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Sergio Alejandro Gómez *

Perante o anúncio, o governo venezuelano denunciou à comunidade internacional “a intenção das autoridades colombianas se prestarem a introduzir na América Latina e no Caribe uma aliança militar externa com capacidade nuclear, o que constitui, a todos os títulos, uma séria ameaça à paz e à estabilidade regional”.

 

 

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A NATO foi fundada em 1949 e é um símbolo do

militarismo intervencionista dos EUA e seus

principais aliados europeus. Foto: NATO

 

 

A Colômbia será o primeiro país latino-americano a aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) como “parceiro global”.

 

A nação sul-americana já tem uma forte presença militar dos Estados Unidos, supostamente com o objetivo de combater o narcotráfico. Mas a sua incorporação na NATO, símbolo do militarismo intervencionista de Washington e seus aliados europeus, é um passo ainda mais controverso.

 

A decisão do presidente Juan Manuel Santos acionou os alarmes na América Latina, uma região com vocação pacífica que, no último século, só foi atacada por forças militares dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, ambos membros da aliança transatlântica.

 

A coligação militar tem as suas origens em 1949, durante o confronto contra a União Soviética, no calor da Guerra Fria. Após a derrota do bloco socialista, no início dos anos 90 do século passado, o bloco não cumpriu a sua promessa de não se estender para o leste e, hoje, é a principal ameaça militar à Rússia, enquanto executa ações militares fora da sua área geográfica.

 

A Colômbia mostrou pela primeira vez o seu interesse de ingressar em 2006, durante o governo do militarista Álvaro Uribe, mas foi rejeitada por não cumprir os critérios geográficos. No entanto, em junho de 2013, Santos assinou um contrato de intercâmbio de informações e segurança, que foi ampliado no final de 2016.

 

O anúncio da semana passada inclui a nação andina na lista de oito países que já eram parceiros globais da NATO: Afeganistão, Austrália, Iraque, Japão, Coreia do Sul, Mongólia, Nova Zelândia e Paquistão.

 

Um “piscar de olho” a Washington

 

A decisão de Santos envia uma mensagem clara do interesse de Bogotá em manter a aliança com Washington e agir como sua ponta de lança na região.

 

Atualmente, os Estados Unidos podem dispor de uma dezena de bases militares colombianas, a partir das quais pode ameaçar países vizinhos que não são do seu agrado e dominar os abundantes recursos naturais da região.

 

A proximidade com Washington é acompanhada por orçamentos multimilionários, que se tornaram uma forma de vida para o setor militar colombiano. Nada menos de 9.000 milhões de dólares foram para os cofres da Força Pública, desde a assinatura do chamado Plano Colômbia, em 1999, segundo dados oficiais.

 

No entanto, os dados mostram o fracasso do plano, supostamente destinado a combater o narcotráfico e as suas graves consequências sociais.

 

Em oito anos do governo de Uribe e em plena execução da assessoria dos EUA, entre 2002 e 2010, mais de três milhões de colombianos foram deslocados à força dos seus territórios, um número equivalente a metade dos 6,2 milhões que se registaram no país desde 1985, segundo o periódico El Tiempo.

 

Quando o Plano Colômbia se iniciou, os hectares cultivados com coca estimavam-se em 163.289. O ano passado, o próprio governo dos Estados Unidos estimou em 150.000 os hectares de cultivo para estupefacientes na nação andina, muito longe da redução de 50% a que se tinha proposto.

 

Por outro lado, o saldo da ocupação militar norte-americana inclui denúncias de abusos e violações a 54 raparigas menores por soldados dos EUA, nas imediações das bases militares em Melgar e Girardot.

 

Satisfazer os setores militaristas

 

O fim do conflito armado implica uma redução do número de unidades militares e dos orçamentos dedicados a combater as guerrilhas, fundos que poderiam ser usados ​​em planos de desenvolvimento.

 

Mas o cenário de uma Colômbia em paz, após a assinatura de acordos históricos com as principais guerrilhas do país, pode ser o pior pesadelo para aqueles que lucram com o negócio da guerra há mais de meio século.

 

A assinatura de um acordo com a NATO também procuraria acalmar os ânimos entre alguns setores militares que sentem que estão a perder com a paz e que têm grande influência na vida política do país, que está em pleno processo eleitoral para escolher o sucessor de Santos.

 

O setor da defesa colombiano, segundo dados do GESI (Grupo de Estudos de Segurança Internacional), assessora a reestruturação das polícias de Honduras, Guatemala, República Dominicana e Panamá, e Santos poderia estar, com os seus últimos movimentos, a tentar capitalizar ainda mais a exportação de serviços militares.

 

Um aspeto polémico é o papel que desempenhará dentro da aliança transatlântica e se se envolverá em ações bélicas para além das suas fronteiras.

 

“Este programa procura trabalhar pela construção da integridade com as forças militares”, disse Santos, na última segunda-feira, tentando esclarecer o alcance da sua decisão. “Não vamos participar em operações militares da NATO”, acrescentou.

 

No entanto, no ano passado, o comandante do Exército da Colômbia, o general Alberto José Mejía, revelou ao diário local El Colombiano, que o seu país se preparava para se envolver no treino de tropas no Afeganistão, algo que, afinal, não aconteceu.

 

Os parceiros globais “desenvolvem cooperação com a NATO em áreas de interesse mútuo, incluindo desafios de segurança emergentes, e alguns contribuem ativamente nas operações da organização, quer militarmente, quer de alguma outra forma”, diz a organização no seu sítio na rede.

 

Voltar as costas à América Latina

 

Santos, no final do seu segundo mandato, quer deixar entre o seu legado a entrada da Colômbia para o que chama de “líderes de boas práticas” a nível internacional.

 

Essa definição inclui a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o clube dos países mais desenvolvidos, que aceitou a adesão colombiana na semana passada, depois de um processo de sete anos.

 

“Fazer parte da OCDE e da NATO melhora a imagem da Colômbia e permite-nos ter muito mais participação no cenário internacional”, disse o presidente.

 

Contudo, as suas ações representam um fechar a porta na cara da América Latina e dos seus vizinhos mais próximos, especialmente a Venezuela, que é constantemente atacada pelos Estados Unidos e é considerada uma “ameaça extraordinária” à segurança nacional deste país.

 

Num comunicado emitido logo após o anúncio de Santos, Caracas denunciou perante a comunidade internacional “a intenção das autoridades colombianas se prepararem para introduzirem na América Latina uma aliança militar externa com capacidade nuclear, o que, a todos os títulos, constitui uma séria ameaça à paz e à estabilidade regional”.

 

Em 2016, o Brasil, o Equador, a Nicarágua, a Venezuela e a Bolívia mostraram a sua preocupação com a aproximação da Colômbia à NATO e até propuseram uma reunião urgente da UNASUL [União de Nações Sul-Americanas] para discutir a questão.

 

Independentemente disso, a Colômbia tem compromissos diplomáticos que estaria a violar com a sua entrada na NATO. Entre outros acordos, é signatária da disposição do Tratado de Tlatelolco para a Proibição de Armas Nucleares na América Latina e no Caribe; da Declaração de Havana, da CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos], que proclama a América Latina e o Caribe como Zona de Paz; da Declaração da América do Sul como Zona de Paz; e das Medidas de Promoção da Confiança e Segurança e seus Procedimentos, aprovados no âmbito do Conselho de Defesa Sul-Americano da UNASUL.

 

 “A Colômbia é um país que deve estar inscrito na órbita das nações que estão a construir a paz e não intervenções militares, ou ações de guerra no mundo”, disse à imprensa o senador Iván Cepeda, membro da comissão do Congresso que trata de política internacional e defesa nacional.

 

“Não vejo o que a Colômbia tem a fazer – enquanto está a tentar consolidar o seu processo de paz, neste momento –, em pactos ou blocos militares que podem acabar levando-nos a dinâmicas internacionais de guerra”, concluiu.

 

Operações recentes da NATO

 

1995: Operação Força Deliberada, contra a Bósnia e Herzegovina. O conflito civil nessa região deixou milhares de mortos e centenas de milhares de deslocados.

 

1999: Em violação da Carta da ONU, sem a aprovação do Conselho de Segurança, é realizada a operação Força Aliada, através da qual a aviação atacou durante 78 dias os objetivos vitais da Sérvia, causando graves danos materiais e humanos.

 

2001: Começa a operação militar ‘Liberdade Duradoura’, no território do Afeganistão. 17 anos depois, as unidades militares sob o comando da NATO ainda se mantêm no terreno, numa guerra que parece não ter fim.

 

2001-2003: A pedido do Governo da Macedónia, a NATO realiza três operações militares (‘Colheita Necessária’, ‘Raposa Âmbar’ e ‘Harmonia Aliada’).

 

2004-2011: Missão de apoio de assessores militares da NATO no Iraque para treinar forças de segurança iraquianas. Estima-se que cerca de um milhão de iraquianos tenham morrido como consequência direta ou indireta das forças de ocupação.

 

2011: Operação militar na Líbia. Em consequência dos bombardeamentos morreram várias dezenas de civis, o país ficou desestabilizado e a Líbia passou de uma das nações mais desenvolvidas de África a um Estado falido, dominado por traficantes de armas e pessoas.

 

* sergio@granma.cu

 

Fonte: publicado em 2018/05/29, em http://www.granma.cu/mundo/2018-05-29/que-busca-colombia-en-la-otan-29-05-2018-20-05-46, acedido em 2018/06/04

 

Tradução do castelhano de PAT

 

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