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Ernesto Reyes

Na Bolívia, o processo democrático sofreu uma convulsiva interrupção, em novembro de 2019. Para os partidos e organizações que nunca viram com agrado os indígenas no governo, a violência exibida foi justificada pela suposta “fraude” que o MAS cometera nas urnas.

 

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O que acontece na Bolívia –, onde se manipula com a pandemia para adiar as eleições gerais –, seria de curta duração, se não contasse com o silêncio cúmplice da União Europeia e dos Estados Unidos, que se desfazem em evocações retóricas à democracia quando se trata de países que rejeitam as suas políticas intervencionistas, mas toleram governos de direita que violam sistematicamente a Constituição Política e os direitos humanos.

Na Bolívia, o processo democrático sofreu uma convulsiva interrupção, em novembro de 2019. Para os partidos e organizações que nunca viram com agrado os indígenas no governo, a violência exibida foi justificada pela suposta “fraude” que o MAS [1] cometera nas urnas. Para os dirigentes do chamado processo de mudança e para os movimentos sociais foi um golpe. O debate de ambos os pontos de vista pode ser eterno, mas basta uma questão, dentre as várias equacionáveis, para inclinar a balança a favor da tese do golpe de Estado: a então senadora Jeannine Añez era a segunda vice-presidente do Senado e, perante a renúncia da presidente dessa instância, Adriana Salvatierra, tinha primeiro de ser eleita presidente do Senado e, a seguir, e só a seguir,  podia assumir a presidência desse país, em conformidade com as disposições da CPE [Constituição Política do Estado] em matéria de sucessão. 

No entanto, isso não aconteceu, não houve quorum no Senado e a sessão não se iniciou, mas Añez autoproclamou-se presidente da Bolívia.

A União Europeia, os Estados Unidos e o Brasil fizeram vista grossa e reconheceram, de imediato, a presidente de facto. Na realidade, foram eles os que certificaram essa irregularidade constitucional, em negociações realizadas numa universidade privada com selo católico. Concedamos, mas não sejamos ingénuos, o benefício da dúvida e pensemos que talvez eles não tivessem outra alternativa para superar a crise política. O grave, é que mais de oito meses depois, nem a UE nem os EUA mostram qualquer mal-estar com o prolongado tempo deste governo, que se supunha de transição; e, pior ainda, que a UE, em especial, incentive a que a situação continue assim por um tempo mais lato. O que se sabe é que o seu atual representante, Leo de la Torre, foi o mais afadigado para legitimar a presidência de Añez e o que se observa agora é a sua suspeita passividade perante os anúncios do adiamento das eleições e da violação dos direitos humanos de dezenas de pessoas detidas por razões políticas, bem como a retenção de sete ex-participantes do governo de Morales a quem são negados salvo-condutos para saírem do país para o México, em clara violação do direito internacional de asilo. 

O paradoxo é o da evidência da grande atividade da UE e dos EUA perante factos que acontecem na Venezuela ou na Nicarágua e que, da sua perspetiva, consideram irregulares, ilegais e inconstitucionais, enquanto desviam o olhar do que se passa na Bolívia. Contra os dois países governados pela esquerda saltam de imediato, ameaçam com medidas sancionatórias e tomam-nas de facto. Perante as ameaças de prisão que o ministro Murillo faz todos os dias contra militantes do MAS, a intervenção física numa clínica propriedade do Estado cubano e o assédio a qualquer pessoa suspeita de ser masista, os funcionários dos EUA e da UE preferem manter uma atitude de clara cumplicidade. Essas delegações diplomáticas terão algum dia de responder pela sua cumplicidade com a ditadura boliviana.

É verdade que a pandemia disparou na Bolívia e que o governo de facto é o seu principal responsável, porque privilegiou a repressão do MAS e dos movimentos sociais, enquanto carecia de um plano coerente para enfrentar e controlar o coronavírus. Mas também é verdade que o tempo da transição já se esgotou, devido à decisão de Añez de apresentar a sua candidatura. O combate à pandemia não pode negar o direito dos bolivianos, através das urnas, elegerem os seus governantes.

Até quando os EUA e a UE serão cúmplices com um governo de facto que não quer sair, que reprime os movimentos sociais e gera pânico psicológico na população co a manipulação da Covid-19?

Notas

[1] MAS Movimiento al Socialismo [Movimento para o Socialismo], partido político boliviano social-democrata – elegeu para a Presidência da República Evo Morales, que, em novembro de 2019, renunciou após um golpe de Estado.

Fonte: https://www.telesurtv.net/opinion/El-silencio-complice-de-EE.UU.-y-la-UE-en-los-planes-prorroguistas-en-Bolivia-20200722-0058.html?utm_source=planisys&utm_medium=NewsletterEspa%C3%B1ol&utm_campaign=NewsletterEspa%C3%B1ol&utm_content=41, publicado  acedido em 2020-07-22

Tradução do castelhano de MFO

 

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