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Catarina Casanova e Gil Santos *

Interpretando os eurocomunistas de Champigny a “democracia avançada” não é mais do que uma reforma do próprio capitalismo, uma vez que o domínio político da burguesia continua. Como é que pode haver domínio político do proletariado num Estado controlado pela burguesia? O Manifesto de Champigny é mudo sobre esse assunto.

 

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(Comunicação oral apresentada no III Congresso Internacional MARX EM MAIO, 3-5 Maio 2018)

 

A noção de Estado em geral, e do Estado capitalista em particular são fundamentais para o Marxismo, pela simples razão de que, para Marx, a transição para o socialismo implica a conquista do poder político real do Estado pelo proletariado, bem como a posterior destruição do aparelho do Estado capitalista. Isto significa que as formas como se equacionam a transição para o socialismo dependem necessariamente – muito embora, não apenas – da forma como entendemos ser a natureza e o funcionamento do Estado capitalista, bem como das formas de o conquistar. É esta relação Estado/transição que aqui iremos abordar, de uma forma necessariamente breve e esquemática, incidindo a nossa atenção numa análise comparativa entre Marx e os Eurocomunismos.

  1. Ao contrário do que frequentemente se tende a fazer crer, Marx não promoveu uma perspectiva essencialmente instrumental ou economicamente reducionista do Estado. Nem a política do Estado se deixa reduzir a factores estritamente económicos, nem o Estado é concebível como um mero instrumento, em si mesmo neutro, e por conseguinte pronto a ser usado por qualquer classe para os seus fins próprios. Para Marx, os domínios do político, do jurídico, bem como das formas de consciência, não se fundam em si mesmos como realidades autónomas, mas são antes produzidos a partir de organizações específicas de relações sociais de produção e das organizações económicas que lhe estão associadas. Como escreve Marx,

“a totalidade d[as] relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social” (Marx, 1859).

 

Por isso é que no Livro III do Capital, Marx afirmou que

 

“é sempre na relação directa dos proprietários das condições de produção com os produtores directos (...) que se revela o segredo mais íntimo e o fundamento oculto da estrutura social como um todo e, com esta, da forma política da relação de soberania e dependência, em suma, da forma específica correspondente do Estado” (Marx, 1863-1883).

 

Neste sentido, é uma concepção relacional-estrutural do Estado, concebido como supra-estrutura política relativamente à infra-estrutura sócio-económica, que explica o facto do Estado ser utilizável como uma forma de organização política, cuja função consiste em regular e gerir a organização dessa mesma infra-estrutura social e económica. A dimensão instrumental ou funcional do Estado explica-se, assim, pela estrutura relacional da sociedade humana, tomada como um todo.

Ora, como a estrutura sócio-económica é atravessada por um sistema de relações contraditórias entre classes antagónicas, e tais relações manifestam-se em lutas sociais com alcance político, o próprio Estado não está imune, mas antes é directamente influenciado e alterado pela dinâmica dessas mesmas lutas sociais em maior ou menor grau, dependendo das circunstâncias históricas e da correlação das forças conflituosas em cada momento. Assim se compreende que, por vezes, seja necessário fazer concessões às classes dominadas para garantir a estabilidade e a persistência do sistema – concessões, essas, que representam, muitas vezes, melhorias na qualidade de vida, podendo mesmo consubstanciar conquistas de direitos fundamentais para as classes dominadas. Pense-se, por exemplo, no estabelecimento das democracias representativas pluripartidárias ou no sufrágio universal. Neste sentido estrito, não há monopólio ou exclusividade legal do poder político para a classe economicamente dominante – esta tem de competir pelo poder político com os membros e representantes das classes economicamente subordinadas.

Outros exemplos, no passado mais remoto, podem ser recordados, como a abolição do censo eleitoral que Marx observou em A Questão Judaica (1844), a respeito de vários Estados da América do Norte (que representou a abolição política da propriedade privada nesse domínio), ou o processo de laicização do Estado. Porém, isto em nada alterou, do ponto de vista estrutural, a organização sócio-económica da sociedade. A própria anulação política dessas realidades pressupõe a existência e a persistência social dessas realidades. Como recorda Marx, a propriedade privada, a divisão de classes e as religiões continuam a imperar na sociedade [1].

Essas reformas são, na verdade, possíveis, justamente porque apesar de importantes, apenas incidem sobre a periferia dos modos de ser do sistema capitalista, nunca atingindo-o na sua estrutura socioeconómica nuclear.

Acresce ainda que, como estas mudanças políticas são concessões mais ou menos contextuais, derivadas da dinâmica das lutas sociais, muitas delas, se não todas, são susceptíveis de ser revertidas, assim que os contextos específicos o permitirem ou exigirem. Segue-se que a conclusão fundamental é que o espaço possível de qualquer reforma susceptível de ser alcançada pelas lutas sociais e políticas, no quadro do sistema capitalista e do controle do poder do Estado pela burguesia, encontra-se sempre limitado às condições estruturais de persistência do próprio modo de produção capitalista.

O Estado é uma construção histórica inerente à própria existência de sociedades de classes, nascendo assim da necessidade geral de uma qualquer sociedade divida em classes de regular as forças antagónicas que a estruturam. Porém, a cada formação sócio-económica dominada por uma classe especifica corresponde um Estado também ele específico. Por isso é que Marx retirou da experiência da Comuna de Paris a lição de que cada classe tem de reconstruir o Estado que encontra já formado em cada período histórico – com os seus órgãos, instituições e funções específicas –, de maneira a poder realizar os seus objectivos próprios. Como escreveu Marx, em A Guerra Civil em França, “a classe operária não pode apossar-se simplesmente da maquinaria de Estado já pronta e fazê-la funcionar para os seus próprios objectivos” (Marx, 1871). O Estado burguês deve ser quebrado e substituído por um Estado do tipo da Comuna de Paris. Em suma, o proletariado tem de destruir revolucionariamente a máquina do Estado capitalista para que, assim que o Estado passe a ser integralmente controlado pelos trabalhadores – é “o período político de transição” (Marx, 1875) que corresponde à “ditadura temporária da classe oprimida” [Lenine (2011) [1917]: 71] –, possa então ser abolida a apropriação privada dos meios de produção e, por essa via, possam as classes sociais ser eliminadas e o Estado, enquanto tal, por fim extinguir-se. Marx e Engels defenderam claramente este projecto, como Lenine viria a recordá-lo mais tarde, em O Estado e a Revolução (1917) [2].

  1. A partir dos anos 70 do século XX surgiriam, porém, novas formas de pensar o Estado e as lutas de classes, bem como a forma de equacionar a transição para o socialismo. No seio do pensamento marxista e em muitos partidos comunistas europeus estas perspectivas tiveram consequências directas para a formulação das próprias tácticas e estratégias comunistas. Nicos Poulantzas foi um dos principais teóricos deste novo impulso, distinguindo entre um Eurocomunismo de direita e um Eurocomunismo de esquerda.

Para Poulantzas – tal como já antes para Gramsci e Althusser –, a esfera do Estado não se circunscreve ao limite físico dos aparelhos que desempenham as suas clássicas funções legislativas, executivas, judiciais e repressivas. Para Poulantzas, o Estado compreende também, não apenas aparelhos com uma função predominantemente ideológica (por ex.: a escola, a imprensa, a igreja, os partidos políticos e os sindicatos não-revolucionários), mas também a função, mais positiva, de “produção do substrato material do consenso das massas para com o poder” (Poulantzas, 1978: 27-32).

O que Poulantzas extrai deste alargamento e reformulação da natureza do Estado é que este está já e sempre presente na constituição da chamada sociedade civil, i.e., na constituição das relações sociais de produção, e não apenas na sua reprodução (como sustentava Althusser). Nesta óptica, o Estado não pode ser mais concebido como uma instituição que existe fora ou acima da sociedade civil, podendo assim ser assaltado a partir do seu exterior, como um ‘Castelo’ (Poulantzas, 1978: 248). O Estado é uma estrutura disseminada em todas as áreas da vida social, e por isso também ela constituída pelos conflitos de classes. Daí, a definição de Estado como uma forma específica de “condensação material da relação de forças entre classes e fracções de classe” (Poulantzas, 1978: 122-123). Em suma: para Poulantzas, a luta de classes e a luta ideológica pela hegemonia faz-se já no interior do próprio Estado, e é nessa esfera que a luta dos comunistas deve poder ser mais desenvolvida e aprofundada.

Quão realista é, porém, esta perspectiva? Curiosamente, foi na entrevista (conduzida por Henri Weber, em 1977) em que Poulantzas apresenta, pela primeira vez, as linhas gerais desta nova concepção do Estado e da transição para o socialismo, que a sua argumentação mais bem foi testada e, a nosso ver, revelada na sua fragilidade.

Com efeito, contrapõe Weber: hoje é moda dizer-se, como o PCI, que o Estado tem uma natureza heterogénea e contraditória, mas para Marx ou Lenine, o ponto é que “as classes sociais não ocupam, nem podem ocupar, posições equivalentes dentro do Estado. As classes dominantes controlam as posições estratégicas do Estado. Elas têm nas suas mãos o poder real” (Poulantzas, 2008 [1977]: 336). Ou seja, as classes exploradas apenas podem ocupar posições inferiores no seio do Estado, ou estarem ainda representadas num parlamento, mas de que servirá isso no que toca ao fundamental? Weber insiste:

“O Estado que, nas suas palavras, é ‘dividido por contradições internas’ e se constitui como um ‘terreno de lutas de classes’, continua a ter o seu poder nas mãos da burguesia. Portanto, permanece a questão chave de qualquer transição para o socialismo: como é que devemos lidar com o Estado, como destruí-lo?” Ora, “o seu constante ênfase no carácter contraditório do Estado moderno não tem tido o efeito (...) de ofuscar a sua natureza de classe e de obscurecer o problema chave de qualquer estratégia para uma transição para o socialismo?” (Poulantzas, 2008 [1977]: 336).

Ora, Poulantzas concorda com a primeira observação de Weber. Com efeito, dentro do Estado capitalista, as massas estão condenadas a não poder actuar senão como meios de resistência, elementos corrosivos, acentuando as contradições internas do Estado (Poulantzas, 2008 [1977]: 337). Isto poderia ser visto como um recuo; todavia, será a partir desta constatação que Poulantzas justificará uma perspectiva que diz escapar ao falso dilema entre

1) conceber o Estado como um bloco monolítico, não havendo neste caso outra possibilidade se não assaltar revolucionariamente o Estado pelo lado de fora; e

2) defender que a luta essencial tem de ser toda feita dentro do Estado e das suas instituições, caindo, por essa via, na concepção social-democrata da luta contida nos limites do aparelho do Estado – i.e., caindo naquilo a que Poulantzas chamaria o Eurocomunismo de direita, ou seja, na reabilitação da social-democracia alemã dos anos 20-30 e da ‘estratégia de atrito’ de Kautsky (Poulantzas, 1979: 196; Mandel, 1978: 161-194).

Para Poulantzas existe uma via alternativa, e esta só poderá passar pela coordenação entre:

1) uma luta dentro do “terreno estratégico constituído pelo Estado” – uma “luta de resistência, desenhada para acentuar as contradições internas do Estado, para levar a cabo uma transformação profunda deste” (desta luta podendo até resultar uma divisão interna das forças armadas, tal como ocorreu na revolução portuguesa de Abril de 1974 (pese embora fracassada, diz Poulantzas); e

2) “uma luta paralela” fora do Estado, criando-se, para o efeito, “uma série de instrumentos, meios de coordenação, órgãos de poder popular, [e] estruturas de democracia directa”, implicando assim “uma enorme mobilização das massas populares”, e evitando-se desta forma a atitude capitulante do compromisso histórico do PCI (Poulantzas, 2008 [1977]: 337-338).

Muito embora Poulantzas reconheça que uma tal estratégia corre “maiores riscos” de “social-democratização” do que a clássica estratégia do duplo poder, ela não é, nem pode ser, uma mera “via parlamentar ou eleitoral” para realizar uma série de reformas sucessivas numa progressividade contínua, com base na conquista peça a peça da máquina estatal ou na simples ocupação de postos e cúpulas governamentais”. Esta via democrática de transição tem de consistir num “movimento de rupturas efectivas, cujo ponto culminante, e existirá forçosamente um, reside na inclinação da relação de forças a favor das massas populares no terreno estratégico do Estado”. Essa viragem não vai ser “uma guerra civil”, mas será “uma crise profunda do Estado, com uma mudança na correlação de forças dentro do próprio Estado” (Poulantzas, 2008 [1977]: 341-343).

A esta luz compreende-se que Poulantzas tenha acolhido a defesa de convergências e alianças interclassistas – sob a forma de Frentes Populares e de acordos governativos com partidos burgueses –, tais como elas foram projectados por Dimitrov e aprovadas no VII e último Congresso da III Internacional (Poulantzas 1979: 194-195). Mas, claro, tais alianças só serão possíveis, sublinha Poulantzas, se os próprios Partidos Comunistas também mudarem. Por exemplo:

“É muito claro que enquanto estivermos a trabalhar com a concepção da ‘ditadura do proletariado’ nunca conseguiremos estabelecer uma aliança duradoura com um parceiro que sabe que vai ser eliminado durante a transição para o socialismo” (Poulantzas, 1979:195).

Só se pode elogiar a desarmante franqueza. Poulantzas faz, porém, questão de sublinhar a necessidade de uma “ruptura decisiva” – se bem que a realizar no seio do próprio Estado – para distinguir esta via da via irmã tomada pelo Eurocomunismo de direita (representado por figuras como Carrillo, Berlinguer, Marchais ou Elleinstein), onde todo o discurso se espraia na esperança de uma transformação “gradual, pacífica, legal e progressista” do Estado capitalista (Poulantzas, 1979: 196), susceptível de se metamorfosear em “um tudo nada burguês e um tudo nada operário”, como comida que fosse “um pouco carne e um pouco peixe”, na feliz expressão de Ernest Mandel (1978: 248).

Em suma, afirma Poulantzas, o Eurocomunismo de direita tende a encarar os aparelhos do Estado como mais ou menos neutros, adaptáveis e reformáveis no curso do tempo (Poulantzas, 1979: 196), ou seja, naquilo que Thiry caracterizou como um verdadeiro processo de

“multiplicação programática das etapas – a democracia avançada do PCF, concebida como ‘transição para a transição’ (Claudín) – que renova (...) os pressupostos do socialismo utópico, relegando o comunismo para uma insondável Idade do Ouro” (Thiry, 1998: 1174).

  1. Uma tal atitude é bem visível no paradigmático Manifesto de Champigny. Com efeito, em Dezembro de 1968, na cidade de Champigny, o PCF oficializa o programa intitulado Manifesto do PCF: Por uma Democracia Avançada, por uma França Socialista (PCF, 1968) que vê o socialismo com um sistema naturalmente decorrente da democracia burguesa, fruto de sucessivas e contínuas reformas.

Neste manifesto que tomou o nome da cidade onde foi apresentado, a concepção de “Estado” está intimamente ligada ao conceito de “democracia” mas no fundamental ignorando a natureza de classe de cada um destes conceitos e portanto estando ausente a análise marxista de Estado, de classes e de democracia. É descrito uma espécie de contínuo entre dois tipos de sistema (capitalista e socialista): de reforma em reforma, sempre que a correlação de forças for favorável ao trabalho, os trabalhadores e a classe operária vão avançando rumo ao socialismo e assim o Estado burguês transformar-se-á num Estado socialista. Para isso serão organizadas “acções de massas” que vão “limitar progressiva e sistematicamente as empresas monopolistas na economia nacional”, “enfraquecer o capitalismo monopolista de Estado nos seus meios económicos e financeiros” e os monopólios vão ser obrigados a “ceder as suas posições” – não contrariando a vontade popular – abrindo-se assim a “via do socialismo” dentro do quadro legal. Pacificamente e sem ruptura revolucionária, o capitalismo transformar-se-ia em socialismo pela “acção de massas” dos “partidos democráticos”. Defende o Manifesto que “isolando a grande burguesia, apoiando-se na colaboração política dos partidos democráticos” os trabalhadores chegarão ao sistema socialista (PCF, 1968).

O texto leva-nos a concluir que a natureza de classe das estruturas políticas que asseguram o domínio dos interesses do capital passará gradual e progressivamente a assegurar o domínio da classe operária e dos trabalhadores. Ou seja, sendo o Estado inicialmente burguês e estando portanto nas mãos da burguesia passará a ser proletário por via das “acções de massas” que irão “limitar cada vez mais as empresas monopolistas”. Tudo ocorre dentro de um quadro legal-burguês, que, assume-se, também se transformará progressiva e gradualmente num quadro legal-proletário em função da limitação progressiva de grandes empresas e monopólios.

De acordo com o este Manifesto, a democracia avançada ou uma “política avançada no plano das instituições” e no “plano de desenvolvimento económico e social” da França, deixa-se caracterizar por um conjunto de medidas, dentre as quais destacamos estas:

1) “nacionalização dos grandes bancos e dos ramos monopolistas da indústria”;

2) uma “política coerente de investimentos” que ajuda a “reforçar o poder de decisão da massa dos cidadãos”;

3) uma “reforma democrática da fiscalidade, aumentando os encargos das empresas capitalistas e dos privilegiados pela sorte”;

4) “profundas mudanças no regime político” com a assembleia nacional a ter um “poder real de fazer as leis e de controlar o governo”;

5) uma “sã estabilidade governamental será garantida pela realização de uma política susceptível de ter o apoio das massas”;

6) tal “política comum consubstanciará um contrato que obriga todos os partidos democráticos” (PCF, 1968).

Tais apreciações parecem portanto implicar uma vitória eleitoral e o exercício do poder através de um Estado burguês que, ao que parece, se haveria de metamorfosear em Estado socialista no dia em que um governo dos trabalhadores o dirigisse. Ora, importa referir que a história do século XX mostra-nos bem que este tipo de conjecturas só têm gerado ilusões e frustrações. A história tem dado razão a Marx, e à sua Crítica do Programa de Gotha (1875), e não ao Manifesto de Champigny.

O texto eurocomunista refere que o Estado socialista pode ser atingido através da aliança da classe operária com “outras camadas sociais” e que é “através de múltiplas acções de massas da classe operária e das mais largas camadas populares que a relação de forças sociais e políticas poderá́ ser modificada a favor da democracia e do socialismo” (PCF, 1968). O Manifesto de Champigny sustenta este edifício teórico na tese de que:

1) a democracia é um valor universal (ao invés da perspectiva marxista, segundo a qual a natureza e o alcance de qualquer democracia dependem sempre da natureza e dos objetivos da classe que a dirige – ou seja, antes da criação de uma sociedade sem classes, qualquer democracia é sempre, e em última instância, uma forma de dominação política de uma classe sobre as outras); e

2) o Estado não tem uma natureza de classe (não reflete a natureza de quem o detém, tal como é defendido na análise marxista).

Este texto repete até à exaustão a importância da aliança da classe operária com “outras camadas” para que possa ser atingido o socialismo.

Mas de que camadas falam os eurocomunistas? O que podemos esperar da pequena ou média burguesia, senão a recapitulação da lição que Marx retirou do desfecho das lutas de classes em França e na Alemanha em 1850? As únicas camadas que importa aliar na luta para o socialismo são as camadas proletárias – i.e., o operariado industrial, os assalariados agrícolas, bem como todas as camadas sociais, incluindo as da chamada classe média, que partilham entre si esta característica comum: serem obrigadas a vender a sua força de trabalho, por não possuírem meios de produção ou recursos financeiros próprios (heranças, por ex.) para garantir a sua subsistência.

O socialismo, sendo a última forma económico-social classista imediatamente antes do comunismo, para que possa vingar, terá que esmagar a burguesia e acabar com as relações de produção capitalistas. Para que isso seja possível, os proletários terão de tomar o poder real do Estado nas suas mãos (é o que se chama ‘ditadura do proletariado’).

O socialismo pode ter recuos, mas falar de “fases” ou “etapas” fora de contextos históricos reais específicos (que têm que ser caracterizados) não passa de um exercício de mera ficção e adivinhação (porque historicamente infundado). Interpretando os eurocomunistas de Champigny a “democracia avançada” não é mais do que uma reforma do próprio capitalismo, uma vez que o domínio político da burguesia continua. Como é que pode haver domínio político do proletariado num Estado controlado pela burguesia? O Manifesto de Champigny é mudo sobre esse assunto.

Sendo óbvio, nunca é demais salientar que a diferença entre capitalismo e socialismo é radical e qualitativamente distinta, tal como definida por Marx (1875) e Lenine (1917): o socialismo implica nada menos do que a apropriação do poder do Estado por parte dos trabalhadores e a subsequente eliminação da posse privada dos meios de produção pela burguesia – algo não aceite pelos eurocomunistas que defendem a existência de propriedade privada seja pelo fruto do trabalho ou por via hereditária.

Em suma, como Marx e Engels escreveram na Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas, em Março de 1850:

“Para nós não pode tratar-se da transformação da propriedade privada, mas apenas do seu aniquilamento, não pode tratar-se de encobrir oposições de classes mas de suprimir as classes, nem de aperfeiçoar a sociedade existente, mas de fundar uma nova” (Marx e Engels, 1850).

 

Notas

[1] “The state as a state annuls, for instance, private property, man declares by political means that private property is abolished as soon as the property qualification for the right to elect or be elected is abolished, as has occurred in many states of North America. (...) Nevertheless, the political annulment of private property not only fails to abolish private property but even presupposes it. The state abolishes, in its own way, distinctions of birth, social rank, education, occupation, when it declares that birth, social rank, education, occupation, are non-political distinctions, when it proclaims, without regard to these distinction, that every member of the nation is an equal participant in national sovereignty, when it treats all elements of the real life of the nation from the standpoint of the state. Nevertheless, the state allows private property, education, occupation, to act in their way – i.e., as private property, as education, as occupation, and to exert the influence of their special nature. Far from abolishing these real distinctions, the state only exists on the presupposition of their existence; it feels itself to be a political state and asserts its universality only in opposition to these elements of its being” (Marx, 1844).

[2] Como escreveu Lenine, “Marx deduziu de toda a história do socialismo e da luta política que o Estado deverá desaparecer e que a forma transitória do seu desaparecimento (passagem do Estado para o não-Estado) será ‘o proletariado organizado como classe dominante’.” (Lenine, 2011 [1917]: 64-65). Engels sintetiza bem a lógica de um tal processo neste passo do Anti-Dühring: “The first act by virtue of which the state really constitutes itself the representative of the whole of society – the taking possession of the means of production in the name of society – this is, at the same time, its last independent act as a state. State interference in social relations becomes, in one domain after another, superfluous, and then dies out of itself; the government of persons is replaced by the administration of things, and by the conduct of processes of production. The state is not ‘abolished’. It dies out” (Engels, 1978).  

 

Bibliografia

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POULANTZAS, Nicos (2008), “The State and the Transition to Socialism” (entrevista conduzida por Henri Weber; publicação original em 1977: “L’état et la transition au socialisme”, Critique communiste, nº 16), in The Poulantzas Reader (ed. by James Martin), London-New York: Verso, pp. 334-360.

THIRY, B. (1998), “Transition socialiste”, in Gérard Bensoussan e Georges Labica (dir.), Dictionnaire critique du marxisme, Paris: Quadrige/PUF, 3ª ed., pp. 1171-1175.

* Catarina Casanova: Professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa – ccasanova2009@gmail.com.

Gil Santos: Investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa (CFCUL) – gilcosan@gmail.com.

 

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