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Cesar Chelala *

 

16 milhões não têm acesso a comida e água potável, e mais de um milhão de iemenitas – principalmente crianças – sofrem de cólera. Além disso, 5 milhões de pessoas estão no nível de “emergência” alimentar, pouco antes da fome, e há 2,8 milhões de pessoas deslocadas internamente. 

 

 

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Desenho de Nathaniel St. Clair

 

O recente veto do presidente Donald Trump a uma resolução bipartidária para forçar o fim do envolvimento militar americano na guerra da Arábia Saudita no Iémen fez-me lembrar algumas palavras de V. S. Naipaul, o autor de Trinidad e Tobago. No seu livro “A Bend in the River” [“Uma curva no rio”], Naipaul diz: “O mundo é o que é; homens que não são nada, que se deixam transformar em nada, não têm lugar nele”.

A guerra no Iémen atingiu um nível de barbaridade como poucas guerras na história recente. Tornou-se um pesadelo humanitário que só a cessação das hostilidades pela Arábia Saudita e a prestação de assistência imediata ao povo no Iémen podem ajudar a resolver. A administração Trump, no entanto, optou por continuar apoiando o regime saudita.

A assistência militar dos EUA assume várias formas. Vai desde o reabastecimento de jactos sauditas e dos emirados, que lideram a campanha de bombardeamentos no Iémen, até ao fornecimento de orientação e assessoria militar às forças sauditas, bem como ao fornecimento de combustível e armamentos, incluindo mísseis de precisão, para usarem contra os houthis iemenitas.

A guerra da Arábia Saudita contra os iemenitas desrespeita o direito internacional e princípios humanitários básicos. Anos de conflito destruíram praticamente o sistema de saúde pública do país e alimentaram uma crise humanitária de proporções dramáticas. Desde a escalada da guerra, em 2015, o pessoal médico e as unidades de saúde têm sido atacados e destruídos. Como resultado, milhares de pessoas ficaram sem serviços essenciais.

Os iemenitas são forçados a percorrer longas distâncias para chegarem aos poucos centros de saúde que ainda restam. Como resultado, mulheres grávidas com complicações chegam tarde de mais e as que sofrem de ferimentos graves perdem preciosos minutos de cuidados médicos. Além disso, a destruição do sistema de saúde levou a surtos de difteria, sarampo e cólera.

De acordo com o relatório anual Worldwide Threat Assessment [Avaliação das Ameaças Mundiais] – que reflete as perceções da Comunidade dos Serviços Secretos dos EUA, incluindo a CIA, a Agência de Segurança Nacional e o FBI, bem como muitas outras agências federais – de quase 29 milhões de pessoas no Iémen, cerca de 22 milhões precisam de alguma forma de assistência humanitária.

Entre elas, 16 milhões não têm acesso a comida e água potável, e mais de um milhão de iemenitas – principalmente crianças – sofrem de cólera. Além disso, 5 milhões de pessoas estão no nível de “emergência” alimentar, pouco antes da fome, e há 2,8 milhões de pessoas deslocadas internamente. Entretanto, medicamentos de emergência que salvam vidas, equipamentos para traumatismos e para doenças diarreicas e bancos de sangue são urgentemente necessários, pois o sistema público de saúde está em colapso.

A guerra no Iémen é uma flagrante violação do princípio da proporcionalidade. De acordo com este princípio, “Os danos causados a civis ou à propriedade civil devem ser proporcionais e não excessivos em relação à vantagem militar concreta e direta prevista por um ataque a um objetivo militar”. Os ataques sauditas a civis iemenitas e a alvos militares zombam deste princípio do direito internacional.

Na sua mensagem de veto, o presidente Trump disse: “Esta resolução é uma tentativa desnecessária e perigosa de enfraquecer as minhas competências constitucionais, colocando em risco as vidas de cidadãos americanos e corajosos militares, tanto hoje como no futuro”. O senhor Trump também disse que concordou com o Congresso quando afirma que “grandes nações não devem lutar em guerras intermináveis”. O que ele não disse é que a guerra no Iémen é uma carnificina que dá um novo significado à palavra “barbarismo”.

 

* O Dr. Cesar Chelala é covencedor do prémio de 1979 do Overseas Press Club of America pelo artigo “Missing or Disappeared in Argentina: The Desperate Search for Thousands of Abducted Victims” [“Perdidos ou Desaparecidos na Argentina: A Busca Desesperada por Milhares de Vítimas Raptadas”].

Fonte: https://www.counterpunch.org/2019/04/22/yemen-the-triumph-of-barbarism/, publicado em 2019/04/22, acedido em 2019/04/23

Tradução do inglês de MFO

 

 

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