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Jeffrey St. Clair *

Queremos saber o que acontece a qualquer momento, em qualquer lugar do planeta”, disse Lorraine Martin, vice-presidente dos Sistemas de Comando, Controle e Comunicações da Lockheed. […] No campo de batalha dos fornecedores da defesa, a Lockheed atingiu agora o domínio total do espetro.

 

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 Photo Source Charles Atkeison | CC BY 2.0

A sede da Lockheed-Martin é em Bethesda, Maryland. Não, o titã da defesa não tem uma fábrica de bombas neste elegante subúrbio de Beltway. Mas, como principal fornecedor de armas do país, migrou de DC [Whashington] para o sul da Califórnia, porque é onde está o dinheiro. E a Lockheed arrecada-o do tesouro federal à razão de US $65 milhões todos os dias do ano.

Desde mísseis nucleares a aviões de combate, a códigos de software para satélites espiões, ou ao míssil Patriot para a Guerra das Estrelas, a Lockheed passou a dominar o mercado de armas de uma forma que a Standard Oil Company costumava praticar sobre os suprimentos de petróleo do país. E tudo isto aconteceu com a ajuda do governo federal, que orientou lucrativos contratos para a Lockheed, promulgou incentivos fiscais que encorajaram o frenesim de fusões e aquisições da Lockheed, nas décadas de 1980 e 1990, e fez vista grossa aos antecedentes criminosos da companhia, indiciados com indiscrições que variam de suborno a fraude contratual.

Agora, a Lockheed atua quase sozinha. Não serve apenas como agente da política externa dos EUA, do Pentágono à CIA; também ajuda a formatá-la. “Estamos totalmente mobilizados no desenvolvimento de uma gigantesca tecnologia”, disse o novo CEO da Lockheed, Robert J. Stevens, ao repórter do New York Times, Tim Weiner. “Isso exige pensar, tanto nas dimensões políticas da segurança nacional, como nas dimensões tecnológicas”.

Como muitos executivos da indústria de defesa, Stevens é um ex-militar que ganhou dinheiro na sua carreira no Pentágono para continuar uma lucrativa posição no setor privado. O severo e tagarela Stevens serviu nos fuzileiros navais e, depois, lecionou na Faculdade de Administração de Sistemas de Defesa do Pentágono, uma instituição que oferece seminários do nível de graduação, sobre como projetar negócios de biliões de dólares em armas. Após a saída dos fuzileiros navais, Stevens aterrou primeiro na Loral, a empresa de satélites de defesa. Depois, em 1993, foi trabalhar na Lockheed, liderando o seu “Programa Corporativo de Desenvolvimento Estratégico”. Aí, Stevens elaborou o plano de como a Lockheed ultrapassaria a Boeing, a General Dynamics, a Northrop Grumman e as outras, como principal beneficiária da generosidade do Pentágono.

O plano foi muito simples e mostrou-se lucrativo. Em vez de arriscar a concorrência do mercado, a Lockheed, sob o esquema de Stevens, teria como alvo o dinheiro fácil: contratos federais. A estratégia também foi direta: inundar o congresso com dinheiro do PAC [comité de ação política] para conseguir e manter membros gratos e obedientes no poder. Aqueles amigáveis membros do congresso serão também cercados por esquadrões de lobistas para desenvolver e redigir legislação e inserir um conjunto de itens amigos da Lockheed nas infladas dotações que financiam o governo. Também pediu para semear o Pentágono e a Casa Branca com lealistas da Lockheed, muitos dos quais trabalharam anteriormente para a empresa.

 “Precisamos de ser politicamente convictos e astutos”, disse Stevens. “Precisamos de trabalhar com o congresso. Precisamos de trabalhar com o poder executivo. Precisamos de dizer: achamos que isto é viável, que isto é possível. Pensamos que inventámos uma nova abordagem”.

O esquema foi brilhante. No final da década de 1990, a Lockheed havia feito a transição de um fabricante de aviões com contratos de defesa para uma espécie de fornecedor privatizado de quase todos os esquemas de armas do Pentágono, do caça F-22 ao sistema de internet do Pentágono. Então, ocorreu o 11 de setembro e as comportas federais para os gastos na segurança nacional, na segurança aérea e na guerra abriram-se completamente e não foram fechadas. A Lockheed tem sido a principal beneficiária deste poço de dinheiro federal.

Desde setembro de 2001, o programa de aquisição de armas do Pentágono cresceu mais de US $ 20 biliões: de US $ 60 biliões para US $ 81 biliões, em 2004. As receitas da Lockheed, no mesmo período, saltaram uns 30%. E, apesar da recessão e da queda Dow [índice Dow Jones], o stock da empresa triplicou de valor.

Quase todo este lucro veio, com cortesia, do tesouro federal. Mais de 80% das receitas da Lockheed derivam diretamente de contratos com o governo federal. E a maior parte do restante vem de vendas militares ao estrangeiro: a Israel, à Arábia Saudita, à Coreia do Sul e ao Chile. Só Israel gasta US $ 1,8 bilião por ano em aviões e sistemas de mísseis comprados à Lockheed. A Lockheed vende o seu armamento, de caças F-16 a software de vigilância, a mais de 40 nações. “Estamos a olhar para a dominação mundial do mercado”, regozijou-se Bob Elrod, executivo sénior da divisão de aviões de caça da Lockheed.

E há pouco risco envolvido aqui. Quase todas estas vendas são garantidas pelo governo dos EUA.

Depois do 11 de setembro, Bush aproveitou Stevens, da Lockheed, para liderar a sua comissão presidencial sobre o futuro da indústria aeroespacial dos EUA, órgão que, não surpreendentemente, não gastou muito tempo para realçar a importância de consignar ainda mais dólares federais à defesa e ao controle de tráfego aéreo, em contratos com empresas como a Lockheed.

Mas a posição de Stevens era apenas a cereja em cima do bolo. Ex-executivos e lobistas da Lockheed trabalham todos os dias, em nome do gigante da defesa, dentro da administração e do Pentágono. No topo da lista está Steven J. Hadley, que substituiu Condoleezza Rice como Conselheira de Segurança Nacional de Bush. Antes de ingressar na administração Bush, Hadley representou a Lockheed no gigantesco escritório de advocacia da Shea and Gardner. Outros executivos da Lockheed foram nomeados para o Conselho de Política de Defesa e para o Conselho Consultivo de Segurança Interna. O Secretário dos Transportes de Bush, Norman Mineta, e Otto Reich, ex-vice-secretário de Estado do Hemisfério Ocidental, já haviam trabalhado como lobistas da Lockheed.

Além disso, a porta giratória oscila nos dois sentidos para a Lockheed. No seu Conselho de Administração está E.C. Aldridge, Jr. Antes de sair do Departamento da Defesa, Aldridge era o chefe do programa de aquisição de armas do Pentágono e assinou os contratos com a Lockheed para construir o F-22, o avião mais caro do mundo.

Quando os informadores não conseguem tudo o que é preciso, há sempre o suborno político. Nos EUA, os políticos que defendem os interesses da Lockheed abocanham distribuições anuais de cooperação, cortesia do gigantesco comité de ação política da empresa. Todos os anos, o PAC corporativo da Lockheed distribui para cima de US $ 1 milhão, principalmente para os membros dos cruciais comités de defesa e apropriação.

No estrangeiro, a Lockheed recorreu frequentemente ao suborno direto de funcionários do governo. Na década de 1970, a Lockheed distribuiu US $12,5 milhões em subornos a autoridades japonesas (e figuras do crime organizado) para garantir a venda de 21 aeronaves Tristar à Nippon Airlines. O escândalo daí resultante derrubou o Primeiro-ministro japonês Kakuei Tanaka, que foi condenado por estar no fim da linha de recebimentos de comissões da Lockheed. Apesar de o imbróglio ter conduzido à promulgação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior, em 1977, que estabeleceu penas severas para o suborno, Carl Kochian, CEO da Lockheed na época, defendeu a prática de oferecer discretos incentivos em dinheiro, como forma economicamente eficaz para assegurar contratos de biliões de dólares com a empresa. O suborno era apenas um custo para fazer grandes negócios.

E, de facto, a Lei de Práticas de Corrupção não impediu a Lockheed de distribuir incentivos financeiros a autoridades estrangeiras para acelerar as coisas. Na década de 1990, a Lockheed admitiu ter enchido os bolsos de uma autoridade egípcia com US $ 1,2 milhão para lubrificar a venda de três aviões de transporte C-130 fabricados pela Lockheed para os militares egípcios.

O velho e desajeitado Hércules C-130 continua a dar milhões à Lockheed, que vende o avião de carga à Jordânia, ao Egito e a Israel. Mas os maiores lucros continuam a ser das vendas ao Pentágono, apesar de o modelo mais recente do transporte ter sido afetado por problemas operacionais e custos excessivos. De facto, nos divertidos contratos económicos de defesa, “custos excessivos” significa apenas mais milhões em dinheiro dos contribuintes a entrarem nas contas dos próprios contratantes da defesa, que, em primeiro lugar, realizaram um trabalho extemporâneo ou de má qualidade.

Desde 1999, a Força Aérea adquiriu 50 dos novos aviões de propulsão C-130J da Lockheed. Mas nenhum desses aviões teve o desempenho suficiente para permitir que a Força Aérea os colocasse em serviço. Uma auditoria do contrato do C-130, feita pelo Inspetor Geral da Força Aérea, revelou uma série de problemas com o novo avião, que havia sido elogiado pela Lockheed e pelos compradores de armas do Pentágono.

Um dos maiores problemas com o avião é um sistema de hélice projetado de forma inepta, que impede o C-130 de voar com mau tempo. O C-130J é alimentado por seis hélices cobertas de material compósito que se degrada ou, até, se dissolve com a neve, o granizo ou mesmo a chuva forte. Ironicamente, muitos dos primeiros lotes de aviões foram entregues a uma unidade de reserva da Força Aérea, em Biloxi, Mississippi, onde era suposto funcionarem como “Caçadores de Furacões”, operando em tempestades e ventos fortes, à procura do centro da tempestade. Os aviões mostraram-se inúteis para a tarefa. Como resultado, a maioria dos C-130Js tem sido usada apenas para treino de pilotos.

 “O governo colocou em campo aeronaves C-130J que não podem executar a sua pretendida missão, o que força os responsáveis pelo seu uso a utilizarem operações adicionais e custos de manutenção para operar e manter as antigas aeronaves C-130, ainda capazes de efetuar essas missões, pois a aeronave C-130J só pode ser usada para treino”, concluiu a auditoria do IG.

No entanto, a Força Aérea pagou à Lockheed 99% do preço do contrato pelos aviões inúteis.

Este é mais um triste capítulo na história das más aquisições de sistemas de armas do Pentágono”, disse Eric Miller, Investigador de Defesa sénior do Projeto de Supervisão do Governo. “Durante anos, a Força Aérea soube que estava a pagar demasiado por uma aeronave que não faz o que era suposto fazer. No entanto, fechou os olhos a isso. As tripulações que têm de voar nestas aeronaves deverão ficar muito zangadas. Estão a ser traídas pelo próprio governo que deveria garantir que as armas que recebem são seguras e eficazes”.

Os lucros do C-130 são uma mera ninharia comparados com o que a Lockheed está a conseguir com os seus contratos para produzir os dois mais caros aviões já imaginados: o Joint Strike Fighter e o F-22 Raptor.

O Joint Strike Fighter, também conhecido como F-35, está programado para substituir o venerável F-16. Apesar de os projetos iniciais do F-35 se terem revelado deficientes (continua a haver problemas complicados ​​com o peso do avião), o Pentágono, sob pressão de membros influentes do Congresso, outorgou à Lockheed um contrato de US $ 200 biliões para construir quase 2.000 aviões ainda em imperfeitas condições de navegabilidade. A Lockheed planeia vender outros 2.500 aviões a um preço unitário de US $ 38 milhões para outros países, a começar pela Grã-Bretanha. Mais uma vez, a maioria destas vendas será garantida por empréstimos do governo dos EUA.

O contrato dos F-35 foi outorgado em 16 de outubro de 2001. Entretanto, os custos subiram US $ 45 biliões em relação à estimativa inicial, sem nenhum fim à vista.

Mas o F-22 Raptor está numa classe à parte. Com um preço unitário de mais de US $ 300 milhões por avião, o Raptor é o caça mais caro já projetado. Um funcionário do Congresso apelidou-o de “Tiffany's on wings” [asas de gaze]. Concebido na década de 1980 para penetrar em profundidade no espaço aéreo da União Soviética, o F-22 não tem qualquer função nos dias de hoje, exceto manter uma lista de fornecedores da defesa com um negócio – desde a Lockheed, que dirige o projeto, até à Boeing, que projetou as asas e à Pratt-Whitney, que projetou os enormes motores a jato.

O F-22 deveria estar operacional há uma década. Mas a última encarnação do avião continua a apresentar sérios problemas nos testes. O seu sistema de computador de bordo está atolado em falhas técnicas e as suas características furtivas não impediram que o avião aparecesse “como um grande morango” no radar. Pior ainda, vários pilotos de teste ficaram com tonturas, a ponto de quase desmaiar, enquanto tentavam colocar o caça em manobras evasivas, em altas altitudes.

Mesmo assim, o malfadado projeto avança, consumindo milhões em cada semana, e ninguém com o poder de fazê-lo parece mostrar a menor inclinação para lhe pôr fim.

* * *

Por um lado, a Lockheed arrecada anualmente US $ 228 em dinheiro dos impostos federais de cada domicílio dos EUA. Mas quando chega a hora de pagar impostos, a Lockheed argumenta com a sua pobreza. Aproveitando as possibilidades legais de um conjunto de projetistas, a legião de contabilistas da Lockheed reduziu o passivo fiscal anual da empresa a uns meros 7% do seu lucro líquido. Compare-se com a taxa individual média de impostos federais nos EUA, que é de cerca de 25%.

Claro que este tipo especial de dispensa de impostos não é barata. A Lockheed gasta mais dinheiro a fazer lóbi no Congresso do que qualquer outro fornecedor da defesa. Em 2004, um ano marcante para a empresa, gastou quase US $ 10 milhões em mais de 100 lobistas para rondarem os corredores do Congresso, ficando de olho sobre as contas de dotações, supervisão de audiências e comités de impostos. Nos últimos cinco anos, apenas a Philip Morris e a GE gastaram mais dinheiro a fazer lóbi no Congresso.

Com a Lockheed, às vezes é difícil discernir se se está a adiantar à política externa dos EUA ou a moldar-se-lhe. Tomemos a guerra do Iraque. O ex-vice-presidente da Lockheed, Bruce Jackson, liderou um grupo ad hoc chamado Comité para a Libertação do Iraque. Este conciliábulo de executivos de empresas, gurus de grupos de reflexão e generais aposentados incluía luminárias guerreiras como Richard Perle, Jeane Kirkpatrick, Gen. Wayne Downing e o ex-diretor da CIA James Woolsey. O Washington Post informou que o objetivo deste grupo era o de “promover a paz regional, a liberdade política e a segurança internacional através da substituição do regime de Saddam Hussein por um governo democrático que respeitasse os direitos do povo iraquiano e deixe de ameaçar a comunidade das nações”.

Este corpo supostamente independente parece ter recebido as suas ordens de marcha de dentro da Casa Branca de Bush. Jackson e outros encontraram-se repetidamente com Karl Rove e Steven Hadley, número dois de Condoleezza Rice, no Conselho de Segurança Nacional e um ex-lobista da Lockheed. O grupo conseguiu, finalmente, ter um encontro cara a cara com o Lorde das Trevas em pessoa, Dick Cheney. Depois de se encontrarem com os funcionários da Casa Branca, os membros do Comité iriam dispersar-se pelos noticiários e shows por cabo e falar na rádio para inflamar a febre da guerra contra Saddam.

Há muito tempo que Jackson tem laços estreitos com o círculo íntimo de Bush. Em 2000, presidiu ao comité/plataforma do Partido Republicano sobre Segurança Nacional e Política Externa e serviu como um conselheiro de topo da campanha de Bush. Naturalmente, a declaração da plataforma acabou a ler como catálogo os sistemas de armas da Lockheed. No topo da lista, a plataforma RNC [Comité Nacional Republicano] prometeu revitalizar e tornar operacional o programa de Defesa contra Mísseis, no valor de US $ 80 biliões, supervisionado pela Lockheed.

Em 2002, a administração Bush apelou a Jackson para ajudar a angariar apoio na Europa Oriental à guerra no Iraque. Quando a Polónia e a Hungria concordaram, Jackson redigiu então a sua carta a apoiar uma invasão do Iraque. A sua empresa foi rapidamente recompensada pelos seus esforços. Em 2003, a Polónia comprou 50 dos caças F-16 da Lockheed por US $ 3,5 biliões. A venda foi garantida por um empréstimo de US $ 3,8 biliões da administração Bush.

A Lockheed também se aproveitou muito bem da própria guerra no Iraque. Os seus caças Stealth F-117 inauguraram o início da guerra com o “Shock and Awe” [Choque e Medo] a bombardear Bagdad. Mais tarde, o Pentágono reforçou as ordens para o uso do míssil PAC 3 Patriot da Lockheed. As baterias de mísseis, projetadas para serem usadas contra mísseis SCUD, que o Iraque já não possuía, são vendidas por US $ 91 milhões por unidade.

Após da queda de Saddam, os executivos da Lockheed viram uma oportunidade de engolir um dos grandes fornecedores privados que fazia negócios no Iraque, a Titan Corporation. A empresa sediada em San Diego foi premiada com um contrato de US $ 10 milhões, para fornecer tradutores para o Pentágono no Iraque. Dois desses tradutores, Adel Nakhl e John Israel, foram posteriormente acusados ​​de estarem envolvidos na tortura de prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib. Os tradutores da Titan, que receberam mais de US $ 107 mil por ano, também estiveram implicados num escândalo na prisão de Guantánamo.

Como a Lockheed, após o 11 de setembro, a Titan livrou-se de quase todas as suas operações comerciais e começou a concentrar-se totalmente no trabalho com o governo. Em 2003, 99% do seu US $ 1,8 bilião de receita da empresa foram cortesia de contratos governamentais. A firma também avançou numa onda de compras de outras empresas de fornecimentos de defesa mais pequenas. Desde 2001, a Titan engoliu dez outras companhias relacionadas com a defesa. A aquisição mais lucrativa provou ser a da BMG, Inc., uma empresa baseada em Reston, Virgínia, especializada em recolha de  informações e análises para o Pentágono e a CIA. Só a BMG realizou contratos com o Pentágono no valor de US $ 650 milhões.

Os escândalos sobre abusos não impediram a Lockheed de perseguir a Titan. De facto, Christopher Kubasik, diretor financeiro da Lockheed, disse ao Los Angeles Times que as alegações de tortura “não foram significativas para a nossa decisão estratégica”.

A fusão foi depois adiada por outras razões pelo Departamento de Justiça, que estava a investigar alegações de que executivos e subsidiárias da Titan pagaram subornos a funcionários do governo em África, Ásia e Europa, para ganharem contratos – um método de fazer negócios que os executivos da Lockheed devem ter admirado.

A Titan, que foi criada no meio da formulação de defesa de Reagan, no início dos anos 80, via-se a si própria como um novo tipo de empresa fornecedora, uma empresa de armas que não fabricava armas. Em vez de construir mísseis ou aviões, a Titan concentrava-se no desenvolvimento de pacotes de software e comunicação para os programas do Pentágono. O seu primeiro e grande contrato foi para o desenvolvimento de um pacote de comunicações para o sistema de orientação dos mísseis Minuteman. Desde então, a Titan tornou-se um importante agente no lucrativo mercado da tecnologia da informação.

Nos últimos anos, a Lockheed começou a perseguir agressivamente os mesmos tipos de programas de “defesa suave”. Na década passada, as vendas de Tecnologia de Informação da Lockheed aumentaram mais de quatrocentos por cento. A mina de ouro começou durante a administração Clinton, quando o esquema de “reinvenção do governo”, de Al Gore, leiloou a maior parte das tarefas de gestão de dados, que assim passaram do governo federal para o setor privado. Agora, quase 90% da tecnologia de informação do governo federal foi privatizada, a maior parte dela para a Lockheed, que é, não só o principal vendedor de armas do país, mas também o seu principal fornecedor de gestão de dados.

Isto abriu vastos e novos terrenos do governo para a Lockheed conquistar. Agora, desfruta de contratos com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, Departamento de Energia e EPA [Environmental Protection Agency – Agência de Proteção do Ambiente]. A Lockheed também manobrou um contrato de US $ 550 milhões, para dominar o banco de dados da Segurança Social pública. A privatização da Segurança Social já começou.

Mas, mesmo no setor das TI, as quantias chorudas fazem-se nos florescentes  negócios da vigilância e da Segurança Interna. Agora, a Lockheed administra o arcaico sistema de computadores do FBI, que mereceu alguma atenção por deixar os sequestradores do 11 de setembro escaparem pela rede sem serem detetados. Também ganhou o contrato de US $ 90 milhões para administrar a rede ultrassecreta de computadores do Departamento de Segurança Interna, um sistema que é suposto funcionar como uma espécie de “rede profunda”, ligando os sistemas do FBI, CIA e Pentágono.

Tudo isto é um precursor de planos ainda maiores criados pela Lockheed e os seus amigos no Pentágono para desenvolver um sistema de espionagem universal chamado Global Information Grid [Rede de Informação Global], um sistema de internet que tenciona alimentar informações de rastreamento em tempo real sobre suspeitos de terrorismo, diretamente para sistemas automatizados de armas, fabricados, naturalmente, pela Lockheed.

Queremos saber o que acontece a qualquer momento, em qualquer lugar do planeta”, disse Lorraine Martin, vice-presidente dos Sistemas de Comando, Controle e Comunicações da Lockheed. E eliminá-los, naturalmente.

No campo de batalha dos fornecedores da defesa, a Lockheed atingiu agora o domínio total do espetro.

 

{ Isto é adaptado de um capítulo de Grand Theft Pentagon [Grande Roubo do Pentágono] }.

 

Notas

[1] jogo de palavras com o nome da empresa, Lockheed, e o significado dos termos que o compõem (lock: encerrar, guardar, trancar, bloquear; heed: cuidado, atenção) e com Loaded (carregado, endinheirado). Literalmente, pode traduzir-se por “guardado com cuidado e endinheirado). – NE

 

* Jeffrey St. Clair é editor do CounterPunch. O seu  novo livro é Bernie and the Sandernistas: Field Notes From a Failed Revolution [Bernie e os Sandernistas: Anotações sobre uma Revolução Falhada]. Acesso através de: sitka@comcast.net ou no Twitter  @JSCCounterPunch.

 

Fonte: https://www.counterpunch.org/2018/10/18/lockheed-and-loaded-how-the-maker-of-junk-fighters-like-the-f-22-and-f-35-came-to-have-full-spectrum-dominance-over-the-defense-industry/, publicado em 2018/10/18, acedido em 2018/10/19

 

 

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