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Denise Lynn 

 

Os anticomunistas implantaram "artifícios semânticos" para afirmar que os EUA eram uma democracia modelo; enquanto isso, o FBI concentrou as suas energias em ativistas e descreveu as suas aspirações de liberdade como conspiratórias, enquanto a CIA destruiu movimentos de libertação no exterior. 

 

 

Foto: The Paradox of Anticommunism

 

 

No cerne do anticomunismo americano está a convicção de que os comunistas procuram destruir as liberdades e as instituições americanas. No entanto, os anticomunistas, incluindo os conservadores de hoje, procuram criar uma cultura que se assemelhe aos seus sonhos febris sobre o comunismo. O objetivo da direita de hoje é silenciar a media, destruir instituições que garantem a equidade, dar ao Estado o controle sobre a soberania corporal, marginalizar pessoas de cor e pessoas queer, desmantelar instituições educativas, deter e deportar ilegalmente imigrantes legais e ilegais e redistribuir a riqueza para cima. Por outras palavras, procuram armar o anticomunismo para restringir a liberdade individual. Essa contradição esteve sempre no cerne do anticomunismo. Os anticomunistas procuram apenas garantir a liberdade da classe capitalista de elite para abusar dos trabalhadores, controlar as políticas públicas e silenciar os críticos. A agência que mais permite isso é o Federal Bureau of Investigation (FBI). O FBI não tem sido apenas antidemocrático no seu uso da vigilância e assédio ilegais, mas tem sido antidemocrático, silenciando ativamente indivíduos e organizações que trabalharam em prol da democracia. 

 

Durante a Guerra Fria, mesmo quando os anticomunistas afirmavam que os cidadãos soviéticos não tinham direitos básicos, não podiam   expressar-se livremente e não podiam organizar-se em instituições democráticas como sindicatos, o FBI, com a bênção do governo,  reprimia ativamente os movimentos de liberdade. Como Nick Fischer argumenta: "A propaganda anticomunista condenou ... a subjugação dos sindicatos; a deportação de milhões de kulaks e minorias étnicas; a riqueza corrupta dos membros do partido e a omnipresença da temida polícia secreta. Os anticomunistas implantaram "artifícios semânticos" para afirmar que os EUA eram uma democracia modelo e a inveja dos outros; enquanto isso, o FBI concentrou as suas energias em ativistas e descreveu as suas aspirações de liberdade como conspiratórias, enquanto a sua contraparte internacional, a CIA, destruiu movimentos de libertação no exterior. 

 

A própria documentação do FBI é uma evidência das suas práticas antidemocráticas. O arquivo do FBI de Charlotta Bass é um excelente exemplo. A agência já não está a divulgar o arquivo completo e, em vez disso, fornece apenas uma versão resumida de cinquenta páginas que cataloga uma discordância como aviso, não a sua vigilância. Bass foi a editora de um dos primeiros jornais negros da Califórnia, The California Eagle. Embora nunca tenha sido membro do Partido Comunista (PCUSA), tornou-se cada vez mais radical na sua política, aliou-se a comunistas e radicais e desafiou abertamente a política da Guerra Fria dos EUA. Mesmo antes da Guerra Fria, ela tinha conquistado uma reputação em Los Angeles como  defensora da igualdade que enfrentou de bom grado a Ku Klux Klan. 

 

O arquivo de Bass foi iniciado durante a Segunda Guerra Mundial. O FBI afirmou que ela "segue a 'linha' do Partido Comunista". A "Linha" do Partido, de acordo com a agência, era: "defender a abolição do imposto eleitoral (1), a abertura imediata da segunda frente, a abolição de 'Jim Crow' (2), etc." O FBI ligava objetivos que acabariam por se tornar políticas públicas com uma conspiração estrangeira. A agência acreditava que o seu jornal era um órgão do PCUSA, embora não tenha comprovado esse boato e não tenha encontrado nenhuma prova que "indicasse que estava a ser recebido qualquer apoio financeiro" do CPUSA. A falta de provas de intenção conspiratória nunca dissuadiu o FBI quanto à sua suposição de que existia uma conspiração de inspiração estrangeira. J. Edgar Hoover discordou de um relatório do SAG (Agente Especial Responsável) em Los Angeles que defendia que o seu arquivo fosse encerrado e, em vez disso, instruiu a secção de Los Angeles que, mesmo na ausência de provas, Bass "está obviamente a colaborar com o Partido" e que eles deveriam continuar a vigiá-la para que "caso surja a necessidade,  estejamos em posição de tomar medidas contra o jornal e o seu proprietário, sem demora". 

 

Como argumentou Charisse Burden-Stelly, o anticomunismo é um "Modo Durável de Governança" que é tanto anti-vermelho como anti-negro, e isso fica claro na carta de Hoover; ele acreditava que o jornal de Bass era o "principal meio de influenciar a comunidade negra de Los Angeles" a ingressar no PCUSA. A prova que apresentava para isso era o Partido defender a integração da ferrovia de Los Angeles, tal como o artigo de Bass. O jornal de Bass relatou o caso de Festus Coleman, um homem negro falsamente acusado de violação e roubo que foi condenado a 65 anos de cadeia em San Quentin. O Partido organizou-se em sua defesa. Entre outros exemplos, a liderança de Bass na Luta pela Liberdade Negra de Los Angeles foi prova suficiente para lhe garantir um lugar no Índex de Segurança do FBI. 

 

Bass também aparece em todo o arquivo do FBI “Sojourners for Truth and Justice” (STJ) (3). Foi sócia-fundadora e presidente do STJ. A organização foi fundada por mulheres negras radicais dedicadas à igualdade, ao fim da violência racista, do anti-imperialismo e da oposição ao anticomunismo da Guerra Fria. Poucas semanas após a sua fundação, o FBI abriu um arquivo sobre isso e espiou a primeira ação das mulheres, uma reunião em Washington D.C. O FBI não estava sozinho a observar o STJ. Este foi também vigiado pelos Serviço Secretos, pelo Counterintelligence Corp [Corpo de Contra-informação] do exército dos EUA e a Inteligência Naval. Informantes do FBI infiltraram-se na organização e alimentaram-no com rumores exagerados e fabricados. 

 

Bass foi seguida pela inteligência dos EUA quando viajou para o estrangeiro. Em 1950, ela participou numa conferência de paz em Praga e usou as suas credenciais de jornalista para ir à União Soviética. A CIA fez o relato das suas movimentações lá e, ao regressar, instruiu o Departamento de Estado para apreender o seu passaporte. Bass recusou-se a entregá-lo e o FBI informou que ela tinha contratado os serviços de um advogado para lutar contra essa apreensão. Em 1952, Bass concorreu a vice-presidente pelo Partido Progressista. O FBI acompanhou a sua campanha, observou a sua oposição à Guerra da Coreia e a sua oposição à segregação dos militares dos EUA. Ela declarou que os EUA não poderiam espalhar a democracia globalmente, enquanto a América negra não pudesse desfrutar dela. O FBI continuou a recolher informações sobre ela mesmo quando a idosa e cada vez mais doente Bass se tornou menos ativa politicamente. Fez chamadas telefónicas para sua casa e para os hospitais quando ela estava acamada, vigiando a sua "artrite incapacitante" e manteve-a no índex de segurança. O arquivo de Bass é especialmente incomum porque continuou após a sua morte em 1969. O FBI vigiou o seu advogado imobiliário Ben Margolis, preocupado que ela deixasse fundos ao PCUSA. O último documento no seu arquivo é datado de 1990, mais de vinte anos após o seu falecimento. 

 

Mesmo quando os políticos, líderes religiosos e empresários dos EUA diziam aos americanos que os cidadãos soviéticos eram assediados e vigiados por uma força policial secreta, a inteligência dos EUA fez o mesmo. Durante a Guerra Fria e até o presente, tratou os cidadãos ativistas como um flagelo estrangeiro que procurava pôr em causa as liberdades americanas. O FBI não demonstrou ter abandonado a sua história de assédio anti-negro, pois continua a espiar ativistas do Black Lives Matter. Os conservadores de hoje regularmente espalham o anticomunismo para descrever qualquer política ou instituição que atrapalhe a sua agenda, incluindo o FBI. Embora Donald Trump tenha concentrado energias em condenar a agência, demitir alguns dos seus agentes e questionar a sua missão, ele não procura acabar com a sua vigilância extralegal dos cidadãos. Pelo contrário, ele quer um FBI que seja maleável e responsável apenas perante ele, uma agência que vigie os seus inimigos e críticos políticos, prenda os que mais se manifestam e use a vigilância de alta tecnologia  potencializada pela reverência dos setores de tecnologia. É difícil ter pena do FBI, por estar sob ataque político, mas esta nova versão será ainda mais armada contra as lutas pela liberdade e tem uma longa história de práticas antidemocráticas para se inspirar. 

 

Notas: 

(1) O poll tax era um imposto sobre os eleitores para restringir a participação político-eleitoral dos mais pobres, especialmente negros. Em 1964 foi abolido. 

(2) Jim Crow não era uma pessoa real, mas sim uma figura simbólica que deu nome a um sistema legal e social de segregação racial institucionalizada nos Estados Unidos, especialmente no sul, entre o final do século XIX e meados do século XX. O nome surgiu a partir de uma personagem caricata criada por um ator branco que, na década de 1830, se apresentava em espetáculos  interpretando “Jim Crow” como um negro estereotipado, preguiçoso e ridicularizado, usando maquilhagem preta (blackface). 

 (3) Do nome da abolicionista afro-americana Sojourner Truth (nascida em 1797), uma proeminente ativista pelos direitos civis e das mulheres.  

 

 

-Denise Lynn é professora e presidente de história e autora de Marcha das Mulheres pela Paz: Ativismo Anti-Guerra da Coréia das Mulheres Negras Radicais. O Dr. Lynn é o vice-presidente dos Historiadores do Comunismo Americano e editor de sua revista American Communist History. 

 

 

Fonte: The Paradox of Anticommunism, publicado e acedido em 29.09.2025 

Tradução de TAM 

 

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