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I. V. Stáline

[A publicar por partes – cap. V]

Janeiro de 1913

Mas eis que chega a primeira década do século XX. Começa o movimento operário de massa. Cresce a social-democracia polaca e arrasta à luta de massas os trabalhadores judeus. Cresce a social-democracia da Rússia e atrai os operários do Bund. Os limites nacionais do Bund, falhos de uma base territorial, começam a tornar-se estreitos. Ante ele surge o problema de dissolver-se na onda internacional geral ou de conservar sua existência independente, como organização extraterritorial. E é o segundo caminho que ele prefere.

 

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V - O Bund, o seu Nacionalismo e o seu Separatismo

 

Dissemos mais acima que Bauer, reconhecendo que a autonomia nacional é necessária para os checos, os polacos, etc., se declara, não obstante, contrário a essa autonomia para os judeus. À pergunta: “deve a classe trabalhadora reivindicar a autonomia para o povo judeu?” — Bauer responde que “a autonomia nacional não pode ser uma reivindicação dos trabalhadores judeus”[63]. A causa está, no juízo dele, em que “a sociedade capitalista não lhes permite (aos judeus, J. St.) manter-se como nação”[64].

Resumindo: a nação judaica está deixando de existir: portanto, não há de quem reivindicar a autonomia nacional. Os judeus vão sendo assimilados.

Esta opinião a respeito dos destinos dos judeus como nação não é nova. Marx a expressou ainda na década de 40,[65][66] referindo-se principalmente aos judeus alemães. Kautsky repetiu-a em 1903,[67] com referência aos judeus russos. Agora repete-a Bauer com relação aos judeus austríacos. Com a diferença, contudo, de que ele não nega o presente, mas o futuro da nação judaica.

Bauer explica a impossibilidade de se manterem os judeus como nação, dizendo que “os judeus não têm um território delimitado de colonização”[68]. Esfa explicação, exata no fundamental, não expressa, sem embargo, toda a verdade.

A explicação primordial está, antes de tudo, no facto de não terem os judeus uma camada de população extensa e estável, vinculada à terra, que sirva de modo natural à nação, não só de ossatura, como também de mercado “nacional”. Dos 5 ou 6 milhões de judeus russos, só 3 ou 4% se acham vinculados de uma maneira ou de outra à agricultura. Os 96% restantes vivem do comércio, da indústria, trabalham nas instituições urbanas e em geral vivem nas cidades, e além do mais disseminados por toda a Rússia, sem que tenham maioria em uma única província.

Deste modo, incrustados como minorias nacionais em territórios de diferente nacionalidade, os judeus servem principalmente a nações “alheias” como industriais e comerciantes e como membros de profissões liberais, adaptando-se naturalmente às nações “alheias” quanto ao idioma, etc. Tudo isto, relacionado com a crescente mistura das nacionalidades, peculiar às formas desenvolvidas do capitalismo, conduz à assimilação dos judeus. A abolição das “zonas de fixação dos judeus” não pode deixar de acelerar este processo de assimilação.

Por esta razão o problema da autonomia nacional se reveste, no que aos judeus russos se refere, de um caráter um tanto singular: propõe-se a autonomia para uma nação cujo futuro se nega e cuja existência precisa ainda ser comprovada.

Não obstante, o Bund se manteve nessa posição singular e precaria, ao adotar no seu VI Congresso (1905)[69] o “programa nacional” inspirado no sentido da autonomia nacional.

Duas circunstâncias o inspiraram a dar esse passo.

A primeira é a existência do Bund como organização dos trabalhadores social-democratas judeus e somente judeus. Já antes de 1897 os grupos social-democratas que trabalhavam com eles se propuseram criar “uma organização especial de trabalhadores judeus”[70]. Em 1897 criaram essa organização, unificando-se no Bund. E isso acontecia numa época em que a social-democracia russa não existia ainda de fato como um todo. Desde então o Bund cresceu e se estendeu ininterruptamente, destacando-se cada vez mais sobre o fundo dos dias cinzentos da social-democracia da Rússia ... Mas eis que chega a primeira década do século XX. Começa o movimento operário de massa. Cresce a social-democracia polaca e arrasta à luta de massas os trabalhadores judeus. Cresce a social-democracia da Rússia e atrai os operários do Bund. Os limites nacionais do Bund, falhos de uma base territorial, começam a tornar-se estreitos. Ante ele surge o problema de dissolver-se na onda internacional geral ou de conservar sua existência independente, como organização extraterritorial. E é o segundo caminho que ele prefere.

Assim surge a “teoria” do Bund, “único representante do proletariado judeu”.

Justificar, porém, essa estranha "teoria” de um modo mais ou menos “simples” resultava impossível. Era necessário achar uma base “de princípios”, uma justificação “de princípio”. E essa base passou a ser a autonomia nacional. E o Bund lançou mão dela, pedindo-a emprestada à social-democracia austríaca. Se os austríacos não tivessem semelhante programa, o Bund haveria de inventá-lo para justificar “no terreno dos princípios” a sua existência independente.

Desse modo, depois da tímida tentativa feita em 1901 (IV Congresso), adotou o Bund definitivamente o “programa nacional”, em 1905 (VI Congresso).

A segunda circunstância é a situação especial dos judeus como minorias nacionais isoladas nas regiões integradas por maiorias compactas de outras nacionalidades.

Já dissemos que essa situação compromete a existência dos judeus como nação e os leva ao caminho da assimilação.

Mas isto é um processo objetivo. Subjetivamente, na cabeça dos judeus, provoca reação e origina o problema de como garantir os direitos da minoria nacional, de como preservar esta minoria da assimilação.

Pregando a robustez da “nacionalidade judaica”, o Bund não podia senão situar-se no ponto de vista das '‘garantias”. E, uma vez adotada essa posição, não podia senão aceitar a autonomia nacional. Pois se ele devia acolher-se a uma autonomia qualquer, esta tinha de ser a nacional, isto é, a nacional-cultural: a falta de um território definido e íntegro não permitia sequer falar, tratando-se de judeus, de uma autonomia político-territorial.

É expressivo que o Bund tivesse sublinhado desde o primeiro momento o caráter da autonomia nacional como garantia dos direitos das minorias nacionais, como garantia do “livre desenvolvimento” das nações. E também não é casual que o representante do Bund no II Congresso da social-democracia da Rússia, Goldblat, tivesse formulado a autonomia nacional como “instituição que lhes garante (às nações — J. ST.) a plena liberdade de desenvolvimento cultural”[71]. E com a mesma exigência se incorporaram à fração social-democrática da IV Duma os defensores das ideias do Bund ...

Assim foi como o Bund adotou a posição singular da autonomia nacional dos judeus.

Antes havíamos analisado a autonomia nacional em termos gerais. Esta análise manifesta que a autonomia nacional conduz ao nacionalismo. Mais adiante veremos que o Bund chegou a esse extremo. Mas ele também encara a autonomia nacional de outro modo especial, como garantia dos direitos das minorias nacionais. Examinemos também o problema nesse aspecto especial.

Isto é necessário sobretudo porque o problema das minorias nacionais, e não somente das judaicas, tem para a social-democracia grande importância.

Temos, pois, instituições que garantem às nações “a plena liberdade do desenvolvimento cultural” (sublinhados por nós — J. St.).

Mas que “instituições” são essas que “garantem”, etc.?

É antes de tudo o “conselho nacional” de Springer-Bauer, algo assim como uma Dieta para assuntos culturais.

Mas podem essas instituições garantir a “plena liberdade do desenvolvimento cultural” da nação? Pode uma Dieta para assuntos culturais garantir as nações contra as repressões nacionalistas?

O Bund entende que sim, que pode.

A história nos diz, porém, o contrário.

Na Polónia russa existiu durante algum tempo uma Dieta, uma Dieta política que, naturalmente, se esforçava por garantir a liberdade do “desenvolvimento cultural” dos polacos, mas não só não o conseguiu como também — pelo contrário — sucumbiu ela mesma na luta contra as condições políticas gerais imperantes na Rússia.

Na Finlândia existe de há muito uma Dieta, que também se esforça por defender a nacionalidade finlandesa contra os “atentados”. E bem se vê o que ela tem podido fazer nesse sentido.

Evidentemente, nem todas as Dietas são iguais, e, com a Dieta democraticamente organizada da Finlândia, não será tão fácil agir como contra a aristocrática da Polónia.

Mas o decisivo não é a Dieta em si mesma: mais que isso, é a ordem geral de coisas reinante na Rússia. Se hoje existisse na Rússia uma ordem de coisas político-social tão brutalmente asiática como no passado, no tempo em que foi abolida a Dieta polaca, o destino da finlandesa seria muito pior. Além disso, a política de “atentados” contra a Finlândia está em progresso, e não se pode dizer que tenha experimentado uma derrota ...

E se assim se apresentam as coisas, tratando-se de instituições antigas, historicamente formadas, de Dietas políticas, menos ainda hão de poder garantir o livre desenvolvimento da nação as Dietas jovens, instituições novas, e além disso tão débeis como as Dietas “culturais”.

A questão não está evidentemente, nas “instituições”, mas na ordem geral imperante no país. Se no país não há democracia, não haverá também garantias para a “plena liberdade do desenvolvimento cultural” das nacionalidades. Com segurança podemos dizer que quanto mais democrático é um país menos “atentados” haverá contra a “liberdade das nacionalidades” e maiores serão as garantias contra esses “atentados”.

A Rússia é um país semi-asiátíco e, por isso, nela, a política dos “atentados” se reveste, não poucas vezes, das formas mais brutais, formas de pogroms. Não é preciso dizer que na Rússia as “garantias” foram reduzidas ao mínimo.

A Alemanha já é Europa, com maior ou menor liberdade política; não é de estranhar que ali a política de “atentados” não tenha nunca o caráter de “pogroms”.

Na França, naturalmente, existem “garantias” maiores ainda, mesmo porque ela é um país mais democrático que a Alemanha.

E não falemos da Suíça, onde, graças à sua adiantada democracia, embora burguesa, as nacionalidades vivem livremente, indiferentes à sua condição de minoria ou maioria.

O Bund está, pois, num caminho falso, ao afirmar que as “instituições” podem por si mesmas garantir o pleno desenvolvimento cultural das nacionalidades.

Poderá contestar-se que o próprio Bund considera a democratização da Rússia como condição prévia para a “criação dessas instituições” e para as garantias da liberdade. Mas isto é falso. Através da “Memória da VIII Conferência do Bund”[72] se vê que ele pensa conseguir essas “instituições à base da atual ordem de coisas vigente na Rússia e por meio de uma ‘reforma’ da comunidade judaica.

“A comunidade — disse nessa Conferência um dos líderes do Bund — pode converter-se na espinha dorsal da futura autonomia nacional-cultural. A autonomia nacional-cultural é a forma da qual as nações se servem a si mesmas, a forma de satisfazer as necessidades nacionais. Sob a forma da comunidade se acolhe o seu próprio conteúdo. São elos da mesma cadeia, etapas da mesma evolução”[73].

Partindo disto, a Conferência resolveu que era necessário lutar “pela reforma da comunidade judaica e pela sua transformação, por via legislativa, numa instituição laica”, democraticamente organizada[74] (sublinhado por nós — J. St.).

É claro que o Bund não considera como condição e garantia a democratização da Rússia, mas a futura “instituição laica” dos judeus, que há de conseguir-se mediante a “reforma da comunidade judaica” por via “legislativa”, ou melhor dizendo, através da Duma.

Mas já vimos que, por si só, sem a democratização da ordem de coisas vigente em todo o Estado, as “instituições” não podem servir de “garantias”.

Agora bem: que ocorrerá sob um regime democrático? Não serão também necessárias, sob a democracia, instituições especiais, “instituições culturais que garantam”, etc.? Como se apresentam as coisas, a esse respeito, na democrática Suíça, por exemplo? Existem ali instituições culturais especiais no estilo do conselho nacional de Springer? Não, não existem. Mas não sofrem por isso os interesses culturais dos italianos, por exemplo, que constituem ali uma minoria? Não, pelo que se vê. E é lógico: a democracia na Suíça torna inúteis todas essas “instituições” culturais especiais, que, ao que se pretende, “garantem”, etc.

Portanto, impotentes quanto ao dia de hoje, supérfluas quanto ao de amanhã: eis aí as instituições da autonomia nacional-cultural, eis aí a autonomia nacional.

Torna-se ela mais prejudicial ainda, porém, quando é imposta a uma “nação” cuja existência e cujo futuro estão na mesa dos debates. Em tais casos, os partidários da autonomia nacional estão obrigados a manter e a conservar todas as suas peculiaridades (da "nação”), não só as úteis como as perniciosas, e só para “salvá-la” do perigo de ser assimilada, só para "preservá-la”.

O Bund teria de escolher necessariamente esse perigoso caminho.

E escolheu-o, com efeito. Referimo-nos aos conhecidos acordos das últimas Conferências do Bund sobre o “sábado”, sobre o “idish”, etc.

A social-democracia reclama para todas as nações o direito ao emprego da língua materna, mas o Bund, não eontente com isso, exige que se defendam “com especial insistência os direitos da língua judaica”[75] (sublinhado por nós — J. St.).

O próprio Bund, nas eleições para a IV Duma, dá "preferência àqueles candidatos que se comprometam a defender os direitos da língua judaica”[76].

Não é o direito geral ao emprego da língua materna, senão o direito particular de empregar a língua judaica, o “idish”! Que os trabalhadores de cada nacionalidade lutem, antes de tudo, pela sua própria língua: os judeus pela judaica, os georgianos pela georgiana, etc. A luta pelos direitos comuns de todas as nações é coisa secundária. Podeis até não reconhecer o direito ao uso da língua materna por parte de todas as nacionalidades oprimidas, mas se reconheceis o direito ao emprego do “idish”, já sabeis que o Bund vos sufragará, que o Bund vos dá “preferência.”

Em que se distingue então o Bund dos nacionalistas burgueses?

A social-democracia reclama o estabelecimento de um dia de descanso obrigatório na semana, mas o Bund não se sente satisfeito com isso e exige que se “assegure ao proletariado judeu, por via legislativa, o direito de celebrar o sábado, dispensando-o da obrigação de celebrar também outro dia”[77].

É de se esperar que o Bund dê um “passo à frente” e exija o direito de celebrar todas as velhas festas do rito judaico. E se, para desgraça do Bund, os trabalhadores judeus se libertam de preconceitos e não desejam celebrar essas festas, o Bund, com a sua campanha de agitação pelo “direito do sábado”, haverá de recordar-lhes o sábado, cultivará neles, por assim dizer, o “espírito do sábado” ...

Por isso compreendem-se os “fogosos discursos” pronunciados na VIII Conferência do Bund pedindo “hospitais judaicos”, reivindicação essa que se justificava ao dizer-se que “o enfermo se sente melhor entre os seus”, que “o trabalhador judeu se sentirá mal entre trabalhadores polacos e se sentirá bem entre comerciantes judeus”[78].

Conservar tudo o que é judaico, preservar todas as peculiaridades nacionais dos judeus, até as que se sabe de antemão prejudiciais ao proletariado, separar os judeus de quanto não é judaico, até construir hospitais especiais: eis até onde desceu o Bund!

O camarada Plekhanov tinha uma e mil vezes razão ao dizer que “o Bund adapta o socialismo ao nacionalismo”[79]. Naturalmente V. Kossovski e outros do seu grupo, como ele, podem chamar Plekhanov “demagogo”[80][81] — o papel tudo aguenta —, mas conhecendo-se a atuação do Bund, não é difícil compreender que esses bravos temem dizer a verdade a respeito de si mesmos, e por isso se escudam por trás de grandes frases sobre a “demagogia” ...

Mantendo-se, porém, em tal posição diante do problema nacional, o Bund naturalmente tinha de preferir também em matéria de organização o caminho do isolamento dos trabalhadores judeus, o caminho das cúrias nacionais dentro da social-democracia. Tal é, pois, a lógica da autonomia nacional.

E, com efeito, da teoria da “representação única” o Bund passa para a teoria da “divisão nacional” dos trabalhadores. O Bund exige da social-democracia da Rússia que “introduza na sua estrutura orgânica uma divisão por nacionalidades”[82]. E da “divisão” dá “um passo adiante” para a teoria do “isolamento”. Não em vão, na VIII Conferência do Bund ressoaram discursos sustentando que “no isolamento está a existência nacional”[84].

O federalismo na organização abriga no seu seio elementos de decomposição e de separatismo. O Bund marcha para o separatismo.

E, em realidade, para nenhum outro lugar pode marchar. Já a sua própria existência como organização extraterritorial o empurra para o caminho do separatismo. O Bund não possui um território íntegro e definido; opera sobre territórios “alheios”, enquanto a social-democracia polaca, letã, russa, que estão em contacto com ele, são coletividades territoriais internacionais.

Mas isto faz com que cada ampliação destas coletividades represente para o Bund uma “perda”, uma diminuição do seu campo de ação. Das duas, uma: ou toda a social-democracia da Rússia deve reorganizar-se segundo os princípios do federalismo nacional, e neste caso o Bund obterá a possibilidade de “ficar” com o proletariado judeu, ou se mantém em vigor o princípio territorial internacional dessas coletividades, e neste caso o Bund terá de se reorganizar de acordo com os princípios internacionalistas, como é o caso da social-democracia polaca e letã.

Assim se explica porque o Bund tem exigido desde o primeiro momento “a reforma da social-democracia da Rússia de acordo com os princípios federativos”[85].

Em 1906, o Bund, cedendo à onda de unificação vinda da base, escolheu o caminho intermediário, ingressando na social-democracia russa. Mas como ingressou? Enquanto a social-democracia polaca e a letã a ela se incorporaram para trabalhar pacífica e conjuntamente, o Bund o fazia com o fim de combater pela federação. O líder do Bund, Medem, disse então o seguinte:

“Vamos, não para um idílio, mas para uma luta. Não há idílio, e só os Manilov[86] podem esperar que os haja num futuro próximo. O Bund deve entrar no Partido armado dos pés à cabeça”[87].

Seria um erro ver nisso má vontade de Medem. Não se trata de má vontade, mas da posição especial do Bund, em virtude da qual não pode ele senão lutar contra a social- democracia russa, baseada nos princípios do internacionalismo. Lutando contra ela, o Bund prejudica, naturalmente, os interesses da unidade.

O resultado foi que, por último, chegou até ao rompimento formal com a social-democracia da Rússia, violando os estatutos e unindo-se, nas eleições para a IV Duma, aos nacionalistas polacos contra os social-democratas polacos[89].

O Bund, evidentemente, achou que o rompimento era a melhor maneira de obter uma atuação independente..

Assim foi que o princípio da “delimitação” na organização conduziu ao separatismo, ao rompimento completo.

Polemizando sobre o federalismo com a velha Iskra[90], o Bund escrevia então:

“O Iskra nos quer convencer de que as relações federativas do Bund com a social-democracia da Rússia devem debilitar os vínculos entre eles. Não podemos refutar esta opinião apelando para a experiência deste país, pela simples razão de que a social-democracia não existe como união federativa. Mas podemos, isto sim, referir-nos à experiência extraordinariamente instrutiva da social-democracia da Áustria, que tomou caráter federativo à base dos acordos do Congresso do Partido, celebrado em 1897”[91].

Isto se escrevia em 1902.

Agora estamos, porém, em 1913. Agora temos a “experiência” da Rússia e a “experiência da social-democracia da Áustria”.

Que nos dizem estas “experiências”?

Comecemos pela “experiência extraordinariamente instrutiva da social-democracia da Áustria”. Antes já de 1896 existia na Áustria um partido social-democrata único. Nesse ano, os checos pela primeira vez reclamam e obtêm no Congresso internacional de Londres uma representação à parte. Em 1897, no Congresso de Viena (Wimberg), liquida-se formalmente o partido único e se forma em seu lugar uma união federativa de seis “grupos social-democratas” nacionais. Mais adiante esses “grupos” se convertem em partidos independentes. Pouco a pouco os partidos vão rompendo os vínculos que existiam entre si. Atrás dos partidos cinde-se a fração parlamentar e se formam clubes nacionais. Depois vêm os sindicatos, que se desintegram também por nacionalidades. E por fim são atingidas as cooperativas: para o fracionamento delas os separatistas checos chamam os trabalhadores[92]. E não digamos nada de como a agitação separatista amortece nos trabalhadores o sentimento de solidariedade, empurrando-os não poucas vezes para o lado dos fura-greves.

Vemos, pois, que a “experiência extraordinariamente instrutiva da social-democracia da Áustria” fala contra o Bund e em favor da velha Iskra. No partido austríaco o federalismo conduziu ao separatismo mais vergonhoso e à destruição da unidade do movimento operário.

Já vimos, páginas atrás, que a “experiência da Rússia” nos diz o mesmo. Os separatistas do Bund, e do mesmo modo os checos, romperam com a social-democracia comum, com a social-democracia da Rússia. Quanto aos sindicatos, os sindicatos do Bund estiveram organizados, desde o primeiro momento, de acordo com o princípio das nacionalidades, isto é, separados dos trabalhadores de outras nacionalidades.

Completo isolamento, completo rompimento: eis o que é posto à mostra pela “experiência russa” do federalismo.

Não é estranho que este estado de coisas provoque nos trabalhadores um enfraquecimento do sentimento de solidariedade e um debilitamento da moral,, e isto atinge também o Bund. Referimo-nos, ao falar assim, aos conflitos reiterados que se promovem entre os trabalhadores judeus e polacos por causa da desocupação forçada. Eis aqui os discursos que ressoaram, a propósito, na IX Conferência do Bund:

“ ... Consideramos os operários polacos que nos desalojam do trabalho como pogromistas, como ‘amarelos’ , e não apoiamos as suas greves, rompemo-las. Em segundo lugar, respondemos ao desalojamento com o desalojamento; como réplica à não admissão dos trabalhadores judeus nas fábricas, não deixamos que os polacos se aproximem dos tornos ... Se não tomamos este assunto nas nossas mãos, os trabalhadores irão atrás de outros”[94] (sublinhado por nós — J. St.).

Assim é que se fala de solidariedade na Çonferência do Bund.

Não se pode ir mais adiante no caminho da “divisão” e do “isolacionismo”. O Bund alcançou os seus objetivos: dividiu os trabalhadores de diversas nacionalidades até chegar à pendência, até fazer deles fura-greves. E não pode ser de outro modo: “se não tomamos este assunto nas nossas mãos, os trabalhadores irão atrás de outros”...

Desorganização do movimento operário, desmoralização nas fileiras da social-democracia: eis até onde leva o federalismo do Bund.

E assim a ideia da autopomia nacional e a atmosfera por ela criada resultaram ser mais perigosas ainda na Rússia do que na Áustria.

 

Notas

[a] Primeira Edição: “Prosveschenie”, números 3-5 — março-maio de 1913. Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1946. Tradução de Brasil Gerson. Pág: 5-84. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo. Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

[1] O trabalho de Stáline O marxismo e o problema nacional, redigido em fins de 1912 e princípios de 1913, em Viena, foi impresso pela primeira vez em 1913, nos números 3-5 da revista bolchevique Prosveschenie (Ilustração), com a assinatura de K. Stáline e sob o título O problema nacional e a social-democracia. Em 1914, foi editado em folheto sob o título O problema nacional e o marxismo e publicado pela editora Priboy (São Petersburgo). Em 1920, foi reeditado pelo Comissariado para as Nacionalidades numa Coletânea de artigos de Stáline sobre o problema nacional (Editorial do Estado, Tula). Essa coletânea trazia um Prólogo do autor, no qual se expõem as circunstâncias em que foram redigidos os artigos que passam a fazer parte da citada Coletânea.

No Prólogo do autor, referindo-se precisamente a esse artigo — O marxismo e o problema nacional —, Stáline escreve: «... Este artigo reflete um período de discussões de princípios sobre o problema nacional no seio da social-democracia da Rússia, na época da reação czarista e latifundista, ano e meio antes de estalar a guerra imperialista, época do crescimento da revolução democrático-burguesa na Rússia. Defrontavam-se então duas teorias sobre a nação e, portanto, dois programas nacionais: o austríaco, apoiado pelo Bund e pelos mencheviques, e o russo, bolchevique. No artigo, encontrará o leitor a caracterização das duas correntes. Os acontecimentos posteriores, e especialmente a guerra imperialista e o desmembramento da Áustria-Hungria em diferentes Estados nacionais, mostraram com toda evidência de que lado estava a razão. Hoje, quando Springer e Bauer contemplam os escombros do seu programa nacional, já não se pode duvidar de que a história condenou a “escola austríaca”. Até o Bund teve de reconhecer que “a reivindicação da autonomia nacional-cultural (isto é, o programa nacional austríaco — J. St.) formulada nos quadros do regime capitalista, perde o seu sentido sob as condições da revolução socialista” (v.. A XII Conferência do Bund, 1920). O Bund nem ao menos suspeita que com isso reconheceu (e o reconheceu sem querer) a insolvência de princípio dos fundamentos teóricos do programa nacional austríaco, a insolvência de princípio da teoria austríaca da nação».

É a esse artigo de Stáline — O marxismo e o problema nacional — que Lénine se referia quando escreveu a Gorki, na segunda quinzena de fevereiro de 1913: “Encontra-se agora entre nós um magnífico georgiano, que escreve um grande artigo para a Prosveschenie, para cujo fim reuniu todos os materiais austríacos e outros”.

E quando esse trabalho foi publicado, Lénine muito o apreciou no seu artigo Sobre o programa nacional do P. O. S. D. R., nas colunas da revista O Social-democrata, n.º 32, de 28 (15) de dezembro de 1913. Indicando as causas que, naquele período, colocaram o problema nacional em lugar proeminente, Lénine escrevia: “Na literatura doutrinária marxista, essa situação e os fundamentos do programa nacional da social-democracia já foram analisados ultimamente (aqui se destaca, em primeiro lugar, o artigo de Stáline)”.

[63] O. Bauer, A Questão Nacional, págs. 381-396.

[64] O. Bauer, A Questão Nacional, pág. 389.

[65] Marx, Sobre o Problema Judaico, 1906, ed. russa.

[66] Alude-se ao artigo de Marx Zur Judenfrage (Sobre a questão judaica), publicado em 1844, nos Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais franco-alemães), no qual Marx polemiza com o chefe dos radicais livre-pensadores alemães, Bruno Bauer.

[67] Kautsky, A Matança de Kiskinev e a Questão Judaica, 1906. ed. russa.

[68] O. Bauer, Obra citada, pág. 388.

[69] O VI Congresso do Bund reuniu-se em outubro de 1905, em Zurique (Suíça). Nesse Congresso o Bund formulou definitivamente o seu programa nacional, destacando a reivindicação de “criar instituições legais públicas” que “apenas possam converter-se na autonomia extraterritorial sob a forma de autonomia nacional-cultural”, o que “pressupõe: 1) retirar do Estado e dos órgãos locais e territoriais de governo autónomo todas as funções relacionadas com os problemas da cultura (instrução popular, etc.); 2) entregar essas funções à própria nação, representada por instituições especiais, tanto locais como centrais, eleitas por todos os membros na base do sufrágio universal, igual, direto e secreto”.

[70] Ver Formas do Movimento Nacional, etc., redigido por Kaztellauzki, pág. 772.

[71] Atas do II Congresso, pág. 176.

[72] A VIII Conferência do Bund realizou-se em Lvov, em setembro de 1910. Essa conferência dedicou sua principal atenção ao problema da comunidade judaica e ao descanso do sábado; as resoluções aprovadas a respeito desses pontos indicam novos avanços do nacionalismo dentro do Bund.

[73] Memória da VIII Conferência do Bund, 1911, pág. 62.

[74] Memória da VIII Conferência do Bund, 1911, págs. 83-84.

[75] Obra citada, pág. 85.

[76] Memória sobre a IX Conferência do Bund, 1912, pág. 42.

[77] Memória sobre a VIII Conferência do Bund, pág. 83.

[78] Memória sobre a VIII Conferência do Bund, pág. 68.

[79] As palavras sobre a "adaptação do socialismo ao nacionalismo” foram empregadas por Plekhanov, com referência aos social-democratas partidários do Bund e caucasianos, em seu artigo Mais uma conferência divisionista, publicado a 15 (2) de outubro de 1912, no n.º 3 do periódico Sa Partiu (Pelo Partido), órgão dos plekhanovistas — “mencheviques” e “bolcheviques conciliadores” do Partido — que se publicou de 1912 a 1914. Nesse artigo, Plekhanov criticava duramente tanto a convocação como as resoluções da Conferência liquidacionista de agosto.

[80] Nasha Sariá, 1912, num. 9-10, pág. 120.

[81] Refere-se a uma carta de V. Kossovski à redação da revista liquidacionista Nasha Saria (Nossa Aurora), nºs. 9-10, de 1912, sob o título de Demagogia imperdoável, em que o autor polemiza contra o artigo de Plekhanov a que se refere a nota anterior.

[82] Comunicado sobre o VII Congresso do Bund [83], pág 7.

[83] O VII Congresso do Bund reuniu-se em fins de 1906 em Lvov. Esse Congresso pronunciou-se pela filiação do Bund ao Partido Operário Social Democrático da Rússia, na base dos estatutos aprovados no IV Congresso (Estocolmo), com a reserva, entretanto, de que, “ingressando no POSDR e aceitando o seu programa, o Bund conserva o seu a respeito do problema nacional”. Depois do VII Congresso, o Bund tomou inteira e definitivamente o caminho menchevique.

[84] Memória da VIII Conferência do Bund, pág. 72.

[85] Sobre o Problema da Autonomia Nacional e a Reconstrução da Social-democracia da Rússia em Princípios Federativos, 1902, ed. do Bund.

[86] Manilov, personagem do romance de Gogol, Almas Mortas, temperamento plácido, inativo, imaginação ociosa.

[87] Nashe Slovo[88] (Nossa Palavra), num. 3, pág. 24, Vil- na, 1906.

[88] Nashe Slovo (Nossa Palavra), semanário legal do Bund que era publicado em Vilna em 1906; saíram ao todo nove números.

[89] Refere-se a um deputado de Varsóvia, Yagelo, membro da ala "esquerda” do Partido Socialista Polonês, eleito para a IV Duma do Estado por meio de um bloco dos partidários do Bund e do P. S. Polonês com os nacionalistas burgueses judeus, contra os votos dos delegados-eleitores social-democratas poloneses, que representavam a maioria no colégio eleitoral operário. A fração social-democrática da IV Duma, graças ao fato de que nela predominavam os liquidacionistas, admitiu em seu seio esse deputado não social-democrata, apoiando desse modo o passo divisionista do Bund e aprofundando a cisão entre os operários da Polónia. Veja-se o artigo de Stalin Yagelo, um intruso na fração social-democrática, Pravda, n. 182, 1 de dezembro de 1912.

[90] A velha Iskra: a Iskra (A Centelha) do período de 1900 a 1903 (até o n.º 51), em que Lénine dirigia a sua redação. É assim chamada para distinguir-se da nova Iskra, a da fase em que o periódico passou para as posições mencheviques. A velha Iskra sustentou uma luta tenacíssima contra o nacionalismo do Bund. À crítica do Bund e de suas posições no problema nacional e nos problemas da estrutura orgânica do Partido foi dedicada uma série de artigos da Iskra; deles, os mais importantes são de Lénine.

[91] Sobre o Problema da Autonomia Nacional, etc., 1912, pág. 17, ed. do Bund.

[92] Dokumente der Separatismus, do folheto de C. Vanek[93], pág. 29.

[93] Carlos Vanek: social-democrata checo, deputado ao Parlamento austríaco e ao Landtag (Dieta) de Brünn, diretor da Caixa de Socorros contra a doença, de Brünn, e um dos chefes separatistas checos. Em 1910, Vanek publicou no periódico Rovnost (Igualdade) uma série de artigos sob o título de Que queremos: tutela ou liberdade?, dedicados à defesa das ideias de separatismo imbuídas de chauvinismo nacional. Esses artigos (editados também em folheto à parte) foram recolhidos, com outros documentos, na coleção Dokumente des Separatismus (Documentos do separatismo), editada pelo sindicato austríaco de metalúrgicos, que, com essa publicação, tencionava atalhar o desenvolvimento da cisão que Vanek, Burian, Tusar e outros chefes dos separatistas checos levavam ao movimento operário checo.

O trecho do folheto de Vanek a que Stalin aqui se refere diz: “como podem os operários checos esperar, antes ainda da regeneração da sociedade, salvar o seu filho ou a sua filha, ou assegurar-lhes futuro melhor que o que lhes tocou por sorte, se os sugadores do povo checo não consideram necessário utilizar os serviços de seus artesãos, comerciantes e industriais?

E como pode a massa operária checa esperar obter do Estado o que de direito lhe corresponde, conseguir a igualdade de direitos no terreno político, social e nacional, se põe à disposição de outros a sua própria base económica, se entrega as suas possibilidades produtivas e a força encerrada no dinheiro para que os seus camaradas de outras nacionalidades as utilizem?”.

[94] Memória sobre a IX Conferência do Bund, pág. 19.

 

Fonte: publicado em https://www.marxists.org/portugues/stalin/1913/01/01.htm, acedido em 2018/03/09.

 

(a continuar)

 

 

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