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JBC, para www.initiative-communiste.fr

…os trabalhadores poderão constatar que estes multimilionários, estas multinacionais que fingem não ter um único euro para aumentar os salários, ou para fazer face às suas responsabilidades ambientais, souberam encontrar com um estalar de dedos centenas de milhões de euros... […] O cúmulo do cinismo e da hipocrisia é que os multimilionários que anunciam vir a desembolsar centenas de milhões de euros, na realidade vão buscar a maior parte destas somas … ao vosso bolso. De facto, essas doações fazem parte das isenções fiscais do mecenato, que dá direito a  60% de isenção. É, portanto, a comunidade pública que assumirá a maior parte …

 

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Ainda não se tinham extinguido as  cinzas fumegantes da catedral de Notre Dame de Paris já os abutres capitalistas cheiravam o golpe. O golpe financeiro, o golpe publicitário, o golpe fiscal e o golpe político. Foi assim que os multimilionários e as suas multinacionais, desejosas de fugir aos impostos, anunciaram que iam dar uma esmola de algumas migalhas das suas consideráveis fortunas acumuladas com o suor dos trabalhadores. 10 milhões dos Bouygues, 100 milhões dos  Pinault, 200 milhões  da  LVMH [Louis Vuitton e Möet Hennessy] e a família Lagardère…  a Total e a Apple e Cia seguiram a onda. Uma oportunidade política evidente para voltar a fazer brilhar a imagem destas multinacionais, que as pessoas já perceberam muito bem quanto lhes custa!

E também uma forma de apagar a imagem da catedral fumegante que atravessou os séculos; mas é também a do falhanço de um regime capitalista, lançado na fuga para a frente, à procura do lucro e incapaz de manter o património, apesar dos formidáveis progressos técnicos.

E pode notar-se ainda que o apelo a uma subscrição lançada por Macron é um novo  golpe fumegante do ex-banqueiro locatário do Eliseu, que pretende fazer pagar a fatura da catástrofe aos trabalhadores do país e não aos seus amigos ricos. Sim, a catedral deverá ser reparada, o património restaurado e preservado. Mas não há nenhuma razão para que sejam os trabalhadores sempre a pagar.

O  grande golpe publicitário e o grande golpe financeiro!

Com estes anúncios, os multimilionários aproveitam o aturdimento perante uma catástrofe que emociona a opinião pública para aparecerem como benfeitores da sociedade.

Sem vergonha, tirando partido da otimização fiscal, de benefícios fiscais, de montagens financeiras e com a ajuda dos seus representantes políticos de quem Macron é apenas o último avatar, estes últimos não querem outra coisa senão pagar o menos possível de impostos. A perda fiscal é de várias dezenas de milhões de euros, sem dúvida mais de 100 mil milhões por ano para as cofres do Estado. E, por fim, para os serviços públicos, entre os quais os bombeiros e o socorro, que nos últimos anos pagaram um pesado tributo ao dogma da “redução da despesa pública” imposta pela União Europeia.

E além disso, estes “donativos” permitem um golpe publicitário a bom preço, mais rápido e mais barato do que o equivalente em anúncios e páginas publicitárias. Um donativo rentável e que o será mais ainda na medida em que os mecenas não vão  deixar de aproveitar para apor as suas marcas em cima do monumento mais visitado da Europa.

E o golpe será também, sem dúvida, financeiro. Porque os grupos de luxo e da construção não vão desaproveitar a ocasião para identificar o que é o apetitoso negócio de várias centenas de milhões, senão mesmo milhares de milhões de euros, que será a reconstrução da catedral. Na condição de começar a fazer funcionar a bomba para drenar, com uma subscrição, o dinheiro do zé-povinho que virá depois fornecer os mercados. Quando Bouygues anuncia contribuir com 10 milhões de euros, quanto é que a multinacional espera vir a ganhar nas obras da catedral?          

Em todo o caso, os trabalhadores poderão constatar que estes multimilionários, estas multinacionais que fingem não ter um único euro para aumentar os salários, ou para fazer face às suas responsabilidades ambientais, souberam encontrar com um estalar de dedos centenas de milhões de euros...

O grande golpe fiscal: são vocês que vão pagar das centenas de milhões “oferecidas” pelos multimilionários!

O cúmulo do cinismo e da hipocrisia é que os multimilionários que anunciam vir a desembolsar centenas de milhões de euros, na realidade vão buscar a maior parte destas somas … ao vosso bolso.

De facto, essas doações fazem parte das isenções fiscais do mecenato, que dá direito a  60% de isenção. É, portanto, a comunidade pública que assumirá a maior parte do essencial da defesa. Se Lagardère e Arnault anunciaram pagar 300 milhões de euros, na realidade pagarão apenas 120, pois os 180 restantes serão pagos pelos impostos dos franceses!

E poderia ser muito mais. O ex-ministro da Cultura de Rafarin, JJ. Aillagon, que entretanto se tornou diretor-geral da coleção Pinault, pediu,  ainda o  fogo não estava extinto, que o Estado decretasse a catedral de Notre Dame de Paris como “tesouro nacional. O que permitiria uma dedução fiscal de 90% . O golpe publicitário, o golpe financeiro e o golpe fiscal seriam então monumentais!

Claramente, se isso se confirmar, dos 300 milhões “doados” pelos dois multimilionários, é no vosso bolso que  vêm à procura de 270 milhões, não pagando eles mais de 30 milhões de euros. Menos de 1% do orçamento anual dos quase 5 mil milhões de publicidade gastos pela Louis Vuitton e Möet Hannessy!

Na realidade, se realmente queremos fazer com que os multimilionários contribuam, não é de donativos que a França precisa, mas de começar a fazê-los pagar impostos. Atualmente, os  benefícios fiscais do mecenato custam ao Estado mais de 900 milhões de euros por ano. Um número multiplicado por 10 em 15 anos.

No momento em que o Eliseu, atrasando os seus anúncios de fazer os franceses trabalharem mais para ganharem menos (aumento no tempo de trabalho,  aumento da idade de reforma...), corre para definir, no dia após o desastre, o regime tributário da subscrição nacional, a primeira  mobilização popular útil deve ser, sem dúvida,  reivindicar que sejam principalmente os multimilionários a pagar. Não os trabalhadores. É por demais sabido que os abutres procuram imediatamente tirar proveito das  catástrofes, é urgente desconfiar deles.

 

Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/culture-debats/notre-dame-de-paris-les-milliardaires-font-des-dons-avec-votre-argent/, acedido em 2019/04/23.

 

Tradução do francês de TAM

 

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