Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Polo do Renascimento Comunista em França (PRCF)

 

Já em 1965, na Indonésia, o governo americano se apoiou nos movimentos islamitas radicais e reacionários para derrubar o presidente Sukarno e colocar à frente do maior país muçulmano do mundo um sanguinário poder fascista, a ditadura do general Suharto, que durou até meados da década de 1990. As consequências foram terríveis, com o genocídio de 3 milhões de comunistas, ou supostos como tal, na Indonésia, em 1965-1966, e a sua perseguição até hoje, mas também o genocídio do povo de Timor-Leste.

 

 

Hv5Slf.jpg

Quem está por trás do terrorismo islamita? A questão é importante no momento em que os atentados se multiplicam no mundo, na África, na Ásia e na Europa. Quem está por trás destes terroristas islamitas, estes loucos de deus, da Al Qaeda ou do Daesch?

Nas origens dos movimentos terroristas islamitas está o imperialismo americano. Já em 1965, na Indonésia, o governo americano se apoiou nos movimentos islamitas radicais e reacionários para derrubar o presidente Sukarno e colocar à frente do maior país muçulmano do mundo um sanguinário poder fascista, a ditadura do general Suharto, que durou até meados da década de 1990. As consequências foram terríveis, com o genocídio de 3 milhões de comunistas, ou supostos como tal, na Indonésia, em 1965-1966, e a sua perseguição até hoje, mas também o genocídio do povo de Timor-Leste.

Em 1979, depois de os Estados Unidos perderem a guerra do Vietname e de se verem privados da ditadura do xá no Irão, financiam e armam massivamente os primeiros grupos terroristas “islamitas” no Afeganistão: Bin Laden e a Al Qaeda são, assim, uma criação americana. A guerra civil que se seguiu no Afeganistão obriga o governo de Cabul a fazer valer os seus acordos de defesa com a URSS e à intervenção do Exército Vermelho. A partir de então, os EUA reforçam ainda mais o seu apoio aos mujahidin. O resultado será a queda do governo laico, substituído por uma ditadura islâmica, os talibãs.

No final da década de 1990, para fazer explodir a Jugoslávia, é também nos islamitas que os Estados Unidos e a União Europeia apostam na Bósnia, provocando, também aí, uma guerra sangrenta. Depois, na Líbia, é ainda nos islamitas que os Estados Unidos se apoiam para semear o caos no país e derrubar o poder de Kadhafi, cuja culpa não era o seu poder autoritário, mas o de se recusar a obedecer ao imperialismo americano. No Golfo, no Paquistão, os Estados Unidos também apoiam ditaduras e outras monarquias absolutas, que são os principais financiadores do fundamentalismo islâmico e do terrorismo islâmico internacional.

“Sim, a CIA entrou no Afeganistão antes dos russos” *

Le Nouvel Observateur: O ex-diretor da CIA, Robert Gates, afirma nas suas memórias [1]: os serviços secretos americanos começaram a ajudar os mujahidin afegãos seis meses antes da intervenção soviética. Na época, o senhor era o conselheiro do presidente Carter para os assuntos de segurança. Desempenhou, pois, um papel fulcral nesta questão? Confirma isto?

Zbigniew Brzezinski [2]: Sim. De acordo com a versão oficial da história, o auxílio da CIA aos mujahidin começou em 1980, isto é, depois de o exército soviético ter entrado no Afeganistão, a 24 de dezembro de 1979.

Mas a realidade, mantida em segredo, é bastante diferente: foi, de fato, em 3 de julho de 1979, que o presidente Carter assinou a primeira diretiva sobre a assistência clandestina aos opositores do regime pró-soviético de Cabul. E, nesse dia, escrevi uma nota ao presidente, explicando-lhe que, na minha opinião, essa ajuda iria provocar uma intervenção militar dos soviéticos.

Le Nouvel Observateur: Apesar desse risco, o senhor era partidário dessa “ação secreta” (operação clandestina). Mas, talvez desejasse mesmo essa entrada em guerra dos soviéticos e tentasse provocá-la?

Zbigniew Brzezinski: Isso não é bem assim. Nós não empurrámos os russos para intervirem, mas, conscientemente, aumentámos a probabilidade de o fazerem.

Le Nouvel Observateur: Quando os soviéticos justificaram a sua intervenção afirmando que pretendiam lutar contra uma ingerência secreta dos Estados Unidos no Afeganistão, ninguém acreditou neles. No entanto, havia aí um fundo de verdade. Hoje, não se arrepende de nada?

Zbigniew Brzezinski: Arrepender de quê? Essa operação secreta foi uma excelente ideia. Ela teve o efeito de atrair os russos à armadilha afegã e quer que eu lamente isso? No dia em que os soviéticos cruzaram oficialmente a fronteira, escrevi ao presidente Carter, em essência: “Temos agora a oportunidade de dar à URSS a sua guerra do Vietname”. De facto, Moscovo teve de travar, durante quase dez anos, uma guerra insuportável para o regime, um conflito que levou à desmoralização e, finalmente, ao colapso do império [3] soviético.

Le Nouvel Observateur: Então não se arrepende de ter favorecido o fundamentalismo islamita, de ter dado armas e conselhos a futuros terroristas?

Zbigniew Brzezinski: O que é o mais importante do ponto de vista da história do mundo? Os talibãs ou a queda do império soviético? Alguns excitados islamitas ou a libertação da Europa central e o fim da guerra fria?

Le Nouvel Observateur: Alguns excitados? Mas é dito e repetido: o fundamentalismo islâmico representa hoje uma ameaça mundial.

Zbigniew Brzezinski: Besteiras. Seria necessário, diz-se, que o Ocidente tivesse uma política global em relação ao islamismo. É estúpido: não existe islamismo global. Olhemos o Islão de forma racional e não demagógica ou emocional. É a primeira religião do mundo, com 1,5 mil milhões de fiéis. Mas o que há de comum entre a Arábia Saudita fundamentalista, o Marrocos moderado, o Paquistão militarista, o Egito pró-ocidental, ou a Ásia Central secularizada? Nada mais do que o que une os países da cristandade.

 

Notas

[1] “Das sombras”, por Robert Gates, Simon e Schuster.

[2] Zbigniew Brzezinski acaba de publicar “Le Grand Échiquier” [O GrandeTabuleiro], Bayard Editions.

[3] O imperialismo americano e os seus teóricos sempre apresentaram e tentaram incutir na opinião pública a ideia de que a URSS seria um país imperialista e não um país socialista. - NT

 

* Fonte: Le Nouvel Observateur, 15/01/1998 – entrevista a Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro do presidente dos EUA, Jimmy Carter.

 

Fonte: publicado em https://www.initiative-communiste.fr/articles/international/terrorisme-islamiste-creation-americaine-attaquer-lurss/

 

Tradução do francês de MFO

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.