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Ramzy Baroud

Ao longo dos anos, Israel limpou etnicamente todos os palestinianos que ficaram nessas “zonas de tiro”, deixando apenas 5.000, que provavelmente sofrerão o mesmo destino, caso a ocupação israelita continue na mesma trajetória violenta.

 

 

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Fonte da fotografia: Soman – CC BY 2.5

Uma notícia aparentemente comum, publicada no jornal israelita Haaretz, em 7 de janeiro, lança luz sobre um assunto há muito esquecido, mas crucial: as chamadas “zonas de tiro” de Israel na Cisjordânia.

Israel apreendeu o único veículo disponível de uma equipa médica que presta assistência a 1.500 palestinianos que vivem dentro de uma zona de tiro militar israelita na Cisjordânia”, segundo o Haaretz.

A comunidade palestiniana que viu o seu único acesso negado aos serviços médicos é Masafer Yatta, uma pequena vila palestiniana localizada nas colinas de Hebron do Sul.

Masafer Yatta, que existe em total e absoluto isolamento do resto da Cisjordânia ocupada, está localizado na 'Área C', que constitui o maior pedaço territorial, cerca de 60%, da Cisjordânia. Isso significa que a vila, juntamente com muitas cidades palestinas, aldeias e pequenas comunidades isoladas, está sob total controlo militar israelita.

Não deixe que a lógica confusa dos Acordos de Oslo o engane; todos os palestinianos, em todas as partes da Cisjordânia ocupada, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza sitiada, também estão sob controlo militar israelita.

No entanto, e infelizmente para Masafer Yatta e aqueles que vivem na 'Área C', o grau de controle é tão sufocante que todos os aspetos da vida palestina – liberdade de movimentos, educação, acesso à água potável etc. - são controlados por um complexo sistema de ordenanças militares israelitas que não têm nenhuma consideração pelo bem-estar das comunidades sitiadas.

Não é surpresa, portanto, que o único veículo de Masafer Yatta, uma tentativa desesperada de ter uma clínica móvel, tenha sido confiscado também no passado, e só tenha sido recuperado depois de os moradores pobres terem sido forçados a pagar uma multa aos soldados israelitas.

Não há lógica militar no mundo que possa justificar racionalmente a restrição de acesso médico a uma comunidade isolada, especialmente quando uma potência ocupante como Israel é legalmente obrigada pela Quarta Convenção de Genebra a garantir acesso médico a civis que vivem em um território ocupado.

É natural que Masafer Yatta, como todos os palestinianos da 'Área C' e da grande Cisjordânia, se sinta negligenciada – e completamente traída – pela comunidade internacional e pela sua própria liderança.

Mas há mais coisas que tornam Masafer Yatta ainda mais particular, que a qualifica pela triste designação de ser um Bantustão dentro de um Bantustão, pois subsiste num sistema de controle muito mais complexo, comparado com o imposto à África do Sul negra durante o regime do Apartheid.

Logo depois de Israel ter ocupado a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza, planeou uma estratégia de longo prazo, visando o controle permanente dos territórios recém-ocupados. Embora designasse algumas áreas para a realocação futura dos seus próprios cidadãos – que agora compõem a população extremista ilegal de colonos judeus na Cisjordânia –, também reservou grandes áreas dos Territórios Ocupados como zonas de segurança e proteção.

O que é muito menos conhecido é que, ao longo da década de 1970, os militares israelitas declararam cerca de 18% da Cisjordânia como “zonas de tiro”.

Essas “zonas de tiro” deveriam ser consideradas campos de treino para os soldados do exército de ocupação israelita – embora os palestinianos encurralados nessas regiões frequentemente relatem que pouco ou nenhum treino militar ocorre dentro de “zonas de tiro”.

De acordo com o gabinete para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), na Palestina existem cerca de 5.000 palestinianos, divididos entre 38 comunidades que ainda vivem, nas mais difíceis condições, dentro das chamadas “zonas de tiro”.

A ocupação de 1967 levou a uma onda massiva de limpeza étnica, que levou à remoção forçada de aproximadamente 300.000 palestinianos do território recém-conquistado. Muitas das comunidades vulneráveis que foram etnicamente limpas, incluindo palestinianos beduínos, e continuam a pagar o preço dos desígnios coloniais de Israel no vale do Jordão, nas colinas de Hebron do sul e noutras partes da Palestina ocupada.

Essa vulnerabilidade é agravada pelo facto de a Autoridade Palestina (AP) agir com pouca consideração pelos palestinianos que vivem na 'Área C', deixados por sua conta para resistir às pressões israelitas, recorrendo muitas vezes ao sistema judicial injusto de Israel para reconquistar alguns dos seus direitos básicos.

Os Acordos de Oslo, assinados em 1993 entre a liderança palestiniana e o governo de Israel, dividiram a Cisjordânia em três regiões: a 'Área A', teoricamente sob controle autónomo da Palestina e consistindo em 17,7% da área total da Cisjordânia; a 'Área B', 21%, sob controle partilhado da Autoridade Palestiniana e Israel e a 'Área C', o restante da Cisjordânia, sob controle total de Israel.

Este acordo deveria ser temporário, previsto para ser concluído em 1999, uma vez concluídas as “negociações finais sobre o status” e assinado um amplo acordo de paz. Em vez disso, tornou-se o status quo ante [na mesma situação anterior].

Por muito desafortunados que sejam os palestinianos que vivem na 'Área C', aqueles que vivem na “zona de tiro” dentro da 'Área C' são-no muito mais. Segundo as Nações Unidas, as suas dificuldades incluem “o confisco de propriedades, a violência dos colonos, o assédio dos soldados, restrições de acesso e movimento e/ou escassez de água”.

Como se esperava, muitos colonatos judeus ilegais surgiram nessas “zonas de tiro” ao longo dos anos, uma indicação clara de que essas áreas não tinham nenhum objetivo militar, mas serviram para dar uma justificação legal israelita para confiscar quase um quinto da Cisjordânia para futura expansão colonial.

Ao longo dos anos, Israel limpou etnicamente todos os palestinianos que ficaram nessas “zonas de tiro”, deixando apenas 5.000, que provavelmente sofrerão o mesmo destino, caso a ocupação israelita continue na mesma trajetória violenta.

Isso faz da história de Masafer Yatta um microcosmo da trágica e mais vasta história de todos os palestinianos. É também um reflexo da natureza sinistra do colonialismo israelita e da ocupação militar, onde os palestinianos ocupados perdem as suas terras, as suas águas, a sua liberdade de movimentos e, eventualmente, os cuidados médicos mais básicos.

Estas duras “condições contribuem para um ambiente coercitivo que cria pressão sobre as comunidades palestinianas para deixar essas áreas”, de acordo com as Nações Unidas.  Por outras palavras, limpeza étnica, que foi sempre o objetivo estratégico de Israel.

* Ramzy Baroud é jornalista, autor e editor do Palestine Chronicle. O seu último livro é The last earth: a palestinian story (Pluto press, Londres, 2018). Obteve um Ph.D. em estudos da Palestina pela Universidade de Exeter e é bolseiro não residente no centro Orfalea de estudos globais e internacionais, UCSB.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2020/01/17/sealed-off-and-forgotten-what-you-should-know-about-israels-firing-zones-in-the-west-bank/, publicado em 2020/01/17, acedido em 2020/01/20.

Tradução do inglês de TAM

 

 

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