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Annie Lacroix-Riz, professora emérita, Universidade Paris 7, 6  de agosto de 2019

Aqui vamos muito além da simples tentativa de aterrorizar o Japão, mas também a União Soviética, esgotada pela guerra, pela perda de quase 30 milhões dos seus cidadãos e  pela destruição da sua parte europeia, isto é, de uma parte ainda essencial do seu poder económico...

 

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1 - Recensão de Hiroshima’s shadow, Kai Bird e Lawrence Lifschultz, The Pamphleteer’s Press, Stony Creek, Connecticut, 1998, 584 pp.

Esta obra consagrada à “sombra de Hiroshima” é apaixonante a um duplo título: cívico e científico.

Cívico, porque a sua história ilustra as dificuldades do pensamento independente e a recorrência do macarthismo, essa “Grande Inquisição dos anos 50”, nas instituições oficiais ou oficiosas confrontadas com os rigores da busca da verdade histórica. O Instituto Smithsonian, que queria comemorar, com uma vasta exposição, em 1995, o quinquagésimo aniversário do bombardeamento de Hiroshima, esperava que os historiadores solicitassem a confirmação dos quatro “artigos de fé” da “lenda” mantida entre o povo americano (e as nações estrangeiras) desde agosto de 1945: 1.° ter-se-ia assim evitado 500.000 ou mesmo um milhão de perdas americanas; 2.° as populações ameaçadas de Hiroshima e Nagasaki tinham sido avisadas por todos os meios; 3.° ambas as cidades tinham sido atacadas  porque eram “objetivos militares legítimos”; 4.º Truman teria feito uma escolha legítima entre o uso da arma atómica e a “perspetiva assustadora e onerosa da invasão militar do Japão”. O referido instituto desistiu do seu projeto quando chegou à conclusão de que os historiadores, grandes nomes da ciência americana, não cederiam às sereias do velho mito das “500.000 vidas americanas salvas”: à esperança da autocensura a respeito deste mito seguiu-se, pois, a censura.

Os historiadores solicitados pelos dois diretores da publicação deste livro, especialistas em história política e militar da Guerra Fria, às vezes durante várias décadas (Gar Alperovitz, Barton Barnstein, John Dower, Robert Messer e Martin Sherwin), lançaram-se à tarefa científica. Eles demonstraram neste livro-síntese, com o apoio de arquivos, como nos seus trabalhos anteriores, até que ponto o mito era oco; e como esse ato de barbárie foi, de acordo com uma expressão de 1948 (citada por R. Messer), menos “o último ato militar da Segunda Guerra Mundial do que a primeira grande operação da fria Guerra Diplomática com a Rússia” que convinha intimidar, para lhe fazer admitir que não poderia, tanto quanto esperava, tirar proveito de sua vitória militar tão duramente conquistada no continente europeu (partes I e II).

O livro também inclui outros tipos de contribuições: textos originais ou posteriores a 1945, de decisores daquele tempo, cientistas e outras personalidades que se opunham ao uso de armas atómicas contra as populações indefesas (III: “as primeiras críticas”); declarações precisas sobre  as  formas da censura e as tentativas de cancelamento da exposição planeada (IV); testemunhos de cortar o coração de médicos e outros contemporâneos japoneses, e relatórios elaborados hoje, como, por exemplo, um debate, em 1995, entre os presidentes dos municípios das duas cidades mártires (V); documentos militares e políticos, enfim, de junho a agosto de 1945:  designadamente a petição, assinada em 17 de julho, por 71 cientistas ligados ao Plano Manhattan (da construção da bomba atómica), advertência moral contra a tentação de usar a bomba contra as populações civis e como instrumento de gestão das futuras relações internacionais pelo poder americano sozinho dotado de tais “meios de destruição”.

Isto é um sucesso e um modelo que gostaríamos de ver imitado entre nós: para quando uma síntese deste tipo sobre as circunstâncias da derrota de 1940 ou das guerras coloniais, incluindo a análise dos vários obstáculos colocados perante o livre trabalho científico?

Versão curta publicada pelo Le Monde diplomatique, janeiro de 1999, p. 31, https://www.monde-diplomatique.fr/1999/01/LACROIX_RIZ/2676.

2 – Comentário da síntese de Ward Wilson « the winning bomb? [A bomba vencedora]», International Security, Vol. 31, n.º 4 (primavera de 2007), pp. 162-179, 2007,

http://belfercenter.ksg.harvard.edu/files/is3104_pp162-179_wilson.pdf  http://www.slate.fr/source/105243/ward-hayes-wilson

A síntese de 2007, de Ward Wilson, baseada em arquivos americanos e japoneses, confirma estudos anteriores sobre o significado da política americana. Isso atesta que o duplo ataque nuclear permitiu apenas aos Estados Unidos:

. recusar à URSS, com poderes nos termos dos acordos de Yalta, a ocupação do Japão “nos três meses que se seguiram ao fim da guerra [a rendição alemã] na Europa”, “a parte decisiva” que lhe cabia na circunstância. O autor, depois de muitos outros historiadores, recorda que nem neste conflito nem em qualquer outro que se lhe seguiu (especialmente a guerra do Vietname), os bombardeios de terror, dirigidos contra as populações, estiveram na origem da mais pequena vitória militar;

. atribuir a si mesmo a exclusividade de uma esmagadora vitória contra o Japão e orientar o seu futuro, sem que o vencedor militar da Segunda Guerra Mundial,  suscetível de poder obter  a rendição japonesa o mais rapidamente possível,  tivesse voz na matéria.

Aqui vamos muito além da simples tentativa de aterrorizar o Japão, mas também a União Soviética, esgotada pela guerra, pela perda de quase 30 milhões dos seus cidadãos e  pela destruição da sua parte europeia, isto é, de uma parte ainda essencial do seu poder económico, isto é, a tese segundo a qual os Estados Unidos teriam sido “militarmente” invencíveis [1].

O Exército Vermelho invadiu a Manchúria, como esperado, na madrugada de 9 de agosto de 1945, com “1.500.000  homens [...e] uma superioridade em tanques de 5 para 1, e progrediu rapidamente”. 

Se a intervenção [militar] soviética terminasse a guerra com o Japão, os soviéticos poderiam reivindicar a sua capacidade de atingir em quatro dias o que os Estados Unidos não conseguiram em quatro anos, e a influência soviética teria crescido”.(p. 176).

Esta questão trouxe para a cimeira a guerra de terror liderada pelos Estados Unidos contra a população japonesa, muito mais do que contra as forças armadas japonesas (note-se que a URSS nunca utilizou o menor bombardeamento contra as populações). Antes das duas explosões em Hiroshima e depois em Nagasaki, o “bombardeamento das cidades” pelos B-29 [da Boeing] causou devastações terríveis, muito mais do que os números de 6 e 9 de agosto: um único bombardeiro vindo das Ilhas Marianas largou entre 8 e 10.000 libras de bombas [1 libra = 0,45359237 quilogramas], e cada ataque a uma cidade representava entre um quarto e um terço do balanço de Hiroshima, sabendo além disso que a distribuição de bombas era cada vez mais extensiva, e não limitada ao centro urbano.

A campanha de bombardeamentos dos EUA, que começou em março de 1945, contra as cidades japonesas [...  com modestos números de habitantes], 30.000 [, ...] matou mais de 333.000 civis e feriu 472.000, fez mais de 8 milhões de desalojados e  incendiou cerca de 460 quilómetros quadrados de área urbana. [...] durante todo o verão, as cidades japonesas foram bombardeadas à razão de um ataque por dia. Nas três semanas anteriores ao bombardeamento de Hiroshima, 25 cidades foram atacadas, “oito das quais, isto é, quase um terço, sofreram perdas maiores do que Hiroshima” [2].

O resultado dos  ataques nucleares, com um balanço muito inferior aos dos estragos perpetrados desde março de 1945, ou a tese da “superioridade científica” esmagadora e imprevista, ajudava particularmente o regime imperial: por um lado,  ilibava-o  do fracasso político e militar da sua estratégia imperialista, mortal para o povo japonês, e, por outro, só a intervenção americana exclusiva possibilitaria mantê-lo, ao contrário do que prometia  uma vitória soviética.

 

[1] Estas aspas são de minha autoria.

[2]  Art. cit., gráfico p. 169, com a lista das cidades atacadas entre 16 de julho e 5 de agosto e, entre as 25, duas quase tanto.   

Fonte: http://historiographie.info/warwilson.pdf, acedido em 2019/08/08

Tradução do francês de TAM

 

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