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Marco Cremaschi 

O plano de "requalificação urbana" de Gaza, elaborado por consultores dos EUA e citado no "acordo de paz" proposto por Donald Trump, descreve um futuro preocupante para a cidade. Longe de ser uma exceção, revela uma lógica já em ação em muitas metrópoles contemporâneas. Como sempre, o diabo está nos detalhes: o planeamento urbano torna-se a linguagem do poder económico cuja vítima colateral é a própria ideia de cidade. 

 

 

Já no primeiro mandato de Donald Trump, o seu genro Jared Kushner  tinha estabelecido relações comerciais com grandes empresários sauditas e do Catar. Este último financiou - e provavelmente salvou da falência - uma das suas imobiliárias em Manhattan e, em seguida, apoiou a empresa que fundou depois de deixar a administração do seu sogro. 

Hoje, Kushner já não representa o governo dos EUA: ele é apenas um empresário, que por acaso é próximo do presidente. O seu papel diplomático, ao lado do enviado especial dos EUA ao  Médio Oriente, o investidor imobiliário Steve Witkoff, é puramente não oficial, e ele é naturalmente irresponsável por conflitos de interesse relacionados com as suas atividades económicas. Essa sobreposição completa entre redes diplomáticas e empresariais ilustra um emaranhado político e económico cuja lógica está no cerne do projeto de Gaza. 

Kushner já tinha formulado a diretriz há muito tempo: a costa de Gaza é uma oportunidade imobiliária. No entanto, os seus habitantes devem ser realojados, por exemplo, em qualquer sítio no deserto de Negev. Para discutir isso, Trump trouxe Witkoff, Kushner e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair à Casa Branca no final de agosto de 2025. De acordo com alguns analistas, a Fundação Humanitária de Gaza - chefiada por Johnnie Moore, um aliado evangélico da Casa Branca - elaborou o plano, que mais tarde foi publicado pelo Washington Post. Apresentado como um exercício técnico sofisticado, o plano também é citado no texto do acordo de paz proposto. 

 

Composto por cerca de quarenta slides ricos em números, mas pobres em imagens, este documento procura demonstrar a "viabilidade" da reconstrução, ignorando a tragédia humana do povo de Gaza e apagando a dimensão política. O seu único horizonte é a rentabilidade financeira de um vasto projeto decalcado do modelo de Dubai. 

Gaza, uma abordagem imobiliária 

Este documento merece atenção não pelo seu valor moral – que não existe – mas porque ilustra a maneira como o capitalismo financeiro agora dita a própria gramática da vida social. O "projeto de paz" de Trump substitui o pacifismo comercial da globalização por uma pax imperialis de inspiração romana: primeiro a aniquilação, depois o lucro. Este modelo, que lembra o negócio imobiliário de Kushner no Golfo, concebe Gaza como um local de redesenvolvimento geopolítico e urbano, não como um espaço habitado. Daí o foco em infraestruturas e desenho urbano: desenvolvimento baseado em tabelas Excel, os rendimentos esperados e os clichês do marketing corporativo. 

 

Gaza já não é vista como uma cidade ou território, mas como um centro logístico que liga Israel, Arábia Saudita e o Mediterrâneo – um corredor global de isenção de impostos. O plano sugere que a reaproximação saudita-israelita é mais forte do se poderia pensar, pelo menos do ponto de vista de Washington. O petróleo e as terras raras vindas da Arábia e do Oceano Índico chegariam ao Mediterrâneo sem passar pelo Canal de Suez, garantidos por uma aliança estratégica construída nas costas dos palestinos. 

A ausência mais grave 

Na brochura do projeto "Riviera", os habitantes de Gaza aparecem apenas como uma categoria residual, percebida como um obstáculo demográfico ou um peão iraniano. Dois milhões de residentes são apagados da história e substituídos por uma narrativa em que os "maus da fita" são maus demais para merecer direitos. E o Hamas é mencionado apenas como uma organização criminosa, sem qualquer consideração política. 

O plano pressupõe que um quarto da população emigrará – ainda mais se forem oferecidos incentivos económicos. A aritmética é arrepiante: cada partida é estimada num "ganho" de 23 000 dólares (um pouco mais de 20 000 euros). A indemnização dos bens é baseada no seu valor atual, que é quase nulo, enquanto os novos alojamentos são estimadas aos preços de Tel Aviv, inacessíveis a quase todos os habitantes de Gaza. 

Nas  visualizações geradas por inteligência artificial, os moradores desapareceram, substituídos por investidores em vestes brancas e keffiyehs, saindo de luxuosos carros Tesla. 

Uma terra devastada 

Os romanos eram mais sinceros. Como Tácito escreveu sobre a conquista da Grã-Bretanha: 

"Eles fazem um deserto e chamam a isso  paz." 

 

A mesma lógica prevalece aqui – sem sequer fingir ouvir as vozes dos interessados. 

Após dois anos de destruição sistemática, a materialidade de Gaza – a sua história, a sua topografia e até mesmo o seu registo de terras – foi apagada; em 365 km2 entre o deserto e o mar, a sua densidade populacional é 50% maior que a de Tel Aviv. Os danos são terríveis: 61 milhões de toneladas de escombros, 78% dos edifícios destruídos ou danificados, metade dos hospitais fora de serviço e apenas 1,5% das terras ainda aráveis para dois milhões de habitantes. 

 
A limpeza exigiria cerca de US $ 18 mil milhões (€ 15,6 mil milhões), milhares de máquinas, dezenas de milhares de meses de trabalho, unidades móveis de tratamento e aterros especializados. 

Mas como? Espalhar esses detritos por toda a faixa seria equivalente a elevar a superfície em 30 centímetros. Lançá-los  de volta ao mar simplesmente levaria o desastre para outro lugar - uma solução sem dúvida prevista por esses empreendedores vorazes que sonham com um porto e ilhas artificiais ao estilo do Dubai. 

Esse processo também apagaria a topografia e o cadastro existentes. Uma oportunidade para este plano que propõe substituir os registos de terras por direitos de propriedade "tokenizados", negociáveis em mercados especulativos baseados em blockchain – transformando as ruínas de Gaza numa lotaria imobiliária. 

A miragem económica 

Em vez de responder à fome e ao colapso humanitário, evoca-se a promessa de uma "Riviera do Médio Oriente" cara a Trump. O plano visa aumentar o valor imobiliário de Gaza para US$ 300 mil milhões (€ 261 mil milhões) em dez anos, com mais de US$ 100 mil milhões (€ 87 mil milhões) em investimentos. O controle e a segurança permaneceriam nas mãos dos militares. 

A Fundação Humanitária de Gaza tornar-se-ia um fundo responsável por administrar o território "até que uma comunidade palestina reformada e desradicalizada esteja pronta". Esse fundo seria dono de um terço do território e adquiriria a maior parte do restante, enquanto a população ficaria confinada a "alojamentos temporárias" – um eufemismo para acampamentos. 

 
A lista de potenciais investidores inclui grandes grupos de construção sauditas e internacionais, a família Bin Laden, Tesla, Ikea, Amazon. Estas empresas podem nunca ter sido consultadas, ou talvez tenham; Saberemos em breve, mas, entretanto, os seus logotipos aparecem no folheto. A narrativa da "Riviera" mascara o verdadeiro objetivo: a especulação imobiliária e o monopólio das infraestruturas. 

Design como instrumento de controle 

O desenho urbano ocupa um lugar central no plano. Como a Paris de Haussmann (1 ), o projeto visa erradicar a insurreição por meio da reorganização espacial. O pressuposto é o de uma tabula rasa total – material, topográfica e jurídica. A costa é vista como uma fronteira extrativa para plataformas de petróleo e gás. 

 

A ordem espacial proposta é uniforme e perturbadora: sete ou oito cidades de 200 000 habitantes, cada uma definida por uma função económica ou um ator privado – data centers, logística, turismo – isoladas e ligadas por corredores de infraestruturas e vigilância. As ferramentas de IA produzem projetos enganosamente precisos, ocultando uma completa falta de empatia, de experiência e escala humana. 

Na Escola Urbana de Ciências Po, pedi aos alunos que imaginassem a cidade mais "maligna" possível. As uas respostas anteciparam essa visão: bairros fechados, espaços públicos artificiais, infraestruturas-barreira, vigilância total, monumentalidade anónima. Eles entenderam instintivamente que o oposto do bom urbanismo não é a desordem, mas o controle - a eliminação calculada da diversidade, proximidade e vida comunitária. 

Um catálogo de urbanismo perverso 

O esquema proposto para Gaza não é um exercício académico. É a aplicação deliberada de uma lógica urbana perversa, projetada para criar um ambiente "seguro" para o capital global. Uma lógica que isola, encerra, mercantiliza todos os recursos, destrói a natureza, reprime a vida social, limita a mobilidade e impõe vigilância e hostilidade. Destrói a capacidade de agir, a comunidade e a dignidade em nome da segurança e do lucro. 

Este fenómeno não diz respeito apenas a Gaza. Os mesmos princípios já são visíveis do Golfo à Ásia: espaços privatizados, paisagens artificiais, enclaves vigiados, infraestruturas de controle. A "cidade do mal" já não é uma ficção distópica – é o modelo emergente de urbanização contemporânea que, após o urbicídio, simplesmente defende uma necrocidade. 

Pode-se concluir com uma reflexão ainda mais sinistra: os Estados Unidos dos supremacistas reacionários, que prometem aniquilar o inimigo interno, olham para Gaza como um modelo. As bombas para destruir, o promotor para reconstruir. Reconstruir o quê, pode perguntar-se? 

O guerreiro Pete Hegseth e o promotor Donald Trump deixaram claro para os 800 generais que se reuniram recentemente em Quantico: o inimigo está entre nós, preparem-se – as vossas próximas zonas de combate serão as cidades dos Estados Unidos. 

 

(1) Refere-se à transformação radical da cidade de Paris realizada entre 1853 e 1870 sob a direção do barão Georges-Eugène Haussmann, a mando de Napoleão III. Foi a reforma urbanística que moldou a Paris moderna, com as suas grandes avenidas, praças simétricas e edifícios uniformes. Essa transformação  foi motivada, em parte, pela necessidade de controlar revoltas populares e impedir a construção de barricadas. A Revolução de 1848, expôs a vulnerabilidade do governo diante das insurreições urbanas. As ruas medievais, tortuosas e densamente povoadas, facilitavam a organização de levantamentos e dificultavam a ação das tropas. 

Em fevereiro de 1848, os revolucionários tinham erguido centenas de barricadas nas ruas estreitas de Paris, levando à queda da monarquia de Luís Filipe e à proclamação da Segunda República. 

 

Fonte: L’urbanisme pervers de la « reconstruction » de Gaza 

Tradução de TAM 

 

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