Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


John Steppling *

 

A fixação dos crimes de Trump distrai de um sistema do qual o crime é um fator inerente. Clinton, Bush, Obama e Trump. Eles são apenas figuras que fazem funcionar o sistema. E o sistema é a propriedade da classe dominante. As pessoas votam como se isso fosse crucialmente importante, e votam  naqueles de que gostam. Não por razões políticas, porque a maioria deles nem tem noção do que é a política.

 

 

«… uma nação em que 87% das pessoas entre os 18 e os 24 anos (segundo  o observatório da National Geographic Society/Roper num estudo de 2002) não sabe localizar o Irão ou o Iraque num mapa-mundí e 11% não sabe localizar os Estados Unidos (!) não é apenas “intelectualmente lerda”. Seria mais apropriado chamar-lhe imbecil, capaz de ser levada a  acreditar em qualquer coisa...»

- Morris Berman

 

Não me recordo de a cultura dos EUA ter estado tão comprometida pelo controlo da classe dominante. Hollywood produz filmes e programas televisivos chauvinistas, militaristas e racistas, uns atrás dos outros. As notícias veiculadas pelos grandes meios de comunicação social são completamente controladas pelas mesmas forças que fazem funcionar Hollywood. É a completa capitulação de uma classe liberal perante os interesses da elite dos EUA cada vez mais fascizante. E isto não começeou com Donald Trump. Na sua variante atual, chega pelo menos a Bill Clinton e, realmente, data do final da II Guerra Mundial. A trajetória ideológica definiu-se sob a direção dos irmãos Dulles e do complexo militar-industrial – representando os interesses dos negócios dos EUA e procurando chegar à hegemonia global. Uma vez entrada a União Soviética em colapso, o processo foi acelerado e intensificado.

 

Outro ponto de partida pode bem ser o fiasco da Baía dos Porcos, em 1960, ou o assassinato de Patrice Lumumba pela CIA (e o M16). Ou o discurso de Kennedy, em 1962, na Universidade Americana apelando ao fim da Pax americana. Sabemos o que aconteceu a Kennedy logo depois disso. Escolhamos qualquer destes incidentes. Mas foi a queda da URSS que deu o sinal à classe dominante, a classe dos proprietários, de que o verdadeiro obstáculo à dominação global tinha desaparecido. Entretanto, dá-se o caso Irão/Contras e a invasão do Iraque. O significado verdadeiro e o simbólico da União Soviética está hoje esquecido, creio. O seu significado para o mundo desenvolvido, especialmente.

 

O teste seguinte, consciente, foi o ataque de Clinton à antiga Jugoslávia. Um teste levado a cabo para expandir a NATO. E funcionou. A máquina de propaganda nunca tinha sido tão bem sucedida como o foi na diabolização dos sérvios e de Milosevic. Deu-se, então, o 11 de setembro. E a afinada máquina de propaganda vomitou uma barragem infinita de retórica hiperpatriótica e de desinformação. A excecionalidade da América recebeu total credibilidade. E lembram-se de Colin Powell e da sua caricatura, ensinando formas de auxílio na ONU? Ninguém iria contra-argumentar. Certamente não a classe liberal branca. E Hollywood elevou a parada produzindo fantasias militares. E também alimentando as nossas fantasias. Um género que remete para mensagens neocoloniais. Em 2007, quando Barack Obama anunciou a sua candidatura à presidência, a principal narrativa para a América ficou firmemente enraizada. O maior êxito de Hollywood neste  período foi Avatar (2009), uma fábula neocolonial que encaixou perfeitamente na reconquista de África por Obama.

 

 Dan Glazebrook escreveu recentemente:

“O ano de 2009, dois anos antes do assassinato de Khadaffi, foi fulcral para as relações EUA-África. Primeiro, porque a China ultrapassou os EUA como o maior parceiro comercial no continente; e, segundo, porque Khadaffi foi eleito presidente da União Africana. O significado de ambos os acontecimentos para o declínio da influência dos EUA no continente não pode ser mais claro. Enquanto Khadaffi liderava as tentativas de unir politicamente a África, investindo enormes quantias do petróleo libanês para tornar este sonho uma realidade, a China esmagava calmamente os monopólios ocidentais dos mercados de exportação e a finança de investimento. A África não teria mais de andar de chapéu na mão a pedir empréstimos ao FMI, concordando com quaisquer medidas gravosas nas condições da oferta, mas puderam voltar-se para a China – ou, de facto, para a Líbia – para poderem investir. E, se os Estados Unidos ameaçavam riscá-los dos seus mercados, a China poderia calmamente comprar qualquer coisa que estivesse para venda. O domínio ocidental sobre a África nunca antes tinha estado sob tão grande ameaça”.

 

A resposta dos EUA foi reforçar e desenvolver o AFRICOM [Comando dos EUA para a África] e depois assassinar Khadaffi. Os sucessos de Hollywood neste período incluíram The Hurt Locker [Guerra ao Terror] e The Dark Knight [O Cavaleiro das Trevas]. Entretanto, internamente, Obama dava a sua concordância à militarização dos departamentos da polícia por todo o país. Noutra frente... Danny Haiphong escreveu ...

 

“O que não foi ainda suficientemente discutido é como Obama trabalhou incansavelmente para proteger e assegurar os interesses do sistema monopolista da saúde. Em 2009,  colaborou com a indústria dos seguros e os seus parceiros da indústria farmacêutica para diminuir  a procura de cuidados de saúde no sistema  público. Naquela altura, parecia que estavam amadurecidas as condições para o sistema  público. O descontentamento popular com a lei do Partido Republicano estava no seu ponto mais alto. O movimento relativamente organizado a favor do sistema  público era representado por organizações como Healthcare Now [Proteção na Saúde já]. O Partido Democrático tinha a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado”.

 

Obama chegou ao poder quando Wall Street se esboroava, em 2008. Mas, em vez de esperança e mudanças, tivemos 5 mil milhões de dólares a caminho do 1% da elite económica. A pobreza e a desigualdade cresciam a cada dia sob o governo de Obama. Social Network [Rede Social] foi estreado em 2010 e Wolf of Wall Street [O Lobo de Wall Street] em 2013. Foram ambos grandes êxitos. A mensagem de Wall Street nunca mudou. E parte da mensagem é que a riqueza se justifica a si própria e é um símbolo de virtude. Hollywood e os liberais dos EUA naturalmente gravitam em torno dos ricos.

 

Obama atacou o Afeganistão, o Iraque, a Síria, a Líbia, o Sudão, a Somália e o Iémene. E talvez esta última aventura se tenha mostrado como a mais significativa. Armando, treinando e coordenando a agressão saudita (e que chegou agora ao nível de tropas no terreno) contra o indefeso Iémene resultou na maior catástrofe humanitária em cinco décadas.

 

Os EUA têm agora tudo menos divergências formalmente criminalizadas, especialmente se essas divergências forem dirigidas a Israel.

 

Não quero com isto  traçar paralelismos entre a política e o produto dos estúdios. Tão só afirmar que a principal mensagem de Hollywood em ambos os filmes e nos programas de TV é validar o excecionalismo dos EUA. E para se proteger da crítica com um fraco protesto simbólico. Mas não é apenas Holywood, é o teatro, a ficção e o resto das artes. O apagamento da classe operária é hoje a mais relevante verdade na cultura americana. Já não há Clifford Odets (um estabelecimento de ensino abandonado); foram substituídos por um fluxo constante de bem preparados e submissos pós graduados. Principalmente da elite e de escolas caras. Hemingway e James Baldwin não tinham graus académicos, nem Tennessee Williams, filho de um caixeiro viajante vendedor de sapatos. E até escritores mais recentes como Thomas Pynchon  se afastaram da universidade (para ir para a Marinha), mas a questão é que hoje a cultura de massas está rigorosamente controlada. Dreiser  afastou-se da universidade e Mark Twain era aprendiz de tipógrafo. Outros, como Faulkner, foram para a universidade, mas também trabalhavam. No caso de Faulkner, era carteiro. Henry Miller e Charles Bukowski tinham a mesma profissão. Stephen Crane e Hemingway eram jornalistas, quando isso era uma profissão honrada.

 

Os decisores estão principalmente impregnados do espírito do Partido Democrático (como testemunham House of Cards, Madame Secretary ou Veep). Quem procura informação na MSNBC, na FOX ou na CNN recebe, a maior parte das vezes, pura propaganda. Rachel Maddow tem a sua carreira baseada na repetição acrítica dos pontos de vista e nas conclusões da direção do Partido Democrático. Bill Maher, com um programa na HBO, é um recente proxeneta da guerra. Os talk shows noticiosos de domingo nunca convidam vozes radicais. Michael Parenti não vai a esses programas, nem Ajamu Baraka, Glen Ford, Mike Whitney, Dan Glazebrook ou Stephens Gowans. Não, mas há muitos generais reformados e políticos. Esta comunicação social exerce um controlo absoluto sobre as mensagens.

 

A perda da classe operária, da diversidade de classe tem sido, de longe, um golpe contra a cultura, mais do que qualquer outra coisa. Pode-se argumentar que a cultura tem sido, na era moderna, um domínio da burguesia, e isso é verdade. Mas também existe uma mudança bastante pronunciada que está a ocorrer. Porém os americanos são desencorajados de pensar em termos de classe. Eles veem individualismo e identidade. Ponham mais mulheres como diretoras, gritam eles … o que nos traria mais versões do Zero Dark Thirty, penso eu. A igualdade de género é importante, é algo que todos os países socialistas na história enfatizaram. Algo que Chávez considerou próprio para ser escrito na Constituição no primeiro dia. Chávez, que o avatar liberal  repudiou como “um ditador comunista morto”. Chávez, que o avatar feminista Hillary Clinton trabalhou todo o tempo para afastar do poder.

 

As pessoas estão chocadas… chocadas digo eu… com os soldados americanos que foram mortos no Níger. Malvado, esse Donald Trump. Quando se disse que foi Obama quem mandou tropas para o seu pivô em África, as pessoas ficaram espantadas. A preocupação com os soldados americanos mortos é, na sua hipocrisia e no seu excecionalismo vesgo, apenas um embotamento das ideias. Quero dizer apenas que contem o número de civis mortos pelos ataques dos drones dos EUA apenas num ano. Escolham o ano que quiserem.

 

“Com Obama, o Comando Africano dos EUA (AFRICOM) penetrou  em todos os países africanos, exceto o Zimbabué e a Eritreia. O AFRICOM aprisionou as nações africanas na subserviência militar. Em 2014, os EUA desencadearam 674 operações militares em África. Segundo a recente Lei da Liberdade de informação, a pedido da Intercept, os EUA têm normalmente tropas especiais deslocadas em mais de vinte nações africanas”.

 

Danny Haiphong

As pessoas, hoje, têm medo de que as qualifiquem como crentes da teoria da conspiração. Nenhuma outra palavra pejorativa exerceu um poder tão desproporcionado. Também há nisto um objetivo subliminar. A identidade masculina que se liga à apresentação daqueles que aceitam a versão oficial das coisas. É a postura dos que consideram “ser de bom senso, revelador de maturidade, ser um durão”.  Apenas os fracos e confusos (as mulheres, estão a ver) se preocupam com o questionar as narrativas oficiais de… bom, qualquer coisa. É realmente espantoso,   que tão poucas pessoas se interroguem quanto ao assassinato de pessoas sem razão? Por que é que  os que fazem as denúncias, os que dizem a verdade são interditos e afastados? Porque existem mais de 900 bases militares dos EUA por todo o mundo. Para que é que, havendo uma pobreza crescente nos EUA, precisamos de um arsenal nuclear tão avançado que custa milhares de milhões? Na realidade, por que é o orçamento militar de quatro mil milhões de dólares por dia? A classe liberal educada parece não se colocar estas questões. Perguntemos apenas: os EUA estão a armar os jihadistas xiitas na Síria? A maior parte daquilo a que as pessoas chamam conspiração é apenas ceticismo razoável, perante histórias que incluem a COINTELPRO, a Operação Northwoods, a Gladio, a MKUltra, e a Operação AJAX. Isto também é relevante para a guerra que há-de vir sobre as “fake news” [notícias falsas]. É uma ideia lançada por Obama e agora, numa operação orwelliana, pelo Facebook, o You Tube e o Google. No Reino Unido, Theresa May anuncia orgulhosamente que o governo devia controlar  o que se pode ver na internet. A censura é elevada a proteção.

 

E chegamos à NATO e à Europa. Pode-se perguntar mesmo por que é que a NATO existe? Quero dizer, a URSS já não existe. Bom, a resposta tem estado a ser construída há alguns anos a esta parte e é a extraordinária campanha anti Putin nos EUA. A “ameaça russa” é um tema aceite no discurso público. Ou a desinformação anti Irão. De facto, o Irão é de longe mais democrático e menos uma ameaça global (realmente NÃO é uma ameaça global) do que os íntimos aliados dos EUA,  Israel e a Arábia Saudita. O que nos faz regressar ao Iémene. A total destruição do Iémene, o país árabe mais pobre do mundo, e agora com o maior surto de cólera na história, não é uma ameaça para NINGUÉM. Certamente não para os EUA. Devemos acreditar que vale a pena apoiar a casa dos Saud? Na Arábia Saudita decapitam os homossexuais e as bruxas. O chefe do Reino da Arábia Saudita é um psicopata de 32 anos chamado Mohammed Bin Salman. Alguém pode explicar, por favor porque é que os EUA apoiam este país?

 

Ou a Venezuela. Os EUA promoveram várias campanhas contra esta nação soberana, desde há mais de uma década. Uma democracia. Mas uma democracia desobediente. Onde estão os protestos? Quando as pessoas falam sobre Harvey Weinstein, um produtor de filmes troglodita que literalmente toda a gente conhecia como um abusador em série, eu pergunto-me se as mulheres da Venezuela não contam. Ou da Líbia, ou do Haiti, ou de Porto Rico, ou diabos, as mulheres de Houston neste preciso momento. Pobres mulheres. Ah, mas isso é uma questão de classes de novo. Agora, talvez o caso Weinstein produza bons resultados e alguma forma de proteção coletiva e até o sindicalismo venha a limitar o poder dos homens brancos ricos. Duvido, mas pode ser. No entanto, tendo em conta que a classe liberal, hoje, acha bem que as mulheres bombardeiem as aldeias indefesas do Afeganistão, do Iraque ou do  Iémene, tal como os homens, e tendo em conta que a maioria dessas pessoas horrorizadas com Weinstein apoiaram e apoiam solidamente Hillary Clinton e o Comité Democrático Nacional e adulam figuras como Maddie Albright, isso já parece difícil imaginar.

 

David Rosen:

«O abuso sexual e a violência nos EUA são tão velhos como o país. A cultura patriarcal legitimou durante muito tempo o abuso sexual e a violência para com as mulheres – e as crianças – fosse no local de trabalho, em casa, em clubes noturnos ou numa rua deserta. Nos primeiros dias da nação o costume de abuso sexual e violência foi legitimado através da noção de “castigo”. Isto era uma característica da lei comum angloamericana, que reconhecia o marido como  chefe de família e, por consequência, lhe permitia submeter a “sua” mulher a castigos corporais, incluindo a violação, se não lhe infligisse danos permanentes. O abuso sexual foi institucionalizado com a violação das mulheres africanas e, mais tarde, afroamericanas escravas. Como  sublinhou a académica especialista em direito, Adrienne Davis, “A escravatura nos EUA compeliu as mulheres escravas negras ao trabalho em três mercados – produtivo, reprodutivo e escravatura – crucial para a economia política”.»

 

Pode notar-se a violência sexual  nos EUA  nas suas instituições militares (veja-se The Invisible War  [A guerra Invisível] de Kirby Dick). Mas não são os militares que vemos nos programas de TV desta temporada como SEAL Team ou Valor ou The Brave. O último filme de Tom Cruise, American Made, sobre Barry Seal, que foi piloto da CIA e com vários cartéis na América do Sul. Sim, nada é mais divertido do que esmagar um governo socialista como na Nicarágua. Não há um único personagem hispânico a falar que não seja alcoólico, sádico ou apenas incompetente. Este espantoso revisionismo racista foi apelidado de “espirituoso e animado” pelo Hollywood Reporter.

 

A classe liberal estará sempre com o satus quo. Sempre. Não quer saber se o status quo é fascista. E isto satisfá-los mais do que apresentar chavões sobre o abuso sexual dos homens contra as mulheres, na medida em que isso não signifique ter de pensar muito na complexidade  do problema feminino em nações desconhecidas e não turísticas como o Iémene, a Líbia, ou as Honduras. Tal como o facto de os departamentos de polícia terem assassinado mais de mil homens negros em 2015. E isso continua a acontecer com um número cada vez maior de mulheres negras. Acho que não é apenas uma história espirituosa e animada. Obama nunca esteve à vontade a falar sobre ou para pessoas negras.  Conseguiu criticar Colin Kaepernick [1], embora recentemente, a respeito da mal estar que ele,  Kaepernick, pudesse estar a causar.  O mal-estar  dos milionários donos de equipas desportivas, acho eu. O  seguidismo do que Glen Ford chamou “enganar os negros” nunca foi tão grande. E isto é outro crime que podemos atribuir largamente a Obama.

 

A Câmara dos representantes dos EUA votou unanimemente sanções contra o Irão e a Coreia do Norte, um absurdo e um crime e, contudo, dificilmente registado na escala de Richter da comunicação social. O que fizeram o Irão e a Coreia do Norte que prejudicasse alguém nos Estados Unidos? É a Arábia Saudita e Israel que temem uma nação democrática como o Irão e a influência que exerce na região. O Irão é acusado de fomentar a instabilidade, mas nunca apareceu uma prova. Diz-se que a Rússia controla a opinião pública nos EUA, mas também nunca foi mostrada uma prova. Os EUA nem sequer se preocupam em tentar realmente dizer mal da Venezuela porque já faz parte da sabedoria herdada considerar que eles são “maus”. Assim como Castro era mau,  Khadaffi ou Aristide, como qualquer um que se mostre independente. Segundo os meios de comunicação social, o mundo é feito de pessoas boas e pessoas más. Mike Pompeo, cabeça da CIA, declarou recentemente que a sua agência se iria tornar “muito mais perversa” a combater os seus inimigos. É difícil realmente imaginar o que será isso, tendo em conta a história da CIA. Mais perverso do que rendição, mortes com drones e tortura? Recorde-se que foram os EUA e a sua Escola das Américas que treinaram os esquadrões da morte na América Central. Hollywood faz comédias sobre isso.

 

Em Hollywood ninguém se queixa de nada. Assim como nenhuma das atrizes assediadas por Weinstein (e incontáveis outras) nada disseram, com medo de perder oportunidades nas suas carreiras. Assim como ninguém se queixa do racismo ou da demonização dos muçulmanos, dos sérvios, dos nortecoreanos ou dos russos, com medo de não arranjar um emprego. A coerção é silenciosa e é um facto. É algo absoluto. A maior parte dos atores e realizadores simplesmente não pensam nisso e pouco mais conhecem além do que ouvem nas notícias dos grandes média ou leem no  New York Times. Mas eu compreendo. As pessoas têm de comer, de alimentar as suas famílias. O verdadeiro problema é o poder estar cada vez mais consolidado. A distribuição dos filmes está monopolizada. E para a maioria dos americanos a política externa continua a ser um buraco negro gigante sobre o qual muito pouco conhecem. Experimente dizer a alguém que Milosevic era uma boa pessoa e rir-se-ão de si (isto também acontece na esquerda, o que é muito deprimente). Digam que a Rússia não ameaça os EUA ou a Europa e vão rir-se de si. Tentem explicar o que é o imperialismo e o que significa e receberá um olhar entediado ou irritado. A grande regra de ouro é, se os alvos dos EUA são um país ou um líder, então vale a pena perguntar à propaganda ocidental situacionista o que disse esse país ou líder (pensemos na Síria, Khadafi, Aristide, Milosevic, Irão, Coreia do Norte). Os EUA não perseguem os países que apoiam o capital ocidental.

 

Uma das coisas em que reparei nos filmes de Hollywood é a extraordinária autocompaixão da maior parte dos personagens. Autocompaixão, títulos e sarcasmo. As pessoas que produzem e realizam um filme ou fazem TV, hoje, em geral, censuram-se a si mesmas tacitamente. Alguns não têm de o fazer, é certo. Mas há um grupo geral que pensa no trabalho. E isso estende-se à forma como os personagens são criados. Os problemas das pessoas brancas ricas são o aqui o modelo. Poucos observam o mundo à sua volta e a maior parte das vezes em que o fazem veem-no como um mundo de perigos e ameaças. Um lugar incivilizado a precisar de orientações do ocidente branco civilizado (vem-nos à memória The Lost City of Z [A cidade perdida de Z] que contém todas as observações anticoloniais aprovadas, mas que ainda assim cria uma narrativa colonial). Mas é ainda mais estreito do que isso. Tudo parece um estúdio; as discussões políticas, mesmo quando ocorrem no espaço exterior, parecem executivos de estúdio a discutir os lucros no fim de semana ou os ratings Nielsen. E como  Hollywood se parece cada vez mais com Wall Street, ou com as sedes das corporações, o mundo cada vez mais se parece com aquilo. É uma profunda falta de imaginação. Os westerns parecem   os mesmos melodramas de Santa Mónica ou Nova Iorque e soam da mesma maneira. Os mundos fantásticos parecem as sedes das corporações ou fins de semana motivacionais. É um mundo criado por escritores abaixo dos trinta anos, muitos, e de certeza abaixo dos quarenta. São mundos criados por pessoas que conhecem muito pouco do mundo. Nem sequer sabem o que é ter de trabalhar para viver. Em todo o universo do filme está ausente qualquer perspetiva de classe. A história é simplificada ao máximo para chegar a uma audiência mais vasta. Tudo  parece o mesmo e soa ao mesmo. E é estupidificante. Há filmes e programas de TV provenientes da Europa, mesmo do Reino Unido, que são bons, mostram sensibilidades heterogéneas, mas não de Hollywood. Tal como nas conferências de imprensa da Casa Branca, o objetivo é manter o foco na mensagem. Personagens negras parecem brancas (ou são caricaturas do dialeto e do diálogo “negro”), personagens mestiços parecem brancos (ou são caricaturas de dialetos de bairro), e os muçulmanos parecem perigosos e desonestos. Os asiáticos parece serem retirados das séries do Fu Manchu ou de Charlie Chan.  Estranho ouvir pessoas a rirem-se dos clichés étnicos dos anos 40,  porque realmente hoje não é diferente (e veja-se a recente incarnação televisiva do venerável Star Strek em que os vilões de Klingon são muito escuros, vivem em naves escuras e usam uma linguagem completamente gutural inventada, em tudo sugerindo alguma coisa de estranhamente racista, nada mais do que retratos coloniais de selvagens da África mais sombria).

 

A fixação dos crimes de Trump distrai de um sistema do qual o crime é um fator inerente. Clinton, Bush, Obama e Trump. Eles são apenas figuras que fazem funcionar o sistema. E o sistema é a propriedade da classe dominante. As pessoas votam como se isso fosse crucialmente importante, e votam  naqueles de que gostam. Não por razões políticas, porque a maioria deles nem tem noção do que é a política. Trump é um alvo óbvio, mas em certo sentido, isso é um problema. A América não se tornou racista e violenta de um dia para o outro. As forças da inquietação social vêm-na construindo há décadas. Trump era inevitável. A sua falta de literacia básica espelha a nação que ele dirige formalmente, e a sua vulgaridade espelha a vulgaridade da América, o mesmo acontecendo com a misoginia e o racismo. Os mesmos assessores estão a postos e, se Hillary Clinton tivesse ganhado, esses bandidos abertamente fascistas que aplaudem Trump estariam a cometer os mesmos crimes de ódio. Trump deu-lhes poder? Em certo grau, sim. Mas a vitória de um HRC [2] teria provavelmente dado uma motivação diferente mas a mesma violência continuaria a ter lugar.  Como país, não podemos sustentar este nível de desigualdade. E quantos mais furacões vierem, quanto mais a biosfera colapsar, nada disto pode deixar de ser importante. Há alguma coisa de perturbador, realmente,  nos ataques implacáveis a Trump. É como bater numa criança com necessidades especiais. Onde estava antes tanto ódio e indignação? A América de Trump, uma expressão que ouço muito, é apenas a América.

 

Temos mais de 2 milhões de pessoas na cadeia nos EUA. Líderes afastados do mundo. A mortalidade infantil coloca os EUA entre o 26.º e o 51.º, dependendo de quem faz a estatística. Não há um serviço universal de saúde, não há proteção sindical para os trabalhadores, não temos licença de maternidade nem educação gratuita. O que se sente  então de especial, exatamente? Trump era muito popular no seu reality show imbecil na TV. Estou em crer que muitos dos que se sentem ultrajados pelas suas palhaçadas reacionárias viam o programa. Esse programa durou quinze anos, creio. Quem pensavam eles que ele era? Não há nada de mal em apontar os crimes da administração de Trump. Mas existe algo de profundamente errado em não os reconhecer como uma continuação da política  dominante. Sim, isto está pior em muitas áreas. A começar pelo ambiente. Mas, mais uma vez, 47% da poluição mundial é causada pela indústria militar. E os EUA têm umas forças armadas maiores do que o conjunto dos dez países mais militarizados do mundo. E todos os presidentes, a partir de Bush pai, aumentaram o orçamento de guerra. O pesadelo não começou com a tomada de posse de Donald Trump. Mas ninguém gosta dele. Gostavam de Obama. E foi por esta razão que ele  conseguir  causar tanto dano. Trump é perigoso não por aquilo que ele pensa (e principalmente não pensa) mas por causa da sua ignorância e fraqueza (e medo). E essa fraqueza levou-a a estender uma  mão  amiga ao Pentágono. A política externa está, na verdade, nas mãos de um homem que tem por alcunha “Mad Dog” [Cão Louco]. Não podemos culpar só um homem por esta catastrófica situação. Isto é uma criação da história da América.

 

Notas

[1] Colin Rand Kaepernick (3 de novembro de 1987Milwaukee) é um jogador de futebol americano que atuava numa posição ofensiva na Liga Nacional de Futebol, mas atualmente está sem equipa. Em 2016, Kaepernick despertou a atenção nacional, quando começou a protestar antes de cada jogo, não prestando homenagem (ficando sentado ou ajoelhado na lateral do campo) durante a execução do hino nacional dos Estados Unidos. Segundo ele, os seus protestos eram motivados contra a desigualdade e a brutalidade racial que, segundo ele, assolam o país. As suas ações geraram uma série de respostas de atletas, políticos, jornalistas e do público, com muitos apoiando-o, incluindo outros jogadores e ativistas. Suas ações acabaram por gerar muita controvérsia e debates nos Estados Unidos a respeito de liberdade de expressão e racismo.

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Colin_Kaepernick

 

[2] HRC – Human Rights Campaign [Campanha pelos Direitos Humanos] – a maior organização americana pelos direitos civis que trabalha em prol da igualdade dos homossexuais masculinos e femininos, e transgéneros.

 

* John Steppling é membro fundador do  Padua Hills Playwrights Festival,   foi   premiado duas vezes  pela  National Endowments for the Arts,  foi ator, e ganhou o prémio Pen-Est para dramaturgos. As peças foram apresentadas em Los Angeles, Nova Iorque, São Francisco, Louisville e em várias universidades dos EUA, e também em Varsóvia, Lodz, Paris, Londres e Cracóvia. Foi professor de guionismo e curador durante cinco anos na Escola Nacional de Cinema de Lodz, na Polónia. Fm 1999 foi publicado um conjunto de peças, Sea of Cortez & Other Plays e o seu livro sobre estética Aesthetic Resistence e Dis-Interest foi publicado este ano pela editora Mimesis International.

 

Fonte: Publicado em 2017/10/26, em https://www.counterpunch.org/2017/10/26/the-simulacra-democracy/

 

Tradução do inglês de TAM

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temáticas:



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.