisia do Ocidente em negar aos palestinos qualquer direito a resistir significativamente à campanha de destruição de Israel.

As chamas que o envolveram pretendiam também consumir-nos com culpa e vergonha. E, sem dúvida, mais seguirão o seu exemplo em Gaza.

Estará Will Harb certo? Pode o Ocidente ficar envergonhado com a ação?

Ou continuaremos a culpar as vítimas para desculpar a nossa cumplicidade, durante sete décadas, de ultrajes cometidos contra o povo palestino?

A primeira versão deste artigo apareceu no ‘National’, em Abu Dhabi.

 

Notas

[1] A doutrina Dahiya ou doutrina Dahya é uma estratégia militar de guerra assimétrica, delineada pelo Chefe do Estado Maior General das Forças de Defesa de Israel (IDF), Gadi Eizenkot , que engloba a destruição da infraestrutura civil de regimes considerados hostis, como um medida calculada para negar aos combatentes o uso dessa infraestrutura, admitindo o emprego de “poder desproporcional” para assegurar esse fim. A doutrina é assim chamada em homenagem ao bairro de Dahieh , em Beirute, onde o Hezbollah estava sediado durante a Guerra do Líbano, em 2006 , que foi fortemente danificado pelas IDF.

https://www.google.pt/search?source=hp&ei=8MsyW5yrNMWjU5GFnZgK&q=Dahiya+doctrine&oq=Dahiya+doctrine&gs_l=psy-ab.3..0j0i22i30k1l5.3986.3986.0.7296.4.2.0.0.0.0.125.125.0j1.2.0....0...1c..64.psy-ab..2.2.428.6..35i39k1.305.ygxRzhQ-xuY. - NT

 

* Jonathan Cook ganhou o Prémio Especial Martha Gellhorn de Jornalismo. Os seus últimos livros são: Israel and the Clash of Civilisations: Iraq, Iran and the Plan to Remake the Middle East [Israel e o choque de civilizações: Iraque, Irão e o plano para refazer o Médio Oriente] (Pluto Press) e  Disappearing Palestine: Israel’s Experiments in Human Despair [Palestina a desaparecer: as experiências de Israel em desespero humano] (Zed Books). O seu sítio na rede é http://www.jonathan-cook.net/.

 

Fonte: publicado em 2018/05/29, em https://www.counterpunch.org/2018/05/29/fathi-harb-burnt-himself-to-death-in-gaza-will-the-world-notice/, acedido em 2018/05/30.

 

Tradução do inglês de MFO

 

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