Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


I. V. Stáline

[A publicar por partes – introdução e cap. I]

Janeiro de 1913

E a onda de nacionalismo belicoso levantada de cima e toda uma série de repressões desencadeadas pelos “poderosos do mundo” para vingar-se da periferia pelo seu “amor à liberdade” provocaram, como réplica, uma onda de nacionalismo vinda de baixo, que muitas vezes se convertia num tosco chauvinismo.

 

1 (1).jpg

 

O período da contrarrevolução na Rússia não trouxe somente “raios e trovões”, mas também desilusão com respeito ao movimento, falta de fé nas forças comuns. Enquanto acreditavam num “futuro luminoso”, lutavam todos juntos, independentemente de sua nacionalidade: os problemas comuns antes de tudo! Mas quando nos espíritos se insinuaram as dúvidas, começaram a dispersar-se pelos bairros nacionais: cada um conte só consigo mesmo! O “problema nacional” antes de tudo!

Ao mesmo tempo, produziu-se no país uma séria deslocação na vida económica. O ano de 1905 não passou em vão: os restos do regime de servidão no campo sofreram outro golpe a mais. Uma série de boas colheitas depois dos anos de fome e o auge industrial que se produziu em seguida fizeram avançar o capitalismo. A diferenciação no campo e o crescimento das cidades, o desenvolvimento do comércio e das vias de comunicação deram um grande passo para a frente. Isto é certo, sobretudo, no que se refere às regiões da periferia. E não podia deixar de acelerar o processo de consolidação das nacionalidades na Rússia. Estas tinham necessariamente que entrar em ação...

Nesse mesmo sentido do despertar das nacionalidades atuou também o “regime constitucional”, instaurado durante esse período. O desenvolvimento dos jornais e da literatura em geral, certa liberdade de imprensa e das instituições culturais, o desenvolvimento dos teatros populares, etc. contribuíram sem dúvida alguma para fortalecer os “sentimentos nacionais”. A Duma, com a sua campanha eleitoral e os seus grupos políticos, reanimou as nacionalidades, deu nova e ampla possibilidade para mobilizá-las.

E a onda de nacionalismo belicoso levantada de cima e toda uma série de repressões desencadeadas pelos “poderosos do mundo” para vingar-se da periferia pelo seu “amor à liberdade” provocaram, como réplica, uma onda de nacionalismo vinda de baixo, que muitas vezes se convertia num tosco chauvinismo. O fortalecimento do sionismo[2] entre os judeus, o crescente chauvinismo na Polónia, o pan-islamismo[3] entre os tártaros, o recrudescimento do nacionalismo entre arménios, georgianos e ucranianos, a propensão geral dos espíritos mesquinhos para o antissemitismo — são outros tantos factos conhecidos de todos.

A onda de nacionalismo avançava cada vez mais, ameaçando arrastar as massas operárias. E quanto mais ia em descenso o movimento de libertação, com mais esplendor florescia o nacionalismo.

Nesse momento difícil incumbia à social-democracia uma alta missão: opor resistência ao nacionalismo, proteger as massas contra a “epidemia” geral. Pois a social-democracia e somente ela podia fazê-lo, contrapondo ao nacionalismo a arma provada do internacionalismo, a unidade e a indivisibilidade da luta de classes. E quanto mais fortemente avançasse a onda de nacionalismo, mais potente devia ressoar a voz da social-democracia em prol da fraternidade e da unidade dos proletários de todas as nacionalidades da Rússia. Nestas circunstâncias requeria-se uma firmeza especial por parte dos social-democratas das regiões da periferia, que se chocavam diretamente com o movimento nacionalista.

Mas nem todos os social-democratas acreditaram estar à altura da sua missão, e nós nos referimos antes de tudo aos das regiões da periferia. O Bund, que antes se destacava nas tarefas comuns, começa agora a tratar em primeiro lugar de objetivos particulares, puramente nacionalistas[4], para chegar ao cúmulo de proclamar como um dos seus pontos de combate, na campanha eleitoral, a “celebração do sábado”[5] e o “reconhecimento” do “idish”. Atrás do Bund veio o Cáucaso: uma parte dos social-democratas caucasianos, que antes rechaçava, como os demais social-democratas locais, a “autonomia nacional-cultural”, apresenta-a agora como reivindicação imediata[6]. E não falemos da conferência dos liquidacionistas[7] que sancionou diplomaticamente as vacilações nacionalistas[8].

Disto se deduz que as conceções da social-democracia da Rússia, quanto ao problema nacional, não são claras ainda para os social-democratas.

É necessário, evidentemente, proceder a um estudo sério e completo do problema nacional. Os social-democratas consequentes devem levar a cabo um trabalho coordenado e tenaz contra o nacionalismo, venha de onde vier.

I - A Nação

Que é nação?

Uma nação é, antes de tudo, comunidade, uma determinada comunidade de homens.

Comunidade que não é de raça nem de tribo. A atual nação italiana foi formada por etruscos, romanos, germânicos, gregos, árabes, etc. A nação francesa foi constituída por gauleses, romanos, bretões, germânicos, etc. E outro tanto podemos dizer dos ingleses, alemães, etc., cujas nações foram formadas por tribos e raças diversas.

Vemos, pois, que nação não é comunidade racial ou tribal, mas uma comunidade de homens formada historicamente.

Por outro lado, é evidente que os grandes Estados de Ciro ou de Alexandre não podiam ser chamados nações, mesmo que tivessem sido formados historicamente e estivessem integrados por diversas raças e tribos. Esses Estados não eram nações, mas conglomerados de grupos, acidentais e mal articulados, que se separavam ou se uniam segundo os êxitos ou as derrotas deste ou daquele conquistador.

Nação não é, pois, um conglomerado acidental e efémero, mas uma comunidade estável de homens.

Nem toda comunidade estável de homens constitui, porém, uma nação. A Áustria e a Rússia são também comunidades estáveis e, sem embargo, ninguém as qualifica de nações. Que é que distingue uma comunidade nacional de uma comunidade estatal? Entre outras coisas, a comunidade nacional é inconcebível sem um idioma comum, ao passo que para um Estado não é obrigatório que haja idioma comum. A nação tcheca, na Áustria, e a polaca, na Rússia, não seriam possíveis sem um idioma comum para cada uma delas, ao passo que para a integridade da Rússia e da Áustria não é obstáculo o facto de dentro das suas fronteiras existir toda uma série de idiomas. E ao dizer isto referimo-nos, naturalmente, aos idiomas que fala o povo e não ao idioma oficial de chancelaria.

A comunidade de idioma é, pois, um dos traços característicos da nação.

Isto não quer dizer, evidentemente, que diversas nações falem sempre e em toda a parte idiomas diversos, ou que todos os que falem um mesmo idioma constituam obrigatoriamente uma só nação. Um idioma comum para cada nação, mas não, obrigatoriamente, diversos idiomas para diversas nações. Não há nenhuma nação que fale ao mesmo tempo diversos idiomas, mas isto não quer dizer que não possa haver duas nações que falem o mesmo idioma. Os ingleses e os norte-americanos falam o mesmo idioma, e apesar disso não constituem uma mesma nação. E outro tanto pode dizer-se dos noruegueses e dos dinamarqueses, dos ingleses e dos irlandeses.

E por que, por exemplo, ingleses e norte-americanos não formam uma só nação, apesar de terem um idioma comum?

Antes de tudo, porque não vivem conjuntamente, mas em diferentes territórios. A nação só se forma como resultado de um conjunto de relações duradouras e regulares, como resultado de uma vida em comum dos homens, de geração em geração. E esta vida duradoura conjunta não é possível sem um território comum. Antigamente, ingleses e norte-americanos povoavam um só território — Inglaterra — e formavam uma só nação. Mais tarde, uma parte dos habitantes da Inglaterra emigrou desse país para um novo território, a América do Norte e aí, no decorrer do tempo, formou nova nação, a norte-americana. Territórios diversos determinaram a formação de nações diversas.

A comunidade de território é, pois, outro dos traços característicos da nação.

Mas isto não é tudo. A comunidade de território por si só não determina a nação. Há de existir ainda um vínculo económico interno que solde num todo único as diversas partes da nação. Entre a Inglaterra e América do Norte não existe esse vínculo; por isso elas constituem duas nações distintas. E os mesmos norte-americanos não mereceriam o nome de nação se as diversas partes da América do Norte não estivessem unidas entre si numa economia única, graças à divisão do trabalho estabelecida entre elas, ao desenvolvimento das vias de comunicações, etc.

Tomemos, por exemplo, os georgianos. Os georgianos dos tempos anteriores à reforma viviam num território comum e falavam o mesmo idioma, e não obstante, não formavam, estritamente, uma nação, pois, divididos em principados desarticulados uns dos outros, não podiam ter vida econômica comum: passaram séculos guerreando-se entre si e arruinando-se mutuamente, atiçando uns contra os outros os persas e os turcos. A unificação efémera e acidental desses principados, que às vezes qualquer Czar afortunado conseguia levar a cabo, só abarcava, no melhor dos casos, as esferas administrativas superficiais, voltando a desfazer-se em seguida pelos caprichos dos príncipes e pela indiferença dos camponeses. E não podia ser de outro modo, dada a dispersão económica da Geórgia... A Geórgia não se revelou como nação até à segunda metade do século XIX, quando a queda do feudalismo e o crescimento da vida económica do país, o desenvolvimento das vias de comunicação e o nascimento do capitalismo estabeleceram a divisão do trabalho entre as suas diversas regiões, acabaram para sempre com o isolamento económico dos principados e os uniram num todo.

E o mesmo é preciso dizer das outras nações que passaram pela fase do feudalismo e em cujo seio se desenvolveu o capitalismo.

A comunidade de vida económica, a conexão económica, é, pois, outra das particularidades caraterísticas da nação.

Mas não é tudo ainda. Além do que foi dito, deve-se levar em conta também a particularidade da fisionomia espiritual dos homens unidos numa nação. As nações se distinguem umas das outras, não só pelas suas condições de vida, mas também pela sua fisionomia espiritual, que se exprime nas peculiaridades da cultura nacional. No facto de a Inglaterra, a América do Norte e a Irlanda, mesmo falando o mesmo idioma, formarem, não obstante, três nações distintas, desempenha papel de muita importância a psicologia peculiar que se foi formando em cada uma delas, de geração em geração, como resultado de condições de existência diferentes.

Claro é que, por si só, a psicologia ou o “caráter nacional”, como também se diz, se torna um tanto vago para o observador, mas, como se exprime na peculiaridade da cultura comum a toda a nação, é um fator ponderável e não pode ser desprezado.

Desnecessário seria dizer que o “caráter nacional” não é algo que existe de uma vez para sempre, que se não modifica com as condições de vida; mas, pelo fato de existir em determinado momento, imprime a sua marca na fisionomia da nação.

A comunidade de psicologia, refletida na comunidade de cultura, é, pois, outro dos traços característicos da nação.

E com isto assinalamos todos os traços distintivos de uma nação.

Nação é uma comunidade estável, historicamente formada, de idioma, de território, de vida económica e de psicologia, manifestada esta na comunidade de cultura.

Além do mais, disso se compreende que a nação, como todo fenómeno histórico, está sujeita à lei da transformação, tem sua história, começo e fim.

É necessário salientar que nenhum dos traços distintivos indicados, tomado isoladamente, é suficiente para definir a nação. Mais ainda: basta que falte um só desses signos distintivos para que a nação deixe de existir.

Podemos imaginar homens de “caráter nacional” comum, e, contudo, não poderemos dizer que formam uma nação, se estão economicamente isolados, se vivem em diversos territórios, falando idiomas diversos, etc. Assim, por exemplo, os judeus da Rússia, da Galizia, da América, da Geórgia e das montanhas do Cáucaso não formam, no nosso juízo, uma só nação.

Podemos idealizar um conjunto de homens com comunidade de território e de vida económica, e, não obstante, não formarão uma nação se entre eles não existir comunidade de idioma e de “caráter nacional”. É o que acontece, por exemplo, com os alemães e os letões na região do Báltico.

Finalmente, os noruegueses e os dinamarqueses falam o mesmo idioma, mas não formam uma só nação por não reunirem todas as características que a definem.

Só a existência de todos esses traços distintivos, em conjunto, constitui a nação.

Poderia pensar-se que o “caráter nacional” não é precisamente um dos traços distintivos, mas o único traço essencial da nação, e que todos os demais constituem, verdadeiramente falando, condições para o desenvolvimento da nação e não signos distintivos desta. Neste ponto de vista se colocam, por exemplo, os teóricos social-democratas do problema nacional, conhecidos na Áustria: R. Springer e, sobretudo, O. Bauer.

Examinemos a sua teoria da nação.

Segundo Springer, “nação é a união de homens que pensam e falam do mesmo modo”. É “a comunidade cultural de um grupo de homens contemporâneos não vinculados com o solo”[9] (sublinhado por nós).

Assim, pois, uma “união” de homens que pensam e falam do mesmo modo, por mais desunidos que se achem uns dos outros e vivam onde viverem.

Bauer vai, todavia, mais longe.

“Que é nação? — pergunta. — É a comunidade de idioma que une os homens numa nação? Mas temos os ingleses e irlandeses que ... ainda que falando a mesma língua, não formam, contudo, um povo único; e os judeus não têm língua comum alguma e, contudo, formam uma nação.”[10]

Que é, pois, nação?

“A nação é uma comunidade relativa de caráter...”[11]

Mas que é o caráter, e aqui, neste caso, o caráter nacional?

“O caráter nacional é a “soma de signos que distinguem os homens de uma nacionalidade dos de outra, o complexo de qualidades físicas e morais que distinguem uma nação de outra”[12].

Bauer sabe, naturalmente, que o caráter nacional não cai do céu; por isso agrega:

“O caráter dos homens não se determina senão pelos seus destinos”; por isso “a nação não é mais que a comunidade de destinos”, determinada, por sua vez, pelas condições em que os homens produzem os meios para a sua vida e distribuem os produtos do seu trabalho”[13].

Deste modo, chegamos à definição mais “completa”, segundo a expressão de Bauer, de nação.

“Nação é o conjunto de homens unidos numa comunidade de caráter à base de uma comunidade de destinos”[14].

Assim, pois, uma comunidade de caráter nacional à base de uma comunidade de destinos, à margem de todo vínculo obrigatório com uma comunidade de território, de língua e de vida económica.

Mas, nesse caso, que é que fica de pé da nação? De que comunidade nacional pode falar-se com respeito a homens separados economicamente uns dos outros, que vivem em territórios diferentes e que falam, de geração em geração, idiomas distintos?

Bauer se refere aos judeus como a uma nação, embora “não tenham língua comum alguma”[15]; mas o que é “comunidade de destinos” e que vínculos nacionais podem mediar, por exemplo, entre judeus georgianos, daguestanos, russos e norte-americanos, completamente desligados uns dos outros, que vivem em diferentes territórios e falam distintos idiomas?

Inegavelmente, os mencionados judeus vivem uma vida económica e política comum com os georgianos, os daguestanos, os russos e os norte-americanos, numa atmosfera cultural comum com eles, e isso não pode deixar de imprimir uma marca ao seu caráter nacional. E se neles fica algo de comum, é a religião, sua origem comum e alguns vestígios de caráter nacional. Disto tudo não resta dúvida. Como se pode, porém, sustentar seriamente que ritos religiosos fossilizados e vestígios psicológicos que se vão esfumando influam nos “destinos” dos referidos judeus com mais fôrça que a vida económico-social e cultural que os rodeia? Pois só partindo dessa suposição se pode falar, em geral, dos judeus como de uma só nação.

Em que se distingue então a nação de Bauer desse “espírito nacional” místico e que se basta a si mesmo dos espiritualistas?

Bauer estabelece um limite infranqueável entre o “traço distintivo” da nação (o caráter nacional) e as “condições” de sua vida, separando estas daquele. Mas que é o caráter nacional senão o reflexo das condições de vida, a cristalização das impressões derivadas do meio circundante? Como é possível limitar-se a não ver mais que o caráter nacional, isolando-o e separando-o do terreno em que brota?

Com efeito, que distinguia a nação inglesa da norte-americana, nos fins do século XVIII e nos começos do XIX, quando a América do Norte se chamava ainda “Nova-Inglaterra”?

Não era, por certo, o caráter nacional, pois os norte-americanos eram oriundos da Inglaterra e tinham levado consigo para a América, além da língua inglesa, o caráter nacional inglês e, naturalmente, não podiam perdê-lo tão depressa, embora, sob a influência das novas condições, tivesse que se desenvolver neles seu próprio caráter. E, contudo, apesar da maior ou menor comunidade de caráter, já então constituíam uma nação distinta da Inglaterra. Evidentemente, a “Nova-Inglaterra”, como nação, não se diferençava então da Inglaterra, como nação, pelo seu caráter nacional especial, ou não se diferençava tanto pelo seu caráter nacional como pelo meio, pelas condições de vida, distintas das da Inglaterra.

É claro, pois, que não existe em realidade nenhum traço distintivo único de nação. Existe uma soma de traços distintivos, dos quais, comparando umas nações com outras, se destacam com maior relevo este (o caráter nacional), aquele (o idioma) ou outro (o território, as condições económicas). A nação representa a combinação de todos esses traços, tomados em conjunto.

O ponto de vista de Bauer, ao identificar a nação com o caráter nacional, separa a nação do terreno em que está assentada e a converte numa espécie de força invisível, que se basta a si mesma. O resultado não é uma nação viva e real, mas algo místico, imperceptível e de além-túmulo. Pois — repito — que nação judaica é essa, composta de judeus georgianos, daguestanos, russos, norte-americanos e outros judeus que não se compreendem entre si (porque falam idiomas distintos), vivem em diferentes partes do planeta, não se verão nunca uns aos outros, não atuarão jamais conjuntamente, nem nos tempos de paz nem nos tempos de guerra? Não, não é para estas “nações”, que só existem no papel, que a social-democracia estabelece seu programa nacional. A social-democracia só pode levar em conta nações reais, que atuam e se movem e, portanto, obrigam a ser tratadas como tais.

Bauer, evidentemente, confunde a nação, categoria histórica, com a tribo, categoria étnica.

Além do mais, o próprio Bauer reconhece, ao que parece, a debilidade de sua posição. Depois de apresentar decididamente no começo do seu livro os judeus como nação[16], no final se corrige, afirmando que “a sociedade capitalista não lhes permite, em geral (aos judeus), conservar-se como nação”[17] e os assimila a outras nações. A razão está, é provável, em que “os judeus não possuem um território delimitado de colonização”[18], ao passo que os tchecos, por exemplo, que segundo Bauer devem conservar-se como nação, têm esse território. Numa palavra: a causa está na ausência de território.

Argumentando assim, Bauer queria demonstrar que a autonomia nacional não pode ser reivindicação dos trabalhadores judeus[19], mas ao mesmo tempo refutou a sua própria teoria, que nega a comunidade de território como um dos signos distintivos da nação.

Mas Bauer vai mais longe ainda. No começo do seu livro declara resolutamente que “os judeus não possuem língua comum alguma e, sem embargo, formam nação”[20]. E ao chegar à página 130 contradiz-se, declarando com a mesma resolução: “Inegavelmente não é possível que exista nação sem um idioma comum” (sublinhado por nós)[21].

Aqui Bauer queria demonstrar que “o idioma é o instrumento mais importante de relações entre os homens”[22], mas ao mesmo tempo demonstrou, sem querer, algo que não se propunha demonstrar, e que é a inconsistência de sua própria teoria de nação, que nega a importância da comunidade de idioma.

Assim se refuta a si mesma essa teoria, alinhavada com fios idealistas.

 

Notas

[a] Primeira Edição: “Prosveschenie”, números 3-5 — março-maio de 1913. Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1946. Tradução de Brasil Gerson. Pág: 5-84. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo. Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

[1] O trabalho de Stáline O marxismo e o problema nacional, redigido em fins de 1912 e princípios de 1913, em Viena, foi impresso pela primeira vez em 1913, nos números 3-5 da revista bolchevique Prosveschenie (Ilustração), com a assinatura de K. Stáline e sob o título O problema nacional e a social-democracia. Em 1914, foi editado em folheto sob o título O problema nacional e o marxismo e publicado pela editora Priboy (São Petersburgo). Em 1920, foi reeditado pelo Comissariado para as Nacionalidades numa Coletânea de artigos de Stáline sobre o problema nacional (Editorial do Estado, Tula). Essa coletânea trazia um Prólogo do autor, no qual se expõem as circunstâncias em que foram redigidos os artigos que passam a fazer parte da citada Coletânea.

No Prólogo do autor, referindo-se precisamente a esse artigo — O marxismo e o problema nacional —, Stáline escreve: «... Este artigo reflete um período de discussões de princípios sobre o problema nacional no seio da social-democracia da Rússia, na época da reação czarista e latifundista, ano e meio antes de estalar a guerra imperialista, época do crescimento da revolução democrático-burguesa na Rússia. Defrontavam-se então duas teorias sobre a nação e, portanto, dois programas nacionais: o austríaco, apoiado pelo Bund e pelos mencheviques, e o russo, bolchevique. No artigo, encontrará o leitor a caracterização das duas correntes. Os acontecimentos posteriores, e especialmente a guerra imperialista e o desmembramento da Áustria-Hungria em diferentes Estados nacionais, mostraram com toda evidência de que lado estava a razão. Hoje, quando Springer e Bauer contemplam os escombros do seu programa nacional, já não se pode duvidar de que a história condenou a “escola austríaca”. Até o Bund teve de reconhecer que “a reivindicação da autonomia nacional-cultural (isto é, o programa nacional austríaco — J. St.) formulada nos quadros do regime capitalista, perde o seu sentido sob as condições da revolução socialista” (v.. A XII Conferência do Bund, 1920). O Bund nem ao menos suspeita que com isso reconheceu (e o reconheceu sem querer) a insolvência de princípio dos fundamentos teóricos do programa nacional austríaco, a insolvência de princípio da teoria austríaca da nação».

É a esse artigo de Stáline — O marxismo e o problema nacional — que Lénine se referia quando escreveu a Gorki, na segunda quinzena de fevereiro de 1913: “Encontra-se agora entre nós um magnífico georgiano, que escreve um grande artigo para a Prosveschenie, para cujo fim reuniu todos os materiais austríacos e outros”.

E quando esse trabalho foi publicado, Lénine muito o apreciou no seu artigo Sobre o programa nacional do P. O. S. D. R., nas colunas da revista O Social-democrata, n.º 32, de 28 (15) de dezembro de 1913. Indicando as causas que, naquele período, colocaram o problema nacional em lugar proeminente, Lénine escrevia: “Na literatura doutrinária marxista, essa situação e os fundamentos do programa nacional da social-democracia já foram analisados ultimamente (aqui se destaca, em primeiro lugar, o artigo de Stáline)”.

[2] Sionismo: corrente política reacionária nacionalista, que possuía partidários entre os comerciantes e artesãos judeus da pequena e média burguesia, entre os intelectuais, empregados do comércio, artesãos e camadas mais atrasadas dos operários judeus. Propunha-se como objetivo organizar na Palestina o seu próprio Estado burguês, integrado por judeus, e pretendia isolar as massas operárias judaicas da luta comum do proletariado.

[3] Pan-islamismo: ideologia política das altas camadas sociais turcas, tártaras, etc. (dos cãs, dos mulás, dos latifundiários, dos comerciantes, etc.), que aspira a unificar todos os povos que professam a religião do Islão (religião muçulmana). O pan-islamismo é afim do pan-turquismo, que pretende unificar os povos muçulmanos de turcos sob o poder dos turcos.

[4] A IX Conferência do Bund reuniu-se em Viena, em junho de 1912, e estudou os problemas relacionados com as eleições para a IV Duma do Estado e com a convocação da Conferência de agosto. (Conferência dos liquidacionistas v. nota 7), em que tomaram parte, como se sabe, os partidários do Bund. As resoluções da IX Conferência do Bund apresentavam o caráter de extremo oportunismo e liquidacionismo (abandonava-se a reivindicação da República, o trabalho ilegal passava a plano secundário, esqueciam-se as tarefas revolucionárias do proletariado). Essa Conferência sancionou a aliança aberta do Bund com os mencheviques liquidacionistas e com a ala “esquerda” do Partido Socialista Polonês.

[5] V. Informe da IV Conferência do Bund.

[6] V. Comunicado da Conferência de agosto.

[7] Alude-se à chamada Conferência de agosto dos liquidacionistas reunida em Viena, em agosto de 1912, e que se propunha como objetivo organizar um bloco antibolchevique. Nessa Conferência tomaram parte os liquidacionistas, o Bund, os sociais-democratas letões e uma parte dos caucasianos. O principal organizador e inspirador dessa Conferência foi L. Trotsky. (V. as decisões da Conferência e a crítica das mesmas nas págs. do presente livro).

[8] Obra citada.

[9] O Problema Nacional, de H. Springer, ed. “Obscheztvenaia Poisa”, 1909, pág. 43.

[10] O. Bauer, A Questão Nacional e a Social-democracia, ed. “Serps”, 1909, págs. 1-2.

[11] Obra citada, pág. 6.

[12] Obra citada, pág. 2.

[13] Obra citada, págs. 24-25.

[14] Obra citada, pág. 139.

[15] Obra citada, pág. 2.

[16] O. Bauer, A Questão Nacional e a Social-Democracia, pág. 2.

[17] Obra citada, pág. 389.

[18] Obra citada, pág. 388.

[19] Obra citada, pág. 396

[20] Obra citada, pág. 2.

[21] Obra citada, pág. 130.

[22] Obra citada, pág. 130.

 

 Fonte: publicado em https://www.marxists.org/portugues/stalin/1913/01/01.htm, acedido em 2018/03/09.

 

(a continuar) 

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.