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Artigo da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE sobre a recente teleconferência internacional dos Partidos Comunistas

 

A questão da participação ou apoio dos PC a governos de “esquerda” e “progressistas”  que surgem no contexto da gestão do capitalismo, continua a ser um ponto crucial nos confrontos político-ideológicos. Em primeiro lugar, porque os partidos que seguem essa postura política com várias construções ideológicas, como a “humanização” do capitalismo, a “democratização” da UE, as “etapas para o socialismo” e a chamada rutura com a política de direita, alimentam ilusões sobre a gestão do capitalismo, branqueiam o papel da social-democracia e focam as suas críticas só numa forma da gestão burguesa, o neoliberalismo.

 

 

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Recentemente, nas condições de uma 5ª onda da pandemia em curso, foi realizada uma Teleconferência Extraordinária do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários sob a responsabilidade do PC da Grécia (KKE) e do PC da Turquia (TKP). Os desenvolvimentos confirmam que os governos burgueses não foram capazes de enfrentar a pandemia de coronavírus em benefício dos trabalhadores. Além disso, as restrições às deslocações de um país para outro dificultavam as reuniões presenciais. Este desenvolvimento negativo radica nas enormes deficiências dos sistemas públicos de saúde, como resultado da política antipopular seguida pelos governos que servem o capital. Trata-se de uma política de mercantilização e privatização da saúde, de apoio aos lucros de grupos monopolistas, que recusa atender à exigência dos partidos comunistas de  libertação de patentes de vacinas e medicamentos, que contribuiria para a vacinação mais rápida e a prevenção de novas variantes de coronavírus.

 

Nestas condições, os Partidos Comunistas e Operários, que continuam a lutar pela vida e pelos direitos da classe operária e das restantes camadas populares, devem trocar pontos de vista e experiências sobre a sua atividade através de diversos meios. Nos últimos anos, várias atividades semelhantes ocorreram. A Teleconferência internacional extraordinária que exigia procedimentos especiais e ser bem preparada para a participação dos partidos em diferentes fusos horários, ajudou a trocar pontos de vista sobre questões cruciais da situação política atual.

 

Mais uma vez, a estreita cooperação entre o KKE e o Partido Comunista da Turquia para o sucesso deste esforço é um exemplo adequado de internacionalismo proletário.

 

Os principais assuntos discutidos na reunião

 

As contribuições dos partidos destacaram aspectos da sua atividade, bem como as abordagens de cada um sobre os principais desenvolvimentos internacionais e nacionais. Foi expressa solidariedade ao PC de Cuba e ao povo cubano em geral que luta há décadas contra o bloqueio dos imperialistas. Também foi expressa solidariedade ao povo da Palestina que luta pelos seus direitos.

 

Todas as contribuições são publicadas no sítio da SOLIDNET juntamente com o texto das Ações Conjuntas que foram aprovadas e incluem as iniciativas convergentes que os PC desenvolverão em 2022. Essas iniciativas dizem respeito aos direitos dos trabalhadores e do povo, ao fortalecimento dos sistemas públicos de saúde, contra o anticomunismo e a distorção da contribuição histórica da URSS e do socialismo, utilizando aniversários marcantes como o da fundação da URSS em 30 de dezembro de 1922, bem como ações de solidariedade com comunistas e outros militantes que enfrentam perseguições e proibições,  contra guerras e intervenções imperialistas, contra a NATO e outras alianças militares imperialistas, contra a existência de bases estrangeiras, e à importância de destacar a necessidade, oportunidade, e realismo do socialismo como a única solução alternativa ao capitalismo.

 

Todos os itens acima foram publicados em SOLIDNET, Rizospastis e 902.gr em grego, juntamente com os discursos introdutórios dos secretários-gerais do KKE e do TKP, camaradas D. Koutsoumbas e K. Okuyan respetivamente.

 

A marca da luta político-ideológica dentro do Movimento Comunista Internacional

 

É claro que questões político-ideológicas cruciais continuam a afetar o movimento comunista internacional. Além disso, nas reuniões internacionais participam partidos como o PC francês ou o PC da Espanha, que protagonizou a corrente oportunista do chamado “eurocomunismo”, e outros partidos que participam do “pilar” do atual centro oportunista europeu, o chamado “Partido da Esquerda Europeia” (PEL) e o grupo de “esquerda” no Parlamento Europeu – GUE/NGL, que, como avaliámos, deslizou para uma espécie de representação do PEL no Parlamento Europeu. Participaram mesmo partidos que rejeitaram o marxismo-leninismo, ou a foice e o martelo e criminalizam a construção do socialismo na URSS.

 

A luta em torno da questão da participação nos governos burgueses

 

A questão da participação ou apoio dos PC a governos de “esquerda” e “progressistas”  que surgem no contexto da gestão do capitalismo, continua a ser um ponto crucial nos confrontos político-ideológicos. Em primeiro lugar, porque os partidos que seguem essa postura política com várias construções ideológicas, como a “humanização” do capitalismo, a “democratização” da UE, as “etapas para o socialismo” e a chamada rutura com a política de direita, alimentam ilusões sobre a gestão do capitalismo, branqueiam o papel da social-democracia e focam as suas críticas só numa forma da gestão burguesa, o neoliberalismo.

 

Tais forças ignoram e menosprezam as leis que regem a economia capitalista e o caráter  irrevogavelmente reacionário do Estado burguês, que não pode ser negado com nenhum tipo de fórmula de gestão burguesa. Essas forças adiam a luta pelo socialismo na “perspetiva de longo prazo” e, na prática, assumem enormes responsabilidades para com os povos ao renunciarem ao árduo trabalho diário de mobilização das forças sociais que têm interesse em enfrentar os monopólios e o capitalismo.

 

Assim, vemos que eles se concentram em soluções de gestão governamental e até votam a favor de gastos militares para as necessidades da NATO e as missões imperialistas (por exemplo, no cinturão do Sahel) ou substituem a exigência de desvinculação do país da NATO por uma vaga reivindicação da sua “dissolução”. O resultado dessa política mostra-se na Espanha, onde o PC da Espanha participa num governo que administra a pandemia de maneira bárbara e antipopular, adota novas medidas antitrabalhadores com base nas orientações da UE e até medidas para minar Cuba, participando também  fortemente nos planos da NATO.

 

A confusão sobre a noção de imperialismo

 

As mesmas forças, na realidade, abordam o imperialismo não usando critérios leninistas, isto é, como capitalismo no seu estágio de monopólio, mas simplesmente como política externa agressiva. Assim, eles ignoram que, na nossa era dos monopólios, Estados capitalistas e as suas organizações supranacionais competem por matérias-primas, energia, riqueza mineral, rotas de transporte de mercadorias e fatias de mercado. Pior ainda, alguns partidos rejeitam que a concorrência entre monopólios constitua a base do agravamento das contradições no quadro internacional.

 

Para esses partidos, a questão concentra-se na política externa agressiva dos EUA, da NATO ou de outras grandes potências, que interpretam seletivamente como “agressão imperialista” e sugerem o chamado “mundo multipolar”. No entanto, a posição que restringe o capitalismo aos EUA, bem como a posição que adota a existência de muitos “polos” internacionais, onde um controlará o outro, resultando num “mundo pacífico”, é totalmente desorientadora para os povos. Obscurece a realidade. Fomenta ilusões de que pode haver um imperialismo “não agressivo”, um capitalismo “pró-paz”.

 

O KKE e outros partidos criticaram visões semelhantes desenvolvidas no século passado tanto por forças oportunistas na Europa como pelo PCUS, especialmente depois da sua viragem oportunista no XX congresso, onde prevaleceu a linha de “competição pacífica” entre os dois sistemas político-sociais.

 

A cooperação “antifascista” com as forças burguesas

 

Surgem confusões em alguns partidos pelo facto de o sistema capitalista, em vários casos, jogar a carta dos mauzões do sistema, ou seja, vários grupos fascistas, e utilizá-los para a promoção de vários planos das classes burguesas, como na Ucrânia. Mesmo algumas forças que reconhecem que o fascismo é uma criação do capitalismo, tendem a desvincular essa questão da luta contra o capitalismo e são levadas à noção de uma colaboração “antifascista” com as forças burguesas ou  a   apoiá-las.

 

Hoje, a avaliação feita pelo KKE a partir do estudo da História da Segunda Guerra Mundial está  a tornar-se crucial para os atuais desenvolvimentos internacionais: que a guerra foi imperialista e injusta tanto para as forças capitalistas fascistas como para os países capitalistas “democráticos”, que também cometeram grandes crimes contra a humanidade, como os bombardeamentos nucleares de Hiroshima e Nagasaki; que a guerra foi conduzida contra a URSS e os movimentos de resistência e de libertação popular nos países ocupados, onde os comunistas desempenharam um papel de liderança.

 

Estas conclusões têm plena atualidade nos dias de hoje, quando as contradições interimperialistas se manifestam na Ucrânia; quando os EUA, a NATO e a UE utilizam forças fascistas na Ucrânia para  as suas maquinações geopolíticas e que, por outro lado, a Rússia capitalista promove os interesses de seus próprios monopólios. É claro que os EUA, as organizações imperialistas da NATO e da UE e as classes burguesas que as formaram têm pesadas responsabilidades na situação que se vive.  A burguesia da Rússia também tem pesadas responsabilidades Todos aqueles que a compõem hoje desempenharam um papel de liderança na dissolução da URSS. Em dezembro assinala-se os 30 anos da sua dissolução. Naquela altura, a preocupação de Yeltsin e das forças sociais e políticas que o seguiam era desmantelar a URSS, e ele não se importava, por exemplo, com o futuro da Crimeia, com os milhões de russos e falantes de russo que acabariam por ficar fora da Rússia. É, portanto, mais do que provocatório ver políticos que então apoiaram Yeltsin no desmantelamento da URSS acusarem hoje constantemente Lenine da dissolução da URSS e apelarem a uma “luta antifascista” na Ucrânia.

 

A abordagem da China hoje

 

É de importância crucial a questão do confronto político-ideológico sobre o que é o socialismo. Existem numerosos partidos que distorcem a noção de socialismo. Há alguns anos, enfrentámos várias teorias sobre o “socialismo do século XXI” ou o “socialismo do bem-estar”, como foram chamados vários governos social-democratas da América Latina, que tentaram administrar o sistema capitalista com palavras de ordem e medidas “radicais” para mitigar a extrema pobreza do povo. Hoje, as atenções estão voltadas para a China, que afirma construir um “socialismo com características chinesas”. No entanto, o que está a ser construído não tem nada a ver com o socialismo ou com os princípios e leis científicas da construção socialista. Socialismo significa socialização dos meios de produção, poder dos trabalhadores e planeamento central. Nada disso existe na China de hoje, onde os monopólios chineses determinam os desenvolvimentos e promovem as suas escolhas, que, entre outras coisas, levam a enormes desigualdades e injustiças sociais com a concordância do PC da China.

 

A questão tem um aspecto não apenas teórico, mas diretamente político, ligada à luta entre os EUA e a China pela supremacia no sistema imperialista.

 

A questão da luta pela supremacia no sistema imperialista

 

Esta questão não é simples, pois a vida mostrou que, em casos semelhantes, quando se disputava a supremacia no sistema imperialista, fomos conduzidos a grandes conflitos de guerra generalizados, com o envolvimento de dezenas de países e um enorme número de mortos pelos confrontos de interesse capitalistas.

 

Hoje, os EUA que continuam a ser a maior potência imperialista político-económica e militar do mundo, sentem a China a aproximar-se devido à lei do crescimento desigual sob o capitalismo,  vemos os monopólios chineses a ocupar posições de destaque no mercado capitalista global, bem como na exportação de  mercadorias e capital.

 

Infelizmente, alguns PC tentam, erroneamente, trazer de volta esquemas do passado e falar de uma nova “Guerra Fria”, com a diferença de que agora colocam a China na posição da URSS contra os EUA. No entanto, a situação atual não tem nada a ver com o confronto URSS-EUA, pois hoje assistimos a um confronto baseado no conflito entre monopólios, portanto, um confronto interimperialista. O KKE destacou essa diferença na sua análise. Outros partidos, como o PC do México e o PC do Paquistão, destacaram o atual caráter capitalista da China, enquanto o Partido Comunista das Filipinas [PKP-1930] se referiu abertamente ao desejo expansionista de hegemonia da China contra países seus vizinhos no Pacífico, um facto também utilizado pelos EUA como pretexto para intervir na área.

 

Em nenhuma hipótese estamos a tratar de uma questão de luta entre capitalismo e socialismo, como falsamente reivindicado por alguns partidos, como o PC do Brasil. É inadequado que comunistas liderem campanhas políticas, como a conduzida pelo PC do Canadá para a liberação da Diretora financeira executiva da Huawei, Meng Wanzhou, filha do presidente do monopólio chinês, cuja fortuna pessoal ultrapassa US$ 3,4 mil milhões, que foi detida por pouco tempo devido ao feroz confronto entre monopólios de alta tecnologia. Não cabe a um PC fazer uma mobilização para uma empresária, cuja fiança chegou a 7,5 milhões de dólares, numa altura em que comunistas em dezenas de países são arrastados para tribunais (p.ex. Ucrânia e Polónia), presos (p. ex. Suazilândia), perseguidos (p. ex. Cazaquistão), mortos a sangue frio (p. ex., Paquistão, Índia), e precisam da nossa solidariedade internacionalista.

 

Devemos notar, entre parêntesis, que o KKE já enviou deputados nacionais, deputados ao Parlamento Europeu e outros quadros a julgamentos de comunistas e partidos perseguidos na Ucrânia, Polónia e países bálticos no passado; denunciou assassinatos e perseguições contra comunistas noutros países como o Paquistão, o Cazaquistão, o Sudão, a Índia e a Venezuela e levantou essas questões no Parlamento Europeu.

 

Sobre a questão da “unidade”

 

Não pode haver uma “unidade” inventada com forças que disputam e revisam os fundamentos do marxismo-leninismo, como os princípios da revolução e da construção socialista, em nome da noção “vamos ater-nos às coisas que nos unem por agora”. Tal unidade, além da imagem falsa e desorientadora que transmitiria aos comunistas de todo o mundo, também é perigosa porque meias verdades são, na essência, mentiras. Além disso, oculta as divergências existentes no interior do movimento comunista e impede a discussão para as superar. Caso os comunistas não tenham uma imagem clara do mundo imperialista contemporâneo e se concentrem apenas nos EUA-NATO ou no neoliberalismo ou no fascismo, desvinculando todas estas questões da causa que as origina, ou seja, o capitalismo,  e não assumam a necessidade do seu derrubamento, serão levados a escolhas trágicas.

 

O KKE, ciente desta situação e esclarecendo o povo sobre isto, está hoje a orientar o movimento anti-imperialista no nosso país contra as bases dos EUA e da NATO, os chamados “acordos de defesa” entre a Grécia, os EUA e a França, contra o envolvimento das forças armadas gregas em missões no exterior, pela saída das uniões imperialistas NATO-UE, com o povo no poder. Levando tudo isso em consideração, o KKE luta com todas as suas forças contra as políticas antipopulares do governo da ND, SYRIZA e outros partidos burgueses, bem como contra os grupos criminosos fascistas, lutando pela formação das pré-condições para a Aliança social e o derrubamento do capitalismo, pondo fim ao círculo vicioso da exploração de classe e das guerras imperialistas.

 

Sobre o caminho do reagrupamento revolucionário do movimento comunista internacional

 

É preciso continuar e conduzir abertamente o confronto político-ideológico para esclarecer as questões. Não concordamos com a troca de epítetos entre os partidos, mas procuramos manter uma discussão de substância. Procuramos também ações conjuntas e convergentes quando viáveis e, particularmente, a expressão da solidariedade internacionalista.

 

Apoiamos as formas existentes de troca de pontos de vista e cooperação entre os PC, como as reuniões internacionais, regionais e temáticas.

 

Reforçamos as formas mais avançadas de cooperação do MCI, como a “Iniciativa Comunista Europeia” (ICE) e a “Revista Comunista Internacional” (RCI), para a formação de um polo comunista que lutará pelo reagrupamento revolucionário e pela unidade do movimento comunista, equipado com a nossa visão de mundo, o marxismo-leninismo.

 

O recente XXI Congresso do nosso Partido elaborou critérios importantes para a nossa cooperação mais estreita com os Partidos Comunistas, que: a) defendam o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário e a necessidade de formar um polo comunista internacional; b) lutem contra o oportunismo e o reformismo, rejeitem a gestão de centro-esquerda e qualquer outra variação da estratégia de etapas; c) defendam as leis científicas da revolução socialista e as utilizem para avaliar o curso da construção socialista, detetar problemas e tirar lições dos erros; d)  ergam uma barreira ideológica contra perceções erróneas sobre o imperialismo, particularmente aquelas que desvinculam as agressões militares do seu conteúdo económico, e lutem contra todas as alianças imperialistas; e) forjem laços com a classe operária.

 

As teleconferências do EIPCO, da ICE e da RCI, que também foram realizadas no período passado, ajudam o nosso Partido a estudar melhor a condição precisa do MCI e todas as formas de cooperação, dando prioridade às ações conjuntas com outros Partidos com base nos critérios referidos.

 

Publicado no Rizospastis em 22/01/22

 

Fonte: http://www.solidnet.org/article/CP-of-Greece-Aspects-of-the-ideologicalpolitical-struggle-in-the-ranks-of-the-international-communist-movement/, acedido e publicado em 25.01.22

Tradução de TAM

 

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