Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Ivan Pinheiro * – Entrevista (1.ª parte)

 

[A entrevista é publicada em 2 partes. Hoje, publica-se a primeira]

Entrevista concedida por Ivan Pinheiro (membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro – PCB ) para o Portal PCB/SC [Partido Comunista Brasileiro/Comité Regional de Santa Catarina – NE], na qual ele analisa o cenário político internacional, o governo Bolsonaro e aponta os desafios colocados para a classe trabalhadora na construção de uma alternativa revolucionária.

Segundo Ivan: “Para reverter essa correlação de forças desfavorável e avançar na luta é necessário combater as ilusões em soluções institucionais, jogar toda a energia militante na conscientização, organização e mobilização dos trabalhadores e das camadas populares e promover, no campo da esquerda socialista, um urgente debate com o objetivo de unificar e politizar a luta comum”.

 

 

ivan-1.jpg

PCB/SC: Vamos começar falando sobre a conjuntura mundial. Como você tem observado o conflito entre os Estados Unidos e a China? Há uma nova configuração do imperialismo no atual momento histórico?

Ivan: O conflito entre os Estados Unidos e a China, na atualidade em forma de acirradas disputas geopolíticas e econômicas, é a expressão maior do agravamento das contradições interimperialistas com o fim do mundo unipolar que, a partir da contrarrevolução na União Soviética (1991) garantira aos Estados Unidos uma hegemonia absoluta em todos os aspectos, por cerca de duas décadas.

O fator mais perigoso desta acirrada disputa multipolar, em que, a grosso modo, polarizam Estados Unidos/União Europeia e China/Rússia, é a volta da corrida armamentista, que pode levar a conflitos militares de enormes proporções. Grandes guerras sempre foram inevitáveis em todos os momentos da história marcados por mudanças na hegemonia mundial, como este em que vivemos na atualidade, ainda mais dramatizado pela crise sistêmica do capitalismo. 

Esse quadro nos coloca novamente diante da questão da paz e da guerra. Para os revolucionários, volta à ordem do dia a luta contra as guerras imperialistas, pela paz entre os povos, não entre as classes.

A crise mundial do capitalismo acirra as disputas entre os grandes monopólios por matérias primas, tecnologia, mercados, rotas e territórios e, entre os principais países e blocos imperialistas, por hegemonia nos campos econômico, político, cultural e militar. 

Sem pretender aqui alimentar qualquer ilusão de que essa multipolaridade torne a ONU “democrática” e “progressista” e muito menos que favoreça as revoluções socialistas, considero que seu aspecto positivo é que o imperialismo estadunidense já não pode mais tomar atitudes unilaterais, como ocorreu em suas covardes agressões ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia, em aliança com potências europeias (OTAN), sempre precedidas de mentiras e manipulações para satanizar os governos locais e tendo como objetivos a venda de mais armas, a ocupação de territórios estratégicos, o saque das riquezas naturais dos povos.

Na sua última aventura militar, os EUA já não puderam mais se valer do até então silêncio cúmplice e conciliador da Rússia e da China, no Conselho de Segurança da ONU. A Síria deve sua sobrevivência como país à mudança de atitude dessas duas potências, cujos interesses geopolíticos estavam sendo ameaçados, sobretudo no Oriente Médio.

Tendo sofrido na Síria uma grande derrota política e militar, o imperialismo estadunidense volta agora as armas de suas guerras híbridas contra países que não abrem mão de sua soberania e dispõem de imensas reservas de petróleo, como o Irã e a Venezuela.

É inegável que a ação da Rússia e da China, cada qual à sua maneira, tem sido fundamental para confrontar e, em alguns casos, conter o ímpeto do imperialismo estadunidense, como foi o caso de sua postura de recuo frente à Coreia do Norte. Devemos saudar este fato, mas sem ilusões, pois o motor desta ação são os interesses econômicos e geopolíticos destas duas grandes potências, também imperialistas, e não o exercício do internacionalismo proletário! Nesse contexto, cabe aos comunistas saber aproveitar as contradições interimperialistas para avançar o processo revolucionário em cada país.

PCB/SC: Um dos fenômenos que observamos como consequência da crise capitalista originada em 2007/08 é que a burguesia passou a apostar em alternativas capitaneadas pela extrema-direita como saída para os seus problemas. Como você observa esse processo no contexto internacional?

Ivan: Para enfrentar os efeitos da crise, que impactam negativamente a taxa de lucro e a reprodução do capital,  as burguesias vêm adotando medidas que afetam de forma dramática os interesses dos trabalhadores e das camadas populares, como o arrocho salarial, a destruição de direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, o saque ao orçamento e ao patrimônio público, uma pauta que acirra as contradições entre o capital e o trabalho e, por conseguinte, a luta de classes.

É duro termos de reconhecer que, em âmbito mundial, essa ofensiva se dá num momento em que o reformismo predomina em relação às forças revolucionárias e que a hegemonia do capital é de tal ordem que sua máquina de propaganda chega a convencer parcelas da classe trabalhadora a aceitar o discurso da “responsabilidade fiscal” como forma de garantir seus empregos, atuais ou futuros, ainda que com menos direitos.

Para tentar levar a efeito essas medidas, o estado burguês precisa restringir as liberdades democráticas conquistadas e fortalecer seu aparato de repressão, a fim de intimidar e conter as lutas em defesa dos direitos ameaçados. Medidas e leis repressivas vêm sendo adotadas na maioria dos países, em graus diferenciados, a depender das necessidades e possibilidades das suas classes dominantes, da cultura política do país e da correlação de forças. 

Entretanto, nem sempre a burguesia precisa se valer de alternativas de extrema-direita, simplesmente porque já exerce uma confortável hegemonia política e cultural em todos os principais poderes e instituições, estatais ou sociais, de fato e de direito. Na grande maioria de países, a melhor forma de dominação continua sendo a velha e ilusória democracia burguesa, um instrumento flexível para administrar a vigência e o grau das chamadas liberdades democráticas e cuja principal arma são as eleições periódicas, que lhe conferem legitimidade e legalidade. 

Arrisco dizer que os atuais governos mais notórios de extrema direita não eram as opções prioritárias dos setores hegemônicos das respectivas classes dominantes. Venceram na margem de erro de cada eleição. Na Itália, Polônia e Hungria, exemplos mais visíveis, o que pesou mais na eleição de candidatos de extrema-direita foi o discurso contra os imigrantes, alimentado por um nacionalismo xenófobo. O mesmo fator resultou num crescimento da ultradireita nas recentes eleições do Parlamento Europeu. No Brasil, Bolsonaro só passou a ser apoiado pelo capital depois que ficou claro que nenhum dos seus candidatos mais confiáveis (Alckmin, Meirelles, Amoedo) iria para o segundo turno, pois o objetivo, em razão da crise, era descartar a conciliação de classe petista. 

PCB/SC: Na América Latina, governos de direita e extrema-direita ganharam força nos últimos anos. No entanto, a Venezuela tem conseguido manter a denominada Revolução Bolivariana resistindo à ofensiva de um forte ataque externo, capitaneado pelos EUA. Como você analisa esse cenário?

Ivan: A América Latina, considerada o quintal dos fundos do imperialismo estadunidense, em que – com a gloriosa exceção de Cuba Socialista – todas as aspirações e possibilidades de soberania e progresso social foram sufocadas pelos Estados Unidos, torna-se hoje um fator importante na cena mundial e um dos palcos das disputas interimperialistas. O resultado da ofensiva que os Estados Unidos movem contra a Venezuela terá importante impacto na correlação de forças mundial e sobretudo na América Latina. Por isso, independentemente de qualquer restrição que possamos fazer aos rumos atuais do processo bolivariano, nossa solidariedade não pode faltar ao povo venezuelano, em especial às suas organizações revolucionárias.

Muitos motivos levam os EUA a não desistir da tentativa de derrubar o governo do PSUV, hoje encabeçado por Maduro, e entregá-lo aos setores da oligarquia venezuelana que lhes são servis. Tentam isso desde 2002, quando sequestraram Hugo Chávez e o levaram para uma base militar e as massas ganharam as ruas exigindo sua libertação e sua volta ao governo. Nunca deixaram de conspirar, provocar ações violentas, satanizar o processo e suas lideranças e, principalmente, boicotar a economia venezuelana, de todas as formas possíveis, para jogar o povo e a opinião pública mundial contra o governo. Mas agora a instabilidade se agravou e estamos às vésperas de um desfecho. Nesse sentido, devemos denunciar as tentativas de golpe de Estado do imperialismo estadunidense e das classes dominantes venezuelanas para derrubar o Governo Maduro. 

Além de ser palco do processo de mudanças que mais avançou em termos sociais e políticos na região, o país dispõe de uma das maiores reservas de petróleo (próximas ao território norte-americano),  é uma referência para os povos latino-americanos, desenvolve intensas relações bilaterais de colaboração com Cuba e, além do mais, é a principal porta de entrada de capitais russos e chineses na América Latina. 

Como dissemos anteriormente, não podemos subestimar o respaldo que a Venezuela bolivariana vem recebendo da Rússia e da China, sem o qual o Conselho de Segurança da ONU já poderia ter autorizado uma intervenção militar dos Estados Unidos, com o respaldo de países sul-americanos governados pela direita, que compõem o chamado Grupo de Lima. Mas não se pode confiar cegamente em potências estrangeiras, cujos interesses estratégicos podem levá-las a mover suas peças no tabuleiro global. 

Não podemos subestimar também o apoio, até aqui determinante, das Forças Armadas venezuelanas, mas sem deixar de levar em conta a possibilidade de um eventual agravamento da crise econômica e social, que torne o país ingovernável, levá-las a outros caminhos, inclusive próprios. 

As forças revolucionárias venezuelanas exigem corretamente que o socialismo deixe de ser apenas fonte de discursos e promessas e comece a ser construído de fato, com a formação de uma frente revolucionária e a adoção de medidas como a urgente estatização do sistema financeiro e dos monopólios privados e a industrialização do país, sob controle dos trabalhadores, para garantir a substituição de importações e pôr fim à dependência exclusiva do petróleo, geradora do rentismo parasitário da burguesia, incluindo sua parcela incrustada no governo, principal fator de contenção de novos avanços e de práticas de corrupção, inerente ao sistema capitalista, ainda vigente no país.  Só é possível enfrentar a grave crise (agravada pelo imperialismo e as oligarquias locais), com medidas socializantes e não com paternalismo e as políticas compensatórias que têm prevalecido. 

Definitivamente, o fator decisivo será a capacidade do processo de mudanças radicalizar, no sentido da revolução socialista e da tomada do poder do estado burguês.  

Vítima de guerra econômica que provoca desabastecimento, queda na qualidade nos serviços públicos e inflação galopante e tendo sofrido neste ano apagões elétricos e tentativas de golpe – a “ajuda humanitária” nas fronteiras com Brasil e Colômbia e a “sublevação militar” em Altamira – e em meio a uma correlação de forças na América Latina altamente desfavorável, o bolivarianismo ainda sobrevive porque os trabalhadores e as camadas populares valorizam as conquistas reais que tiveram, sobretudo nas áreas da saúde, habitação, educação. Mas, neste momento complexo e decisivo, o apoio popular só será garantido com a radicalização do processo.

Se não for superada a crise política, social e econômica, não podemos subestimar a possibilidade de um retrocesso político na Venezuela, seja através de algum novo golpe de direita mais forte ou  da conciliação em torno de um pacto de “união nacional” com a oposição, como sugerem os diálogos mediados pela Noruega, mas que podem também ser rompidos em razão da oposição que vêm gerando nos setores mais radicalizados dos dois lados, ou seja, à esquerda de Maduro e à direita do fantoche ianque Guaidó, o que poria fim à trégua tácita e instável que assistimos hoje.

Não se pode descartar também a possibilidade de uma insurreição ou mesmo guerra civil, levando-se em conta que há setores organizados e armados tanto nas classes dominadas como nas dominantes. Sejam quais forem os desdobramentos da crise venezuelana, jogará um papel significativo o principal legado do chavismo: a conscientização do proletariado e a grande rede de organizações de massa, os coletivos, brigadas e comunas, uns criados de cima para baixo e outros de forma independente, a partir das bases. 

Apesar de tudo, a heroica sobrevivência do processo de mudanças na Venezuela bolivariana – a despeito de seus limites – é uma referência importante para refletirmos sobre as razões das recentes derrotas de governos classificados como progressistas em nosso continente, alguns em processos eleitorais e outros por variadas formas de golpes, todos exatamente por não terem promovido as mudanças que haviam prometido.

Na Venezuela bolivariana não se trata apenas de governos “progressistas”, como os que administram o capitalismo prometendo humanizá-lo e que caem porque essa é uma tarefa impossível. Trata-se de um processo de mudanças radicalizado, com acentuado viés anti-imperialista, e que resultou em conquistas reais a favor das camadas populares, no fim do monopólio da mídia burguesa, no avanço da conscientização e da organização das massas.

PCB/SC: Fale então um pouco mais sobre o aparente esgotamento do ciclo dos chamados governos “progressistas” na América Latina.

Ivan: Além do Brasil, que merece uma reflexão específica, em dois outros países do nosso continente governos progressistas foram derrubados por golpes de estado: Honduras (2009) e Paraguai (2012). Nas duas ocasiões, estive pessoalmente em missão de solidariedade, em nome do PCB.

Como em todos os golpes de estado na América Latina, o imperialismo norte-americano teve papel determinante nestes episódios, em aliança com as oligarquias locais. Em Honduras, essa presença foi às claras. Manuel Zelaya, um burguês progressista e nacionalista que havia se aproximado de Hugo Chávez e da ALBA, foi retirado à força da sede do governo por militares e levado preso a uma base dos EUA no próprio território hondurenho. A resistência popular foi massiva e aguerrida, mas acabou derrotada por violenta repressão e, não podemos deixar de registrar, pela falta de uma vanguarda revolucionária que conduzisse a luta para além do espontaneísmo. Pelas mesmas razões, uma possível insurreição popular foi derrotada em Honduras recentemente.

No Paraguai, o golpe parlamentar que derrubou Fernando Lugo foi rápido e sem muita resistência.  Apesar de seu governo ter gerado grandes mobilizações populares e uma inédita frente política e social de esquerda, o próprio Presidente, humanista e pacifista, que fora Bispo da Igreja Católica, acatou publicamente a decisão do Senado pelo seu impedimento, em um processo forjado que tramitou a toque de caixa, em menos de uma semana. 

Em outros países, governos tidos como progressistas assumiram e caíram através de eleições e – ouso aqui levantar uma hipótese – muitos deles poderão voltar ao governo pela mesma via, provavelmente menos progressistas, pagando preços mais altos em termos de alianças com setores da burguesia para tentar garantir a governabilidade institucional, inclusive podendo aplicar certas políticas de “austeridade fiscal”, de forma menos rápida e profunda, em comparação a governos de direita.

Ocorre que, no quadro da crise sistêmica do capitalismo, vem se consolidando em muitos países uma bipolaridade política entre forças que administram o capital. Numa época em que caracterizações políticas precisam ser relativizadas, podemos usar um vasto cardápio para classificar essa bipolaridade em cada país, tais como centro-esquerda, socialdemocratas, reformistas ou progressistas X direita, centro-direita, neoliberais ou conservadores. O certo é que as diferenças entre estes polos vêm diminuindo. Por vezes, mudam os nomes de candidatos e mesmo os de partidos ou frentes. Mas não mudam o fato de que são duas alternativas que cabem perfeitamente nos limites da democracia burguesa e do capitalismo e que tendem a se revezar, na chamada “alternância do poder”, que prefiro chamar de alternância de governo, já que, através de eleições, nunca está em jogo o poder do estado burguês.

Essa alternância se dá porque, em geral, o governo de turno é derrotado em eleição seguinte, por não ter podido cumprir as promessas que fez em campanha para superar o desemprego, a pobreza, a insegurança, os péssimos serviços públicos. 

No Chile, a alternância tem se dado de forma monótona, com os mesmos personagens e partidos, a quatro eleições seguidas: Bachelet (2006), Piñera (2010), Bachelet (2014) e Piñera (2018). Michelle Bachelet é um bom exemplo de outro fenômeno: a degeneração ideológica e a cooptação ao sistema que gera o exercício da administração do capitalismo. Depois de dois mandatos como Presidente, o segundo menos progressista que o primeiro, tornou-se Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos e acaba de divulgar um relatório parcial e mentiroso sobre a situação na Venezuela, prestando um relevante serviço ao imperialismo norte-americano. 

Na Argentina, o revezamento deve se dar nas eleições agora em outubro. Cristina Kirchner despontava como favorita em todas as pesquisas. No entanto, satanizada como progressista radical, decidiu formar uma chapa que sugere moderação, em que ela vem como vice de Alberto Fernández (bem aceito pelo “mercado”), na denominada Frente de Todos. Ao que tudo indica, o ultraliberal Macri poderá ser derrotado, porque não aconteceu o “milagre econômico” que havia prometido. Nesse caso, o próximo governo argentino tende a ser mais pragmático e menos progressista que os dos Kirchners (Néstor e Cristina).

No Equador, a alternância se deu de maneira surpreendente. Rafael Correa, em seu primeiro mandato como Presidente (2007/2012), convocou uma Constituinte soberana, promoveu algumas mudanças e desafiou o imperialismo norte-americano, despejando-o da base militar de Manta, a maior da América Latina. Após um segundo mandato (2012/2017) em que não deu continuidade às mudanças nem preparou um sucessor progressista – e sem poder legalmente candidatar-se a uma segunda reeleição – Correa se viu obrigado a apoiar a candidatura de Lenin Moreno, que havia sido seu Vice-Presidente, numa aliança com setores burgueses. Depois de eleito e empossado, em 2018, Lenin (que ironia!) devolveu a base de Manta aos EUA, juntou-se aos governos de direita da região contra a Venezuela bolivariana e atualmente se soma a uma campanha de criminalização de Rafael Correa, para que este, como Lula, não possa ser candidato às próximas eleições. Qualquer semelhança com Michel Temer, que era o vice de Dilma Rousseff, não é mera coincidência!

Em razão do desgaste e da acomodação política causados pelos limites da administração do capitalismo, até mesmo dois governos progressistas longevos – Uruguai (desde 2005) e Bolívia (desde 2006) – estão às voltas com as mais difíceis eleições que disputaram e que ocorrerão este ano. Ambos já procuram parecer mais moderados. No caso do Uruguai, o ex-Presidente Pepe Mujica e o novo candidato da progressista Frente Ampla (Daniel Martínez) vêm declarando publicamente que o governo Maduro é uma ditadura! No caso da Bolívia, que avançou positivamente em muitas mudanças políticas e sociais e resistiu com o povo nas ruas a várias tentativas golpistas, Evo Morales tem adotado atitudes regressivas, como prestigiar pessoalmente a posse de Bolsonaro, aceitar a redução do preço do gás que a Bolívia vende ao Brasil e negar asilo político a Cesare Battisti, o que obviamente resultou na sua entrega à polícia brasileira e sua extradição para a Itália, onde cumpre prisão perpétua. 

No México, a eleição do progressista López Obrador reforça a tese da alternância de governo. Esse fenômeno ultrapassa as fronteiras da América Latina. Para ficar entre os países sobre os quais temos mais informações, esse revezamento bipolar da administração do capitalismo vem acontecendo na França, Espanha, Portugal, Itália e na Grécia, onde o socialdemocrata Syriza acaba de ser derrotado pela centro-direita, depois de ter implantado as políticas de austeridade fiscal ditadas pela Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia).

É evidente que a esquerda revolucionária não prefere um governo de direita, na lógica do “quanto pior, melhor”, na suposição de que “acentua as contradições e abre caminho para a revolução socialista”. Em qualquer circunstância, o que pode levar à revolução socialista é a conscientização, organização e capacidade de luta do proletariado e a presença de uma consistente vanguarda revolucionária. 

Por outro lado, mesmo não sendo prioridade, não devemos subestimar os processos eleitorais, momentos importantes para fazer o trabalho político e ideológico junto aos trabalhadores, apresentar nossas propostas, táticas e estratégicas, denunciar a exploração capitalista e o jogo marcado da democracia burguesa, objetivos que recomendam nossa participação com identidade própria, mesmo que em coligação com outras forças. Se as circunstâncias nos levarem a apoiar um candidato que signifique um “mal menor”, não podemos deixar de dizer aos trabalhadores, com todas as letras, que se trata do “menos ruim”! 

PCB/SC: Você não falou da Colômbia. Como vê a situação por lá, após o acordo de paz assinado pelas FARC-EP?

Ivan: Pois é, camaradas. Estávamos tratando de alternância de governo, que na história da Colômbia só se deu até hoje entre facções da oligarquia, entre a direita e a ultradireita.

Mesmo para quem acompanhou relativamente de perto os Diálogos de Havana, é difícil entender e fazer um juízo de valor sobre a abrupta decisão das FARC-EP de aceitar a exigência de entrega prévia das armas para assinar o “acordo de paz”. Essa alterativa nunca foi aventada em toda a história invicta deste partido comunista em armas. Uma hipótese que pode justificar esta decisão é a de que houvesse um risco iminente de derrota militar, em função de um certo desequilíbrio que vinha causando o uso de novas tecnologias (mísseis “inteligentes”, drones, chips etc.) por parte de um poderoso aparato militar, treinado e armado pelo imperialismo norte-americano, que dispõe de nove bases no país. Agora membro associado da OTAN, a Colômbia é uma cabeça de ponte dos EUA, localizada estrategicamente entre as Américas do Sul e Central e de frente para o Caribe, uma espécie de Israel em nosso continente.

A dissidência que se cristaliza entre os antigos comandantes guerrilheiros, e que vai se tornando pública, certamente em algum momento jogará luz sobre as circunstâncias políticas em que se deu aquela decisão, que surpreendeu a todos, inclusive às forças políticas solidárias. Há a hipótese também de alguma influência das ideias reformistas e socialdemocratas que grassam na esquerda mundial, inclusive em parte do movimento comunista, nomeadamente as ilusões eleitorais e institucionais.

Independente das razões que levaram a este desfecho, penso que esta foi a pior derrota que tivemos na América Latina nos últimos tempos. Diferentemente de derrotas eleitorais, que sempre podem ser revertidas, esta é uma derrota política e ideológica de longo alcance, para além da Colômbia.  Uma das consequências foi deixar desguarnecida a extensa fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, onde era muito forte a presença militar das FARC, o que pode facilitar a infiltração de paramilitares ou soldados regulares colombianos, uma das alternativas dos EUA contra a Venezuela bolivariana.

Alguns dos antigos comandantes têm se pronunciado publicamente de forma autocrítica. Iván Márquez recentemente classificou como inocência política a forma da entrega das armas e a desmobilização, enquanto Jésus Santrich, vítima de uma farsa judicial com tentativa de extradição aos EUA, vinha denunciando o extermínio de ex-guerrilheiros e militantes sociais, tendo aconselhado publicamente o ELN (Exército de Libertação Nacional) a não entregar suas armas nos marcos das negociações que mantém com o governo colombiano, atualmente suspensas por este. Encontrando-se na mira do estado colombiano, correndo iminente risco de vida, há notícias de que ambos se encontram foragidos. 

É preciso deixar claro que a crítica aqui não é por considerar que as FARC-EP deveriam manter a mesma forma de luta armada até à vitória final, a que jamais chegariam por esta única via, ou seja, se não contassem com um amplo e combativo movimento de massas e uma vanguarda revolucionária nas grandes cidades e entre o campesinato. Foi correto compor a mesa de diálogos com o governo, para a busca de uma “solução política do conflito”, no conceito da insurgência, que sempre evitou a expressão “acordo de paz” (usada pelo governo), já que não há paz na luta de classes, ainda mais num estado terrorista como o colombiano. Foi correto buscar uma solução para o conflito que durante toda a sua história de mais de 50 anos custou a vida apenas de filhos do proletariado, nos dois lados em armas. Durante os diálogos em Havana, houve um extraordinário crescimento do movimento de massas, já que as FARC-EP haviam se transformado em porta-voz das reivindicações populares, muitas delas contempladas no documento assinado entre as partes, mas em sua maioria tornadas letras mortas.

O açodamento e principalmente a forma da desmobilização da insurgência abriram espaço para o governo descumprir e inviabilizar a aplicação dos principais pontos acordados, o que provocou desilusão e descrédito no povo colombiano e o consequente refluxo do movimento de massas. Tratou-se de uma cilada, uma paz de cemitérios. Ao invés da idealizada conciliação nacional, assistimos hoje ao recrudescimento do terrorismo de estado. Desde a desmobilização, já foram assassinados centenas de militantes sociais e mais de 140 ex-guerrilheiros, enquanto o Estado lava as mãos, atribuindo os crimes ao paramilitarismo.

Não serviu de exemplo o comportamento histórico da oligarquia colombiana, que descumpriu todos os compromissos assumidos com diversas guerrilhas, inclusive com as próprias FARC, que, após um acordo com o governo Belisário Bitencourt, se desmobilizaram parcialmente e, em 1985,  juntamente com o Partido Comunista Colombiano, criaram um partido legal, a União Patriótica. Após as eleições de 1986, em que a UP teve um bom desempenho, elegendo 5 senadores e 14 deputados, além de prefeitos e vereadores, começou um extermínio, atribuído a grupos paramilitares, que resultou no assassinato de 4.000 militantes, no episódio que a oligarquia batizou cinicamente de El Baile Rojo. 

(continua)

* Ivan Pinheiro é associado da “ISKRA – Associação de Estudos Marxistas-Leninistas”

Fonte: https://pcbsc.wordpress.com/2019/08/07/o-mundo-a-america-latina-e-o-brasil-na-opiniao-de-um-comunista/, publicado e acedido em 2019/08/07



 



 

 

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.