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Angeles Maestro

A penetração do capital espanhol na Colômbia e noutros países latino-americanos e a relação dos políticos espanhóis com o narcotráfico tem uma longa e suja história. Basta lembrar o convite aos traficantes de drogas colombianos mais famosos de Madrid, como Pablo Escobar, para a celebração em Madrid da vitória eleitoral de Felipe González, em 1982.

 

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Neste domingo, 12 de setembro, realizou-se uma manifestação em Madrid, da Puerta del Sol até à de Alcalá, que, convocada por organizações colombianas como Resistência Madrid-Colômbia ou Pela Vida, Paz e Justiça, reuniu mais de duas mil pessoas para denunciar o convite feito para a visita do Presidente da Colômbia, Ivan Duque, como convidado de honra na Feira do Livro de Madrid.

Duque é o responsável direto pelo assassinato de mais de 70 pessoas e de centenas de desaparecidos, cujos cadáveres continuam a aparecer, durante a Greve Nacional convocada em abril passado contra a reforma tributária que, promovida pelo Fundo Monetário Internacional, pretendia tributar produtos de primeira necessidade e serviços públicos básicos como água, eletricidade, gás ou telecomunicações.

A brutalidade da repressão levada a cabo pela Polícia Nacional, e especialmente pelo Esquadrão Móvel Anti-Motim, levou à denúncia em numerosas manifestações em todo o mundo, e também no Estado espanhol, e à condenação do Comité Interamericano dos Direitos Humanos a quem o governo do Duque negou a entrada no país. Tudo isso foi silenciado pelos grandes média espanhóis e pelo governo PSOE-Podemos que, poucas semanas depois, dedicou as primeiras páginas do noticiário e falou com grande alvoroço “contra a repressão em Cuba”.

A manifestação também mostrou a sua indignação com o anúncio feito pelo “governo progressista” de conceder a Grã-Cruz de Isabel a Católica ao chefe do governo responsável pelo maior genocídio que a história já conheceu contra o povo latino-americano, chefe do governo com ligações ao tráfico de drogas e ao paramilitarismo que está a assassinar centenas de líderes políticos, sindicais e de movimentos populares.

Tanto silêncio dos meios de comunicação perante o massacre diário vivido pelo povo colombiano, como a grotesca decisão de homenagear em Madrid o seu maior responsável neste momento, que une PSOE e PP no mesmo acontecimento, com o silêncio do Unidos Podemos, seria incompreensível se não atentássemos nos fios económicos que os movem.

Os bancos e as grandes multinacionais espanholas como a Repsol, a Naturgy – anteriormente Gas Natural –, a FENOS ou a Agbar (Águas de Barcelona), donos dos grandes meios de comunicação, têm sido denunciados repetidamente pelo uso do narcotráfico e do paramilitarismo para o assassinato de líderes populares e pela deslocação em massa de comunidades que obstaculizavam os seus negócios. Nos conselhos de administração dessas empresas senta-se, com rendimentos suculentos, uma lista interminável de políticos e políticas do PSOE, PP ou PNV.

A penetração do capital espanhol na Colômbia e noutros países latino-americanos e a relação dos políticos espanhóis com o narcotráfico tem uma longa e suja história. Basta lembrar o convite aos traficantes de drogas colombianos mais famosos de Madrid, como Pablo Escobar, para a celebração em Madrid da vitória eleitoral de Felipe González, em 1982.

Em 1984, após o assassinato do Ministro da Justiça da Colômbia por pistoleiros do cartel de Medellín, liderado por Pablo Escobar, os assassinos refugiaram-se em Espanha, onde viviam como príncipes. Após pressões dos Estados Unidos para a sua extradição em diversos processos penais, Felipe González optou por extraditá-los para a Colômbia, onde se sabia que logo sairiam em liberdade. Publicou-se que tal decisão foi precedida, supostamente, do pagamento pelo cartel de Medellín de 30 milhões de dólares destinados a subornos na Espanha [1].

Em 1991, o Governo do PSOE convocou a Primeira Cimeira Ibero-Americana em Guadalajara, liderada por Felipe González e o Rei Juan Carlos, reunindo-se com presidentes latino-americanos como Fujimori (Peru), Menem (Argentina), Gaviria (Colômbia), Salinas de Gortai (México), Carlos Andrés Pérez (Venezuela) etc. Nessa reunião foram acordadas as privatizações de recursos e empresas públicas latino-americanas que permitiram o saque e a entrada triunfal dos novos conquistadores espanhóis pelas mãos dos governos, primeiro do PSOE e depois do PP.

Em dezembro de 2014, Felipe González recebeu a nacionalidade colombiana com todas as honras das mãos do Presidente Juan Manuel Santos, que o definiu como um “ser extraordinário” e um grande amigo do país.

Marx escreveu que o capitalismo vem ao mundo pingando sangue e lama da cabeça aos pés. O capital que saqueia recursos naturais e empresas públicas fá-lo de forma eficaz, por meio de crimes e subornos. Nada disso seria possível sem a cumplicidade criminosa dos governos.

Hoje a solidariedade internacionalista com os colombianos e colombianas que vivem e trabalham em Madrid expressou-se nessa manifestação, pois os povos, tanto aqui como lá, têm os mesmos inimigos.

Estes aspetos foram analisados por mim em “O Regime de Transição e o capital espanhol no saque da América Latina” – https://kaosenlared.net/el-regimen-de-la-transicion-y-el-capital-espanol-en-el-saqueo-de-america-latina/.

[1] https://diario16.com/felipe-gonzalez-y-el-dinero-de-los-carteles-colombianos-de-la-droga/.

Fonte: https://insurgente.org/angeles-maestro-sobre-la-invitacion-y-condecoracion-del-gobierno-al-presidente-de-colombia/, publicado e acedido em 2021/09/13

Tradução do castelhano de TAM

 

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