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Joshua Frank *

A privatização da água pública está-se a tornar mais preponderante à medida que os reservatórios secam em todo o mundo. … Em lugares como a Cidade do Cabo, na África do Sul, que está com uma terrível escassez de água, não é apenas a mudança climática que faz a cidade morrer de sede – os pobres não podem pagar água privada, mas os moradores com dinheiro podem subsidiar as suas pequenas partes.

 

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Foto, fonte: Raúl Hernández González | CC BY 2.0

 

Lixar o povo de Flint, ou assim vai o mantra do Departamento de Qualidade Ambiental de Michigan (DQAM), que, no mês passado, aprovou uma licença controversa que permitirá à Nestlé bombear e engarrafar 400 galões de água potável por minuto do estado de White Pine Springs, perto do município de Osceola. Entretanto, em Flint, os moradores não estão a comprar a mentira do governador de que a sua água é segura para beber.

A privatização da água pública está-se a tornar mais preponderante à medida que os reservatórios secam em todo o mundo. As vendas de água engarrafada não pararam de crescer nos últimos dez anos, enquanto o acesso a H2O potável e acessível diminuiu. Em lugares como a Cidade do Cabo, na África do Sul, que está com uma terrível escassez de água, não é apenas a mudança climática que faz a cidade morrer de sede – os pobres não podem pagar água privada, mas os moradores com dinheiro podem subsidiar as suas pequenas partes.

 “Muitas das empresas ricas que executam o engarrafamento, podem permitir-se comprar água”, disse recentemente Ebrahiem Fourie, da Assembleia Habitacional da Cidade do Cabo, ao jornalista Dahr Jamail. “As águas subterrâneas disponíveis [fontes] estão, regra geral, em áreas afluentes, o que as torna de fácil acesso, e com as atuais restrições, os ricos têm carros para transportar a sua água”.

Megacorporações como a Coca-Cola e a Nestlé podem aparecer como uma boa solução para as comunidades que não têm acesso a água potável. A sua água é potável, portátil e geralmente segura. No entanto, como estamos a testemunhar na Cidade do Cabo, as empresas privadas, no negócio da água, prestam-lhes o serviço a troco de dinheiro. Os pobres são deixados a secar. Negócios como a Nestlé está a fazer no Michigan não resolverão o problema da água em Flint – que é uma das mais pobres comunidades do país –, provavelmente, vão exacerbá-lo.

Isso não impediu o MDEQ de emitir uma licença para a Nestlé, apesar de ter recebido mais de 80.000 cartas contra a emissão, e umas escassas 75 a favor. A licença foi atribuída quando milhares de moradores de Detroit tiveram de fechar a água por falta de pagamento. O que também aconteceu quatro dias depois de o Estado ter posto fim à distribuição de água engarrafada em Flint, apesar do clamor público de que o programa estava a terminar cedo demais.

A Nestlé não é má a conseguir lucro com uma mercadoria barata. No ano passado, a Nestlé Waters North America vendeu US $ 4,5 mil milhões em água engarrafada em 27 diferentes instalações de engarrafamento nos EUA e no Canadá.

O custo da Nestlé para explorar o abastecimento de água no Michigan? US $ 200 por ano. Há dinheiro para ganhar no jogo da água.

O Michigan tem mais água potável do que qualquer outro estado, mas a legislatura de Michigan reconheceu que as reservas ainda são finitas. Um estudo de 2006 mostrou que grandes utilizações de água potável podem danificar o meio ambiente e afetar as reservas.

A licença foi emitida em clara violação dos requisitos legais do Estado de Michigan e pretendemos demonstrar isso”, afirma Peggy Case, Presidente dos Cidadãos do Michigan pela Conservação da Água (CMCA). “Desde a atribuição inicial de uma licença para 100 galões adicionais por minuto em 2015, até este último presente de outros 100, o Estado de Michigan distorceu claramente a lei para favorecer a Nestlé”.

Os moradores de Michigan não vão cair sem luta. Um grupo está a planear levar o DQAM a tribunal. De facto, no início dos anos 2000, o mesmo processo acionou um caso idêntico contra a Nestlé, considerando que o bombeamento de água no município de Mecosta, no Michigan, teria impactos negativos no meio ambiente. Eles venceram e um juiz ordenou à Nestlé que acabasse com o bombeamento. Três anos depois, um tribunal de apelação de Michigan anulou uma parte da decisão original da primeira instância, mas continuou a limitar a quantidade de água que a Nestlé poderia extrair.

Jim Olson, um advogado ambientalista que trabalha sem fins lucrativos, por amor à água, disse recentemente a Jim Malewitz, do Observatório do Ambiente de Michigan, que a Nestlé está numa dura batalha legal. Olson ajudou anteriormente a acusar a Nestlé e está de novo pronto para isso, desta vez com mais dados para sustentar a alegação de que bombear água potável em excesso tem impactos negativos.

Sabemos o que acontece nas nascentes dos riachos e ribeiros do Michigan desde o caso do município de Mecosta”, diz Olson. “Temos um teste decisivo do mundo real aqui”.

O governador de Michigan, Rick Snyder, fez saber que em Flint a água é segura para beber, mas a maioria dos moradores não acredita nessa declaração de Snyder. A sua desconfiança é justificada. Em fevereiro, o DQAM descobriu que 28 amostras de água recolhidas em escolas de ensino básico, em Flint, continham chumbo acima do limite federal. E as antigas tubagens de Flint não serão totalmente substituídos até 2020.

Então, vamos tirar isto a limpo: a água ainda não é segura para beber em dezenas de escolas públicas de Flint, mas a Nestlé prepara-se para fazer milhões com a água de Michigan? Bem-vindo à política da água de Michigan.

 

Aquelas pessoas [em Flint] devem ser os primeiros a ter direitos sobre a água que a Nestlé está a receber”, disse Peggy Case, da CMCA, num comunicado após o anúncio do licenciamento. “O Estado deveria estar a transportar a água subterrânea do povo para Flint, gratuitamente, em grandes contentores”.

 

* Joshua Frank é editor executivo do CounterPunch. O seu livro mais recente é Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion [Sem Esperança: Barack Obama e a política da ilusão], coeditado com Jeffrey St. Clair e publicado pela AK Press. Pode ser encontrado em joshua@counterpunch.org e no Twitter @joshua__frank.

 

Fonte: publicado em 2018/05/04, em https://www.counterpunch.org/2018/05/04/nestle-profits-trump-clean-water-in-flint/, acedido em 2018/05/09

 

Tradução do inglês de MFO

 

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