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Viktor Tyulkin, primeiro-secretário do Partido Comunista Operário Russo (PCOR) – entrevista

… pode-se perguntar por que é que Putin limita o imposto progressivo para os super-ricos a apenas 20%, enquanto nos países desenvolvidos, de que ele tanto gosta, esse imposto pode chegar aos 60%. O mais importante é que o presidente evita considerar a questão básica da propriedade. Ele acha possível “vender parte da propriedade do Estado”, mas nunca considera a possibilidade de devolver ao Estado todas as propriedades que foram roubadas ao povo sob o disfarce de privatizações. Aqui está a essência da posição de Putin, que ele expressou já na época em que Eltsyn o escolheu como sucessor: “Não haverá reconsideração das privatizações!”.

 

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Hoje (29/08/2018), o presidente Putin dirigiu-se aos cidadãos da Rússia pela TV e pela rádio. O seu objetivo foi o de explicar a sua posição em relação à proposta de aumento da idade de reforma. Ao aprovar o processo geral do governo, introduziu uma série de propostas destinadas a suavizar a transição para o novo sistema e as suas consequências. Pedimos ao Primeiro Secretário do CC do PCOR (RCWP CC), o líder da ROT Front [Frente Unida de Trabalho Russa – NT], o camarada Viktor Tyulkin, para comentar o discurso do presidente.

 .

P: Viktor Arkad'evich, em várias ocasiões expressou a opinião de que a questão da reforma das pensões é uma espécie de teste de decência para Putin. Porquê, e como avalia os resultados do teste?

VT: Entendo, obviamente, que Putin falhou neste peculiar teste. Tornou-se uma desagradável surpresa para as muitas pessoas que continuam a confiar nele. Por que é que isto aconteceu?

Eu recomendaria que prestássemos mais atenção, não às medidas destinadas a suavizar a reforma que, aparentemente, foram preparadas com antecedência – por exemplo, oferecendo uma idade menor para a reforma das mulheres –, mas sim à suposta indispensabilidade absoluta da própria reforma.

Primeiro, Putin não é, obviamente, sincero - ele manobra e contorce-se. Ele tenta explicar por que mudou a sua posição inicial. “Então, no início de 2000, fui contra essas medidas. Costumava falar sobre isso em reuniões fechadas e em público. Por exemplo, no decorrer de uma das “Linhas diretas”, eu disse expressamente que tais mudanças não seriam introduzidas antes do final do meu mandato presidencial”. Em seguida, explica que a situação mudou desde então e que o chamado “fosso demográfico” se aprofundou e não há, alegadamente, outra saída – as impopulares reformas terão de ser adotadas de qualquer forma, independentemente do facto de quem está no poder.

Ainda assim, gostaria de mencionar que as suas exatas palavras foram, na altura, diferentes. Ele disse: “Enquanto eu for presidente, tal decisão não será tomada”. Ou seja, ele não referiu um seu particular, próximo, mandato presidencial, mas sim a sua presidência como um todo.

Uma outra coisa é ainda mais importante. Poderia Putin mudar a sua opinião? Nós pensamos que sim, que poderia. No entanto, temos de levar em consideração ainda outro argumento. Recentemente, tivemos eleições presidenciais e qualquer político decente, ao apresentar publicamente a sua candidatura, deveria ter manifestado especificamente a sua posição relativamente a esta questão crucial, que diz respeito a todos. Ele deveria ter exposto os seus pontos de vista sobre a reforma das pensões durante o processo eleitoral e, então, ver se poderia obter apoio suficiente para o seu objetivo.

Mas não, não foi o caso. Agora, quando constatamos que ignorou o seu delicado assunto durante as eleições presidenciais, temos todo o direito de duvidar de sua decência. Somos de opinião que Putin falhou neste teste de decência.

P: Porém, Putin trouxe argumentos substanciais a favor da reforma e, desta forma, justificou-a. Apresentou medidas concretas que serão, sem dúvida, adotadas.

VT: Não temos dúvidas de que Putin está não só bem informado sobre a questão, como também teve o controle desta campanha antinacional. Aqui, parece novamente insincero. Diz que o esboço da lei foi adotado pelo parlamento russo no decurso da primeira leitura, em 19/08. Se considerarmos a situação do ponto de vista formal, é correto; no entanto, do ponto de vista político, o esboço foi adotado não “pelo parlamento”, mas, exclusivamente, pelas vozes da fração do Rússia Unida (isto é, por  328 votos), enquanto todas as outras frações estiveram contra ele. O que realmente importa não é o lado formal da adoção, mas a essência do processo. Putin iniciou um discurso familiar sobre o “fosso demográfico” que é, alegadamente, “um resultado de grandes perdas no decurso da Segunda Guerra Mundial, que incluem, não só perdas diretas, mas também os milhões que não nasceram durante a guerra”. Tudo isso, segundo Putin, foi ainda mais agravado pela “mais pesada crise económica e social de meados dos anos 90 e suas consequências catastróficas”. Não vamos contestar isto. Ainda assim, devemos salientar que aqui, aparentemente, ele tenta distanciar-se dessa crise, enquanto é relutante em mencionar que foi ele mesmo, em conjunto com o seu então chefe, o presidente da câmara Sobchak e a equipa de outros reformadores (Chubais, Kudrin, etc.) que, de forma ativa, realizaram essas reformas e devem ser responsabilizados pelos seus resultados e pelas crianças que então não nasceram. No entanto, ele mantém o silêncio sobre isso, assim como o mantém sobre a questão principal. Eles realizaram a chamada privatização que foi, essencialmente, a destruição do poderoso mecanismo unificado económico que tinha assegurado a estabilidade do melhor sistema de pensões do mundo. Isto é, eles destruíram a fundação e agora estão a gritar: “Perigo! O prédio inteiro está a cair aos pedaços!”. Putin considera várias sugestões: taxação progressiva, tomar alguns dos superlucros das indústrias de petróleo e gás, vendas de alguns dos luxuosos prédios pertencentes ao Fundo de Pensões –, pode facilmente imaginar-se como as pessoas irritadas aumentam com a exibição da riqueza do Fundo. Mesmo assim, ele afirma que todas estas medidas não seriam suficientes e apenas poderiam garantir o pagamento das pensões por algumas semanas.

Essas questões são sujeito de discussão. Por exemplo, pode-se perguntar por que é que Putin limita o imposto progressivo para os super-ricos a apenas 20%, enquanto nos países desenvolvidos, de que ele tanto gosta, esse imposto pode chegar aos 60%. O mais importante é que o presidente evita considerar a questão básica da propriedade. Ele acha possível “vender parte da propriedade do Estado”, mas nunca considera a possibilidade de devolver ao Estado todas as propriedades que foram roubadas ao povo sob o disfarce de privatizações. Aqui está a essência da posição de Putin, que ele expressou já na época em que Eltsyn o escolheu como sucessor: “Não haverá reconsideração das privatizações!”. O que ele quer dizer é: isso é mau, é injusto, é sórdido, mas não há outra opção. Putin é um servo leal da classe dos parasitas. É por isso que a sua proclamação de que “agora, a nossa inatividade, ou tomar medidas ‘cosméticas’ temporárias seria irresponsável e desonesto para o país e para os nossos filhos” está, de facto, imbuída de duplicidade e mentira. Os capitalistas e as autoridades já cuidaram dos seus filhos, e têm ainda mais assegurada a enorme diferença de classe, com a introdução do sistema de castas profissionais. Os seus parentes já receberam posições lucrativas e estão em cargos de domínio, enquanto a restante multidão é livre de competir honestamente entre si, de acordo com as suas competências.

Quando os especialistas lhe perguntam por que não agiu mais cedo, Putin revela-se bem, ao responder: “Nós, simplesmente, não estávamos preparados para isso. Mas, atualmente, não podíamos atrasar as medidas”. Devemos usar a análise de classe para entender as suas palavras: as medidas, então, não estavam prontas, estavam no processo de se aprontarem. Agora estão prontas. A atual situação é adequada. A classe dos exploradores capitalistas fortaleceu-se; o sistema da repressão policial total foi criado. Há legislação que permite ao regime manter o monopólio do partido Rússia Unida. Há todo um exército de funcionários; há as Guardas Nacionais especializadas na repressão de tumultos. A essência desta reforma é a intensificação da exploração e posterior escravização do povo, não é outra necessidade.

P: E quanto às medidas bastante sensatas sugeridas pelo presidente, que visam a proteção da pré-reforma de pessoas idosas, a sua reclassificação, a introdução da responsabilidade dos patrões (até à perseguição criminal) pelos despedimentos e o aumento dos benefícios no desemprego?

VT: Por que não introduziram essas medidas antes? O que se interrompeu com a sua introdução? Esquece-se que, há 15 anos, ele mesmo [Putin] costumava dizer: “Em geral, acredito que não há necessidade de aumentar a idade da reforma. Deve-se estimular as pessoas a considerarem-se suficientemente aptas para trabalharem depois de atingirem a idade da reforma. Sim, é possível motivar as pessoas e criar condições económicas que as estimulem a continuar a trabalhar, enquanto o seu direito à reforma não for infringido”. Contudo, não introduziram essas medidas de estímulo, todos os seus esforços visaram criar condições favoráveis ​​à classe proprietária e aos seus interesses.

P: Está claro que, na sua opinião, Putin não conseguiu passar no teste da decência. Suponhamos agora que ele acredita sinceramente que a sua posição está correta. O que deveria ser feito, na sua opinião, para ele sair de cara lavada?

VT: Deveria cumprir sua própria promessa: “Tal decisão não será tomada enquanto eu for presidente” e renuncie. É ainda mais claro que, de acordo com a constituição russa, “na Federação Russa não devem ser adotadas leis que cancelem ou limitem direitos e liberdades do cidadão”.

P: Acredita que isto possa acontecer?

VT: Claro que não. A decência também é um conceito de classe. No seu discurso, que durou 30 minutos, Putin dirigiu-se 5 vezes às pessoas como “queridos amigos”. Ele jura que é extremamente objetivo e sincero. Termina assim seu apelo: “Por favor, entenda isto com compreensão”.

Nós entendemos isto numa perspetiva de classe, do trabalhador: você está a ser roubado, eles mandam fora anos das vossas vidas, enquanto o número de gatos gordos aumenta ainda mais. Devemos então considerar as suas razões com compreensão? Desculpe, mas não.

Os capitalistas só dão ouvidos à voz do poder. Nós apelamos a todo o povo trabalhador para intensificar a luta! Se não lutarmos, os parasitas e o seu poder atirarão borda fora tudo o que conquistámos.

À luta, camaradas! ROT frente!

 

[Entrevista efetuada pelo correspondente Dmitry Volgin.]

Leninegrado, 29 de agosto de 2018

Fonte: http://inter.rkrp.ru/articles/putins-decency-test-test-failed/#more-693, publicado em 2018/09/04, acedido em 2018/11/06

Tradução do inglês de PAT

 

 

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