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Elisseos Vagenas *

[Este artigo é publicado em 2 partes; hoje, publica-se a segunda]

Enquanto a contradição entre capital-trabalho não for resolvida a nível nacional, regional e global, enquanto as novas potências emergentes forem movidas pelo desejo do capital por novos mercados e matérias-primas, não teremos mudanças radicais. Os Estados que ganham terreno no sistema imperialista internacional não podem desempenhar o papel que a URSS desempenhou no passado, porque operam na base do superlucro para os seus próprios monopólios. Isto é verdadeiro também para a China e não pode ser negado apenas porque ela tem uma bandeira vermelha e o partido dirigente tem o nome de “comunista”.

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(continuação)

A situação hoje                                                                              

Voltemos ao presente. Hoje, com o desenvolvimento e o predomínio das relações capitalistas de produção na China, com a sua participação em organizações imperialistas como a OMC e a sua assimilação ao sistema imperialista, a sua postura não difere da das potências imperialistas. Quaisquer divergências que tenha com os EUA estão relacionadas com a “divisão do saque”, existindo ao mesmo tempo uma “harmonia” sobre a questão dos direitos laborais, que estão a ser reduzidos para o “bem” da economia de mercado, e também contra os Estados cuja ação ofende qualquer um dos monopólios das principais potências imperialistas.

Um exemplo é a atitude da China em relação ao programa nuclear iraniano. Como sabemos, a China desenvolveu uma estreita cooperação económica com o Irão, um dos seus fornecedores básicos de petróleo. Apesar dessa cooperação, em setembro de 2010, a China, assim como a Rússia, uniram-se aos EUA, França, Alemanha e Grã-Bretanha (“o grupo dos 6”) na questão do programa nuclear do Irão, exigindo que este país recuasse e aceitasse as condições do Conselho de Segurança da ONU relativas ao seu programa nuclear. No início de junho de 2010, a China concordou, no Conselho de Segurança da ONU, com novas sanções contra este país [35]. 

Um segundo exemplo é a postura da China em relação ao Kosovo. Mesmo que a China e outras potências imperialistas ainda não tenham reconhecido oficialmente o Kosovo, é importante notar que, no Conselho de Segurança da ONU, não teve uma posição consistente e decisiva contra o ataque da NATO nos Balcãs, e se absteve de votar a missão de manutenção a paz, na qual a NATO desempenha um papel de liderança (a notória KFOR) [36], tendo posteriormente participado na ocupação desenvolvida pela NATO com o envio de forças policiais.

Além disso, em 2010, tivemos a miserável decisão do Tribunal Internacional de Haia, que decretou que a declaração de independência do Kosovo não violava o direito internacional. Alguns juízes tiveram uma posição diferente em relação a esta decisão tão importante. Assim, os juízes da Rússia, Eslováquia, Brasil e Marrocos opuseram-se à legitimação do Kosovo, que foi apoiada pelos juízes dos EUA, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha, México, Nova Zelândia, Serra Leoa, Somália e Jordânia. Como se menciona nos documentos publicados, o juiz chinês não participou nesta importante decisão que visa alterar as fronteiras nos Balcãs, abrindo uma “caixa de Pandora” para o fomento de outras polémicas relacionadas com as minorias nacionais, por causa de “questões processuais” [37]. A isto seguiu-se o apelo da Albânia a Pequim para que reconhecesse a independência de Kosovo e usasse a sua influência no Conselho de Segurança da ONU para que outros Estados membros apoiassem também o seu reconhecimento [38].

Um terceiro exemplo é a visita do primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, à Grécia, em outubro de 2010. No seu discurso ao parlamento grego, o primeiro-ministro chinês afirmou que a China apoia um euro estável, porque “acreditamos que um euro unido e uma Europa forte podem desempenhar um papel insubstituível no desenvolvimento mundial” e acrescentou que sentiu “alegria ao ver a Grécia escapar da sombra da sua dívida externa, reduzindo o seu défice e abrindo perspetivas para o seu desenvolvimento económico” [39]. Nessas duas frases, o primeiro-ministro da China e membro titular da Comissão Política do CC do PC da China, conseguiu resumir o apoio da liderança do seu país ao centro imperialista europeu da UE e ao governo social-democrata do PASOK, que a pretexto de reduzir o défice está a implementar um severo programa antipopular para reduzir o custo da força de trabalho na Grécia.

A liderança chinesa assinou uma série de acordos com o governo grego, que constituirão uma fonte de lucros para certos setores da plutocracia grega e nada mais. O notório investimento chinês de 5 biliões nada mais é do que um tiro no braço para os armadores gregos que servem a indústria de construção naval da China, bem como o seu objetivo de maior penetração no mercado europeu através da Grécia. A construção, o uso e a operação de portos e linhas ferroviárias, assim como a infraestrutura de construção naval por parte dos monopólios chineses e de certas empresas gregas, intensificarão o desenvolvimento desigual à custa das necessidades do povo. A expansão e o fortalecimento da atividade do capital em infraestruturas cruciais, em combinação com políticas antipopulares, levou ao embaratecimento da força de trabalho, à degradação dos direitos dos trabalhadores e à redução de salários. As exportações de azeite vão beneficiar apenas os grandes empresários que as controlam e não os camponeses pobres, cuja situação se deteriora continuamente. No entanto, esta visita foi aproveitada pelo governo “social-democrata” do PASOK com o objetivo de fazer crer às camadas populares que, graças aos investimentos chineses (assim como aos do Qatar, Israel etc.) haverá desenvolvimento e consequentemente o PIB e também as migalhas que caem da mesa dos capitalistas para o povo aumentarão. Na realidade, é claro, que estamos a falar sobre a perspetiva de uma saída capitalista da crise, que não reduzirá o desenvolvimento em favor do grande capital, nem a pobreza do povo e o desemprego. Estamos a falar de um desenvolvimento que mina as capacidades produtivas do nosso país e o envolve em perigosas rivalidades imperialistas. De qualquer modo, certamente, não podemos falar sobre a “contribuição internacionalista” da China para a luta do povo grego.

Finalmente, o Partido Comunista da China pode, por enquanto, manter o nome de “partido comunista”, mas é sabido que desenvolveu laços estreitos com a Internacional Socialista. Em 2009, o PCC organizou em Pequim um seminário conjunto com a Internacional Socialista, com o tema “um modelo de desenvolvimento diferente, o da economia verde”. No seu discurso, o presidente do PASOK e da Internacional Socialista, G. Papandreou, expressou “o desejo da Internacional Socialista de fortalecer ainda mais as relações entre as duas partes, o que é comprovado pelo seminário de hoje” [40]. A questão da “cooperação mais ampla no âmbito da Internacional Socialista” também foi discutida durante a reunião entre o PASOK e o PCC, em julho de 2010 [41].

Em 2009,  foi lançado na China o livro “China is not Happy”  [A China não está feliz] [42], que trata da posição da China no mundo (em três meses vendeu 700.000 exemplares e muitos milhões mais depois). Entre outras coisas, afirma:

Somos as pessoas mais adequadas para assumir a liderança mundial”. Visto que, como argumenta, a China administra os recursos naturais globais de maneira mais eficiente do que qualquer outro país, então deveria assumir a liderança global. Observa também que o exército chinês deve defender a soberania do país fora das suas fronteiras, olhando para os países onde a China tem “interesses fundamentais” a defender [43] . Ou seja, propõe a mobilização do exército chinês para os locais onde o capital chinês atua. Devemos lembrar-nos de que a China desempenha um papel ativo na chamada “guerra contra a pirataria” (na “Declaração Conjunta” [44] assinada entre o governo grego e a China, durante a recente visita do primeiro-ministro chinês à Grécia, o governo grego agradeceu à China a proteção dada pela Marinha chinesa aos navios gregos em águas da Somália), na tentativa de controlar importantes passagens navais militares internacionais.

Nos livros citados há uma discussão sobre a “necessidade de espaço vital” para a China e são apontadas as vastas extensões da Sibéria que “devem ser cultivadas pelo grande povo chinês” [45].

Nem é preciso dizer que um tal livro não poderia ser lançado na China hoje sem a aprovação do PCC. Para quem duvida, basta olhar para o que dizia o órgão do CC do PCC, o “Diário do Povo”: “Aparentemente, a China está disposta a colocar o Extremo Oriente russo sob a sua influência fundamental, mas de forma a não alarmar Moscovo. A força dessa influência não será baseada num afluxo em grande escala de colonos chineses, mas na súbita ‘chinização’ dos russos ... Um belo dia haverá uma grave crise e, em face da enfraquecida influência política e militar de Moscovo, esses russos podem recorrer a Pequim e não ao seu próprio governo. Em tal situação hipotética, o Extremo Oriente russo poderia tornar-se uma província da China” [46].

Em consonância com o que foi dito, devemos lembrar que no início de agosto de 2010 o representante do Ministério da Defesa do Vietname, Nguen Fwong Nga, fez a seguinte declaração: “O Vietname exige que a China cesse imediatamente as suas violações da soberania do Vietname” [47]. No Mar do Sul da China, onde existem depósitos de energia, surgiram “zonas cinzentas” e regiões de soberania disputada.

É claro que no quadro da competição surgem os “eixos” da cooperação e os “antieixos”. Assim, podemos ver que o primeiro-ministro da Itália, Berlusconi, que habitualmente se refere a todo o oponente político com a grave acusação de…. “comunista”, não tem problemas em iluminar o Coliseu de Roma com a cor vermelha “comunista” em homenagem ao Primeiro Ministro chinês, que visitou a “Cidade Eterna” com o objetivo de duplicar o comércio entre os dois países para 100 biliões de dólares, até ao ano 2015, e de “desenvolver os portos e outros investimentos”, pois procuram uma “porta” estratégica para a Europa [48]. 

Cooperação com a Rússia, Índia e Brasil para mudar a relação de forças nas Organizações Internacionais

Nos últimos anos, a China desenvolveu coordenação e cooperação com Estados que procuram fazer subir a sua posição internacional (Brasil, Rússia, Índia), conhecidos como BRIC, e também parcerias-alianças com organizações regionais, como a Organização de Cooperação de Xangai (com a Rússia e as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central). Essas alianças e parcerias podem ser consideradas um golpe contra o “mundo unipolar” dos EUA?

Em primeiro lugar, devemos deixar claro que um “mundo unipolar” não existe e nunca existiu. Sempre houve uma diferenciação dentro do sistema imperialista internacional, com os EUA a conquistar o primeiro lugar no imediato pós-guerra e a liderar a luta contra o socialismo, no qual a URSS desempenhou o papel principal. A luta entre a NATO-OCDE e o Pacto de Varsóvia-Conselho de Assistência Económica Mútua foi uma luta de classes. Após o derrube do poder soviético e a dissolução da URSS, as contradições interimperialistas intensificaram-se – devido à sua força, os EUA desempenharam nelas um papel de liderança. Ao mesmo tempo, devido ao desenvolvimento capitalista desigual, novas potências imperialistas emergentes surgiram ao lado dos EUA, UE e Japão, procurando adquirir uma parte das matérias-primas, das suas rotas de transporte e os mercados. Isso é apresentado hoje pelos média e analistas burgueses como um “mundo multipolar” e como o fim do “mundo unipolar”. A irregularidade da eclosão da crise capitalista durante este processo acelera turbulências na correlação das forças capitalistas, mas isto não torna o nosso mundo um lugar mais pacífico ou seguro. Enquanto a contradição entre capital-trabalho não for resolvida a nível nacional, regional e global, enquanto as novas potências emergentes forem movidas pelo desejo do capital por novos mercados e matérias-primas, não teremos mudanças radicais. Os Estados que ganham terreno no sistema imperialista internacional não podem desempenhar o papel que a URSS desempenhou no passado, porque operam na base do superlucro para os seus próprios monopólios. Isto é verdadeiro também para a China e não pode ser negado apenas porque ela tem uma bandeira vermelha e o partido dirigente tem o nome de “comunista”.

Além disso, quando nos concentramos na cooperação dos países BRIC, na “Organização de Cooperação de Xangai” ou na coordenação que os chanceleres da China, Índia e Rússia alcançaram, não devemos esquecer que este é apenas um aspeto da realidade imperialista. Por detrás disso, há a questão das duras rivalidades e contradições entre essas potências, por exemplo, entre a Rússia e a China sobre os recursos energéticos da Ásia Central ou a ambição chinesa no Extremo Oriente russo, etc. O mesmo é verdadeiro para as relações entre a China e a Índia onde , além da questão fronteiriça não resolvida (por exemplo, em agosto de 2010, a Índia enviou duas divisões para o estado de Arunachal Pradesh a fim de reforçar sua fronteira com a China [49]), existe também uma competição renhida pela hegemonia na região da Ásia Oriental. É característico que, como se sabe, o Ministério da Defesa da Índia tenha realizado, em 2009 e 2010, repetidas reuniões sobre a modernização das forças armadas chinesas, estabelecendo metas correspondentes para as forças armadas da Índia [50].

A tendência de alterar as relações com os EUA está a desenvolver-se também nos Estados da América Latina, com o Brasil na vanguarda. Assim, esses Estados pretendem fortalecer as suas relações com China, Rússia, Índia e UE. Concorrência e cooperação coexistem no mundo imperialista, onde a interdependência e a formação de alianças andam de mãos dadas com rivalidades e contra-alianças.

Entretanto, todos aqueles que consideram a China um “freio” à “unipolaridade” dos EUA, ignoram o facto de a China, em 2001, ter apoiado publicamente a chamada “guerra ao terrorismo” e a Resolução 1373/2001 do Conselho de Segurança da ONU, que institucionalizou a agressão imperialista sob o pretexto de “terrorismo”. É claro que o movimento comunista internacional atuou numa direção totalmente diferente quando, no Encontro Internacional dos Partidos Comunistas e Operários, em 2002 (com 62 Partidos Comunistas), observou que “os acontecimentos de 11 de setembro também constituíram um álibi para lançar uma ofensiva sem precedentes contra as liberdades e os direitos dos povos, a pretexto de declarar guerra ao terrorismo. Os imperialistas rotulam como terroristas todos os movimentos de resistência que lutam contra a globalização capitalista e as decisões contra os interesses do povo tomadas por organizações internacionais (como o FMI, o Banco Mundial, a OMC, a UE, etc.), os movimentos anti-imperialistas que lutam contra as intervenções imperialistas e guerras e contra a NATO, bem como qualquer movimento de libertação social e nacional e lutas contra a ditadura e os regimes fascistas” [51].

A aliança da China com países “em desenvolvimento

Em 10 de  julho de 1986, a China manifestou oficialmente o seu desejo de aderir ao GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) e, em 11 de  Dezembro de 2001, tornou-se o 143.º  membro da Organização Mundial do Comércio (OMC), que constituiu a continuação do GATT.

Dentro da OMC, a China destacou contradições secundárias que existem no sistema imperialista global. No seu relatório ao 16.º  Congresso do PC da China, Jiang Zemin falou da “diferença de desenvolvimento entre o Norte e o Sul”, bem como da “pressão da supremacia económica, técnico-científica e de outros aspetos dos países desenvolvidos” [52]. De acordo com certas análises, a China procura constantemente ser apresentada como representante e líder dos países em desenvolvimento [53].

Apesar do fortalecimento da posição económica internacional do país, a liderança da China insiste em apresentá-la como um “país em desenvolvimento” [54]. Esta afirmação baseia-se em três argumentos: a) Em 2008, o PIB per capita na China era de apenas 3.300 dólares, o 104.º  no mundo. b) Dos 1,3 biliões de pessoas na China, mais de 700 milhões são agricultores. c) A indústria, A agricultura e o setor de serviços na China constituem 49%, 11% e 40%, respetivamente, do PIB, enquanto noutros países com maior nível de desenvolvimento capitalista, a indústria e a agricultura apresentam percentagens mais baixas. Em 2009, o PIB aumentou 9,5% na indústria, 8,4% nos serviços e apenas 4,2% na agricultura.

As classificações da ONU e da OCDE são problemáticas e não refletem a realidade da China e,  igualmente, a classificação da China pelos seus dirigentes, como um “país em desenvolvimento”. Esses fenómenos de uma economia capitalista “em desenvolvimento” são devidos ao profundo desnível entre as partes oriental e ocidental do país. Um quadro mais preciso seria oferecido por dados relevantes, relativos à parte oriental do país [55]. E, claro, o que é verdade para o capitalismo em geral aplica-se também ao setor oriental desenvolvido: a concentração dos meios de produção em poucas mãos e o aumento da desigualdade social.

Deste ponto de vista, a aliança da China com outras potências (por exemplo, a Índia) com desenvolvimento capitalista desigual semelhante não se coloca na mesma posição que sociedades muito atrasadas na Ásia e na África. 

No entanto, em nome do “atraso” criam-se “sonhos patrióticos”, que são utilizados no esforço de enredar o movimento operário, os Partidos Comunistas e outras forças revolucionárias, que são convidadas a esquecer por agora a luta de classes e a necessidade de construir outra sociedade e a dedicarem-se ao trabalho de “fortalecer a posição internacional dos seus países”. A procura do “desenvolvimento nacional” é muitas vezes combinada com um “anti-imperialismo” seletivo, que concentra apenas o seu fogo nos EUA, caracterizado como um “império” e, possivelmente, nalguns dos poderosos estados da Europa Ocidental. A teoria do chamado “bilião de ouro” (os 30 países mais desenvolvidos que pertencem à OCDE) opera dentro dessa lógica, que promove como critério básico de definição o consumo per capita de bens nos diversos por país.

Aqueles que se concentram excessivamente na distinção entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, esquecem que, mesmo nos países capitalistas mais ricos, como os EUA, existem fenómenos de privação em massa e pobreza entre as camadas populares. Também existem fenómenos de enriquecimento maciço nos países mais pobres, talvez até de forma mais flagrante do que nos chamados países desenvolvidos.

A análise de Marx é verdadeira: “Quanto mais produtivo um país for em relação a outro no mercado mundial, maiores serão os seus salários em comparação com os do outro. Na Inglaterra, não apenas os salários nominais, mas [também] os salários reais são mais elevados do que no continente. O trabalhador come mais carne; ele satisfaz mais necessidades. Isso, entretanto, aplica-se apenas ao trabalhador industrial e não ao trabalhador agrícola. Mas, em proporção com a produtividade dos trabalhadores ingleses, os seus salários não são maiores [do que os salários pagos noutros países]” [56].

Se as forças comunistas desistirem da palavra de ordem da solidariedade proletária internacionalista e apoiarem a ideia da separação do mundo em “Norte-Sul” ou a ideia do “bilião de ouro”, facilmente cairão na armadilha da “unidade” com o chamado “capital nacional”, isto é, com a classe burguesa dos seus países (ou com uma secção dela), que procura para si uma posição melhor dentro do sistema capitalista global. Nesse caso, como comunistas, eles terão, consciente ou inconscientemente, revisto a tese central leninista a respeito do “imperialismo, a fase superior do capitalismo”, que se refere a toda a era reacionária do capitalismo e, consequentemente, a todas as sociedades capitalistas, quaisquer que sejam as suas forças no mercado global. Por isso, esta é mais uma questão em que a postura da China, que procura apresentar-se como o líder dos “países em desenvolvimento”, contribui para esta desorientação e para a confusão no seio do movimento comunista internacional, visto que o líder deste esforço é um grande país governado por um partido que o carrega o nome “comunista”.

A chamada inevitável “abertura” ao mercado global

O PCC e outras forças também promoveram o fortalecimento gradual das relações capitalistas de produção como participação na globalização: “hoje, no mundo cada vez mais globalizado, a China não pode desenvolver-se isolada do resto do mundo, nem o mundo pode ignorar a China no processo do caminho para a prosperidade” [57]. Mas o “mercado global” não é algo neutro, um mercado no qual existe uma troca mútua de produtos entre a produção capitalista e a socialista. O fenómeno da chamada “globalização”, em nome da qual o nível salarial no capitalismo avançado está hoje sob ataque, não é novo. De facto, no “Manifesto Comunista” já há referências ao “mercado global”:

A burguesia, através da exploração do mercado mundial, deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para grande desgosto dos reacionários, roubou à indústria o terreno nacional em que assentava. Todas as antigas indústrias nacionais foram destruídas ou estão a ser aniquiladas diariamente. São desalojadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão de vida ou morte para todas as nações civilizadas, por indústrias que já não trabalham com matérias-primas nacionais, mas com matéria-prima retirada das zonas mais remotas; indústrias cujos produtos são consumidos, não apenas no território nacional, mas em todos os continentes ao mesmo tempo. No lugar das antigas necessidades, satisfeitas pela produção do país, surgem novas necessidades, exigindo para a sua satisfação os produtos de países e climas mais distantes. No lugar da velha autossuficiência e isolamento locais e nacionais surgem um intercâmbio generalizado e uma dependência generalizada de todas as nações entre si. E do mesmo modo que na produção material, também na produção espiritual. Os produtos espirituais das nações individuais tornam-se mercadoria comum. O nacionalismo unilateral e estreito está a tornar-se impossível e, das numerosas literaturas nacionais e locais  forma-se uma literatura mundial” [58].

Pode a “participação da China” no mercado internacional ser considerada uma troca obrigatória de mercadorias entre diferentes economias e considerar-se que é obrigada a fazê-lo devido à correlação internacional de forças? Não, porque se trata de exportação de capital, que se acumula na China por meio das relações capitalistas de produção.

É sabido que a construção socialista na URSS assentou sobretudo na socialização dos meios de produção concentrados, no planeamento central e nas correspondentes medidas económicas, nas suas relações económicas internacionais, como o monopólio estatal do comércio externo, estabelecido em Abril de 1918.

Mesmo nas condições da NEP (que alguns gostam de invocar quando se referem à China contemporânea), o monopólio estatal tornou-se ainda mais importante como baluarte contra as tendências capitalistas crescentes. Lénine, na sua polémica com Bukharin, defendeu a importância de se ter o monopólio do comércio externo. E Estaline observou, mais tarde, a necessidade de “a economia ser planeada de forma a salvaguardar a independência da economia popular, para que a nossa economia não se transforme num apêndice da economia capitalista. Depende de nós não nos tornarmos um apêndice da economia capitalista” [59].

Estaline, no seu discurso de encerramento da 7.ª  sessão plenária do Comité Executivo da Internacional Comunista, em 13 de dezembro 1926, demoliu o mito de que a URSS era “dependente” no mercado capitalista global porque tinha relações económicas com os países capitalistas. Ele observou a interdependência que existia nessas relações e sublinhou que este tipo de interdependência é diferente da assimilação da economia de um país no quadro da economia capitalista global [60].  Ou seja, a não assimilação requer planeamento central, o monopólio estatal do comércio externo, do sistema bancário e a socialização da indústria. A realidade na China é totalmente diferente da da URSS durante a NEP. Na China:

  1. Não existe monopólio do comércio externo. Milhares de empresas estrangeiras que operam na China cobrem a maior proporção das exportações chinesas, que obviamente dependem dos seus próprios planos, com base nas suas taxas de lucro e não de uma economia de planeamento centralizado.
  2. 440 bancos privados estrangeiros operam na China e adquiriram pelo menos 10% das ações dos bancos estatais chineses e, desde 2005, este país desenvolveu um setor bancário nacional privado [61].
  3. Uma percentagem importante da indústria é privada ou privatizada (na forma de sociedades anónimas), e estima-se que o setor privado produza 70% do PIB.
  4. A legislação chinesa, especialmente no setor económico e comercial, está totalmente harmonizada, graças ao apoio da OMC, com as normas da economia capitalista global.

Epílogo

Em conclusão, o domínio das relações capitalistas na China, que é hoje um facto, lenta ou rapidamente, levará a uma maior conformação do sistema político, da ideologia dominante e de todos os elementos da superestrutura com o capitalismo, o que se refletirá nos seus símbolos. A intensificação das contradições de classe amadurecerá e também a necessidade de o movimento operário revolucionário ser representado pelo seu próprio partido contra o poder capitalista. 

Notas

  1. Jornal “Imerisia”, 23 de setembro de 2010

http://www.imerisia.gr/article.asp?catid=12337&subid=2&pubid=61921147 .

  1. “The Military Force in Kosovo (KFOR)” [A força militar no Kosovo], 

http://tosyntagma.antsakkoulas.gr/afieromata/item.php?id=395

  1. http://www.rian.ru/world/20100722/257443658.html
  2. http://www.hellasontheweb.org/2010-04-05-22-20-08/2010-04-06-12-08-05/785-2010-09-01-20-11-24?tmpl=component&print=1&layout=default&page=.
  3. Athens News Agency-Macedonian News Agency
  4. http://www.inews.gr/news/1/iper-prasinis-anaptixis-simfonoun-sosialistiki-diethniskai-kommounistiko-komma-kinas.htm.
  5. http://www.pasok.gr/portal/resource/contentObject/id/b334bc62-b685-4619-8b73-b72f8e76276a.
  6. O seu título completo é: “China is not happy. An important era, important goals and the internal and external upheavals”. Xiaodong, jornalista. Song Qiang, deputy editor de “the journal of international social studies” [“A China não está feliz. Uma época importante, objetivos importantes e as convulsões internas e externas”]. “Chiansou Zenmin Tsoumanse”, que publica livros políticos, filosóficos e literários. Março de 2009. Os autores são cinco jornalistas e escritores de renome: Song Shaojun, analista militar do canal central de televisão “Fenwan”. Wang Xiaodong, jornalista. Song Qiang, editor adjunto da “Revista de estudos sociais internacionais”. Liu Yang, jornalista, comentador de questões económicas, culturais e políticas.
  7. Chinese military strength” [A força militar chinesa], 26.8.2010, 

http://www.odnagdy.com/2010/08/blog-post_9626.html.

  1. Declaração conjunta para o aprofundamento da ampla cooperação estratégica de entre a China e a Grécia,http://greek.cri.cn/161/2010/10/04/42s4914.htm.
  2. Why China is angry with Russia”,[Por que é que a China está zangada com a Rússiahttp://kp.ru/daily/24313/506551.
  3. China is more and more attracted to the Russian Far East” [A China está cada vez mais atraída pelo Extremo Oriente russo], http://world.people.com.cn/GB/1030/6677024.html, traduzido para o russo: http://www.inosmi.ru/world/20080130/239263.html.
  4. China’s neighbours are arming themselves with whatever they can”,[Os vizinhos da China estão a armar-se com o que podem], http://www.ng.ru/world/2010-08-10/7_vietnam.htm.
  5. Italy welcomes China with…a red Colosseum” [A Itália dá as boas-vindas à China com... um Coliseu vermelho], 

http://www.euro2day.gr/news/world/125/articles/607508/ArticleNewsWorld.aspx

  1. India has sent 2 divisions to its borders with China” [A Índia enviou 2 divisões para as suas fronteiras com a China], http://www.warandpeace.ru/ru/news/vprint/50479.
  2. India is increasing its military strength in response to China” [A Índia está a aumentar o sua força militar em resposta à China], 

http://flot.com/nowadays/concept/opposite/indiareadiesforchinafight/index.php?print=Y.

  1. Atenas, Declaração do Encontro Internacional de partidos comunistas e operários, Atenas, 2002,http://www2.rizospastis.gr/story.do?id=1320825&publDate=2002-06-26%2000:00:00.0.
  2. Relatório ao 16.º Congresso do PCC,http://russian.china.org.cn/news/txt/2002-11/19/content_2050838.htm.
  3. A. Liukin: “The Chinese ‘vision’ and the future of Russia”[A “visão” chinesa e o futuro da Rússia], hettp://www.mgimo.ru/news/experts/document151024.phtml.
  4. China: increase in the rate of its economic development” [China: aumento da taxa do seu desenvolvimento económico], março 2010, http://www.imperiya.by/economics2-7364.html.
  5. Mais de 80% da população vive nas regiões orientais, que representam cerca de 10% do território da China. Fonte: Sítio geográfico russo: “Descrição da China”, http://geo-tour.net/Asia/china.htm.
  6. K. Marx: “Theories of Surplus value” [Teorias da mais-valia], parte 2 “Synchroni Epohi”, p 13.
  7. Sítio da embaixada chinesa em Atenas, http://gr.china-embassy.org/eng/xwdt/t261536.htm.
  8. K. Marx-F. Engels: “O Manifesto Comunista”, “Sychroni Epohi”, pp. 29-30.
  9. Do artigo de J.V. Stalin “Discussion about the Handbook of Political Economy” [Discussão sobre o Manual de economia política] (janeiro de 1941), in Richard Kosolapov: “Comrade Stalin has the floor” [O camarada Estaline tem a palavra], “Discussion about the Handbook of Political Economy” [Discussão sobre o Manual de economia política], 29 Janeiro de 1941, “paleia”, Moscovo, 1995, pp. 161-168.
  10. J.V. Stalin: “His closing speech at the 7th plenary session of the Executive Committee of the Communist International” [Discurso de encerramento da 7.ª sessão plenária do Comité executivo da Internacional Comunista], “Collected Works” [Obras coligidas], v. 9, pp. 132-136.
  11. The financial market of China” [O mercado financeiro da China], 

http://www.globfin.ru/articles/finsyst/china.htm.

* Elisseos Vagenas é membro do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE), responsável pela Secção Internacional do CC . Este artigo foi publicado na Revista Comunista n.º 6, de 2010.

Fonte: https://inter.kke.gr/en/articles/The-International-role-of-China/, acedido em 2020/08/31

Tradução do inglês de TAM

 

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