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I. V. Stáline

[A publicar por partes – cap. VI]

Janeiro de 1913

A autonomia nacional-cultural pressupõe nacionalidades mais ou menos desenvolvidas, com uma cultura e uma literatura desenvolvidas também. Sem estas condições ela perde todo o sentido, torna-se um absurdo.

 

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VI - Os Caucasianos, a Conferência dos Liquidacionistas

Já falámos acima das vacilações de uma parte dos social-democratas caucasianos, que não souberam fazer frente à “epidemia” nacionalista. Estas vacilações estão no facto de terem os mencionados social-democratas marchado — por estranho que pareça — nos rastros do Bund, proclamando a autonomia nacional-cultural.

Autonomia regional para todo o Cáucaso e autonomia nacional-cultural para as nações que compõem o Cáucaso: assim é como formulam a sua reivindicação esses social-democratas, que, seja dito de passagem, aderem aos liquidacionistas russos.

Escutemos o seu reconhecido líder, o não desconhecido N.[95]:

“De todos é sabido que o Cáucaso se distingue radicalmente das províncias centrais, tanto no que se refere à composição racial da sua população como ao território e à agricultura. A exploração e o desenvolvimento material de uma região como esta exigem funcionários locais, que conheçam as particularidades locais e estejam acostumados ao clima e à cultura locais. Todas as leis relativas à exploração do território local têm necessariamente de ser promulgadas sobre o terreno, e de ser postas em prática por elementos locais. Por conseguinte, nas atribuições do órgão central do governo autónomo caucasiano deve figurar a promulgação de leis sobre problemas locais ... Assim, as funções do centro caucasiano consistem na promulgação dessas leis que tenham fins de exploração económica do território local, fins de prosperidade material da região”[96].

Temos, pois, a autonomia regional para o Cáucaso.

Se prescindimos dos argumentos de N., um tanto confusos e incoerentes, é preciso reconhecer que a conclusão a que chega é exata. A autonomia regional do Cáucaso, no quadro da Constituição geral do Estado — coisa que N. não nega — é na realidade necessária, em virtude da sua composição peculiar e das suas condições de vida. Isto foi reconhecido também pela social-democracia da Rússia, que no II Congresso proclamou

“a autonomia administrativa regional para todos os territórios que, por suas condições de vida e pela composição de sua população, se distingam dos territórios propriamente russos”.

Ao submeter este ponto à discussão do II Congresso, Mártov o justificou dizendo que:

“a enorme extensão da Rússia e a experiência da nossa administração centralizada nos dão motivos para considerar necessária e conveniente a existência de uma autonomia administrativa regional para unidades tão grandes como a Finlândia, a Polónia, a Lituânia e o Cáucaso”.

E daí se depreende que por autonomia administrativa regional deve-se entender a autonomia regional.

  1. vai, porém, mais longe. No seu entender, a autonomia regional do Cáucaso abarca “somente um aspeto da questão”.

“Até aqui, falámos somente do desenvolvimento material da vida local. Mas não são só as atividades económicas que contribuem para o desenvolvimento económico da região, e sim também as espirituais e culturais” ...

"Uma nação culturalmente forte é também uma nação forte no terreno econômico” ... “Mas o desenvolvimento cultural das nações só é possível à base do idioma nacional” ... “Por isso todos os problemas relacionados com o idioma materno são problemas cultural-nacionais. Desse tipo são os problemas da educação, da justiça, da igreja, da literatura, das artes, das ciências, do teatro, etc. Se o desenvolvimento material da região unifica as nações, a cultura nacional as desune, colocando cada uma delas num campo distinto. As atividades da primeira categoria estão vinculadas a um determinado território” ... "Não sucede assim com os assuntos da cultura nacional. Eles não estão vinculados a um território determinado, e sim à existência de uma nação determinada. Os destinos do idioma georgiano interessam por igual aos georgianos onde quer que eles vivam. Seria prova de muita ignorância dizer que a cultura georgiana só interessa aos georgianos que vivem na Geórgia. Tomemos, por exemplo, a igreja arménia. Na administração dos seus assuntos tomam parte arménios de diferentes localidades e Estados. Aqui o território não desempenha papel algum. Na criação do museu georgiano estão igualmente interessados os georgianos de Tiflis e os de Bacu, Kutaís, São Petersburgo, etc. Isto quer dizer que a administração e a direção de todos os assuntos cultural-nacionais devem ser entregues às próprias nações interessadas. Nós proclamamos a autonomia nacional-cultural das nações caucasianas”[98].

Resumindo: pois que a cultura não é o território, nem o território a cultura, é necessária a autonomia nacional-cultural. Isto é tudo quanto em seu apoio nos pode dizer N.

Não vamos examinar aqui, uma vez mais, a autonomia nacional-cultural em termos gerais; já falamos mais acima do seu caráter negativo. Desejaríamos somente pôr em destaque que, se em termos gerais é inaceitável, do ponto de vista das condições caucasianas a autonomia nacional-cultural é, além do mais, disparatada e absurda.

E eis porquê.

A autonomia nacional-cultural pressupõe nacionalidades mais ou menos desenvolvidas, com uma cultura e uma literatura desenvolvidas também. Sem estas condições ela perde todo o sentido, torna-se um absurdo. Mas no Cáucaso vive toda uma série de povos com uma cultura primitiva, com sua língua própria, sem uma literatura nacional, povos que, ademais, se acham num estado de transição, que em parte estão sendo assimilados e em parte continuam desenvolvendo-se. Como aplicar a esses povos a autonomia nacional-cultural? Que fazer com eles? Como “organizá-los” em uniões nacional-culturais separadas, como pressupõe, sem dúvida, a autonomia nacional-cultural?

Que fazer com os mingrélios, abkhasíanos, adzharianos, svanetos, lesgos, etc., povos que falam línguas diferentes, mas que não possuem a sua própria literatura? Em que nações devem ser compreendidos? É possível “organizá-los” em uniões nacionais? Em torno de que “assuntos culturais organizá-los”?

Que fazer com os ossetinos, entre os quais os da Transcaucásia estão sendo assimilados (embora estejam longe de haver sido já assimilados) pelos georgianos, ao passo que os da Ciscaucásia em parte estão sendo assimilados pelos russos e em parte continuam desenvolvendo-se, criando a sua literatura própria? Como “organizá-los” numa união nacional única?

Em que união nacional devem ser compreendidos os adzharianos, que falam o georgiano, mas vivem a cultura turca e professam o islamismo? Terão que ser “organizados” à margem dos georgianos no que se refere aos assuntos religiosos, e junto com os georgianos quanto a outros assuntos culturais? E os kobuletes? E os ingushos? E os inguilos?

Que autonomia é essa, que exclui da lista toda uma série de povos?

Não, essa não é a solução do problema nacional, isso é o fruto de uma fantasia ociosa.

Admitamos, porém, o inadmissível e suponhamos que a autonomia nacional-cultural do nosso N. tenha sido posta em prática. Onde nos leva ela, a que resultados? Tomemos, por exemplo, os tártaros transcaucasianos; com a sua porcentagem mínima de pessoas que sabem ler e escrever, com as suas escolas controladas pelos mulás todo-poderosos, com a sua cultura imbuída de espírito religioso ... Não é difícil compreender que organizá-los numa união nacional-cultural equivaleria a colocar diante deles os seus mulás, entregá-los à voracidade dos mulás reacionários, criar uma nova fortaleza para a escravização espiritual das massas tártaras pelo seu pior inimigo.

Desde quando os social-democratas se dedicam a levar água ao moinho dos reacionários?

Não puderam os liquidacionistas caucasianos “proclamar” outra coisa melhor que o confinamento dos tártaros transcaucasianos numa união nacional-cultural, que conduziria à escravização das massas pelos piores reacionários? ...

Não, essa não é a solução do problema nacional.

O problema nacional do Cáucaso só pode ser resolvido levando-se as nações e povos atrasados pelo caminho comum de uma cultura superior. Só esta solução pode ser progressista e aceitável para a social-democracia. A autonomia regional do Cáucaso é aceitável, precisamente, porque leva as nações retardadas ao desenvolvimento cultural comum, ajuda-as a romper a crisálida do isolamento próprio das pequenas nacionalidades, estimula-as a marchar para a frente e facilita-lhes o acesso aos benefícios de uma cultura superior. A autonomia nacional-cultural, pelo contrário, atua num sentido diametralmente oposto, ao encerrar as nações nas suas velhas crisálidas, ao mantê-las num nível cultural muito baixo e ao impedir que se elevem aos mais altos graus.

Deste modo a autonomia nacional conspira contra o lado positivo da autonomia regional e a reduz a nada.

Por isso, precisamente, não é conveniente tampouco esse tipo misto de autonomia que N. propõe e em que se combinam a autonomia nacional-cultural e a autonomia regional. Esta combinação antinatural, longe de melhorar as coisas, faz com que piorem, porque, além de entorpecer o desenvolvimento das nações retardadas, converte também a autonomia regional em motivo de conflitos entre as nações organizadas em uniões nacionais.

Deste modo, a autonomia nacional-cultural, imprestável em geral, se transformaria no Cáucaso num intento reacionário absurdo.

Essa é a autonomia nacional-cultural de N. e dos seus correligionários caucasianos.

Darão os liquidacionistas caucasianos “um passo adiante” e acompanharão também o Bund no terreno da organização? O futuro o dirá. Até hoje, na história da social-democracia, o federalismo no terreno da organização precedeu sempre no programa a autonomia nacional. Os social-democratas austríacos introduziram o federalismo já em 1897 no terreno da organização e só passados dois anos (em 1899) adotaram a autonomia nacional. Os do Bund falaram pela primeira de um modo claro da autonomia nacional em 1901, ao passo que o federalismo na organização eles o praticam desde 1897.

Os liquidacionistas caucasianos começaram pelo fim, pela autonomia nacional. Se continuam marchando nos rastros do Bund, terão de principiar por demolir todo o atual edifício orgânico, levantado já nos fins da década de 90 segundo os princípios do internacionalismo.

Se foi fácil aceitar a autonomia nacional, incompreensível ainda, no momento, para os trabalhadores, difícil será demolir um edifício que levou anos inteiros a ser construído e cuidado pelos operários de todas as nacionalidades do Cáucaso. Bastará que comece esta empresa de Eróstrato para que eles abram os olhos e compreendam a essência nacionalista da autonomia nacional-cultural.

Se os caucasianos resolvem o problema nacional à maneira usual, por meio de debates verbais e de discussões escritas, terá a Conferência dos liquidacionistas de toda a Rússia inventado um método fora do comum. Um método fácil e simples. Ouvi:

“Tendo escutado a comunicação feita pela delegação transcaucasiana ... sobre a necessidade de apresentar a reivindicação da autonomia nacional-cultural, a Conferência, sem se pronunciar sobre o fundo dessa reivindicação, constata que uma tal interpretação do ponto do programa em que se reconhece a cada nacionalidade o direito de autodeterminação não se choca com o sentido preciso deste”.

Portanto, antes de tudo, “sem se pronunciar acerca do fundo” deste problema, logo “constata”. Método original! ...

Que é que “constata” essa original Conferência?

Que a “reivindicação” da autonomia nacional-cultural “não se choca com o sentido preciso” do programa em que se reconhece o direito de autodeterminação das Nações.

Examinemos esta tese.

O ponto sobre autodeterminação fala dos direitos das nações[99]. De acordo com ele, as nações têm direito não só à autonomia como à separação. Aqui se trata da autodeterminação política. A quem quiseram enganar os liquidacionistas, tentando interpretar à sua maneira este direito de autodeterminação política das nações, estabelecido desde há muito na social-democracia internacional?

Ou será que os liquidacionistas querem fazer passar o contrabando graças ao sofisma de que a autonomia “não é contrária” aos direitos das nações? Isto é: que se todas as nações de um Estado se põem de acordo para organizar-se segundo os princípios da autonomia nacional-cultural, este conjunto de nações tem o perfeito direito de fazê-lo e ninguém pode impor-lhe pela fôrça outra forma de vida política. É uma coisa ao mesmo tempo nova e engenhosa. Por que não acrescentar que, em geral, as nações tem o direito de revogar a sua própria Constituição, de substituí-la por um sistema de arbitrariedade, de retroagir à velha ordem de coisas, pois as nações e somente elas têm o direito de determinar seus próprios destinos? Repetimos: nesse sentido nem a autonomia nacional-cultural nem nenhuma outra classe de reacionarismo nacional "vai de encontro” aos direitos das nações.

Não era isso que queria dizer a respeitável Conferência?

Não, não era isso, Era simplesmente que a autonomia nacional-cultural “não vai de encontro” aos direitos das nações, senão “do sentido preciso” do programa. Aqui se trata do programa e não dos direitos das nações.

E é lógico. Se à Conferência dos liquidacionistas se tivesse dirigido uma nação qualquer, poderia a Conferência ter constatado naturalmente que esta nação tinha direito à autonomia nacional-cultural. À Conferência não se dirigiu uma nação, mas uma “delegação” de social-democratas caucasianos, maus social-democratas, é certo, porém social-democratas. E eles não perguntaram sobre os direitos das nações, porque a sua pergunta foi sobre se a autonomia nacional-cultural contradizia os princípios da social-democracia, se “era contra” o sentido preciso do programa da social-democracia.

Assim, pois, os direitos das nações e o “sentido preciso” do programa da social-democracia não são uma coisa só.

Evidentemente há reivindicações que, embora não se choquem com os direitos das nações, podem chocar-se com o “sentido preciso” do programa.

Um exemplo. No programa dos social-democratas figura um ponto sobre a liberdade religiosa. De acordo com ele, um grupo qualquer de pessoas tem o direito de professar uma religião qualquer: o catolicismo, a religião ortodoxa, etc. A social-democracia lutará contra toda a opressão religiosa, contra as perseguições a ortodoxos, católicos, protestantes. Quer isto dizer que o catolicismo, o protestantismo, etc., “não se chocam com o sentido preciso” do programa? Não, não quer dizer isto. A social-democracia protestará sempre contra as perseguições que tenham por objetivo os católicos e os protestantes, defenderá sempre o direito das nações à prática de qualquer religião, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma compreensão acertada dos interesses do proletariado, fará agitação contra o catolicismo, o protestantismo e a religião ortodoxa, com o fim de assegurar o triunfo da concepção socialista no mundo.

E assim o fará porque o protestantismo, o catolicismo, a religião ortodoxa, etc., sem dúvida alguma, “vão de encontro ao sentido preciso” do programa, isto é, da compreensão acertada dos interesses do proletariado.

E outro tanto se pode dizer a respeito da autodeterminação. As nações têm o direito de organizar-se de acordo com os seus desejos, têm o direito de conservar as instituições nacionais do seu agrado, as perniciosas e as úteis: ninguém pode (ninguém tem o direito!) imiscuir-se pela força na vida das nações. Mas isto não quer dizer ainda que a social-democracia não tenha de lutar, não tenha de fazer agitação contra as instituições nocivas das nações, contra as reivindicações não convenientes das nacionalidades. Pelo contrário: a social-democracia tem a obrigação de manter essa agitação e de influir na vontade das nações de tal modo que estas se organizem da forma que melhor corresponda aos interesses do proletariado. Precisamente por isso, lutando a favor do direito da autodeterminação das nações, levará a cabo, ao mesmo tempo, uma campanha de agitação, por exemplo, contra a separação dos tártaros e contra a autonomia nacional-cultural das nações caucasianas, pois tanto uma como outra, se bem que não colidam com os direitos destas nações, se chocam, no entanto, "com o sentido preciso” do programa, isto é, com os interesses do proletariado do Cáucaso.

Evidentemente, os “direitos da nações” e o "sentido preciso do programa” são duas coisas completamente distintas. Enquanto o “sentido preciso” do programa exprime os interesses do proletariado, formulados cientificamente, os direitos das nações podem exprimir os interesses de qualquer classe, da burguesia, da aristocracia, do clero, etc., com relação à força e influência. Ali são os deveres do marxista, aqui os direitos das nações integradas por diversas classes. Os direitos das nações e os princípios da social-democracia podem “chocar-se” ou não uns com os outros, do mesmo modo, por exemplo, que as pirâmides de Quéops e a Conferência dos liquidacionistas. São, simplesmente, magnitudes incomparáveis.

Daqui se depreende, porém, que a respeitável Conferência confundiu de maneira imperdoável duas coisas completamente distintas. O resultado não é a solução do problema nacional, mas um absurdo em virtude do qual os direitos da nação e os princípios da social-democracia “não se chocam” uns com os outros; e, por conseguinte, toda reivindicação das nações pode tornar-se compatível com os interesses do proletariado; e, por conseguinte, nem uma só reivindicação das nações que aspiram à autodeterminação “se chocará com o sentido preciso” do programa.

Não há transigência com a lógica ...

É também à base deste absurdo que surgiu o já célebre acordo da Conferência dos liquidacionistas, segundo o qual a reivindicação da autonomia nacional-cultural “não se choca com o sentido preciso” do programa.

Mas a Conferência dos liquidacionistas não infringe somente as leis da lógica.

Conspira também contra o seu próprio dever para com a social-democracia da Rússia, ao sancionar a autonomia nacional-cultural. Infringe do modo mais completo o “sentido preciso” do programa, porque é sabido que o II Congresso, em que se aprovou o programa, rechaçou resolutamente a autonomia nacional-cultural. Eis o que nele se disse a propósito:

Golblat (do Bund): ... Considero necessário criar instituições especiais que assegurem a liberdade do desenvolvimento cultural das nacionalidades, razão pela qual proponho que se agregue ao parágrafo 8 o seguinte: “e criação das instituições que lhes garantam plena liberdade para o desenvolvimento cultural (que é, como se sabe, a formulação da autonomia nacional-cultural do Bund. J. St.)

Martinov assinala que as instituições gerais teriam de se organizar de tal modo que garantissem também os interesses privados. Não é possível criar nenhuma instituição especial que assegure a liberdade do desenvolvimento cultural da nacionalidade.

Légorov: Na questão das nacionalidades só podemos adotar proposições negativas, isto é, somos contrários a toda restrição das nacionalidades. Mas a nós, como social- democratas, não nos incumbe o desenvolvimento desta ou daquela nacionalidade como tal. Isto é matéria de um processo espontâneo.

Koltsov: Os delegados do Bund se ofendem sempre que se fala do seu nacionalismo. E, sem embargo, a emenda que propõe o delegado do Bund tem um caráter puramente nacionalista. Exigem de nós medidas puramente ofensivas para defender até aquelas nacionalidades que se vão extinguindo”.

Em resumo, “a emenda de Goldblat foi rechaçada por maioria de votos contra três”.

É claro, pois, que a Conferência dos liquidacionistas "se chocou com o sentido preciso” do programa, infringiu o programa.

Agora os liquidacionistas tentam justificar-se voltando-se para o Congresso de Estocolmo, que, de acordo com eles sancionou a autonomia nacional-cultural. E, assim, V. Kossovski escreve:

“Como se sabe, segundo o acordo adotado no Congresso de Estocolmo, ficou o Bund com a liberdade de conservar seu programa nacional (até a solução do problema nacional no Congresso de todo o Partido). Este Congresso reconheceu que a autonomia nacional-cultural não contradiz, em todo o caso, o programa de todo o Partido”[100].

Mas os esforços dos liquidacionistas são em vão. O Congresso de Estocolmo não pensou sequer em sancionar o programa do Bund, limitando-se simplesmente a deixar de pé, no momento, o problema. O bravo Kossovski não teve o valor suficiente para dizer toda a verdade. Falam, porém, os factos, por si sós. Ei-los:

“É apresentada uma emenda por Galin: “A questão do programa nacional fica de pé, em vista de não ter sido examinada pelo Congresso” (a favor, 50 votos, contra 32).

Uma voz: Que quer dizer: fica de pé?

Presidente: Quando dizemos que a questão nacional fica de pé, isto significa que o Bund pode reservar a sua decisão a respeito desse problema até o próximo Congresso”(101) (sublinhado por nós — J. St.).

Como se vê, o Congresso “não examinou” sequer a questão do programa nacional do Bund: limitou-se a deixá-la "de pé”, concedendo-lhe liberdade para decidir dos destinos do seu programa até ao seguinte Congresso conjunto. Noutros termos: o Congresso de Estocolmo ladeou a questão, não examinou a autonomia nacional cultural nem num sentido nem no outro.

Em compensação, a Conferência dos liquidacionistas aborda da maneira mais completa o estudo do caso, reconhece como admissível a autonomia nacional-cultural e a sanciona em nome do programa do Partido.

A diferença salta aos olhos.

Deste modo, a Conferência dos liquidacionistas, apesar de todos os subterfúgios, não trouxe nenhum progresso para o problema nacional

Ficar na rabeira do Bund e dos nacional-liquidacionistas caucasianos: eis do que se mostraram capazes.

 

Notas

[a] Primeira Edição: “Prosveschenie”, números 3-5 — março-maio de 1913. Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1946. Tradução de Brasil Gerson. Pág: 5-84. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo. Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

[1] O trabalho de Stáline O marxismo e o problema nacional, redigido em fins de 1912 e princípios de 1913, em Viena, foi impresso pela primeira vez em 1913, nos números 3-5 da revista bolchevique Prosveschenie (Ilustração), com a assinatura de K. Stáline e sob o título O problema nacional e a social-democracia. Em 1914, foi editado em folheto sob o título O problema nacional e o marxismo e publicado pela editora Priboy (São Petersburgo). Em 1920, foi reeditado pelo Comissariado para as Nacionalidades numa Coletânea de artigos de Stáline sobre o problema nacional (Editorial do Estado, Tula). Essa coletânea trazia um Prólogo do autor, no qual se expõem as circunstâncias em que foram redigidos os artigos que passam a fazer parte da citada Coletânea.

No Prólogo do autor, referindo-se precisamente a esse artigo — O marxismo e o problema nacional —, Stáline escreve: «... Este artigo reflete um período de discussões de princípios sobre o problema nacional no seio da social-democracia da Rússia, na época da reação czarista e latifundista, ano e meio antes de estalar a guerra imperialista, época do crescimento da revolução democrático-burguesa na Rússia. Defrontavam-se então duas teorias sobre a nação e, portanto, dois programas nacionais: o austríaco, apoiado pelo Bund e pelos mencheviques, e o russo, bolchevique. No artigo, encontrará o leitor a caracterização das duas correntes. Os acontecimentos posteriores, e especialmente a guerra imperialista e o desmembramento da Áustria-Hungria em diferentes Estados nacionais, mostraram com toda evidência de que lado estava a razão. Hoje, quando Springer e Bauer contemplam os escombros do seu programa nacional, já não se pode duvidar de que a história condenou a “escola austríaca”. Até o Bund teve de reconhecer que “a reivindicação da autonomia nacional-cultural (isto é, o programa nacional austríaco — J. St.) formulada nos quadros do regime capitalista, perde o seu sentido sob as condições da revolução socialista” (v.. A XII Conferência do Bund, 1920). O Bund nem ao menos suspeita que com isso reconheceu (e o reconheceu sem querer) a insolvência de princípio dos fundamentos teóricos do programa nacional austríaco, a insolvência de princípio da teoria austríaca da nação».

É a esse artigo de Stáline — O marxismo e o problema nacional — que Lénine se referia quando escreveu a Gorki, na segunda quinzena de fevereiro de 1913: “Encontra-se agora entre nós um magnífico georgiano, que escreve um grande artigo para a Prosveschenie, para cujo fim reuniu todos os materiais austríacos e outros”.

E quando esse trabalho foi publicado, Lénine muito o apreciou no seu artigo Sobre o programa nacional do P. O. S. D. R., nas colunas da revista O Social-democrata, n.º 32, de 28 (15) de dezembro de 1913. Indicando as causas que, naquele período, colocaram o problema nacional em lugar proeminente, Lénine escrevia: “Na literatura doutrinária marxista, essa situação e os fundamentos do programa nacional da social-democracia já foram analisados ultimamente (aqui se destaca, em primeiro lugar, o artigo de Stáline)”.

[95] N., pseudónimo de Noi Jordania, líder dos mencheviques georgianos; foi chefe do governo menchevique da Geórgia e encontra-se atualmente na emigração branca; furioso defensor da intervenção contra a URSS.

[96] No periódico georgiano Tchvieni Tsjovreba (Nossa Vida),[97] 1912, núm. 12.

[97] Tchvieni Tskhovreba (Nossa Vida), jornal diário dos mencheviques georgianos, publicado em 1912, em Kutais. Foram editados 19 números. Os trechos aqui citados são tomados de um dos artigos de N. (Noi Jordania), sob o título de O velho e o novo, publicado nos n.ºs, 11-14 do Tchvieni Tskhovreba.

[98] No periódico georgiano Tchvieni Tskhovreba (Nossa Vida), 1912, núm. 12.

[99] O ponto sobre a autodeterminação que figurava no programa do POSDR, aprovado no II Congresso (1903), diz: “9. Direito de autodeterminação para todas as nações que fazem parte do Estado”.

[100] Nasha Sariá (Nossa Aurora), 1912, núm. 9-10, pág. 120.

[101] Nasha Slovo (Nossa Palavra), 1906, núm. 8, pág. 53.

 

Fonte: publicado em https://www.marxists.org/portugues/stalin/1913/01/01.htm, acedido em 2018/03/09.

 

(a continuar)

 

 

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