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Cansu Oba, membro do Comité Central do Partido Comunista da Turquia (TKP) 

 

A tensão recorrente entre o TKP e o resto da esquerda turca reflete, na sua essência, uma diferença fundamental de perspetivas. Com o tempo, grande parte da esquerda abandonou a ideia da realidade de uma revolução socialista. 

 

 

Para os leitores que não estão profundamente familiarizados com o Partido Comunista da Turquia (TKP) ou com a política turca, o título pode parecer exagerado. No entanto, num quadro realista, reflete com precisão a dinâmica que pretendemos explorar aqui. Em todo o mundo, os partidos comunistas tradicionais enfrentaram muitas vezes a hostilidade política e ideológica de dentro da própria esquerda. Entender como esse fenómeno se desenrolou na Turquia requer que se olhe atentamente para as origens e a afirmação histórica do TKP. 

O TKP é um partido com uma história de 105 anos marcada por interrupções. As causas e a natureza de muitas dessas interrupções são discutidas noutro artigo desta edição. Embora a organização atual tenha adotado oficialmente o nome TKP em 2001, as suas raízes remontam à fundação do primeiro TKP em 10 de setembro de 1920, e abraça todo o legado da tradição socialista e comunista revolucionária da Turquia. 

A legitimidade inquestionável do TKP de ter hoje o nome do partido comunista começa com o seu papel em restaurar esse nome na vida política e junto da classe operária turca. Para se entender esta afirmação, no entanto, é preciso olhar brevemente para o ponto-chave de uma viragem histórica. 

Na década de 1970, a Turquia viu-se numa situação objetivamente revolucionária, pois o sistema passou por uma crise profunda e estrutural. Este processo foi violentamente interrompido pelo golpe militar fascista de 12 de setembro de 1980, que desferiu um golpe esmagador na esquerda e em todo o movimento da classe trabalhadora. A derrota foi imposta não apenas pela repressão, proibições e lei marcial, mas também com execuções e tortura. O uso de símbolos nacionais como a bandeira e o hino nacional durante essas torturas brutais foi cuidadosamente projetado para fazer a esquerda turca odiar o seu próprio país - para cortar a sua conexão emocional e política com ele. 

Tragicamente, essa estratégia contrarrevolucionária funcionou. A esquerda turca, em quase todas as suas componentes, perdeu a esperança no país – alguns até se voltaram contra ele. É uma história dolorosa. 

Os métodos da junta fascista eram extraordinariamente duros e desumanos, e o custo humano e organizacional que eles comportaram tem de ser compreendido. 

No entanto, a rejeição do TKP do cenário pós-golpe foi principalmente uma resposta ao clima ideológico e político que se instalou dentro da própria esquerda. 

Em 1986, enquanto as proibições políticas ainda estavam em vigor,  foi construído o movimento Gelenek (Tradição) em torno do periódico socialista teórico Gelenek. Formado pelos quadros que mais tarde estabeleceriam o TKP de hoje, esse movimento foi uma aposta desafiante à crescente maré contrarrevolucionária na Turquia e no mundo. Foi também um confronto direto com as tendências revisionistas que ganhavam terreno na teoria marxista-leninista e na sua prática. 

Este desafio perturbou profundamente setores da esquerda que abandonaram a luta revolucionária, renunciaram à própria ideia de uma revolução socialista e subordinaram a sua identidade política ao movimento nacionalista curdo cada vez mais dominante, optando por atuar à sombra dele. 

O seu desconforto resultou da sensação de que o TKP estava "a estragar o jogo". Assim como a esquerda estava a preparar-se para alinhar convenientemente com os atores políticos burgueses, o TKP insistiu   numa política fora do sistema – denunciando esses alinhamentos como de pseudo-esquerda. Enquanto a esquerda começou a centrar a sua política na "paz", "democracia" e "justiça" – temas que, embora importantes, não podem substituir a luta contra a exploração – o TKP argumentou que, sem uma base de classe, tais lutas inevitavelmente permaneceriam dentro dos limites da política burguesa. 

Assim, o surgimento do TKP como uma fonte de irritação – e, em última análise, como um "objeto de ódio" – dentro da esquerda começou com a sua insistência na luta de classes. 

Mantendo o rumo 

O Partido Socialista da Turquia, fundado pelo movimento Gelenek em 1992, foi proibido no ano seguinte. Foi imediatamente reconstituído como Partido do Poder Socialista (SİP), que, em 2001, adotou o nome histórico de Partido Comunista da Turquia (TKP). Na época, ainda era tecnicamente ilegal formar um partido com o nome "comunista". Explorando lacunas na lei burguesa, o TKP desafiou essa proibição e trouxe de volta o nome comunista à política turca. 

Logo após o restabelecimento do TKP, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) chegou ao poder em Novembro de 2002. A ascensão do AKP foi moldada pelo imperialismo dos EUA, seitas islâmicas e grandes monopólios; representava uma coligação de interesses de negócios e ordens religiosas. A sua missão era completar o processo contrarrevolucionário iniciado em 1980, desmantelando o que restava das fundações republicanas, estatais e seculares estabelecidas em 1923. 

A "vacina" ideológica injetada na esquerda pelo golpe de 1980 – o seu sentimento antirrepublicano – conjugou-se com os valores que o AKP promoveu: reduzir o papel do Estado, acabar com o "republicanismo de cima abaixo" e expandir a democracia e a liberdade religiosa. Na realidade, isso significava aprofundar a exploração, destruir as conquistas dos trabalhadores, fortalecer o islamismo sunita em todo o Estado e na sociedade e destruir o tecido social secular. 

Desde o início, o TKP reconheceu a natureza de classe do AKP e o seu papel como um partido com a missão especial da restauração capitalista e da integração imperialista. Enquanto o TKP se opunha de forma consistente e determinada ao AKP, grande parte da esquerda turca – sob a ilusão de que "o regime tutelar está a ser quebrado" – abertamente ou tacitamente apoiou-o no início. 

Contra a maré 

Durante os mesmos anos, o processo de adesão a Turquia à União Europeia ganhou impulso. Após a Cimeira de Helsínquia de 1999, a ideia da "Europa do Trabalho" espalhou-se dentro da esquerda turca – uma fantasia que não apenas enganou, mas também enfraqueceu a resistência da classe trabalhadora ao imperialismo e ao AKP. O TKP ficou sozinho contra essa corrente pró-UE, impedindo que a esquerda deslizasse permanentemente para uma orientação pró-europeia. Mesmo quando outras forças de esquerda ajustaram gradualmente a sua retórica, o ressentimento entre a esquerda em relação ao TKP  aprofundou-se. 

Mais tarde, quando a experiência do Syriza surgiu na Grécia, grande parte da esquerda turca procurou imitá-la, enquanto o TKP – juntamente com os partidos irmãos na Europa, particularmente o Partido Comunista da Grécia (KKE) – alertou para as ilusões liberais que tais movimentos criaram à custa dos direitos dos trabalhadores. 

Logo após assumir o poder, o AKP iniciou a sua operação para desmantelar a República, visando a burocracia militar e civil através dos julgamentos Ergenekon e Balyoz (1). Centenas de pessoas foram presas por motivos políticos. Mais uma vez, o AKP procurou ganhar o apoio dos liberais e da esquerda, apelando aos seus sentimentos anti-republicanos. E mais uma vez, grande parte da esquerda caiu nessa armadilha – alguns permanecendo em silêncio, outros enquadrando os julgamentos como "democratização" ou "limpeza do Estado profundo". Embora muitos dos alvos não fossem figuras de que o TKP pudesse dar  garantias políticas, o partido concentrou-se no projeto mais amplo por trás dos julgamentos - a tentativa do AKP de redesenhar a Turquia - e opôs-se a eles. 

No seu livro de 2009 A esquerda presa entre Ergenekon e o AKP, o secretário-geral do TKP, Kemal Okuyan, explicou a razão por que fora um escândalo apoiar esses julgamentos em nome da esquerda. Anos depois, quando a esquerda foi forçada a reconhecer que o TKP estava certo, ela mesmo assim não abandonou a sua hostilidade.   

Um profundo choque de perspetivas 

A tensão recorrente entre o TKP e o resto da esquerda turca reflete, na sua essência, uma diferença fundamental de perspetivas. Com o tempo, grande parte da esquerda abandonou a ideia da realidade de uma revolução socialista. Durante a "fase liberal" do AKP nos primeiros anos do seu governo, a análise de classe foi substituída por um foco na contradição "Estado versus sociedade". Mais tarde, quando o AKP se tornou mais autoritário, a esquerda justificou o seu abandono da política revolucionária sob a bandeira da "luta unida contra o regime palaciano". 

Essa tendência persistiu: grande parte da esquerda agora define a sua política em relação ao CHP (a principal oposição social-democrata) ou ao Partido DEM (o partido político do nacionalismo curdo). Durante as eleições, esse alinhamento torna-se explícito – alguns partidos de esquerda até colocam candidatos nas suas listas e fazem campanha por eles – enquanto em tempos normais impede o desenvolvimento de uma linha socialista independente. Os esforços do TKP para construir esse caminho independente por meio de alianças sociais tornaram-no novamente uma fonte de irritação, e foi acusado de "arrogância" e "sectarismo". 

Durante o "processo de paz", esta divisão aprofundou-se ainda mais. Enquanto a maior parte da esquerda limitou as suas críticas a saber se o AKP cumpriria as suas promessas, o TKP – embora saudando o desarmamento – alertou que o processo deveria ser avaliado pela direção que toma. O Partido destacou a ligação desse processo com o plano do imperialismo norte-americano de redesenhar o Oriente Médio, a sua consonância com o Expansionismo neo-otomanista do capital turco , e a sua base ideológica sunita-islâmica. O TKP insistiu que nem os trabalhadores turcos nem os curdos tinham qualquer interesse em tal "paz capitalista". Mais uma vez, a esquerda optou por atacar o TKP em vez de se preocupar com o conteúdo da sua crítica. 

Romper, ficar mais forte 

O TKP há muito que rompeu os seus laços com uma esquerda que se distanciou da revolução, evitou a luta real e escolheu o conforto das alianças políticas burguesas. No entanto, à medida que a hostilidade em relação ao TKP dentro da esquerda cresceu, o interesse público no partido aumentou. Essa crescente atenção na esfera política confirma a justeza da decisão do TKP no seu XIV Congresso em 2024 – a sua decisão de romper com o resto da esquerda que carece de qualquer vontade e ação para organizar uma luta revolucionária genuína. 

(NT) 

(1) Processo Ergenekon (2008–2016):  julgamento de generais, jornalistas e académicos sob acusação de integrarem uma conspiração secularista para derrubar o governo do AKP. Em 2016 o Supremo Tribunal anulou os julgamentos por considerar que as provas eram frágeis, haver documentos forjados e motivações políticas. Processo Balyoz (Martelo): acusação de participação de oficiais de alta patente num plano de golpe militar em 2003. As condenações foram anuladas em 2015 por violação de direitos. 

Fonte: In Defense of Communism: Why Has TKP Become the “Object of Hatred” of the Turkish Left? , publicado e acedido em 04.11.2025 

 

Tradução de TAM 

 

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